sexta-feira, 20 de junho de 2008

Final de semana intensa, sinto um cansaço imenso, preciso de actividade cerebral suspensa. Depois disto.

Do cinema, das curtas, retiro alguma plenitude. Por mais lírico que possa parecer, sei que pelo menos uma das 18 curtas apresentadas pode ter fascinado, e até, em certa medida, pode ter mostrado novas perspectivas de vida a, pelo menos um dos 50 assistentes diários.

Discuti com pessoas diferentes, por motivos variadíssimos, tensa, sem me deixar atravessar por incompetências. A relação com o outro aqui é só porque e se me apetece, o que pode parecer um paradoxo, tendo em conta a forma como este parágrafo começou e que vivo no bairro big brother. Portanto explico-me, o que eu faço é o que eu quero fazer, o que dou de mim está na proporção da vontade de ser mais eu, para mim e para o outro. Parece que só aqui é que a vida faz sentido, que a vida é só minha, não sei bem explicar.

[Conheci alguém que fala tal e qual eu. Até irrita, aquilo das palavras lentas, agora percebo, e um som por dentro, nas pausas, que é tipo “mmm”, parece o eco dos meus silêncios.]

Todos os 20 e tal do bairro foram jantar à Areia Branca. Resolvi tirar tempo para pensar, ficar. Lamentavelmente dizer “não vou jantar, preciso de pensar na vida” soa esotérico, e parece bem mais são (queria usar sano, mas não me deixam) dizer que “ah! hoje não, dói-me a cabeça, estou cansada”.

Ao final da tarde, quando saí das aulas, decidi fazer um desvio no meu percurso, para ver um pôr-do-sol cor-de-laranja fluorescente na marginal do Palácio. Dou por mim sentada no murinho a (tentar) desenhar a arrebatadora fragilidade das mãos da Ica Nói, filha de 3 anos da aluna Clara. Conheci-a no outro dia em Manatuto, queria que a Violeta brincasse com ela. Ela tem medo de mim, monstra branca. E quando lhe perguntei “Ha’u bele hasai foto husi ó nia liman?”, justificando depois a vontade de a fotografar com o facto de ela ter as mãos mais incríveis que alguma vez vi, ela não me respondeu, nunca, e escondeu as mãos atrás dos joelhos flectidos. Só me resta lembrar, e daí os desenhos, para tentar perpetuar. Em tétum lembrar diz-se conjugando dois verbos de uma forma que eu até acho poética. As palavras “hanoin fale” significam “pensar” e “voltar”. “Fale”/”voltar” é usado quando falamos de deslocações, muitas vezes em conjunto com “fila” – ha’u fila fale / eu volto ao mesmo sítio. Então lembrar é voltar a pensar. Na viagem do meu pensamento àquelas mãos esguias, compridas, artistas, voltei a pensar numa visão que tive, bem real, mas que permanece como uma ilusão. Eu na montanha, deitada em pedaços, com frio. Aparece uma senhora pelo meio das árvores, vestida com tais e lipas na cabeça, os lábios rubros daquela masca que as mulheres cá insistem em mascar, dizendo que torna os dentes mais fortes (eu só vejo mascadoras com os poucos dentes pretos). Eu não falo, nem ela. Eu tenho um olhar muito triste, cansado. Ela põe-se de cócoras e segura a minha mão, com as mãos dela. Parece que as sinto agora. Ficámos assim durante uma eternidade que durou até hoje, porque isto não existia em palavras. E depois, claro, o turbilhão descontrolado em que a vida se transformou a partir dali, e o estado letárgico onde me abriguei desde então. Até agora. Refazendo as contas, treze meses, três cirurgias e duas meias voltas ao mundo depois (“fila fale”), estou pronta, sem arrependimentos (“hanoin hikas”).

5 bitaites:

raquel disse...

Finalmente!Corações ao alto!
Beijo*

neca disse...

You go Girl!!!

sarita disse...

and so i did go :)
(como podes ler no proximo post)

mãenuela disse...

ó Sarinha, fiquei a pensar: a senhora de lábios vermelhos, e dentes pretos, sabes se era real, ou se sonhaste com ela?
Vou ficar toda a vida a pensar porque não fiz isso mesmo, quando um rapaz de mota foi morto por um jipe descontrolado, numa madrugada de Natal.Acordei com o barulho do embate, mas só via uma mota caída;desci até à rua, vi o jipe esbarrado contra um carro em cima do passeio, o condutor marado a falar ao telemovel, e um rapaz de capacete, debaixo do qual saía um rio de sangue.Liguei o 112,vi que não tinha pulso, senti que estava morto. Quiz dar-lhe a mão, e não fui capaz, não sei porquê.

sarita disse...

tenho a certeza que era real, porque existe nas minhas memórias. por outro lado, também o que nao existe nas minhas memorias pode ser real - como a paisagem brutal da montanha em frente à ravina para a qual fiquei a olhar durante horas na noite fatídica. ao reencontrar agora o rochedo negro imponente, que nao devia ali estar, e que se destaca no verde da paisagem salpicada por pequenas construções de palha, reconheci o lugar do acidente. no entanto, nunca me tinha lembrado antes que aquilo era assim.

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