1 bitaites sábado, 9 de outubro de 2010

Este blog encontra-se no corredor da morte 'a espera da injeccao final que o deixara' a dormir para sempre, culpado de se vestir de tons demasiado cinzentos que provocavam nauseas 'a sua autora e a quem por aqui passava.

Entretanto ja' ressucitou noutro lado, bem mais arejadinho e em construcao,
sempre em construcao, aqui:
saritamoreira.com

4 bitaites segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Mergulhei há 4 dias num imenso universo de trabalho, não quero falar.
Vejo, leio, organizo,escrevo, fecho, mais ou menos por essa ordem, embora sempre ao sabor de um acaso que me torna pouco produtiva, ou eficiente na produção, que muito depende da inspiração.
Também cozinho, limpo, durmo e como, mas, para essas, é que não há regras de todo.

A única conversa que tive nestes dias, ao vivo e a cores, com entoação e expressão, foi com um rapaz de 3 anos que dizia chamar-se Caubói e que corria às voltas no terraço da Casa do Ló. Caubói caíu, trocou-se todo, e quando retomou a corrida, partiu no sentido contrário, ao do ponteiro dos relógios, e eu disse-lhe "olha que te enganaste no caminho!", e ele parou, puxou de uma cadeira, roubou-me uma bolacha de canela e perguntou quanto custava o meu café, que me queria oferecer. Depois ficamos à conversa sobre técnicas e ferramentas de jardinagem, nomes de flores e plantas, e as formigas sempre por baixo a passar.

De volta à grande matrix na qual a vida se enreda em teias de informação, a minha irmã virtual partilhou comigo um vídeo sobre a História das Coisas - www.storyofstuff.com - onde Annie Leonard explica "como funciona o sistema linear do capitalismo, e como isso prejudica a o planeta":



"Temos muito mais coisas mas temos menos tempo para as coisas que nos deixam realmente felizes." O dia a dia que a sociedade ocidental leva é descrito - aos 17 minutos - como um ciclo trabalho-inércia-consumo em que cada indivíduo, cada vez mais solitário, trabalha muito mais horas do que devia, se calhar até tem dois trabalhos, quando pára, exausto, arrasta-se para a sua casa a crédito e estende-se no sofá novo, para ver televisão no plasma sagrado, que só lhe diz - YOU SUCK - que tudo o que tem, faz e CONSOME está errado, portanto tem mas é de ir ao centro comercial, comprar coisas, para preencher esse vazio, que só o faz sentir-se com o peso de quem tem de trabalhar ainda mais e mais para pagar as necessidades que o próprio deixou em si serem criadas.

Como se a nossa ambição passasse por ter em vez de ser e compreender, porque "estamos nesse impulso de trabalhar-assistir-gastar, quando poderíamos simplesmente parar".

Culpo os media - que já agora aproveito para anunciar que a partir de hoje passarei a chamar mídia - pela lavagem cerebral lubrificante do caminho para o colapso do actual estilo de vida, que não pode mais ser. Fico contente por ter um trabalho (vários!) que pretende complementar a falha que existe na sustentação de uma consciência social ao invés da letargia pelo consumo em ciclos que nos mantêm bem longe do outro lado da lua, tudo o que está por trás da exploração desenfreada e criminosa de recursos finitos.


Desde que deixei de ver televisão que o trabalho passou a ser a vida e a luta por ser, por estar, bem, por fazer e compreender que a humanidade é grande, e que todos estamos ligados.

E por isso não me culpo por mergulhar sem hesitar na matrix.

1 bitaites sábado, 21 de agosto de 2010

Deixei de conseguir escrever neste fundo cinzento, e quando assim é nada mais posso fazer senão calar-me enquanto preparo a paleta, sacola e marmita para cenário de fundo do que é dito, trocado pelo não dito, meu feito, escrevinhado - era eu em voos de regresso - ficcionado - na praia da Isla Negra, estendo a mão ao Neruda em horas de contemplar o Pacífico revolto à nossa frente - esquematizado, soluçado, alucinado, projectado, idealizado, e até mesmo calado, que "quando se ama o abismo é preciso ter asas" já dizia o outro e fica mas é para a memória o que estes olhos viram, e de nós ninguém há-de arrancar, temos muita pena mas é tudo demasiado, excessivo, amplo, abrangente e/ou complexo, nem sei dizer, mas imagino-o como o Deus das Pequenas Coisas que encontra Cem Anos de Solidão, com uma pitada de Papalagui e momentos Apocalise Now, versão lorosae, tão grande que tudo dali vem quente como um sonho de estar na Índia, ou em chás de gengibre que queimam e purificam. Eu também não sei explicar.

sem existir nos bastou
por não ter vindo foi vindo
e nos criou

3 bitaites segunda-feira, 26 de julho de 2010

Eu cá sou concreta e concretamente digo que já era sem tempo, uluk liu, expressão que sempre gostei de usar, enfatizando aquilo que há muito, muito tempo, como nas fábulas, era uma vez, imaginando, em que o Amor movia montanhas, sem nada ter de romântico, e que elas vinham e estavam muito além desse mundo onde bem se confundem tais fenómenos naturais e geológicos para redutoramente personificar-se em alguém, que muito deu ou faz sentir, a intenção dos nossos gestos. O mesmo Camões que tanto procurou defini-lo é quem nomeia e baptiza esta rua de Sines que nos acolhe.

Eu cá sou concreta, o meu betão faz-se de terra, e os olhos só vêm assim do que pouco se diz por letras trocadas, quando muito melhor se sabe, entre gestos, interpretados, agora, iha tempo uluk liu, iha oin seluk liu, ou há um ano atrás, e generalizado na seguinte afirmação, definição maubere para stand by, interpretada e traduzida para "procura esquecer tudo e o que tiver de ser acontecerá". Simplesmente. Não tão simplesmente. É que de muitos braços se concretiza.

Entro no estúdio da Escola de Música de Sines, meto-me de cócoras, a canto, embrulhada em tais, e é vê-los, aos Galaxy, a ensaiar Timor. Eu de cócoras, a observar, os gestos, a saber as vibrações do som no cenário azulejado, real, construído, de alicerces feitos de terra e betão galáctico dentro de cada e entre todos nós. Brindemos aos pés na terra e à cabeça nas nuvens.

GALAXY no FMM Sines: Uma das principais bandas timorenses pela primeira vez em Portugal


Timor-Leste marca presença pela primeira vez num grande festival de música de Portugal: os Galaxy, uma das principais bandas da actualidade timorense, fazem a sua estreia europeia no palco do Festival Músicas do Mundo de Sines no próximo dia 31 de Julho e vão estar em tour por Portugal este verão.

Vêm do extremo Este de Timor-Leste e para além de Sines passarão por Coimbra (Salão Brazil a 5 de Agosto), Porto (Praça Filipa de Lencastre, 6 de Agosto) e Lisboa. “Timor-Leste é uma nova nação e quer mostrar ao mundo a sua identidade através da cultura e da música, agora à luz da liberdade”, afirma o vocalista, Melchior Dias Fernandes.

A música dos Galaxy é representativa do espírito revolucionário da juventude timorense, que cresceu durante o tempo da ocupação indonésia: os cinco artistas destacam-se pela sua rebeldia, consciência social e jams envolventes. Através da música fazem convergir sonoridades modernas e tradicionais do povo maubere, enquanto abordam questões como a tradição, o HIV, o género, o neo-colonialismo e o roubo dos recursos petrolíferos.

Os Galaxy nasceram da Arte Moris, a única escola de arte do país, criada como um abrigo para as crianças e jovens de rua no pós-conflito de Timor. A escola, gratuita e sem fins lucrativos, é hoje um modelo de empreendedorismo social de grande prestígio, sendo apoiada pelo Nobel da Paz e actual Presidente de Timor Leste, José Ramos Horta, e tendo sido distinguida em 2003 com o prémio das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A Arte Moris (“Arte Viva”) é um espaço auto-sustentável e comunitário, onde os artistas residentes se dedicam às artes plásticas, representação, audiovisual, música e paisagens sonoras.

Também em Sines, os Galaxy estão a promover oficinas de arte e música com crianças, criando um raro espaço de partilha de cultura entre países irmãos. Foram ainda convidados a participar na Universidade de Verão da eco-aldeia Tamera, em Odemira, para abordar o tema da paz juntamente com activistas e pacifistas de todo o mundo.

O grupo apresentou-se ao público em 2002, e Portugal é o terceiro país onde a música os leva: tocaram no Darwin Festival, na Austrália, em 2006 e 2008 e em Bandung, Indonésia, em 2007. A sua digressão em Portugal está a ser organizada pela Moving Cause, associação sem fins lucrativos, dedicada à disseminação do empreendedorismo social.

Recentemente no programa Câmara Clara, “Músicas do Mundo: Da Tradição ao Futuro”, o jornalista António Pires, especialista em músicas do mundo, descreveu a sonoridade dos Galaxy como “reagge heavy metal absolutamente fantástico”.


Mais informações: Sara Moreira | Moving Cause | 93 830 53 44 | saramoreira@movingcause.org | www.movingcause.org

Myspace: www.myspace.com/galaxytimor
Arte Moris: http://artemoris.org/about_us.htm
Blog: http://galaxytimor.wordpress.com
Festival Músicas do Mundo 2010: http://fmm.com.pt/programa/sabado-31-de-julho/galaxy-timor-leste/
Concerto Coimbra: http://salaobrazil.blogspot.com/2010/07/galaxy-timor-leste-5-de-agosto-21h45.html

Entrevistas:

3 bitaites quarta-feira, 16 de junho de 2010

Não passa de hoje.
Lê-se num canto recôndito improvável do edifício, impresso em placa dourada.



Hoje, fecha-se um ciclo. Decidi há um ano atrás dedicar o meu tempo à sociedade civil, particularmente enquanto presidente do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto, que muda hoje de Direcção. Vou chamar ao Núcleo só JUP, menos hermético, e que como poucos ou muitos sabem, é na verdade mais do que o Jornal Universitário do Porto e faz-se de uma associação sem fins lucrativos com 23 anos de existência.

Dei por mim com o JUP nas mãos, de forma mais ou menos incerta, ingénua e inesperada. É que o JUP é como uma daquelas relações dos dias que correm, que surgem com leveza e naturalidade, sem grande certeza do compromisso, e rapidamente se entranham na pele como uma paixão assolapada que nos muda as referências do que é a primordial prioridade do que nos ocupa mente e gestos.

Sim, o JUP traz felicidade e traz desilusões também, mas só porque nos envolve numa grande vontade de o viver intensamente, e não há pesar que apague os momentos de euforia que foram aqueles de chapéu de ardina e jornal em riste num colectivo de entusiastas que distribuiam rua fora os dez mil pacotes de notícias quentinhas, acabadas de sair da gráfica, ainda com a tinta a sujar mãos, cara e mangas. É bonito que o JUP exista, e ainda mais ainda em papel, é bonito conhecer e fazer parte do processo, é bonito criar laços através dele e conhecer anarquistas, poetas, escritores, espiões, pidescos, fotógrafos, cépticos e apaixonados. Políticos de hoje e de amanhã, entre meta discussões prolongadas pelas ruas graníticas desta nossa cidade desenhada em rascunhos no papel de mesa de um tasco qualquer. A planear a revolução. A questionar a informação. A discutir a evolução. A despertar para o poder do jornalismo, em lições como tragos do que é ser solidário.

Revejo listas e listas e listas de tarefas e ideias pintadas a lápis de cêra coloridos espalhadas em diagramas pelas paredes, cadernos, papéis, emails. Sorrio. Recordo ideias de boicotes e insultos pelo voluntarismo ou pelo falso liberalismo. Sorrio, e leio novamente a versão integral Oração de Sapiência de Mia Couto, cujos sapatos sujos desde o início tentei descalçar por acreditar que muito têm a iluminar sobre a forma de se fazer o JUP
Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico
Vale a pena conhecê-los na versão integral do texto.

Cruzei-me hoje com um desafio proposto pelo Le Monde Diplomatique deste mês, a uma série de pensadores. Por favor criem uma fórmula que defina o que é a identidade. Do JUP, digo eu, ou pelo menos foi para onde fui transportada quando li a equação apresentada pelo artista Telmo Alcobia: Inquietação + Movimento Perpétuo Associativo = Ser Português. É esta a identidade que revejo no JUP, que ele em mim representa, nutre e provoca:
a inquietação (...) é aquela força motriz que me faz trabalhar. (...) É a minha «acha para a fogueira», é o meu aviso sobre as coisas públicas e humanas. Mas, quando saio do atelier, parece-me ouvir o Movimento Perpétuo Associativo, com a sua representação da falta de entusiasmo com que as ideias são recebidas. A inquiteção constrói, a desilusão destrói. Cada um que se verga à desistência torna-se cínico e o mundo torna-se mais cinzento. E quando uma mancha de cor se procura afirmar na multidão, correr um risco - inovar -, mil vozes prevêem fracassos. (...) Mas a escolha também é nossa. Lutar para mudar este "fado". Portugal precisa de ti, e menos cinzento.
Sempre grata, sempre solidária, pela tonificação do corpo associativo e um grande bem haja a quem aí vem e que muito admiro.


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1 bitaites sexta-feira, 7 de maio de 2010


Acredito na liberdade de expressão: na protecção do direito de falar e do direito de ouvir. Acredito no acesso universal às ferramentas de expressão.

Sempre com isso em mente, faço parte de uma comunidade que procura capacitar toda a gente que quer exprimir-se a ter os meios para o fazer – e toda a gente que quer conhecer essas expressões a ter os meios para as ouvir.

Graças às novas ferramentas existentes, as formas de expressão não mais precisam de ser controladas por aqueles que detêm os meios de publicação e de distribuição, ou por governos que restringem a liberdade de pensamento e de comunicação. Hoje, qualquer pessoa pode experimentar o poder da imprensa. Todos podem contar as suas histórias ao mundo.

Nesta comunidade, construímos pontes entre os abismos culturais e linguísticos que dividem as pessoas almejando uma mais profunda compreensão mútua. Procuramos trabalhar em conjunto de uma forma efectiva e agir com energia.

Acreditamos no poder da comunicação directa: laços pessoais, políticos e poderosos entre indivíduos de mundos diferentes. Acreditamos que é essencial manter diálogos transversais às fronteiras na construção de um futuro livre, justo, próspero e sustentável – para todos os cidadãos deste planeta.

Enquanto continuamos a trabalhar e a falar como indivíduos, também procuramos identificar e promover os nossos interesses e objectivos comuns. Comprometemo-nos com empenho a respeitar, apoiar, ensinar, aprender e ouvirmo-nos uns aos outros e uns com os outros.

É isto o Global Voices e o respectivo manifesto que adaptei para português de Portugal. (Podem ler aqui em inglês e aqui em português do Brasil.) O que aqui, à Sudamerica, me traz é o Global Voices Citizen Media Summit.

2 bitaites quinta-feira, 6 de maio de 2010


Quero saber se vens comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objecto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu dou-te o meu
com uma condição: não nos compreender.

Pablo Neruda

1 bitaites

- Pois não?
- Há alguma coisa neste sítio...
- Oi? Sítio é do pica pau amarelo!
- Falo da forma como as ruas estão dispostas em Ipanema e das correntes de ar que por ali passam, maravilhosa e harmoniosamente...
- Deus me perdoe! Acorrentado é só no morro.
- Galáxias de luz é no que as favelas do morro se transformam quando cai a noite sobre elas, deixando a descoberto o camuflado que durante o dia as escondeu.
- Rapaz! Com essa conversa tô vendo que o “dia do fico” é para todos os portugueses e não só o cara, Pedro, que disse daqui não saio quando a família real lá no Portugal lhe disse meu amigo é hora de voltar. E aí esse tal de rei gritou ao Ipiranga, daqui não saio! tem Copacabana, tem prainha gostosa, os passeio na Tijuca, tanta fruta tropical...
- Fico, fico sim, com a textura do mar feito leite de côco suave na pele e os pés enfiados na areia que sentem latejante a pulsação da terra, viva, cachoeiras imitadas pelas copas das árvores de folha perene, sombra, abrigo do castanheiro de fernando pó, há quem lhe chame chapéu de sol, e as pessoas são livres, os banhos não ferem susceptibilidades, e se há crime e roubo é para nos lembrar que no paraíso anda tudo é de mãos abertas e bolsos vazios. Há vida aqui, há espaço para o improviso da vida.
- Eu, hein! Dessa vida, moça, cê só leva a vida que se leva.
- Levo o samba comigo, deixando-o aqui, é que “o mundo passa por mim todos os dias enquanto eu passo pelo mundo uma vez.”

6 bitaites segunda-feira, 3 de maio de 2010


Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos a olhar por cima dela com o nosso telescópio.
Ludwig Tieck

2 bitaites quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por volta de 2007 deu-se uma transformação silenciosa que é um marco na história: mais de metade da população humana reside actualmente em cidades. Das cidades mesopotâmicas do século IV a.C. às megalópoles que reúnem dezenas de milhões de habitantes, o processo de urbanização foi intermitente. Mas esteve sempre ligado à divisão do trabalho e à formação de classes, à concentração do poder e do saber. A civilização urbana actual nasce com a revolução industrial e herda as suas dualidades. Na cidade, onde a segregação social marginaliza os pobres; entre as cidades, porque ao desenvolvimento vertical de tecnologias futuristas responde o crescimento horizontal dos bairros de lata. As metrópoles, centros urbanos pensados como centro de lucros, defrontam-se para interceptar os fluxos de capitais, mercadorias e populações solventes, fazendo crescer bolhas imobiliárias e revoltas populares.
Do dossier Megalópoles ao Ataque do Planeta, Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Abril 2010

2 bitaites terça-feira, 27 de abril de 2010


As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.
Fernando Sylvan

Abro as portas ao sol, deixo cair a mão sobre a grade semi lixada, ouço os sinos da igreja não sei se da Lapa, que tocam sempre fora de hora, antecipam-se ao tempo e é bom para me lembrar que tendo a correr demasiado atrás do prejuízo. E tenho a mania disto de criar e abandonar, envolver e fugir, deixar tudo no ar, e sob os castelos que assim se montam, que diz o Thoreau que é aí que devem estar, é agora o tempo de os alicerçar, nas nuvens. Ciclos disto a toda a hora, aceitando que a Lua, se existe é para respeitar e abraçar, que se somos livres temos de o saber celebrar, e menosprezo todos aqueles por quem as estações não passam, onde já se viu viver o inverno de forma igual às primaveras que em nós nascem. Tento seguir sempre mantendo alguma calma por dentro se não de que me valem os dias cheios, do sol na cara, dos ventos do mar, das flores que colho.

"Eu sou a princesa da Primavera e do Verão e a rainha de tuôdas as fluôres!" diz a Violeta quando dá por mim no momento em que subo o último degrau e a encontro. Mostra-me, pequenina, lá na varanda, que tem um cubo de papel nas mãozinhas em forma de dádiva. Estica os braços num movimento lento e vertical, eleva o cubo até ao nível dos olhos "Estou a fazer uma suôpa de fluôres, para ti também, não te preocupes." Numa moldura de flores amarelas enquadrada na varanda cor de rosa da casa onde cresci, aponta para longe, por trás da magnólia que já não está em flor: botões de micro rosinhas cor de rosa. "Chiêga-me aquelas fluôres!" Aponta, inclina-se, dependura-se. Queremos sempre as flores lá longe, perfumes que nos enfeitarão os cabelos, abismos dentro de cada e entre nós.

Entrego-me com ela aos jardins, e estamos de facto lá dentro, onde o passado e o futuro não existe, no sítio em que os pássaros não falam connosco só porque apreciam o silêncio mas compreendem-nos e a cada árvore fazemos festinhas, desculpa, mas vou ter de guardar estas pétalas para mim. É que estou a fazer uma suôpa. De cócoras na varanda, mão ainda caída sobre a grade semi lixada, olho para as camélias que trouxe e deixei na mesinha da sala. Suspiro em voz alta que vou ter de desistir de ti, prédio, vou ter de te deixar sair, JUP, vou ter de te abandonar, o meu rumo é o do sul e em mim ecoa a frase de Dan Gilbert, sobre encontrar a verdadeira felicidade: Accrue wealth, power and prestige. Then lose it.

Vou ali até ao Brasil e Chile ver se tudo cá continua igual e já volto. Fui! :)

1 bitaites quinta-feira, 22 de abril de 2010

Nos últimos anos, a realidade respondeu-me assiduamente que o jornalismo era uma linguagem tribal e maldita, um idioma de poder e superioridade. Tive a oportunidade de outras respostas, percorrendo um mapa de africanos que constroem novas ilhas: subversões picando o oceano. Escrever é conhecer com tempo. É lenta a doçura do mel.
Pedro Rosa Mendes

Comprei pela terceira vez o Madre Cacau, um dos livros mais lindos que conheço e que vou multiplicando por espaços, ora porque o perco em esquecimento ora o ofereço a quem merece. Editado pela ACEP, ilustrado por Alain Corbel e escrito por Pedro Rosa Mendes, jornalista que disse um dia que Timor Leste é uma ilha insustentável e depois o mundo caiu-lhe em cima. Ontem, aqui nos Dias do Desenvolvimento, numa sessão sobre "Media, Cidadania e Desenvolvimento", ouvi-o introduzir uma definição do que é o jornalismo cívico ou de desenvolvimento ou de causas. Ao que parece, é um tipo de jornalismo feito por jornalistas que não se resignam a posturas letárgicas. Rosa Mendes fala da preguiça. E faz lembrar o imperativo da cidadania. Uma espécie de curiosidade não intencional mas naturalmente vinculativa, não sei repetir.

O mundo da informação e os dias do desenvolvimento deviam ter mais destas Rosas, penso, e concordo com o outro, Alfonso Armada, que dizia que todos nós somos cúmplices na forma como condenamos alguns países à inexistência, países, lugares, chamemos-lhes causas.

3 bitaites terça-feira, 13 de abril de 2010


Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro. Tinha decidido tirar uns tempos deste imbróglio e já que nada aguardavam da minha parte, restava-me das duas uma, massacrar com emails assertivos tic tac tic tac o tempo está a contar há novidades? precisam de alguma coisa? qual o ponto de situação? e agora qual o próximo passo? ou a outra opção pela qual optei seria dar uma pausa a mim mesma. É que isto tudo anda muito próximo dos estudos que se fazem sobre a eutanásia.

Ora portanto a timeline é a seguinte

Final de Maio de 2009: sou proprietária de um belo prédio decadente na rua do Bonjardim o qual imediatamente apelido de Palácio Olivença, idealizando uma imagem reabilitada cor de rosa, azul petróleo ou azulinho, o 1º de muitos em todo o bairro.

Junho de 2009: inicio processo de candidatura ao programa RECRIA junto do Porto Vivo, SRU. Passo duas semanas com um escadote, uma bacia de lixivia e uma faca na mão, a ganhar calos com o esterco herdado, a conhecer cada centímetro do soalho, paredes e portadas e a meditar sobre a vida.

Setembro de 2009: Estou instalada. Tenho duas inquilinas velhotas já de há mais de décadas. Estou prestes a ter mais uma inquilina, na minha casa. Chamo a Câmara para remover entulho das escadas que está ali há 5 anos.

Outubro de 2009: chamo bombeiros para balizarem passeio, nao quero ninguém a passar por baixo da minha varanda. Inesquecível & indescritível.

Dezembro de 2009: consigo terminar o rally paper das certidões de óbito, nascimento, registos prediais, contratos de mil novecentos e troca o passo, orçamentos, declarações, fotografias, papelada. Submeto processo RECRIA 40/09.

Janeiro de 2010: aparece de surpresa uma visita da CMP a propósito de um relatório de bombeiros que receberam. Não sabem nada sobre o RECRIA.

Fevereiro de 2010: Recebo uma carta da CMP com o processo que o Palácio Olivença tem aberto. Fico pasma ao saber que o historial de intimações a obras já vem desde 2006. Começo a perder a paciência com o anterior proprietário que além do mais era porcalhão.

Março de 2010: recebo a conta de remoção do entulho pela Câmara: 42€ por um metro cúbico. Ainda bem que poupei duas rendas da senhora da cave, assim já quase tenho dinheiro para pagar o lixo dela.

Abril de 2010: Saio da pausa que me dei, ligo ao engenheiro a perguntar como é que está a coisa afinal com o Recria, é que vou ter uma vistoria da CMP amanhã e acho que me querem obrigar a fazer obras. Isso avança? Não há orçamento. Como? Não há verba, diz a lesma mole a branca sentada no seu escritório castanho desbotado, em 2010 é impossível. Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro.

Apesar de ainda haver quem consiga levar avante a épica preparação burocrática do dossier de candidatura ao programa RECRIA, aparentemente a reabilitação da zona de intervenção prioritária do centro do Porto afinal não é prioridade e as verbas não são suficientes.

No entanto, a mesma Câmara Municipal do Porto, detentora de capitais públicos da Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense, diz-me agora que ou faço obras ou sou contrônedada, desculpe? não percebi, contrônedada, contrô quê?, contra ordenada! Xiça, e é mesmo assim? Pode sempre pedir prorrogação, a cada 15 dias do prazo. Mas isso... (o beicinho treme-me).

Penso na latinha de tinta anti ferrugem que comprei por 5€ na semana passada ali na drogaria para começar eu própria a restaurar a varanda. Deu origem a uma bela conversa e posteriores pensamentos sobre a humanização do comércio. O Zé conta-me que um vizinho meu que trabalha com ele lá não sei onde lhe disse que a mulher mandou dizer que ele dissesse à amiga da namorada dele que estava no outro dia ali vestida à trolha pendurada a lixar a ferrugem toda com um cartãozinho de meter dó. É que há um novo produto para tirar a ferrugem, um spray que transforma tudo em pózinhos perlimpimpim e de repente o Palácio Olivença já é todo cor de rosa com estrelas brancas, como o jeep que a Violeta vai ter quando for grande.

Resta-me sonhar com incentivos e apoios que existem e não existem, e não deixar apagar esta história toda tal qual mais uma fachada decrépita do centro do Porto. Esta cidade vai cair toda de podre, ouviram? Disse eu ao trio da CMP assim que entraram no carro para ir embora, lavrar, assinar e carimbar o auto que chegará ao Palácio por correio registado dentro de dias.

Moral da história: nunca chamem os bombeiros.

1 bitaites

Somos livres, percorremos todos os sótãos furados e sentamos, sentimos corações como bombas, de vida.
Somos livres, a desistência já não mais existe e os braços são o que se prolonga do dia para as luzes quentes que nos cobrem.
Somos livres, sem raízes nem muros, deixamos o passo da vida decidir que podemos, esquecer o que sabemos, e é agora.
Somos livres, recusamos carregar segredos, e se a poesia é silêncio então a vida é igual a isto, mesmo assim, somos livres, não arranques fica marca deixa cair.

2 bitaites segunda-feira, 15 de março de 2010

Para terminar, como não me sentir particularmente chocado com os dados financeiros divulgados pelas Nações Unidas no dia 23 de Junho de 2009! No mundo, no último ano, dezoito milhões de milhões de dólares foram utilizados para financiar ou avalizar bancos e outras instituições financeiras, enquanto em quarenta e nove anos foram apenas disponibilizados dois milhões de milhões de dólares pelos países doadores para a ajuda ao desenvolvimento dos países mais pobres. Por outras palavras: num ano, as instituições financeiras receberam nove vezes mais do que a soma dos países pobres em quarenta e nove anos! Prioridades...
Humanidade - Despertar para a CIdadania Global Solidária, Fernando Nobre

2 bitaites domingo, 7 de março de 2010


Avidamente procuro um estado de não avidez.
Sem certezas, serena sei que só nesse espaço é possível aceitar o caminho dos eixos que se percorrem.
Anseio todo o momento apreciar viver sem o saber ou pensar.
Quando por fim chegar, sonho todos os dias, noites, sentar à janela, alpendre, varanda, e desencadear espontânea conversa com a vizinha, que passa e se deixa ficar.
E sair, ficar, não pensar, embora a meditação mo diga que o queria, mas pedia, a nostalgia latente, que por favor, não pense, em mim, no outro. Sabendo que se mentia, querendo, padecendo, por tudo menos tranquilidade, uma réstia de esperança, avidez, relação, que criamos na busca do culminar em isolamento.
Que só nos alimenta por dentro houvera perdido qualquer prazer sofisticado ensimesmado.

0 bitaites sábado, 27 de fevereiro de 2010



Vi a polícia balizar a rua, do Bonjardim. Por cima deles, fruto de temporal ocasional, sacos plásticos vazios esvoaçavam em movimentos espiralescos e aleatórios. Alguém passava carregando à cabeça um colchão de casal manchado, enchia a parte de trás de um camião aberto com isso e mais molduras da última ceia e abat-jours de veludo verde.

Outro levantava a fita que tapava o caminho para um carro passar na mesma, por baixo. Fez uma sequência de gestos ao carro que vinha a seguir: não com o dedo, aponta para uma fachada, traz com a mão a fachada até si. Pergunto-me através da janela, terá caído mesmo? Fui ver. Diz que são efeitos do clima, mas eu não acredito.

A famosa casa entaipada e desenhada pelo BE, tanta casa sem gente tanta gente sem casa (já com uns acrescentos em grafiti com algumas especulações sobre a sexualidade do Sócrates...), tem caído aos seus pés um rochedo enorme, misturado pelo metal de uma antena que voou e caiu em cima do Clio ali estacionado. Do grupo de pessoas que discute à porta do tasco do outro lado da rua, ouço dizerem-me "Menina, isso não é nada! Tem de ir ver ali atrás."

Está lá uma catarse de rufos, caleiras e outras peças amontoadas. Ninguém fala do clima, falam do Rio e da expropriação pela Câmara. "Tiraram-nos isto tudo e depois não fazem nada. Agora querem que vamos viver para outro lado, estas casinhas tão bonitas, vivi aqui a vida toda", encostada à pia de pedra onde ainda lava a roupa comunitariamente com as vizinhas do lado, do bairro, da ilha.

0 bitaites segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Passa por desmistificar o paradoxo da gregária sociedade que se esqueceu e desertou-se. Imiscuiu-se passivamente num modo de vida que é o egoísmo, afastou o que se pensa daquilo que se diz, ou pelo menos disse-o Fernando Nobre, num final de tarde de Janeiro em Santa Catarina, onde apresentou o seu último livro Humanidade, Despertar para a Cidadania Global Solidária.

O tempo urge, concordo, de dar forma à noção do que é a cidadania, os direitos, os deveres. Vivemos numa democracia afinal, "papoila, frágil, desenraizada, murcha". Nasce também nos sítios mais inóspitos.

Vejo-o agora dar um passo em frente com postura de humanista, semeando palavras, ideias, pela cidadania, solidariedade e fraternidade. Pasmo: só pode ser coisa boa. O mote está lançado. "Uma vez líder, só tenho direitos? Ao que parece os líderes de hoje flutuam na órbita estratosférica, saíram deste planeta." Deixe-se de lado a barreira do trio arquitectónico orquestrado, o Desconfiado, o Leit Motif e o Alibi. Percebamos o que são a fragilidade e a força do improvável na vida. Façamo-lo todos os dias, quais novos 12 trabalhos de Hércules:

1. A miséria, a exclusão, o desemprego e o comércio justo;
2. A crise climática e ambiental;
3. As guerras e as armas;
4. As crises sistémicas das finanças e da confiança;
5. A fome;
6. Os direitos humanos;
7. O direito internacional e a reforma das instituições internacionais;
8. Os terrorismos, insegurança e desgovernação;
9. O subdesenvolvimento e os objectivos de desenvolvimento do Milénio;
10. As migrações;
11. Os confrontos culturais, sociais, religiosos e civilizacionais;
12. As democracias.

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Enviada a carta com a minuta ridícula e sem esperar que os meses parem de passar enquanto eles se decidem a avançar com o processo, pude voltar a visitar o engenheiro para lhe entregar uma cópia da dita acrescida do aviso de recepção bem como da cópia do recibo de renda de Fevereiro com o novo-velho valor actualizado-mantido de 20€. E venha daí o imbróglio seguinte.

Enquanto aguardava ansiosamente o parecer / despacho / comunicado porvir, refiz contas ao orçamento que o engenheiro já avisou que vai levantar problemas. Não sabe bem porquê, ainda nem olhou para ele atentamente, mas parece-lhe. "Que nós não somos enganados", eia! Belo princípio, andamos todos a querer arrancar os olhos dos outros. Em Fevereiro o entretenimento foi pois tirar medidas e aprimorar o belo do modelo III do processo. Vesti assim o meu alter ego de empreiteira, engenheira e orçamentista, e não sei bem como até comecei o mês com um sorriso na cara ao pensar na fachada cada vez mais cadente e decadente. É que o processo parece um jogo tipo o filme, mensagens em código que alguém mete na caixa do correio e não poucas vezes assina só com siglas da Câmara do Porto, misteriosas.

Recebi outra dessas na semana passada, vinda de alguém que se esqueceu de falar com o colega do escritório ao lado da grande instituição camarária. Mais umas palavrinhas a acrescentar ao meu vocabulário burocrático crescente. Desta feita, quesitos e a hipotética formulação dos mesmos, aquando da vistoria que será feita em Abril, não pelo Porto Vivo, mas pela Câmara em si, que agora acredita que tenho mesmo de fazer obras, e que quer intimar-me a fazê-las.
Errr... Hey! Eu quero fazer obras!! Fale lá com o seu colega de lado que ele até já tem os papéis todos com o meu pedido. Olhe que não é um pedido qualquer: são 5 quilos de papéis.

Graças a deus que já cá não estão em casa, senão teriam encurrilhado com a humidade do ar que se fez sentir em Janeiro. Foi mês de andar atrás de quem tratasse das caleiras, do fogão e chaminé.

Sempre e para qualquer dúvida dirijo-me ali à senhora do mini café (que é só um balcão). Por acaso conhece quem trate? Na maior parte das vezes ela não sabe, mas assim o cimbalino a 50 cêntimos dá também direito a 5 minutos de alimento à sua curiosidade mórbida sobre os motivos que me trazem aqui ao bairro. Quando apliquei a palavra bairro, o filho dela, 40, bochechas, camisa de flanela, engasgou-se.
- Conhece quem arranje fogões aqui no bairro?
- BAIRRO?!? Onde é que pensa que está?
- Bem, este é o meu bairro, é onde eu moro, é assim que o trato.
- Que com o gás não se brinca, menina, diz, e que mais vale comprar um fogão novo.

A fuga fazia com que tivesse de estar a cozinhar enquanto tomava banho. Coisas da vida. Depois, a caminho do Largo do Padrão, trânsito infernal, ora levanto os olhos da poça ora reparo nos edifícios em redor à procura da loja muito boa para comprar fogões que o outro falou. Vejo a porta de alumínio e os outdoors recessos de neon que quase dizem "fogões a gaz" não fosse faltar o O o E e o Z num cor de laranja que se confunde de amarelo pálido. Um senhor de dentes pretos assobia do outro lado, que quer? é gás? Sim, é, e tento começar a demorar-me em explicações, que o antigo inquilino era um bocado porcalhão, ele interrompe constantemente, tenta adivinhar o final da história que me propus a contar ali no meio do passeio, ao lado de um tubo de queda roto quais quedas de água do Gerês. Diga-me lá a morada. Nós levamos lá a garrafa! Não sei porque dei a morada mas não é garrafa que eu quero, que aquilo estava uma miséria mas com o gás não se brinca, e mais vale comprar um novo. Ah então é um fogão que quer, pois que remédio, preços, onde é a loja. E assim veio um novo fogão a gás, no dia em que a dona Aurora foi levada pelo INEM para o hospital. Uma velhinha pequenina, com Parkinson, que me chamou pela primeira vez a atenção quando reparei no à vontade com que deixa a casa de pantufas e roupão e anda 50 metros até ao café das tijoleiras, aquele onde puseram uma mensagem ao lado da TV a dizer que ali é proibido ouvir o relato sem headphones quando está a decorrer jogo de futebol.

Estava eu dentro do mini café da auto-intitulada coscuvilheira que me pediu que me calasse para ver melhor o que o INEM estava a fazer ali. Olhei pela janela, e dentro de um Scarlett vermelho, um velhinho tratava de um raminho de flores tipo urze, se é que as flores podem ser rudes, num molhe dentro de copinho de plástico, pousado no tablier do carro, ao lado do terço pousado em renda de bilros.

3 bitaites quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

As Duas Frida (1939), Frida Kahlo

4 bitaites quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Final de dia stressante, 6ª feira com demasiada gente a massacrar-me, descarregar problemas em cima até ao contágio do espírito vencido. Ficamos as duas sentadas à mesa do restaurante. A mãe (dela) levantou-se uns segundos antes. Levo a mão à cabeça:
- Ai canerbos, Violeta! Porque é que eu às vezes falo assim com as pessoas?
- Tia, é normal. Também me acontece a mim às vezes... Aliás, às vezes até faço asneiras, sem saber que são asneiras, porque sou criança, não é, e ainda não sei tudo! E depois fico a sentir-me mesmo mal, porque eu fiz aquilo e nem sabia que era asneira. São dias. O melhor nessas alturas é ir dormir, já não há nada a fazer.

1 bitaites segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Hoje dei mais um passo no processo a que dou o nome de Porto-Morto-Vivo referente ao palácio a que chamo Olivença. Mais ou menos a cada duas semanas há assim um impulso, kafkiano, ora encrava ou avança, lenta e absurdamente.

Nem o processo tem originalmente esse nome, nem o palácio é palácio ou sito pela conservatória do registo predial em Olivença. O cerne disto tudo é o Porto Vivo, sociedade de reabilitação urbana que conduz o processo na baixa portuense... Chamo-lhe morto, para além de vivo, porque vai-se a ver e o processo torna-se um pouco suicida a dada altura, e desgasta até à zombificação do proponente.

Portanto, ponto de situação, há duas semanas que massacrava com telefonemas quase diários, "Então, já sabe o que posso fazer?" - "Ainda não, ligue amanhã." Pedia-lhe uma reacção à bela epístola que tinha enviado uns dias antes e onde era possível ler, não necessariamente pela ordem sugerida, palavras como

fachada extraordinária,
parecer despacho...
balizar bombeiros.
correcção: artigos!
anexo assentos
coeficiente é 1
jurídico
encravou.
Tais dissertações poéticas (não fossem os números dos artigos e decretos a que se referiam) tiveram como destinatários o engenheiro, a doutora, a sigla, a família. Foram lidas em voz alta qual ensaio que aguarda aprovação do júri do momento.

Na 6ª tive autorização do engenheiro para desencravar o encravado jurídico cujo antídoto tomará efeito caso eu escreva uma nova epístola, desta feita registada, e com aviso de recepção. Encontrei-me com ele, camarário, no prédio espesso ali no Pátio do Bolhão. Ofereceu-me umas belas cópias desfocadas e com grão da minuta que me orientou na execução do próximo passo, a nova tarefa. "Rídicula", o próprio apelidou-a. Mas tem que ser. E, hey!, se é isto que permite desencravar o RECRIA em gestação há dois meses, numa qualquer pilha de dossiers em escritório amarelecido, siga com a minuta!
Cara senhora inquilina, lina,
trago-lhe uma correcção extraordinária
rídicula
e isto é só para a avisar
que a dita correcção
se aplica à sua renda mensal de 20€
que a partir de agora e solenemente
ao abrigo do disposto no
artº 11º, 12º, 9º
Lei 46/85 de 20 de Setembro
decreto preambular do decreto
321B/90 1379-A 1379-17/2009
Como ia eu a dizer
o coeficiente 2010 é 1
a renda de 20€
é corrigida para
20€
só para avisar
registado e com aviso de recepção.
Atentamente.

Foto de Nopasaran

3 bitaites sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deixei o ano com um grande paradoxo que é esse termo jamais em forma de nó no cérebro. Jamais. Já. Mais. Alguém disse, e fiquei dividida entre o nunca e o impreterivelmente imposto, anotei-o.

Entrei no ano acreditando vir a voltar a andar com um mini canivete suíço no porta chaves, navalha, caneta, palito e lima das unhas. E um relógio. E uma pen. E juntar um batôn com caixinha rosa estilo bola de discoteca, mais as chaves de casa, do prédio, do JUP, o comando da garagem, e uma miniatura de livro com a Declaração dos Direitos Humanos. Em menos de 12 passas já tinha o canivete, que perdi passado uns dias. Nunca troquei a pilha ao relógio, juntei a pen mas não usei. Do batôn partiu-se o cabo, as chaves foram trocadas, o comando passou de mãos. O livro continua na mesinha. Carrego no bolso mais do que quero, posso, devo e mereço.

Hoje tiro tudo, é das luas, invoco deliverables do ano passado, no qual, fazendo o balanço de contas, foram três as noites que dormi em praia tropical, colchão bem no meio do areal, recorte de coqueiros na contra luz, manto de céu estrelado sobre mim. Vi o outro lado do mundo. Vi o mundo do avesso. Dividi cada dia com outro mundo, virtual, e neste acordei mais que vezes de todo perdida, des-reconhecendo andaime, sofá, tapete, fuso horário. O conforto só vive por dentro, no avesso.

Do outro lado do calendário, a caligrafia mantém-se, a reflexão é outra. Porque a partir de agora vou pensar menos. Ou vou tirar menos tempo para pensar. Sem deixar de comunicar. Em 2010, quero pensar, sim, só que mais rápido. E mais. Como quem dá lanço: Pensar, pensar... Saltar.

Ter uma queda para, ponto parágrafo, não um dom mas a índole, a vocação.
Ser o que se é, ponto parágrafo, e venha ele, fazer as pazes com o mundo, repetir para si próprio três vezes, azul, turquesa, vermelho!, em voz alta, diz o narrador, pensar, pensar, fazer!, que Anónimos de A grande se fazem todos, com os seus céus roxos ou laranja, amarelos, frios, distantes, intensos.

O que quero para os outros, o que quero para mim, o que quero para o mundo, o que vier tem de prever, que o que conta do que temos, é o tempo de o celebrar. Esqueci-me. Deixei para amanhã.
Jamais. Já. Mais.

0 bitaites quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Está decidido: Porto-Morto-Vivo, nova rubrica no meu blog. Encadeado por hífens da burocrata em que me tornei, pela reabilitação urbana do centro do Porto.
Qual palácio escondido a quem dei o nome Olivença, se há 8 meses havia fôlego, um qualquer encantamento, hoje o que tenho é urticária no couro cabeludo para não estender os braços ao céu a berrar: leva-me! Singra de mim este peso do nevoeiro que me rodeia quando expiro.
Começo esta rubrica para aliviar, para justificar para informar alertar, divagar. Escrevo para exorcizar, porque se entristece ensimesmado o ar grave e sério do Porto a cada dia que passa.

Da edição de Outubro do JUP,

Jusqu’ici tout va bien

Vive-se período eleitoral, altura em que se esperaria um diálogo mais aberto e real no centro da cidade do Porto. Que cada cidadão fizesse jus ao seu estatuto e tivesse uma palavra a dizer, mesmo que não fervilhasse em críticas acesas por um sentido de pertença à sua comunidade.

Estamos em período eleitoral, e na Rua do Bonjardim, aos domingos de manhã, um vizinho vira as colunas na janela e deixa o pimba tocar bem alto para quem vai a passar na rua ou mesmo para aqueles que se deixam estar no seu lugar. É coisa que o vizinho repete todos os fins-de-semana, e não é por estarmos em período eleitoral que ele havia de mudar. Nunca há quem olhe ou dance, mas na Rua do Bonjardim, agora que o Outono entrou de céu cinzento carregado, as notas só ecoam ligeiramente diferentes porque o chão de paralelo granítico absorve a humidade criando um jogo triste de espelhos, que reflectem as baladas, entre o chão e a vidraça dos prédios em ruínas.

No bairro, durante a semana, ouvem-se bem alto os programas televisivos duvidosos no conteúdo que lavam a consciência de um povo desempregado perseverante no saudosismo sebastianista. Talvez seja ele, o sempre esperado, que os levou a decidir nunca pegar nas casas devolutas, assombradas, decadentes de um bairro que só não é deserto, porque há olhares a medo por trás de cortinas corridas, a cada raro sinal de vida que pouco corre lá fora. Nunca é tempo de mudar, de inspirar, de ter uma palavra a dizer e levá-la em frente. O próprio carro do comício que passa com locutor de voz ultrapassada, megafone em riste, parece não acreditar no seu apelo: ao partido e ao voto. O bairro desconfia daquele proclamador outsider, olha-o de lado. Eventualmente ele deixa de aparecer. Na Rua do Bonjardim, de tanto olharem para a televisão ou através de cortinas, deixaram de ver que tudo em redor está a ruir. Mais! Eu sei, porque vi, que eles esqueceram aqueles hectares de terreno das traseiras, hoje escondidos em jardins secretos, que um dia traziam uma economia ao local.

Assisto a esta apatia, temo pela minha própria inércia, e imagino as formas diferentes que as vidas poderiam assumir, assim que cada cidadão decidisse abrir as janelas à sua cidade. Mas por aqui, o que verdadeiramente ecoa, não é o Portugal no Coração, nem a carripana do comício. Ouve-se em cada olhar, «Jusqu’ici tout va bien.» Quantos mentirão a si próprios até ao culminar do fim mais triste. Que o que somos não é o conforto doloroso da vida que fazemos todos os dias mas sim aquilo que daí conseguimos criar.

À Rua do Bonjardim, a criação chega em pacotes de bailarinas de grupos pimba com roupas rosa shocking, ora em versão sistema-de-som-à-janela, ora pela mágica caixa negra cuja programação e conteúdo deixa pouco a desejar no que diz respeito a atentados ao intelecto social. E é assim, que no centro da cidade do Porto, a consciência se vai criando com a alienação dos valores e objectivos, com a exploração da desgraça do outro e a personificação do espírito do coitado.

Vejo o quão fácil foi deixar o corpo ser levado pela corrente, desenhando um percurso inerte. Vive-se período eleitoral e devia apetecer cortar o paradigma pela raiz, escolher a inspiração, não permitir que outros decidam que o meu caminho é o do outro. Acabo de ver “Into the Wild”, que citava Thoreau pedindo «mais do que o amor, o dinheiro, a fé, a fama, a justiça… dá-me a verdade.» É altura de, na Rua do Bonjardim, romper cortinas velhas, abalar fachadas decrépitas, provocar uma reacção e pedir, tão simples, a verdade.

 

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