2 bitaites segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Houve um tempo em que o que fazia era música. Uns anos depois - mas outros tantos antes de agora - “ser músico”, era sinónimo de ser lírico, ou pelo menos dizia-o alguém por quem por acaso tenho ainda muito apreço.

Hoje, tenho vontade de fazer música. Melhor, tenho vontade de ser música – não a personalidade mas essas ondas que percorrem o ar que respiro e aquilo em que os meus braços podem estender-se. Já por várias vezes quis tentar explicar o que isto é, e revejo-o algures em frente a um teclado, Gershwin em igreja barroca, momento em que me sinto entrar nas ditas ondas, sentidas, na medida de quem ultrapassa aquele milésimo de segundo de erro, de lag, de diferença, entre fazer música e sê-la.

Fazia já longa data de que não corria, andava sequer.
Passeio alegre, mas não tanto, sofrido. Verão, quente, noite. Conversas viradas para o rio, sentadas, a ver que ou o mar ou o Douro ou ambos ainda não tinham aceite o facto daquela língua de terra ou areia ter aparecido ali no meio, permitindo um qualquer relacionamento de foz mais suave. Gaivotas sobrevoam ondas revoltas no Cabedelo, marés vivas de Agosto. [Acompanha, bis, o passo.]

Havia luar também e o cristal mais lindo, vindo de florestas amazónicas, esferas de consciência, tal como a que eu trazia de outros orientes, bem mais triste.
Convidou-me a um passeio, caminhada, bengala.
Convidou-me a acelerar, subtilmente e qual coração nas mãos, quando dei por mim era passo de corrida, a trote combinando braços, pernas pés e cabeça num movimento contínuo, orgânico, natural que o meu corpo houvera esquecido ser. Comparo-o a ser música, não a personalidade, mas o passo, o corpo.

Para o Natal era o que eu queria, tocar, ser música, 48 horas ou mais sem parar. Sem reparar. Mas o Natal obriga a enfrentar pequenos monstros debaixo da cama, fugindo deles. O Natal obriga a vestir a pele do outro e depois tapá-la com cachecóis grossos e luvas máscaras, da nossa tristeza que o frio corrói por dentro.

“Que podemos fazer nós para ajudá-los?”, pergunta a Violeta, 4, é que se não têm casa nós temos uma tão grande. E fome? Resta sempre comida em casa.

No meio de tesouras, papéis, estrelas, recortes, after eights e chás em flor, à janela bate alguém, que fala da Indonésia. Pergunto se lá está a celebrar o Natal, a resposta mais linda, presta atenção, “Eu comemoro se tu também.”

Neste Natal, Desconsolada, não cantei os parabéns ao menino Jesus, à volta de bolo de aniversário com vela de pilha desafinada pelos anos que passam.

1 bitaites segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.
Anónimos, José Ferreira

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Hapara Violencia Kontra Feto / Pára a Violência contra a Mulher / Stop Violence Against Women
UNIFEM Timor-Leste 2007

Hoje exige-se a erradicação da violência contra a mulher.
Enquanto olho para este cartaz, ironicamente, só me ocorre um outro lado da história, que é o da violência no sentido inverso, que por sua vez está ocasionalmente abrangida no âmbito da violência doméstica: atenção, apesar do feminino, não tem género. Ha'u mak vitima! / Eu é que sou vítima!

Mas ok, falemos de mulheres hoje. No bairro do Bonjardim, no outro dia tocou-me à porta uma senhora a quem tinha pedido por telefone para lá ir fazer (curiosas) limpezas (mas essa seria outra história). Quando abri a porta lá em baixo, contra-luz vi primeiro uma figura pequena e frágil, de chapéu de abas largas. Um passo para dentro do edifício e a cara totalmente desfeita, derretida em queimaduras, sem sobrancelhas, pestanas, e os olhos quase de borracha. Na manhã desse dia, quando lhe liguei, foi o marido que atendeu, ultra agressivo, desconfiado, brejeiro. Ela entrou, sentiu o desconforto do meu olhar directo nos olhos dela, sei que não aguentou isso e foi. Quando voltei a ligar-lhe o marido deu um berro tipo "nem pensar!", eu atónita perguntei porquê, ele mais enraivecido com não sei o quê, insisti, não adiantou, não sei o que fazer. Violência física com violência intelectual se paga e se os números de 1 em cada 3 apontam mais para a primeira, não é fácil disseminar as teias em que a segunda se desenvolve e parasita o lugar que a própria mulher mostra ter face ao homem. Não há Lei da Paridade que imponha resultados reais - a mudança tem de vir da base.

Resta-me dizer que na acção de sensibilização sobre Mulheres na Política do mês de Outubro, quem dinamizava o workshop contou que não são dois mas sim cinco os géneros que existem, e não sei se isto é novidade para vós, mas a mim o queixo caiu-me um pouco e certamente levou-me a pensar na multiplicidade de muros de violência e opressões que tem estado tão longe de mim (será?).

Eu cá sou da paz. Tenho no entanto a certeza que é urgente fazer guerra à violência e a minha angústia é que o ataque global necessário não precisa de mais armas do que a própria consciência, só que essa parece-se com fragmentos de granada estilhaçada.

E tenho a certeza que o senhor do cartaz é quem o diria melhor, de indicador e médio afastados: Peace.
--
Em 1999, a Organização das Nações Unidas designou, oficialmente, o 25 de Novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Os defensores dos direitos das mulheres já tinham estabelecido, em 1981, o 25 de Novembro como o dia contra a violência. A data relembrara o assassinato das irmãs Mirabal, activistas políticas da República Dominicana, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo, no dia 25 de Novembro de 1960.

Esta data visa relembrar que, em todo o mundo, pelo menos uma em cada três mulheres já foi agredida, forçada a ter relações sexuais ou sofreu algum tipo de abuso ao longo da sua vida, geralmente por parte de alguém conhecido.

1 bitaites sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Dia sem luz nem sombra, o de ontem, cinzento, no qual se discutiu o jornalismo universitário na Faculdade de Direito, a convite da equipa do Tribuna.

César Príncipe (que cito no título deste post), interveio inspirando e demarcando a responsabilidade do jornalista enquanto manipulador / facilitador da consciência colectiva.

Começou por pegar no futebol com uma ironia subtil a propósito do jogo da noite anterior. Insistiu tão prolongadamente no assunto que com o exagero permitiu perceber o estado geral das coisas. O jornalismo é isso: numa tentativa de ilustrar o que é a sociedade local ou global, impõe hábitos. De consumo. Postura. Jornalismo é poder e é alienação, é luz e sombra.

Outro discurso, bem mais derrotista, falava em sangue, suor e lágrimas, capacidade de sofrimento, sabedoria na espera e trabalho, afinco, alma, dor, solidão, uma tragédia. Falava de crime e de cliques. Não gostei. A definição de jornalismo de proximidade não ficou muito clara, embora à primeira vista seja sonante. Resta conhecer as ferramentas de medida dessa distância e se Fénix renascerá das cinzas.

Estava já eu quase a chorar com o sofrimento do outro quando Príncipe responde “Que o sofrimento tem de ser democrático”, o que me fez sentir mais amparada. Depois, quando lhe agradeci no final em privado o discurso construtivo, reflectiu ainda sobre outras esferas. Falou do Muro de Berlim, e do entretenimento do espectáculo televisivo nas comemorações do 20º aniversário da sua queda. Enquanto o ouvia, senti e assisti a uma tempestade de areia nos olhos da população mundial. Quis saber dos outros muros todos que hoje ainda existem. Quis vê-los, lê-los, e outras aliterações e imposições sobre as quais pouca consciência existe.

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1 bitaites sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pensavam que já passava do tempo mas veio a ver-se que afinal era cedo demais quando naquela manhã de São Martinho vim parar a este mundo estranho.

Dizem que por a Lua estar em Aquário e outras combinações que tais, houvera nascido para a fama, mas a astróloga tinha sotaque afectado - e mais! degustava esponjinhas de tofu em óleos - e confundi o destino com teima, decidindo naquele momento teimar no motivo que me leva a coçar o nariz sempre que manuseio castanhas, essas belas irmãs das bolotas, que fechadinhas em si mesmas ou enfarruscadas por cinzas de carvão e tinta de jornal (ora aí está!) simbolizam o meu dia de anos.

Mas a história não é bem assim, porque não foi bem decidir em teimar. A verdade é que desde sempre achei que as castanhas estavam para o nariz na medida em que as cebolas estão para as lágrimas, refiro-me a comichões fisiológicas daquelas que permitem extravazar tudo o que vai por dentro.

Em movimentos compulsivos de indicador na ponta do nariz e fungo. Enquanto descasco as castanhas, repetindo-se-me a frase do pasteleiro "doutora, que eu tenho um coração de manteiga, três dias no congelador".

Reparo que apesar do coração de manteiga, as castanhas não estão a surtir nele o efeito que a mim faz-me romper com todo e qualquer protocolo social, na hora da descasca. Logo eu que sou pessoa tão séria.

Perguntando aqui e ali timidamente enquanto metia mais uma castanha à boca, "mas então e tu, não te coças?", e a coisa foi crescendo, tomou proporções virtuais e do inquérito da semana passada concluo que ninguém mais há que sofra do mesmo mal a não ser familiares próximos: mãe e irmãos. Isso não explica porque é que levei 26 anos a perceber que os outros não são iguais. Era como se me dissessem que nem toda a gente chora a alma em lágrimas enquanto corta cebola aos bocadinhos.

4 bitaites domingo, 8 de novembro de 2009

350
3 bitaites domingo, 18 de outubro de 2009

Foto de Marisa Gonçalves

350, diz hoje o mundo em uníssono. E já tem vindo a repeti-lo, apelando à acção climática, exigindo o pagamento da dívida que principalmente os países do Norte têm de pagar ao Sul do mundo, que são quem mais sofre pelas alterações provocadas pela mão do Homem no ambiente.

350, dizem, é o número mais importante do mundo. Indica o nível que os cientistas consideram ser o limite máximo de segurança para a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Há dois anos, climatologistas de topo, após terem observado o rápido derretimento do gelo do Árctico e outros sinais assustadores de alterações climáticas, publicaram uma série de estudos segundo os quais o planeta estava em risco de catástrofe natural e humana se as concentrações de CO2 atmosférico se mantivessem acima das 350 partes por milhão.
Da meta global estabelecida para sustentar o planeta e evitar a completa catástrofe, se por um lado a Europa dos 15 tem conseguido reduzir em 5% as emissões de gases que provocam o efeito de estufa, Portugal, encontra-se no 2º lugar negativo do ranking, tendo aumentado as suas emissões em 36%, logo a seguir a Espanha que aumentou 52%. (dados de 2007)

Este retrocesso esteve bem explícito durante o dia de hoje na inércia intensa que se viu na cidade do Porto. Ao mesmo tempo, mundo fora, apelava-se aos líderes mundiais que em Dezembro em Copenhaga, seja assinado um ambicioso, justo e vinculativo tratado global de clima. Desenhem-se estratégias de acção, políticas climáticas com base nos mais recentes dados científicos e suficientemente fortes para baixar os níveis até aos 350.
Neste momento, sobretudo porque queimamos tanto combustível fóssil, a concentração atmosférica de CO2 é de 390 ppm – o que é muitíssimo elevado, e é por isso que o gelo está a derreter, a seca está a espalhar-se, as florestas estão a morrer. Para fazer este número descer, a primeira tarefa será parar de pôr mais carbono na atmosfera. Isto implica uma transição muito rápida para energia solar e eólica e outras formas de energia renovável. Se pararmos de lançar mais carbono na atmosfera, as florestas e oceanos irão lentamente sugar parte dele do ar e trazer-nos de volta a níveis mais seguros.
É difícil quebrar com os vícios, sei. E muito mais quando a lavagem cerebral com que os media presenteiam as vidas de muita gente manipula hábitos ao ponto de fazer crer que o consumo sem escrúpulos, a dívida desregrada, a vida em crédito, é que são a opção. As mudanças climáticas são efeito de um estilo de vida que não pode ser mais.

Contaram-me que nos Açores os locais compram batatas de Espanha, que custam só 40 cêntimos e que as batatas locais, de produção biológica e baixo consumo, custam 80 cêntimos o Kg e não pode ser. A mesma pessoa que o disse, usa roupas de marca e um relógio caro no pulso. Não comprou essas peças na feira para poupar 20€, mas acha fulcral poupar aqueles 40 cêntimos das batatas.

Eu cá ando a repensar a minha forma de vida, aquilo que (e como) consumo.
Eu cá, quanto mais coisas tenho, mais pobre me sinto e as pessoas mais felizes que conheci só tinham duas ou três coisas, mas sempre comida boa na mesa.

7 bitaites sábado, 12 de setembro de 2009

(English version of Pablo Neruda's poem "Who dies?" can be found here)

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música, quem não encontra
graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destroi o seu amor-próprio,
quem não deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma
em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem
não muda de marca, não se arrisca a vestir um nova cor ou
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro
sobre o branco e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções justamente
as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está feliz
com o seu trabalho, quem não arrisca o certo
pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite
pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias
queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona
um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre
que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples facto de respirar.
somente a perseverança fará que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda

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Early 2007 I decided to go to East Timor to work as a Computer Engineering teacher in the National University for one semester. I was leaving to the other side of the world, I would be living in a very different time zone (9 hours of difference between Portugal and Timor!) and I was very excited to learn about the first country of the millennium, which used to be a Portuguese colony. Once again, I decided to create a new blog to easily share some stories about my new experience with family and friends despite the physical distance.

I named it CouldIHaveBeen.blog.com and it was simply about sarita - me! - in timor lorosa'e - which is the name of the country in tétum, the local language, meaning both East Timor and Timor of the Rising Sun. I remember creating the blog and sending an email to all my friends, family and former colleagues from the company where I was working, saying "here's where you can find me!".


Now that I am reading parts of it again, I realize that I am a blogger especially because I have always enjoyed writing a lot. I carry a notebook and a pen with me since I can remember. My second blog was a kind of a diary that I could share with my dearest friends that were very faraway from me.

Through a literary approach complemented with pictures and quoting poems, I would describe my day to day activities while reflecting on the impact that such culture was having in my own way of perceiving life.

Back then, as I checked the statistics I could see that it was also calling the attention of new visitors who were probably interested in East Timor situation, which is not very disseminated. I was thrilled to arrive home and check my mailbox seeing that people were actually reading me and commenting my thoughts.

Nevertheless this blog ended with a tragical event. I had a big car accident in the mountains of East Timor and I had to come back home sooner than I expected. It was a very tough year for me and I had no will to write more than complaining about it, so I decided to stop.

A few months later, however, a new blog (this one!!) would come as a therapy. But once again, that's a new story, on a different blog, coming in a different post :)

--

This post is an open letter to my mentee Hawah Abdul, a Kenyan activist who is taking part of an educational program in Copenhagen, Denmark called Global Change.

She works for a non-governmental organization called Centre for Conflict Resolution(CCR-Kenya), together with the Youths in promoting peaceful coexistence amongst diverse communities, mainly capacity building, advocacy, and community mobilization. She says that most of their targets are the pastoralists who normally conflict over pasture and water which results from the Climate Changes in Kenya. Hawah expects the Global Change course to help her carry out her duties more effectively including campaigns and advocacy.

A new collaboration between MS ActionAid / Global Change and the Global Voices Online, which I'm part of, has lead to the creation of a mentor-project. That's where I come in. I will be Hawah's blogging-mentor until mid-October, and I hope that we through the coming weeks will have a chance to engage in some interesting dialogues on everything relating to blogging.

1 bitaites quarta-feira, 9 de setembro de 2009

I have been thinking about this blogging thing and how and why I got into it...

Once again, I sit in front of the computer, I log in my blogger account. But this time a different question arises: when did this all start? I am surprised to come accross my first blog, which was created exactly 3 years ago, at the bottom of the Blogger administration panel. Funny that I had already forgotten about this blog!

I created "Elas é que sabem!" (something like "it's the girls who know!") in 2006, with a mission in mind: to promote weekly sports activities among ladies. Back then I had a full time and very consuming job as a web projects manager at seara.com. I felt an increasing need to move, run, dance, play, walk, etc in order to relief stress. I thought that a blog would be a perfect tool to spread the word and engage my friends into physical activities, so I started blogging once a week making appointments for the next activity.

At first my idea was to keep the whole initiative as engaging as it gets in a sequence of several different sports. I thought that if I would create a blog, it would be a perfect tool of communication between a group of lady-friends who would suggest/vote/confirm sports encounters such as "Wednesday running by the sea at 7pm" or "Sunday playing volleyball at the beach at 10am" etc.

Nevertheless, the initial group decided to play soccer on the first "meeting" and all the 8 of us enjoyed playing it so much that we never used the blog to make an appointment for a different sport.

It was a huge success, as one month after we had 3 teams of 5 girls playing soccer twice a week; five months after we had 4 teams of 6 girls; and some of them, 3 years after, still play soccer every week! It was also a great fun to do it, as we sometimes posted joking pictures and "game reviews" and the girls would start strongly discussing the results and the failures!


Eventually what happened was that there was no more need to use the blog for planning as the timetable evolved to something quite "sacred": soccer on Tuesdays and Sundays at 7pm.

By one hand, I felt a bit frustrated when the activity in the blog started to slow down. However, I am 100% sure now that if back then I would have kept my persistance on reviewing games, posting funny pictures, creating contents for the girls, the blog could still be alive & kicking in 2009.

A few months after "Elas é que sabem!" was launched, I quit my job and headed over to a new adventure in the other side of the world: East Timor.

But that's a different story, about a different blog, coming in a different post :)

--

This post is an open letter to my mentee Hawah Abdul, a Kenyan activist who is taking part of an educational program in Copenhagen, Denmark called Global Change. A new collaboration between MS ActionAid / Global Change and the Global Voices Online, which I'm part of, has lead to the creation of a mentor-project. That's where I come in. I will be Hawah's blogging-mentor for the next six weeks, and I hope that we through the coming weeks will have a chance to engage in some interesting dialogues on everything relating to blogging.

[PS - As the technology keeps evolving, nowadays I would definitely use "Events" on Facebook to promote something like my first blog! What do you think: let's do some sports?!]

3 bitaites quarta-feira, 2 de setembro de 2009








Felenko Yefe - Momo Wandel Soumah

Não quero ver Setembro chegar, não quero.
Nada de calos nem poeira na sola dos pés, ou verniz vermelho na ponta dos dedos.
De repente fica frio, e já se veste mais um casaco, e outro, camadas que nos afastam de nós.
E longe vão os dias de sol na portada, e desvios do buraco da lagarta na maçã, trincando carneiros contados, cercando a dita, sem pudor mas com cautela, em noites de brisa quente, madrugadas de vento que sacode cortinas. Transparentes, luminosas.

Aquela frase que se repete pela ânsia dos pôres-do-sol contados e luz ténue no horizonte povoado. Talvez seja por ter nascido no magusto, pelo cabelo ter sido sempre da cor do Outono - mesmo naquela altura em que o pintei de mercurocromo e havia reflexos vermelhos e esverdeados - there's something about the fall, falling down on me.

Os chinelos dão lugar a botas com lã quente.
Já não me embrulho numa lipa leve para sentir o conforto do trabalho em casa - abraço-me de cobertores, aquecedores, incensos e música.
Saio à rua, pulsos arrepiados, e cheira a castanhas.
No Verão há quem não queira acabar de ler o livro - histórias demasiado boas, coisas que se demoram. Chegando Setembro, sei que dou por mim embrenhada, fechada lutando numa mesa e quadros, à minha volta que "Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos… ". Ficar a ver isto acontecer, é uma espécie de sina, ou aceitar uma missão.
Vejo, Setembro entrou, de mansinho, porque hoje já é dia 3.

De boas-vindas, indómita a vontade de escrever, te, uma carta.
É que sempre insisti fazê-lo. Mesmo em anos de silêncio escrito, em papel, que destinatários foram outros. Tipo cuidar de flores, tivera eu um bonsai, sempre voam envelopes, colagens, espirais azuis, mas nunca mais tomate vermelho, Matisse.

4 bitaites sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A certa hora da madrugada - julgo que quando ainda não havia tons diferentes, da negritude do céu, que cobre, amorfo - corria um vento, levando qualquer vestígio que tivesse ficado dos dias que passam. Varria em sonhos agitados, inconscientemente tudo o que se sabe, nos sussurros que dizem:

Eu, como rio.

Justificando assim o silêncio, como se coisas não fossem necessariamente ditas. Mas sim:

Tocam as margens, e correm, tocando.

0 bitaites quinta-feira, 20 de agosto de 2009










Ha'u koko
Haluha ne'e hotu
No se ne'e los
Entaun acontese deit.

(Na foto, do outro lado)

2 bitaites sábado, 15 de agosto de 2009

Gostava de lavar a roupa à mão, foi esse o final de uma história e o início da resposta a uma pergunta, que veio depois de caminhada distante, longa até amanhecer, até o pé doer. Que gostava de pegar em cada peça sua, e deixar a água passar, esfregar o sítio de cada nódoa que não tinha mais que a sua própria história também.
E é isso motivo de separação?
Que começaram a ver a vida com caminhos diferentes, e aparecem máquinas de lavar a roupa, que diz que não quer usar, porque gosta de cuidar das suas coisas assim, com tempo.
Seguiu, ouve esta história, de um casal que vive na montanha. Ele, passa os dias no campo e à noite traz de modo os vegetais. Ela fica em casa, vende no mercado ou aos vizinhos, põe o olho nas crianças. Só que um dia ele não pode ir porque tem o pé ferido. Ela embrulha o cabelo numa lipa, pega no cesto e segue para o arrozal.
Ao regressar a casa, na estrada, baixa-se para apanhar uma flor, frangipani, lágrima de um santo qualquer. Coloca-a no cabelo e volta.

2 bitaites sábado, 8 de agosto de 2009

Na International School on Digital Transformation, para onde fui directa de 2 dias de aeroporto à volta do mundo, entrei com ideias inspiradoras - não fossem os exemplos demasiado centrados no caso americano - sobre "Social Change Infrastructure: Building Values Into the Way our World Works" (Nicholas Reville).

Que é tempo de reflectir sobre os pontos onde a sociedade e a tecnologia se encontram, e fazê-lo como activistas e não como mero exercício de observação. [Aqui a primeira palavra que ficou a ecoar, e me fez reflectir antes o percurso que andamos e/ou ando a traçar.]

Criticando o poder que grandes empresas detêm para a manipulação da sociedade - claro que de um ponto de vista tecnológico, informativo e comunicacional - bate com o pé: "podemos decidir a forma que o nosso mundo tem", e apela:

  • Aos Académicos – "que sejam a mudança climática"
  • Aos Estudantes – "que se juntem ao movimento - sejam activistas"
  • Às Organizações – "que alinhem as suas tecnologias com os seus valores"
  • Às Fundações – "que adoptem uma abordagem comum para a construção das infraestruras sociais"
E sim, claro, era bom que toda a gente participasse, mas não sei se basta a "abertura e transparência" para criar o "envolvimento para uma sociedade participativa". [Aqui outra palavra-eco, que tem de ser escrita em inglês, que em português soa estranho participatory.]

A verdade é que do meu ponto de vista, apesar de até ser fácil envolver as pessoas etereamente com um discurso apaixonado sobre determinada causa, os activistas são muitas vezes vistos como o pequeno grupo de maluquinhos que quer impôr coisas que ninguém percebeu muito bem. [E a propósito desta necessidade de saber passar as mensagens, adorei o trabalho da Tactical Technology Collective, que desenvolve publicações e formação para a visualização e comunicação "for social change".]

Já Siva Vaidhyanathan vinha a dizer a seguir (para além da polémica, citada agora pela 3ª vez no blog, "O Google é a lente através da qual vemos o mundo"), que "pequenos grupos de minorias podem de facto fazer mudar o discourse", e citou A Biblioteca de Babel (Borges, 1941), talvez como uma forma de mostrar a grandeza do "projecto do conhecimento humano vs a googlização de tudo", que deu nome à sua apresentação.

Estava eu já completamente saturada de tais embrenhices conspirativas, dissertações rebuscadas e questões complexas, com o cérebro a funcionar ao ritmo da água de côco que julgo que ainda estava a digerir no estômago enquanto pensava que o mundo se vê através de muitas lentes, e como Caeiro, somos todos do tamanho do que vemos e que isso não se mede pelos pixeis da caixa de pesquisa do Google, quando alguém faz descer à terra.

Sinto a leve aragem de um papel que abana na mão, e uma caneta na outra, de quem está agora no palco: Warigia Bowman, sobre os "Desafios e Oportunidades para a Tecnologia de Informação na África Oriental". Tal qual chapada de luva branca ao dizer que a tecnologia de informação pode ser só uma caneta e um papel. Ser activista, participativo, bem sucedido é saber o que as pessoas precisam.

E depois exemplos concretos, novidades, sobre os motivos do cyber-apartheid vs inclusão digital no México, pela voz do antropólogo social Scott Robinson; ou a forma como as tecnologias móveis passam para cima naqueles locais onde não existem infraestruturas físicas, e criam mudanças reais através de "advocacia móvel" e oportunidades inovadoras de desenvolvimento, apresentada pela fundadora do MobileActive.org, e TED Fellow, Katrin Verclas.

Aqui, à procura do significado de advocacia - que em inglês soa a coisa activista (mas talvez seja culpa dos sítios onde a vejo escrita) - que não é mais do que a contestação de uma causa:
(...) encontram-se sempre entrelaçadas a dignidade do homem e a responsabilidade da profissão na luta pelo direito, pois só esta é própria da advocacia.
COUTURE, Eduardo Jorge

Só que se são muitas as pessoas que sabem o que é a dignidade do Homem, especialmente no mundo ocidental, eu não estou certa. Cada vez tenho mais pessoas por perto que não se acomodam a um sentimento de ganância, e elevam outros valores. Para quê? Porque querem chegar ao "outro bilião", parece. Podem procurar o mundo no Google todos os dias, mas viram também uma motivação qualquer em fazer coisas boas por um desevolvimento justo, sustentàvel e equitativo a pensando globalmente, agindo localmente.

Depois disto tudo, a (minha) lavagem cerebral fechou com Sunil Abraham, que cheio de metáforas e analogias, encheu o espírito activista, participativo, advogado e digital de todos os que o ouviram.
I am a child of piracy. I would not be here if i was not a pirate throughout my life. I could only get through school by pirating the books. To me, criticizing the piracy is like spiting on my mother’s face.
***
Dois meses de loucos, vejo, na tentativa de estabilização, que são palavras que ficam, a repetir-se, a provocar acção. E, aparentemente, sim, escolhi uma localização geográfica bastante exacta para já (uma entrevista que me fizeram aqui), e quero oferecer algumas destas a pessoal - gente boa! - que conheci por aí, e pô-los a falar, falar, falar. Are you listening?

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1 bitaites sexta-feira, 31 de julho de 2009

3 bitaites

Foi ainda antes de sair mas já tinha largado grande parte. Fosse o caderno de um ano, com tudo tudo o que acontecia - um guia para memórias fracas - que acabou, e habituar-me à textura do novo papel. O telemóvel do qual tive de desistir quando se tornou uma vergonha ter chamadas a tratar de negócios - da vida! - perdidas na imensidão do que é estática e ruído.

Algures no tempo que por ali ia, veio ninho. Só meditação, que foram as duas semanas de escadote, esfregão da loiça (lixívia) e aspirador, na mão, e um prédio. E o que já sabia, que era partir quando, de ombros mais largos, já tudo tinha um sítio, o cheiro a verniz e um recanto que fosse - o reflexo de vidro irregular de antigo, na parede em frente caso esteja deitada.

A Violeta berra lá ao fundo do átrio que há-de ter espelhos "Tiia!", e eu fui porque ouvi, e, já agora, voltava a despedir-me. Que se passa Violeta? "O Baltazar mudou de casa contigo!", apontava para um topo recôndito, mas ele lá estava. E passados poucos dias eu estava no erli sun. Gosto de ir estando com as pessoas, uma por uma, a um ritmo que imponho na aparente indiferença.

O Baltazar é uma gaivota que aparece sempre, e que não ataca os sacos do lixo na beira da estrada que aguardam o camião que ao chegar faz sempre abanar o chão e as portadas da casa de Mouzinho da Silveira. O Baltazar observa, lá de cima, mas não tem intenções, não é gaivota com grito de morte, como as outras. Disse à Violeta que com o Baltazar não precisava de falar, nem quando estávamos sozinhos, mas que olhávamos sempre um pelo outro.

Com o Baltazar numa janela diferente agora, ainda penduro cortinas, ainda organizo a lista de contactos, e tento lidar com o facto de ter o mundo à distância de uma mensagem, ou através da lente que se chama Google, com quem andei a meter-me meses a fio, e agora levo com o que dizem que pedi - saturação - quando o que mereço e me protege, dizem, tem outro nome.

0 bitaites quarta-feira, 29 de julho de 2009


Estou em processo. O meu silêncio fala na voz do desenquadrado, que o pior jetlag é o cultural. E a lentidão não é mais do que não conseguir acompanhar o que corre por dentro. Assim, em câmara lenta, desculpo-me. Estou em progresso.

PS - Não é que tenha deixado de gostar de silêncio, de cerejas, de mãos, da violeta, de bossa nova, de olhar, do LOST, de luz baixa, de constelações, de lã, de sapatinhos, de flutuar no mar, de canecas de café fraco, de incenso e velas, do cheiro do frangipani, de quadros brancos para escrever, de cremes, do Platão e/ou de fado, mas aquilo à direita estava a irritar-me. E o mesmo para as palavras do Rui Veloso, "esse teu ar grave e sério / (...) / nesse teu jeito fechado / de quem mói o sentimento".

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Já no destino, que não é mais do que ponto de partida, folheio de trás para a frente ainda sem tempo de o pensar. O toque à janela quando menos era esperado, em noite de luar lulik, em forma de bela tal qual o acessório tradicional. O lábio inferior a tremer, a cabeça apontada para baixo, pousada nuns joelhos à frente, soluço que desagua em riso de lágrimas, ou vice versa, não percebi. Três noites num colchão na praia, como lençol só o manto de céu estrelado. Sala de partos, quase a desmaiar só de ouvir (ver não via que fechei os olhos com força), a futura mãe a arfar silenciosamente, a médica cubana de bisturi na mão "preparem-na! tem de ser cesariana! Sara, vamos lá?" Ai onde... E logo depois o funeral em Santa Cruz, missa cantada por baixo do Sol intenso, e pessoas espalhadas pelas campas. A síncope no coração ao avistar Timor aproximar-se do avião.
A maratona pelo aeroporto de Frankfurt, correndo desalmadamente em menos de 10 minutos o que no regresso demorei 45 a andar. Para não perder, não perder, chegar rápido lá, a Díli, onde deixo, mais uma vez, a pele e sensações que num clique se apagam e duvido que tenham mesmo acontecido. Voltarei, para verificar.

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Segunda escala, em Frankfurt, passadas exactamente 48 horas de ter deixado Díli, e sem ainda ter chegado ao destino. Pudera! Parece que vou no sentido errado. Observo todo e qualquer um que passa e só me apetece saltar do banco num berro “PÁRA TUDO!! A partir de agora cada um fica no seu sítio, vamos lá parar de causar estragos mundo fora." Mas calo-me e planeio já a próxima viagem.
D’O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá, para os amores platónicos e consequentes concretizações, descubro a pólvora aqui. É que isto de ir assim é ter o privilégio de sair da caverna que Platão alegorizou. E depois como se explica? Sombras de vida que vemos com sinais de fumo em forma de cifrão e valores deturpados para um sentido que se quer desumano. E o tempo sempre a passar.
Daí a ânsia constante na véspera de toda e qualquer viagem. Não tenho medo dos aviões. "Eu sou um solitário", tal como o tio guerrilheiro que morreu com um balázio das mílicias indonésias em Lospalos. Foram buscá-lo a meio da noite. Quando a aldeia ouvia o carro a aproximar-se, já sabia o que ia acontecer. Só não sabia a porta que seria aberta em cada noite. Escrevia em português na janela "Eu sou um solitário", e era de facto.
O que temo sempre antes de partir é saber que ao voltar nada mais será igual, como o par de dados que se baralha em palmas de mão fechadas em coração, dados atirados à mesa, certo que resultado incerto. Todas as referências são abaladas o que causa profunda estranheza no reencontro com o que é próximo. O que é próximo? "Sara, sabes, é que não se percebe totalmente essa forma de olhar." Pois sei, sim, see you.

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Primeira escala. No bater do coração que abranda, sinto uma morte lenta que quero à força evitar. Afinal não é dos cheiros, não é do calor, porque aqui também há, e mais. Vamos jogar a um jogo: decido agora que este laço vem do hemisfério ou de outra decisão aleatória qualquer, imagino que a carta nunca chegou a ser aberta, e procuro conceptualizar o meu sorriso a outra latitude. Mas não basta.
Tento não parar a viagem, para não chorar, ao contrário do que esperava. Motivos mais altos de levantam, mas adio o táxi e sento-me ao calor. Resigno-me, aceno ao táxi mas não é assim que funciona aqui. E assim a torneira abre-se do céu roxo carregado que trago dentro dos meus olhos entrando em Singapura. Arrasto-me para a fila religiosamente organizada de espera de táxis. Entro, não regateio. Chego a casa de olheiras, olhos mais tristes, braços para baixo. Desculpem, mas poderão não falar comigo hoje? É que como reacção só poderei balbuciar uma nostalgia desmesurada que me enjoa e entristece, que as últimas três semanas foram só de violência emocional, os últimos dois meses foram de uma confusão brutal, e desconfio que na próxima semana vai chegar o desgaste final. E depois disso não prometo que fique, quero assumir aquela vida onde, dizem, faço parte de um documentário, sobre cores, cheiros, e quero sentir na pele uma textura que só esta pequena Leonor tem igual. E a surpresa do desconhecido que é não saber qual a língua em que dirá a primeira palavra.

1 bitaites quarta-feira, 15 de julho de 2009

3 bitaites terça-feira, 14 de julho de 2009

Gosto, eu gosto deste lugar. É o desconhecido mesmo que já familiar, o imprevisto e a forma de actuar. Eu gosto e quero sempre voltar a este lugar.
Posso ser uma lírica e vê-se, não só no guião, mas também no caminho que estou a desenhar, mas aqui não penso, só vivo o que aparece por trás da sebe improvisada de qualquer quintal.
E se pudesse vivia só disso, do ir andando e sentando com as pessoas, calada ate esgotar todos aqueles que pudessem dizer, como disseram "Nunca na minha vida pá... Tem malai america, malai australia, malai filipinas, malai brasil, portugal... malai barak. E foi preciso esperar muitos anos, mas chegou o dia em que malai veio e sentou a volta da nossa mesa, só para comer batar, beber tua mutin, trocar palavras, como nós fazemos todos os dias a vê-los passar."
Agora o calor assentou na pele, descobri que isto não é coisa visceral, é de pele mesmo, de flor que se comove. E, como este post, fica sempre por acabar, como um fio preso que mais tarde ou mais cedo vai ser preciso puxar.

3 bitaites terça-feira, 7 de julho de 2009

O mar
à minha beira
voltado para mim
falou da sua grandeza
dos mundos que o habitam
das forças que o animam
da vida em que reflui.

E eu falei-lhe de ti.

E o mar sentiu-se pequeno.

13
MULHER
ou o livro do teu nome (1982)

6 bitaites quinta-feira, 2 de julho de 2009

Podia falar primeiro sobre os cheiros, sei agora, regressada pela quarta vez e meia a Timor. O suor de cravinho misturado com as queimadas da época, mais frangipanis intensos logo ali ao lado da fossa. O estômago, revoltado, exprime-se em espasmos de enjoo forte, naquilo que é quase vomitar toda a diferença para marcar território num calor que não é meu.

Podia romancear histórias do Padre João Transfiguração e o seu sermão aos peixes da Baía dos Porcos, que já não tem carcaça de um carro velho na segunda curva ao pôr-do-sol, com coqueiros no perfil rosa-alaranjado, do mais bonito que há em Díli, e que todos os dias é diferente.

Podia dissertar sobre o menino que se chama Jennifer Lopez, e que não tem terra - é de Timor - nem família. Diz que as mulheres levam porrada quando os homens bebem tua, e é assim que temki ser, porque não trabalham. Ai é? Mas os homens deixam-nas ir trabalhar? Pois não, que o lugar é em casa.

Podia descrever a conversa à boleia com o filho de determinado líder político, bem parecido, com sonhos, palavras, e qual o contexto? Pergunto-me se alguma vez terá jantado naquelas que eram as barracas de Pantaikelapa, rodeadas de coqueiros altos e de céus que choram repentinamente, em plena época seca. De felicidade. Já não há o meu restaurante preferido, a madeira deu lugar a coberturas de lona, plásticas. Restam memórias do que por ali passei.

Podia cascar em determinada e única empresa de telecomunicações que me desgosta, e que me comunica que compre cartões na candonga ao dobro do preço, ou em beco incerto só entre as 7 e as 8 da manhã. Facsimile, 3 USD por minuto. Internet, 8 USD por hora. E julgam-me mal criada, parcial, politizada ou interessada. Pior: uma amante sem escrúpulos. Soubessem eles que o coração trago-o nas mãos porque se esqueceu de sentir, há muito tempo.

Podia, e hei-de, apelar à isenção, justificar a minha motivação, se é que pode ser explicada.

Podia escrever, sim, mas espera-se que o calor na pele assente, aguarda-se que o vendaval tropical entre, que o que procuro agora é ainda o meu lugar no meio desta terra. Um fuso horário que não se coaduna com o meu período de escrita (onde já se viu dissertar ao pequeno almoço…), uma paisagem onde faltam símbolos que fantasiei à distância (o mercado, na berma da praia sem luzes, transformou-se em construção sólida…), e um galo Manu e outros, que cantam ao amanhecer quando alguém varre a estrada.

1 bitaites domingo, 21 de junho de 2009

Fecho as portadas que rangem ao calor, não preciso agora, que ele já existe cá dentro.
Faço-o quando aos primeiros raios também os pássaros cantam a abertura para a manhã que aí vem. Digo a mim própria “o silêncio não me incomoda”, e entreabro os olhos, ouço a música de baile que ecoa pela rua do bairro novo. Cheira a verniz e a incenso. Cheira a cravinho e a rosmaninho.

Nas pilhas de papéis amontoados, caoticamente catalogados, encaixotados, cadernos destronados, desmultiplicados por tantos outros que hão-de vir (já cá estão, mas não os sei), encontro "um velho poema irlandês" transcrito do Requiem para o Navegador Solitário. Dei de caras com ele em Maio, numa parede de guesthouse na Irlanda profunda. E sei que era o final aquilo que me tocava, “may god hold you / in the palm of his hand”. Balelas que procuro, conforto que desprezo.

Nos montes que vou religiosamente desconstruindo, um fluxo de folhas, registos que transfiro deste para aquele, para o outro. Como se estivesse a joeirar o arroz em várias redes finas que se sobrepõem, encontro-o num nível intermédio (até agora, nas arrumações, demasiado próximo para ser notado). Eis o email que se dobra em quatro, “para ler daqui a 20 anos” declamado, sobre quem encanta e vem do nada:

vai acontecer muito mais tarde
do que as pessoas
pura e simplesmente
porque apesar de não teres culpa do que se passou no passado
tens coisas a resolver no presente

Ter coisas a resolver no presente, como os vermelhos de Matisse, ou “Ser Frida Kahlo”, por publicar, réstias das águas passadas, flores de camomila prensadas.

E porque escrevo, porque partilho, não é para chegar a alguém, nem trago mensagem alguma. É um processo simples de secretariado, que não são só os números que se arrumam nas gavetas, e não tenho vergonha ou medo de que as minhas estejam aqui, ora mais, ora menos, ficcionadas. E, confesso, pensei-o por duas vezes ao passar pelo Pátio da Paz: que não é de ignorar quando se sabe de pessoa que é aquilo que faz.

4 bitaites sexta-feira, 19 de junho de 2009



A minha nova música de despertar. Toda a gente devia.

4 bitaites segunda-feira, 8 de junho de 2009

A conclusão disto tudo (e bastou a primeira semana de Junho...) é: cede-se alojamento a troco de bricolage.
De repente vejo-me na pele da personagem principal de um grande épico.
São quatro as grandes montanhas que se me deparam, e vejo agora que é bem possível que façam parte de uma grande cordilheira central. Tentarei delinear.
Deram-me as chaves de um prédio a troco de dinheiro. Agora dou ali abrigo a quem sinta, com o tacto, e acarinhe, com as ferramentas, as suas partes. Já o tenho feito intensamente, e doem os músculos, as roupas estão estragadas, as mãos já mais não são de princesa. Foi como apalpar grande parte do edifício, apagar com um pano as alturas das miúdas a lápis nas paredes, retirar as missangas presas no soalho. Gosto de dramatizar e chamar-lhe um épico, fachadas destronadas, balde, escadote e esfregona.
Eu nisto tudo, sei lá um je ne sais quoi de COMO?!? E do trabalho meticuloso, cada centímetro de cada canto e pormenor da casa, o detalhe mais doce vi, mas no outro prédio que herdei: "Não passa de hoje." inscrito em local recôndito do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto.
Em Olivença, a maior parte das surpresas encravou pelo enjoativo cheiro a cão, a gosma que se enrolou com o chão, os fungos nas paredes. Já pouco disso há agora. Só dores nos músculos e tudo o resto, de raíz que aí vem.
Portanto, contrato de seis meses, possivelmente renováveis.
Que entre uma parede e a outra, há toda a meditação da vida, quem somos e para onde vamos. E também bolhas nos dedos, detergentes químicos voláteis, e um soalho inteiro para envernizar.

2 bitaites quinta-feira, 28 de maio de 2009

This post may come as a celebration for a great day that I just had, or simply as a manifesto for something that I should had already written. One thing I can tell you for sure: when I feel life couldn't get any better, I sometimes end up thinking about those who are being prevented from the same good luck.

Today I recall a good friend who deserves a better life than the one he has right now. I feel like sharing this story.

OK, so imagine a place where "40% (of the) people live below the official poverty line of 55 US cents a day". Imagine that not only you live there, but you also live it, in your skin. You have a family to support, you are a young man, starting your career. Often you remember those days back when you had no choice but to live in the mountains, in the jungle, because there was a bloody and silent war going on. You have seen people die, you have had to use a fake name - and you were a child, playing the "pretending game".

Ten years have passed, the fight was won.
You were lucky to have the opportunity to study and to graduate.
You now live in the most simple house, two rooms, a living room, a family of 15.
You are the only one working, to support your family - for several reasons. You were definitely raised with one thing in mind: share the little that you have with your people.

You have a good job, earning something like 200USD a month. With this money, you pay for your family's white rice and vegetables. Sometimes chicken. You are surprised to find out that in the same company where you work, the range of wages can go from 150 USD to some thousands of USD. You don't completely understand this huge difference, and you feel wrathful about it. You post about it in your blog. You are suspended from job.

So it is not about fighting for independence, for the castration now comes in different ways.

My friend belongs to a group of too many people who suffer wrong consequences and attacks for having used the right for online freedom of speech. Not only he has lost his job. His life and the life of 15 other people directly related with his have changed to a point of no return.

You've probably heard about bloggers being arrested or tortured in different countries, or websites being censored unjustly. It's something I feel we really need to take a stand against as bloggers.

One of the few groups that works directly with global bloggers on the frontlines of free speech is Global Voices Advocacy. It's a blog run by Sami ben Gharbia, who is himself a blogger in exile, together with a great community of authors.

We have an opportunity to help Global Voices Advocacy win $3000 simply by writing a post in our own blogs and inserting the short text you can copy on this page:

Let's do it!?

This blog post is part of Zemanta's “Blogging For a Cause” campaign to raise awareness and funds for worthy causes that bloggers care about.


0 bitaites sábado, 2 de maio de 2009

Não se comoveu pelo facto de encontrar o seu livro nas mãos de uma menina perdida numa ilha do fim do mundo. Em vez disso, disse que eu deveria encontrar o meu próprio rumo. Ir atrás de qualquer coisa que me elevasse. Ao encontro de um território desconhecido ou de uma loucura, como ir sempre no rasto do Sol, esse soberbo pintor que deixa o horizonte barrado de manchas de tinta quando se levanta e quando se deita, como se expusesse as suas entranhas, para que se veja bem o seu interior
Requiem para o Navegador Solitário, Luis Cardoso

4 bitaites sábado, 4 de abril de 2009

Quando voltei da cozinha, dei pela Violeta a observar o desenho procurando ângulos e perspectivas através do espelho. "Porquê Violeta?", "Para ver com outros olhos."
Multifacetada, também faz performances musicais. [update: mais uma performance musical!]

2 bitaites quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acabo de ler um texto inpirador, intitulado Women and how the entrepreneurial spirit can reach any corner of the planet and change lives, uma entrevista a Jacqueline Novogratz, CEO da Acumen Fund, que é uma «iniciativa sem fins lucrativos com uma abordagem empreendedora para resolver os problemas da pobreza global».
Depois de ler a entrevista, admiro as palavras e questiono-me: Mas afinal de onde é que vem isto das mulheres, em mim? E surgiu logo a imagem da Ervin à minha frente, e da história que se segue.

[Lembro-me sempre destas histórias quando tenho é mais o que fazer e devia estar a fazer tudo menos escrevê-las. Depois não consigo regressar à obrigação sem que antes a tenha registado, portanto aqui vai, como um exercício de (des)concentração.]


Conheci a Ervin através do Edwin, embora não ao mesmo tempo (já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos). O Edwin, em Kupang, capital de Timor Ocidental e de Nusa Tenggara, um dos arquipélagos mais orientais da Indonésia, passou-me o contacto da Ervin, de Bajawa, na ilha das Flores. Disse na altura que se eu ia para lá sozinha, a Ervin era a melhor pessoa para “dar umas voltas comigo” (“she is a nice girl, she will show you around, keep her number, believe me!”).

Ora bem, depois do Onny, timorense do ferry boat (repito: já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos), me ter levado a porto seguro e alimentado (soa dramático, mas é verdade!, e simples), e ainda depois do Heru me ter protegido e encaminhado (não preciso de repetir o que já disse do Onny e do Edwin), cheguei a Bajawa.

Lá, não me senti tão confortável como até então: naquela parte oeste da ilha, já existe uma influência qualquer do nosso mundo ocidental, que não se transmite em riqueza ou consumo, mas sim em algumas coisas mais depravadas. Não é confortável ser mulher, especialmente branca, e passear nas ruas daquela cidade de montanha. Já tinha ligado à Ervin na noite anterior quando cheguei, e ela ficara de aparecer no hotel ao final da manhã. Eu desisti rapidamente do passeio pela cidade, fechei-me no quarto, indescritível (penso-o com um sorriso na cara).


A Ervin chegou, de scooter e capacetes. Combinámos o preço de um dia de visita a diversas aldeias tradicionais animistas daquela zona (300.000 Rupias, aproximadamente 20€), e seguimos passando ainda na guesthouse da tia, e na loja de não sei quem, comprámos o meu bilhete de autocarro para a madrugada seguinte, e ainda fomos comprar comida e trocar dinheiro. Ela é da minha idade, boa onda, e fala inglês com umas variações deliciosas de inglês, como irão perceber a seguir com a história do filho dela.

Subimos montanhas na motinha impotente, parámos para tirar lascas de canela dos troncos das árvores, para cheirar as ervas aromáticas e ver flores de baunilha, cruzámo-nos, no meio do fim do mundo, com grupos de meninos e meninas pequenos e todos trajados no caminho da escola, cores fortes, sorrisos. Subimos acima de nuvens que protegem a ilha vulcânica, das Flores, cheia de vida.


Lá no cimo montanhoso e no fim da estrada (se é estrada, ou caminho que lhe podemos chamar), contou-me a história do seu filho. Que quando estava em Jakarta a trabahar (histórias de amor, quem não as tem…), um dia alguém bateu à porta da casa dela. Ela abriu e era uma senhora, prostituta, com um bebé nos braços, que lhe pedia para usar a casa de banho. Deixou-a entrar, mostrou-lhe o caminho, e aguardou. Tanto tempo até que foi lá ver o que se passava, e já só estava o bebé, ela tinha saído pela janela.

Bla bla bla, caos, e agora?, papeis, to make the long story short: chamou-lhe Hensome, por ser muito lindo, e ficou com ele. Como trabalha durante a semana, é a única mulher-guia da ilha das Flores, o Hensome fica com uma tia, doutra aldeia. A Ervin procurou e criou o seu próprio emprego para criar o filho, para melhorar a vida deles. Não sei se é verdade ou não esta história, de tão surreal, mas sei o resto, a família…


Porque no regresso ao hotel em Bajawa, cruzámo-nos com uma prima, na paragem de autocarro mais inóspita de sempre, que disse “hei prima hoje há cerimónia tradicional da aldeia dos teus pais” e a Ervin “eh pá a serio? Então eu vou. Sara, queres ir conhecer a casa dos meus pais? Podes ficar lá a dormir… Tu tens de ir, tu vais gostar”, e eu, why not, “sim, pode ser, só tenho de avisar o hotel e amanhã tenho o autocarro às 7 da manhã…”, e fomos. O que se seguiu foi a entrada directa, sem espinhas, para uma realidade que para mim só existia em filmes até então.


Chegámos à aldeia, um U de cabanas de bambu, encaradas por símbolos animistas, homem versus mulher, altares, católicos pelo meio, chão de terra e um bocado de frio. A casa dos pais estava cheia de gente, nem uma pessoa falava inglês, eram todos só dali. Ia acontecer coisa improtante naquela noite, as pessoas foram-se juntando na área comum da casa, que é sala, cozinha e entrada para o quarto, comum.


A cerimónia consistia na tomada da seguinte decisão: quem seria o homem da aldeia que no dia seguinte iria cortar um tronco de coqueiro à selva para substituir a madeira de um dos pequenos altares. Acontece de 11 em 11 anos.

?

Sim, isso. Ali não há televisões.

Os homens estavam concentrados numa divisão três degraus mais elevada do que aquela em que eu estava, sentada, sem saber onde pôr as mãos. Olhava para lá de soslaio, e a Ervin, finalmente conseguiu permissão para eu entrar, contra a vontade de um tio que achava que eu não tinha nada a ver com o assunto (eu não pedi nada!).


Ali ficava-se sentado no chão. O pé direito era demasiado baixo. Aguardava-se que a decisão fosse tomada por quem de direito, que se encontrava no terceiro compartimento, um buraco três degraus mais elevado, onde estavam as pessoas importantes da vila (era assim que a Ervin lhes chamava, “important people”).


No quarto onde eu estava, os homens fumavam, chegou um prato de arroz branco só cozinhado em côco ralado. Silêncio, espera. Veio a avó para o meu lado e deu-me a mão. Eu só queria estar ali invisível. A minha presença era demasiado importante. A Ervin deu-me um tais das Flores (sarong?), por sinal muito parecido com aqueles de Bobonaro, em Timor-Leste, e ia-me explicando, em surdina, montes de coisas daquela tradição, e da vida.


Quatro horas depois, a decisão veio, com um porco preto que mandaram vir, para o quarto intermédio. Catana em riste, golpe da testa, e sangramento do animal que guinchou e guinchou durante longos minutos. Quando o puseram na fogueira da cozinha ele ainda estava vivo. Eu estava branca, provavelmente com os joelhos e cotovelos a tremer. A Ervin tirava fotografias, mesmo contente, e eu disse-lhe que tinha de ir descansar um pouco (já era uma da manhã), e ausentei-me para o quarto.


Passado um bocado, estava quase a adormecer, a Ervin abre o mosquiteiro: “posso?” E a prima, e a outra prima, e a mãe, e um bebé de dois meses. Adormeci ali, com um bebé ao colo. Acordaram-me eram 4 da manhã, para ir comer os rojões do porquinho. Verde, mas não pude recusar.


Quase todas as semanas, desde que voltei, a Ervin, chama-me “sister” em sms trocadas como suspiros, e desta história ainda mais podia contar.

4 bitaites terça-feira, 31 de março de 2009


Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
Amália Rodrigues


Mensagem para aquele de nome vício: voltei a usar brincos. Toma lá!

2 bitaites quinta-feira, 26 de março de 2009

A cidade cinzenta tinha lugares escondidos, pequenas portas que quase nunca se abriam.
Várias vezes iam dar a vãos de escadas desiluminados, que eram também salas de fumo, ou paredes declaratórias de amores foleiros, ou simplesmente brejeirices perpetuadas, nem cómicas. Num fatídico 17 de Novembro, a Lei do Bom Senso exigiu ar para todos, abolindo tais fumos dentro do aquário. Os vãos de escadas não sucumbiram imediatamente, tornaram-se ainda mais obscuros. A grande novidade foi no bar do meio, que passou a ser só irrespirável pelo intensamente enjoativo cheiro dos panikes, gordurosos, que cada qual na sua vidinha, se permitia alarvemente devorar. Eu também. Queimavam a língua.

As horas de sol da parte exterior do bar do meio estavam diaria e metodicamente contadas. O espaço exterior do bar do meio estava afundado no meio de duas torres da cidade cinzenta, o que lhe conferia uma aura de desconforto ecoante, como que em pequenas doses injectáveis.
Gostava de me sentar lá sozinha numa cadeira de plástico vermelho, em finais de quartas feiras cinzentas, quando lá não havia mais ninguém. Talvez só o menino de preto.

É que um dia abri a portinhola metálica ao lado do elevador daquela torre, que tinha uma inscrição hexadecimal. Havia um escadote de cor espacial e máquinas que emitiam ruídos. Outra portinhola lá em cima, e uma perspectiva azul, inédita, abriu-se assim à minha frente. Consegui elevar-me, ver a cidade cinzenta como cenário.
Por lá falava-se (uns de mãos nos bolsos, outros com elas estendidas à frente, de indignadas), no relvado que ninguém pisava. Ora nós, ali, privilegiados, caminhávamos sobre pedrinhas redondas. Aproximámo-nos do limite.
Espreitando, vi ali um, só, menino, sentado. Estava, ficou e sempre permaneceu, vestido de preto, insistindo nunca tocar com pele na textura de cor tão crua.
Nunca mais lá voltei.

Escrevi uma carta a um dos nomeados representantes da cidade cinzenta, expondo aqueles que acreditava serem os contrastes a criar, para um futuro melhor, claro, numa visão de engenharia, iludida, abanada, a meio tempo no seu plano. Pudesse relê-la agora, existisse cloud computing na altura.

A cidade cinzenta não trazia mapa, e só hoje consegui sair de lá, trouxe comigo a planta que dali tracei. Procure-me agora ela, nos caminhos que não quis saber, ela ou eu.

0 bitaites terça-feira, 17 de março de 2009

Moving Cause, porque há que movê-las, quando são valiosas.

É o caso do projecto Bonecas de Ataúro, em exposição no Clube Literário do Porto. Trata-se de um negócio social que levou um grupo de mulheres timorenses a criar uma oficina de bordados e costura onde desenvolvem peças únicas e criativas, de grande impacto social e económico na comunidade local. A Moving Cause é a entidade sem fins lucrativos que representa as Bonecas de Ataúro em Portugal.

Nascida em Fevereiro de 2009, a Moving Cause promove e difunde projectos valiosos e isolados de empreendedorismo social a nível Global, dando-lhes visibilidade através da internet, e apostando na sustentabilidade dessas iniciativas através de formação em gestão de negócio e tecnologia e de apoio no acesso às TICs.

A Moving Cause constitui-se pois como uma das primeiras entidades de empreendedorismo social em Portugal. O nosso objectivo é o de propôr soluções inovadoras de intervenção social.

Com esta sessão queremos apresentar-vos a Moving Cause e conversar acerca da desmistificação dos temas da responsabilidade, empreendedorismo e negócio social, bem como do desenvolvimento sustentável, com o desejo de que em conjunto comecemos a "mover causas".

A Moving Cause convida para a sua sessão de lançamento que será acompanhada por um Porto de Honra.

Oradoras: Ana Boa-Ventura | Inês Carvalho | Joana Costa | Sara Moreira
Leituras: Ana Luisa Rego | Maria Sotto Mayor | Marisa Gonçalves
Data: 20 de Março de 2009 | 21.30
Localização: Rua Nova da Alfândega, 22 | 4050-430 PORTO Telefone 222 089 228 | www.clubeliterariodoporto.co.pt/mapa.htm

0 bitaites segunda-feira, 9 de março de 2009

Mestre Casal Aguiar e Paulo Castro Seixas

Trouxe-me à memória um rapazinho, esta exposição de fotografia (e o seu respectivo enquadramento pelo antropólogo, Paulo Castro Seixas*).
O rapazinho, por quem nutro grande admiração, tem a história que se segue.

Ele começava a pensar, era incontrolável, inevitável.
E só algum tempo depois é que reparou que quando o fazia, se escondia, fisicamente, mesmo que já estivesse sozinho antes. Era como se aquelas ideias só fossem de se ter longe, de si. Não era por haver Sol ou a elegia da sombra. Era sim um sorriso que só se tem de olhos fechados.
Repetia-se sem regra alguma.
E a pergunta, mostrar a alguém é explicá-lo? Questão que se prendia com as atmosferas, e se existe razão para elas. Há muito que passara a acreditar que uma explicação não é mais do que redutora, e para quê? É vivê-la, para fora, reflecti-la. Por dentro. Talvez tenha sido nessa *viagem que ensina a vida, a viagem que ensina a vida? Por vezes acontece, com aquela vertigem que é quando com ela se cruza, muitas outras viagens depois. A viagem que ensina a vida, confunde-se. Com a vida.

LUGAR DO DESENHO | FUNDAÇÃO JÚLIO RESENDE
Livro e Exposição POVO, LUGARES E PAISAGENS DE TIMOR
Fotografias de MANUEL CASAL AGUIAR e RUI LÉLIS
Rua Pintor Júlio Resende, 346 Valbom 4420-534 Gondomar Tel. 224 649 061 / 2
info@lugardodesenho.org www.lugardodesenho.org
exposição aberta até 14 de Abril de 2009


Sobre o artista, Manuel Aguiar, e o seu reencontro 42 anos depois com um dos fotografados, já escrevi antes aqui.

1 bitaites terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Porque a decalcada vida lá se liberta para a calma, o trépido dia-a-dia lá se esfuma na imensidão da ternura do aparentemente vazio. E pois, eu penso que lá deveria estar; que para lá tenho de ir; que lá algo me espera.

António José Borges

1 bitaites segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Dependi.
Conformi.
Pareci.

2 bitaites sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Era aqui, era aqui! Surgiu-me agora, como uma memória. Se não muito falei dele ou o registei neste blog, poderia tê-lo feito, pelas vezes que em mim suscitava alguma coisa. Buat ida, já havia alguma coisa.

Estava a ouvir as ondas brandas, meigas, a beijar a areia no meu fundo. No ar, o cheiro do churrasco a convidar o apetite, a abraçar a sugestão.
Ela disse assim, por símbolos, fui e um sorriso aberto. O sorriso veio depois de ter ido, ou permaneceu. De toda a forma, foi, com um sorriso. E a memória que surgiu quando a janela se fechou, era em mim um Baltazar (sim, os irmãos eram reis), que no erli sun se sentou - vinha com o alin, não dele, mas meu, irmão mais novo, e era impressionante: igual mas sem aquilo a que a Maria chamou "luz", o que está absolutamente correcto, já que é outro para quem o seu rei é luz.

Esteja ou não isto confuso, o que eu não sei é se falei ou não muito dele ou o registei neste blog, mas deixo esta fotografia, já que até agora o erli sun em imagens existia só na forma das palavras. Buat ida, já havia alguma coisa.
Eu, zen, Erli Sun, já noite, numa palhota em cima do mar, onde sempre quis estar durante o meu tempo em Timor. Nunca antes tinha lá estado, sei lá, talvez pelas vicissitudes da vida. Moris hanesan ne’e (já devem estar a ver com quem estava). E o cenário compunha-se para que um qualquer fenómeno disfarçado, desconhecido, fosse tomar lugar.

5 bitaites terça-feira, 17 de fevereiro de 2009




Obrigada ao Telmo pelo bacalhau, as favas, o vinho e o espaço. A abertura, a doidice, a visão e o apoio.

9 bitaites terça-feira, 10 de fevereiro de 2009


Naquele dia, eu ia sozinha, de bicicleta. Estava calor, pudera!, havia relvado - coisa rara - lembrou-me a Áustria (como é possível?). Lembro-me do exacto recorte da paisagem quando o Sol cai e as cores que se formam. Sei que havia um ligeiro desconforto pelo tom da minha pele, aquela presença ali assim. E sei-o, sei-o, sei-o: cruzaram-se sim!

Entrei em casa eufórica, o veneno já tinha começado a provocar-me uma comichão, que vinha sobretudo do coração. O pai tinha acabado de ir embora, para Bali, em breve dir-me-ia que não havia hipótese de mudar o meu vôo em Agosto. Ia embora daí a pouco mais de duas semanas. Até chorei, porque não podia ser. A Rita tinha o problema inverso. Fomos sentar-nos no alpendre, no chão... perna para um lado, com a cabeça nas mãos. (Depois tudo isto mudou, no dia da partida, e foi a maior adrenalina que senti.)

Patatipatata, resumindo e concluindo, depois das Bonecas de Ataúro, eis quem eu quero trazer...

2 bitaites domingo, 8 de fevereiro de 2009

E esta música que não me sai da cabeça. Não é fácil viver constantemente esta banda sonora, em todos os momentos, enquanto os outros falam, desde que acordo até que o faço outra vez.

17 bitaites segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

3 bitaites quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

antes


e depois

1 bitaites

Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!
António Cardoso

2 bitaites terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Meu deus, disse o q disse, o improvável aconteceu, e depois não mais conseguiu dormir, por tremer.
Começou assim «esta noite as horas todas passaram a sonhar contigo», a voz apareceu em palavras de intenção, subir todas as montanhas do mundo. Todos os que por ali passavam, só de olhar, enchiam-se de uma compaixão solene «é o amor isto nos meus olhos?»

E há um ano atrás,
Em vez de jogar com os genes,
vai jogar com as essências
ouvir o sussurro do vento que percorre as nossas montanhas do avesso.

0 bitaites domingo, 18 de janeiro de 2009


Das coisas mais impressionantes que vi foram cemitérios em locais inesperados, com ou sem fundo azul. O que impressionou nesses cemitérios não foi o desenquadramento da morte em cenário de vida tropical, mas sim o facto de a morte ter vindo, em massa, e em data única. Campas de todos os tamanhos, de nomes variáveis - por vezes, de apelidos iguais - e que coincidem na inscrição do dia final: massacres, esquartejamentos, "pedaços colados às paredes da igreja", encontram o seu descanso que se consome na doce balada do mar.

Pergunto-me sobre as marcas que ficam, na pequena vila de Liquiçá (na foto) onde todos os habitantes não têm outra opção senão recordar o que ali viveram em 1999.
Pergunto-me sobre o imaginário dos adolescentes que enquanto crianças assistiram a uma desgraça sangrenta assim.

E a ferida aberta que fica naqueles corpos que nunca apareceram depois de chacinas, torturas, genocídios pela auto determinação?

Amen.

3 bitaites terça-feira, 13 de janeiro de 2009


 

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