domingo, 15 de junho de 2008

Tenho andado com o coração nas mãos. É assim, no outro dia alguém disse quando chega a meia noite vêm os arrepios (isto descontextualizado soa a poético qual eco no meu avesso de quem está a divagar num espaço qualquer imaginado entre a relva que pisa e as constelações deste lado do equador)

…entro numa cerimónia tradicional dos festejos do Santo António, arrepio-me de olhar as senhoras embrulhadas nos tais, a tocar o batuque com a sua postura impecável. E os homens, decompostos, saltam, dançam, atrás delas, catana em riste, repetindo insistentemente “tama mai” / “entra vem”, o dia inteiro, chamando as pessoas para a festa. Agacho-me, de cócoras, e os meus pés ganham raízes ali à porta.

…cantam “donde vas mariposas vuelen”, sotaque local, com estranhos penteados, pés descalços, num palco ao meu nível, em contra luz mas sei a direcção do olhar, arrepio-me de calor dos trópicos.

…vivo numa balbúrdia de país, com diferenças sociais brutais (não gosto de usar esta palavra, nem que a usem), cravadas nas cores da pele, no dinheiro no bolso, na rotina do dia-a-dia, na fauna que se junta como no jardim zoológico, arrepio-me por estar a viver uma circunstância sociológica única. Por mais doloroso que seja, não há outro país como este, recente, tropical, ferido, invadido.

…ouço o #41 do Dave arrepio-me de outros tempos, “playing time against my troubles, oh”.

…entro no mar quente, arrepio-me de frio.

…penso no futuro incerto, arrepio-me de planos.

2 bitaites:

ines disse...

sentimento caucasiano ocidental perante a cultura ínsular oriental de Timor --> desencaixe!


Tb quero...:)

sarita disse...

vem para cá desencaixar-te!
ouvi dizer que o que mais têm é natureza e que lhes falta filósofos agrários para escavar o sentido das culturas.

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