quarta-feira, 4 de junho de 2008

Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. Tenho medo da sua falsa inocência, da sua submissão aparente, da sua eficácia tenebrosa, do seu ódio silencioso e vesgo. Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. Escrevo à mão para que os erros sejam meus e as personagens iguais aos da minha cabeça e não resultado da imaginação delirante e asséptica de uma disquete esquizofrénica, inventando situações desconfortáveis e aberrantes como as dos sonhos das gripes. E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contra-gosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla ou em que me encontro junto de alguém que carrega numa tecla, a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio Cambo onde os olhos dos crocodilos dançam à flor do lodo à espera da imprevidência de um cabrito.

António Lobo Antunes, Crónicas

5 bitaites:

mãenuela disse...

"Amanhã recomeçarei a vida pelo princípio, serei o adulto sério e responsável que a minha mãe deseja e a minha família aguarda, chegarei a tempo à enfermaria, pontual e grave, pentearei o cabelo para tranquilizar os pacientes, mondarei o vocabulário de obscenidades ponteagudas"
António Lobo Antunes, Memória de Elefante

Anónimo disse...

Poema para ler quando se é português e se anda um bocado confuso sobre o que é ser isso em Timor:
PORTUGAL
Quem sou...quem fui? Toda a terra
Que o diga, que o aprendeu;
Diga-o na paz e na guerra,
Diga-o ela, que não eu!
Quem fui, que o digam cem povos,
Que o digam os climas novos
Por onde primeiro andei;
Que o digam cristãos e mouros,
Que o digam troféus e louros,
Que eu nem dizê-lo já sei!
(de João de Lemos, 1819-1890)
Quando a mim, preso à minha "vidinha", aqui em Sines, morro com saudades de Timor...
Augusto Lança

Anónimo disse...

Sabes Sarita, eu tambem morro de Saudades de Timor...
Neste momento, o meu maior desejo era voltar...

ines disse...

....existem macs! ahahaha!!!


:)

senão fossem os computadores, não estavas aí...

mãenuela disse...

esta inês, não sei qual delas é ,( a eis holanda, a da musica, a resingona, a do país dos tó-tós?), diz umas acertadas...

Enviar um comentário

 

Copyright 2006 | Template cedido por GeckoandFly e modificado e convertido para Blogger Beta porBlogcrowds.
Muito obrigada :) Se queres conteúdo reproduzir, basta pedir!