quarta-feira, 21 de maio de 2008

Ao desmistificar duas facetas de Timor que me deixavam curiosa, encontrei o desencanto e a dor.

O sorriso complacente é uma constante da falsidade. A boa maneira oriental dita que ele deve sempre lá estar. E traz calor ao não pensar no que lhe é anterior. Isto é, muitas vezes me questionei acerca do que passará pela cabeça de quem sorri, porque as caras não são só músculos, têm toda uma máquina por trás. Questionei-me e respondi-me agora, que os sorrisos são de facto só os músculos da cara habituados por quem os mantém forçados, tal como aquela típica posição de cócoras (calcanhares assentes) que a nós, ocidentais, nos impressiona só de ver, mas para eles, orientais, é confortável. Descobri da pior maneira - que é não ter uma explicação mas simplesmente supor - que aquele senhor que todos os dias me enche o coração de sorrisos abertos afinal me tem como ímpia desregrada por ter amigos timorenses, mas não faz parte da sua etiqueta com sinceridade fechar a cara. Há uma resposta típica que retrata bem a mensagem que quero passar. “Senhor, tem goiabas?”, “Tem sim mana. Tem, mas não há.” Nunca se pode dizer não nem mostrar que se acha mal, com mais do que insinuações subtis, que podem perfeitamente passar ao lado de quem não conhece os complexos esquemas que relacionam , à forma timorense, signos, significantes e significados (há tanto que me passa ao lado…).

O pudor nesta terra tropical está bem distante da sensualidade das Áfricas homólogas, o que faz com que apesar da temperatura que procura deleite, da humidade que convida à nudez, Timor no feminino se cubra dos ombros aos joelhos. É ir à praia de águas quentes, e vê-las em banhos (raros) de calções e camisa... (No entanto, ninguém me tira da ideia que o biquini, por menos tecido que tenha, seja menos provocante que o espectáculo Miss Tshirt molhada que a outra opção proporciona.) Parêntesis à parte, dolorosamente percebi toda a vergonha ao ler, no Madre Cacau, relatos de violações, abusos, desrespeitos, durante a ocupação indonésia. No tempo português, era aceite que as mulheres mantivessem o tronco nú usando só as lipas ou os tais como saias compridas. Durante a ocupação eram raptadas miúdas que eram mantidas em caixas nos campos das forças indonésias, ou traficadas para a Indonésia e acolhidas como escravas domésticas, as filhas eram devolvidas às mães em troca do abuso de outras filhas. Como se curam estas feridas? (retórica :)

2 bitaites:

ines disse...

pois é... entrar na cultura de outro país/sociedade, é doloroso. tirar a nossa moldura social/cultural/identidade do nosso país e realizar que o que fazemos com toda a naturalidade é errado no lugar em que estamos, cria um curto circuito cerebral bastante complexo.

e bate no pensamento o ditado: em roma sê romano... mas nunca se está preparado para isso.

Após a percepção deste facto, é só aprender a lidar com a coisa.(portuguesa-ocidental com a capacidade de entender e interpretar os timorenses e de agir de forma a contornar as barreiras.)

sorri também:)

Anónimo disse...

E os portugueses são os asiáticos da Europa, pois têm precisamente essa faceta do sorrir e nunca dizer explicitamente que não. E é muito possível que o tenhamos importado dos povos do oriente com quem nos mestiçámos. E nós aqui no Alentejo temos até uma expressão adequada: fazer-se de mula. Estou a ler o "Ir para o maneta" do Vasco Pulido Valente, e esta faceta parece ter dado bom resultado nas invasões francesas. Sorrimos no princípio e depois caimos-lhes em cima....
Augusto Lança

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