terça-feira, 6 de maio de 2008

Acontece por vezes em Timor que me despejam um balde de água fria, mais de perto ou mais de longe, que me congela a espinha dorsal.

Há vários escalões para os professores do pólo da FUP na Universidade Nacional de TL. Eu estou no mais baixo, por não ser professora em alguma universidade portuguesa, e recebo só as ajudas de custo de 1200 USD (bastante miserável tendo em conta e a desvalorização do dólar e o custo de vida inflacionado em Timor pela presença abrupta de internacionais cujo salário mais comum é os 2500 USD dos voluntários UN). Para quem está associado a alguma instituição de ensino superior em Portugal, e é desde assistente a professor catedrático, pode receber ajudas de custo até aos 2200 USD, mais o salário em Portugal. O salário dos professores do resto da UNTL, que funciona na língua bahasa-indonesia, é 200 USD. Este ano há dois professores timorenses a dar aulas aos cursos de Engenharia Electrotécnica e Economia e Gestão da UNTL-FUP. Ambos estudaram e trabalharam em Portugal nos últimos 11 anos, já têm a nacionalidade de Camões. Regressaram agora a Timor para leccionar através do programa da FUP no qual estou envolvida. Qual a minha surpresa quando soube que eles, apesar de não serem profes em Portugal, como eu, não recebem os mesmos 1200 USD mas sim 200 USD, “para não levantar discrepâncias entre os professores timorenses”. Acho isto um escândalo.

O bairro da cooperação onde vivo pertence à embaixada de Portugal e tem um regulamento que dita regras tão interessantes como o que fazer se as lâmpadas fundem, quem é o gestor do bairro, a quem é que este reporta, e através de que intermediários é que nos podemos dirigir a ele. O regulamento indica também que devemos desligar as luzes e fechar as torneiras quando saímos de casa e que não podemos ter visitantes externos depois da meia-noite. Em relação a estas últimas, claro que não ligamos nenhuma e é ver a água a jorrar pelo alpendre, a aparelhagem a tocar e o festival de luzes para chamar mosquitada quando saímos. Claro que há visitas, até de madrugada, quando não a noite inteira, e nunca houve problema algum com isso, salvo excepção: se a visita for timorense, os próprios seguranças timorenses do bairro vêm avisar que é meia noite e que tem de sair porque o regulamento do bairro não permite visitantes depois dessa hora. Acho isto um escândalo.

O barco que faz a travessia para Ataúro tem o bilhete amarelo, para timorense, 2 USD, e o bilhete azul, para malai 5 USD. Quem dita é o ministério dos transportes. Isto não acho um escândalo, nem que os preços dos livros na feira do livro fossem de 1 a 3 USD para timorense, e de 9 a 50 USD para malai. De facto temos mais poder de compra. Por exemplo, um engenheiro informático timorense a trabalhar na Timor Telecom (que pertence à PT) recebe 230 USD, mas um engenheiro informático da PT que venha de Portugal há-de receber os seus 4000, em EUROS.

Fico triste com tantas diferenças, não sei o que vai acontecer à economia do país quando os malais todos desaparecerem daqui (há-de acontecer mais cedo ou mais tarde), vive-se o apartheid em cada esquina, e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Ou há?

6 bitaites:

Filipe disse...

Talvez seja uma pergunta retórica, mas vou tentar responder de qualquer das formas... :)

Suponho que abrires aí uma empresa com trabalhadores timorenses (e salários europeus) que exporte software para a europa deva estar fora de questão?

É certo que seria uma gota no oceano, mas todas as gotas que os aceanos têm vieram de algum lado ;)

até à vista.

mãenuela disse...

Haverá alguma coisa que possas fazer? perguntas tu.
Aproveitando a deixa, ocasião rara de poder dar concelhos, a pedido, acho que há muito a fazer:
1º desabafa no blog
2º Escreve à FEUP`e à FUP , manifesta-lhes o desagrado e pede aumento de ordenado
3º já agora escreva também à UNTL e manifesta-lhes a tua indignação
4ºEscreve à Embaixada e pede para reverem o regulamento, ponto por ponto
5ºFala com os guardas e tenta explicar que as regras e a flexibilidade deve ser igual para todos
6º Escreve à PT e manifesta também a tua indignação
7º Aproveita o tempo livre para essas actividades
8º Think globaly, act localy
9º goza muito, gasta pouco

Anónimo disse...

Pois é Sari são as injustiças políticas, económicas e sociais que nos acompanham há muito. Se cá se sente imagino aí...
Há sempre maneira de ir diminuindo essas diferenças, as regras do bairro são um escândalo!! acho que começava por aí. Quanto aos salários as hierarquias vão sempre existir, pois existem diferenças entre professores que dão aulas na faculdade há 5, 10 e 20 anos e se as experiências são diferentes os salários também devem ser. O que mais me chocou foi a história dos dois professores Timorenses que ao abrigo da mesma instituição e com experiências semelhantes às vossas, recebem um salário tão inferior. A FUP não se está a portar nada bem..
Mãos à obra!! há muito a fazer por aí.

Bárbara

neca disse...

Só pa dizer que gostei do Goza Muito, Gasta Pouco.

Tu aí podes ir longe, mas por favor vai a pé...

Anónimo disse...

Viva! Aqui em Sines existe desde 1960 um posto retransmissor da rádio nacional alemã. O pessoal que ali trabalha ganha todo de acordo com a bitola alemã, desde o engenheiro à mulher a dias. As mulheres a dias têm todas brutos carros (acho que não é para levar a esfregona). Aí na TT e na UNTL o caso é diferente. São instituições timores que acolhem malaes para trabalhar e estes terão que ganhar pela bitola do país de origem se não não vão.
Os vencimentos dos prof's: são uma indignidade.
Augusto Lança

sarita disse...

oh filipe, nesse caso, eu pagava lhes ordenados timorenses e metia o resto ao bolso!... és mt bonzinho :)

mãe, obrigada pelos conSelhos.

bárbara, eu estava a queixar-me dos salários dos outros (timorenses) e não do meu, mas claro que não me importava de receber mais qualquer coisinha...

neca, desde q disseste que as minhas pernas sao celuliticas que nao quero mai conversa contigo.

augusto, bons olhos o vejam!

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