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3 bitaites segunda-feira, 26 de julho de 2010

Eu cá sou concreta e concretamente digo que já era sem tempo, uluk liu, expressão que sempre gostei de usar, enfatizando aquilo que há muito, muito tempo, como nas fábulas, era uma vez, imaginando, em que o Amor movia montanhas, sem nada ter de romântico, e que elas vinham e estavam muito além desse mundo onde bem se confundem tais fenómenos naturais e geológicos para redutoramente personificar-se em alguém, que muito deu ou faz sentir, a intenção dos nossos gestos. O mesmo Camões que tanto procurou defini-lo é quem nomeia e baptiza esta rua de Sines que nos acolhe.

Eu cá sou concreta, o meu betão faz-se de terra, e os olhos só vêm assim do que pouco se diz por letras trocadas, quando muito melhor se sabe, entre gestos, interpretados, agora, iha tempo uluk liu, iha oin seluk liu, ou há um ano atrás, e generalizado na seguinte afirmação, definição maubere para stand by, interpretada e traduzida para "procura esquecer tudo e o que tiver de ser acontecerá". Simplesmente. Não tão simplesmente. É que de muitos braços se concretiza.

Entro no estúdio da Escola de Música de Sines, meto-me de cócoras, a canto, embrulhada em tais, e é vê-los, aos Galaxy, a ensaiar Timor. Eu de cócoras, a observar, os gestos, a saber as vibrações do som no cenário azulejado, real, construído, de alicerces feitos de terra e betão galáctico dentro de cada e entre todos nós. Brindemos aos pés na terra e à cabeça nas nuvens.

GALAXY no FMM Sines: Uma das principais bandas timorenses pela primeira vez em Portugal


Timor-Leste marca presença pela primeira vez num grande festival de música de Portugal: os Galaxy, uma das principais bandas da actualidade timorense, fazem a sua estreia europeia no palco do Festival Músicas do Mundo de Sines no próximo dia 31 de Julho e vão estar em tour por Portugal este verão.

Vêm do extremo Este de Timor-Leste e para além de Sines passarão por Coimbra (Salão Brazil a 5 de Agosto), Porto (Praça Filipa de Lencastre, 6 de Agosto) e Lisboa. “Timor-Leste é uma nova nação e quer mostrar ao mundo a sua identidade através da cultura e da música, agora à luz da liberdade”, afirma o vocalista, Melchior Dias Fernandes.

A música dos Galaxy é representativa do espírito revolucionário da juventude timorense, que cresceu durante o tempo da ocupação indonésia: os cinco artistas destacam-se pela sua rebeldia, consciência social e jams envolventes. Através da música fazem convergir sonoridades modernas e tradicionais do povo maubere, enquanto abordam questões como a tradição, o HIV, o género, o neo-colonialismo e o roubo dos recursos petrolíferos.

Os Galaxy nasceram da Arte Moris, a única escola de arte do país, criada como um abrigo para as crianças e jovens de rua no pós-conflito de Timor. A escola, gratuita e sem fins lucrativos, é hoje um modelo de empreendedorismo social de grande prestígio, sendo apoiada pelo Nobel da Paz e actual Presidente de Timor Leste, José Ramos Horta, e tendo sido distinguida em 2003 com o prémio das Nações Unidas para os Direitos Humanos. A Arte Moris (“Arte Viva”) é um espaço auto-sustentável e comunitário, onde os artistas residentes se dedicam às artes plásticas, representação, audiovisual, música e paisagens sonoras.

Também em Sines, os Galaxy estão a promover oficinas de arte e música com crianças, criando um raro espaço de partilha de cultura entre países irmãos. Foram ainda convidados a participar na Universidade de Verão da eco-aldeia Tamera, em Odemira, para abordar o tema da paz juntamente com activistas e pacifistas de todo o mundo.

O grupo apresentou-se ao público em 2002, e Portugal é o terceiro país onde a música os leva: tocaram no Darwin Festival, na Austrália, em 2006 e 2008 e em Bandung, Indonésia, em 2007. A sua digressão em Portugal está a ser organizada pela Moving Cause, associação sem fins lucrativos, dedicada à disseminação do empreendedorismo social.

Recentemente no programa Câmara Clara, “Músicas do Mundo: Da Tradição ao Futuro”, o jornalista António Pires, especialista em músicas do mundo, descreveu a sonoridade dos Galaxy como “reagge heavy metal absolutamente fantástico”.


Mais informações: Sara Moreira | Moving Cause | 93 830 53 44 | saramoreira@movingcause.org | www.movingcause.org

Myspace: www.myspace.com/galaxytimor
Arte Moris: http://artemoris.org/about_us.htm
Blog: http://galaxytimor.wordpress.com
Festival Músicas do Mundo 2010: http://fmm.com.pt/programa/sabado-31-de-julho/galaxy-timor-leste/
Concerto Coimbra: http://salaobrazil.blogspot.com/2010/07/galaxy-timor-leste-5-de-agosto-21h45.html

Entrevistas:

0 bitaites quinta-feira, 20 de agosto de 2009










Ha'u koko
Haluha ne'e hotu
No se ne'e los
Entaun acontese deit.

(Na foto, do outro lado)

1 bitaites quarta-feira, 15 de julho de 2009

3 bitaites terça-feira, 14 de julho de 2009

Gosto, eu gosto deste lugar. É o desconhecido mesmo que já familiar, o imprevisto e a forma de actuar. Eu gosto e quero sempre voltar a este lugar.
Posso ser uma lírica e vê-se, não só no guião, mas também no caminho que estou a desenhar, mas aqui não penso, só vivo o que aparece por trás da sebe improvisada de qualquer quintal.
E se pudesse vivia só disso, do ir andando e sentando com as pessoas, calada ate esgotar todos aqueles que pudessem dizer, como disseram "Nunca na minha vida pá... Tem malai america, malai australia, malai filipinas, malai brasil, portugal... malai barak. E foi preciso esperar muitos anos, mas chegou o dia em que malai veio e sentou a volta da nossa mesa, só para comer batar, beber tua mutin, trocar palavras, como nós fazemos todos os dias a vê-los passar."
Agora o calor assentou na pele, descobri que isto não é coisa visceral, é de pele mesmo, de flor que se comove. E, como este post, fica sempre por acabar, como um fio preso que mais tarde ou mais cedo vai ser preciso puxar.

7 bitaites domingo, 7 de dezembro de 2008

The results of the giveaway contest are out!

(Ohh if only I could write this in Portuguese there would be so many sharp adjectives to fluently use!...)

I feel such a huge thrill that I cannot stay in bed for one minute. So I really need to write this as a way to bring all my guts out (hmmmm maybe this doesn’t sound good in English - translating by word - but I hope you get the idea…). I have to explain to you, Liz, the meaning of the choice you have made.

I have just had a really depressive, woman-in-a-bad-day, greyish, cold Saturday. Feeling homesick from my other home, East Timor: I am back in Portugal since September. There, I can feel a warm life going through my veins, feeling sure, all the time, about the following dogmas: perseverance, truth, and will.

So today I was hiding under this low vibe umbrella… Two good friends came by for dinner, and as soon as I opened the door, both of them said: “what’s the matter? I hadn’t seen you with that look on your face since those days before you knew you would go back to Timor, in March…” The truth is that what I have been going through since I am back home is standing in a limbo between “I really want to do this” and “it is so hard, I am going to give up the dream for a more conventional future for myself”.

In order to make myself clearer (I hope!), let me go back to that period when I went for the first time to Timor, in March 2007. It was a short experience, because, after almost two months of teaching Artificial Intelligence and Internet Technology at the National University, I had a terrible car accident in the mountains. (You can check some breathtaking pictures about this in here .) The year that followed the accident, for me was a confusing blur of injustice, pain and will. I was evacuated back home in a drastic way when I was starting to develop a giant crush by that land, Timor. Leaving at that time was somewhat similar to abandoning an unresolved issue. I have also had my share of wheel chairs, which made me totally sympathetic with that cause (in Timor and Portugal the infrastructures accessibility for disabled people are a shame…). That unfortunate event taught me a lot about life goals and missions.

I broke
something
today,
and I realized
I should break
something
once a week...
to remind me how
fragile
life
is.
Andy Warhol
Therefore, after a hard self-confrontation period, and only in the moment I felt ready to go back (after 3 surgeries, long physiotherapy sessions and an unexplained “have-to” will), I simply did not hesitate. I packed for a new journey.

In my experience in Timor this year I have learnt several valuable lessons… Not only related with my job as a teacher, but especially about social issues, cultural differences, information gaps. Many times the question “but what do people really need?” has travelled my thoughts. The fact that I also learnt how to speak the local language enabled me to have direct contact with a reality that goes far beyond the one that we, westerners, are used to.

So now I have chosen as a cause to offer all my possible efforts to the digital divide problematic, and I want to relate digital exclusion issues with social entrepreneurship answers, specifically in Timor, for now.

Today, even though I was feeling so sad, I accepted my friends’ invitation to go out. We ended up singing Pixies Hey song under the cold December rain: “been trying to meet you, uh uuuuh”.

When I arrived home, almost dawn, and checked my inbox (geeky girls don’t go to bed before checking email…), I found out about your choice, your decision.

And from all this, once again I have learnt: it doesn’t matter how grey your day has been. What matters is that you carry with yourself the strength to sing really loud the things you truly believe in. And have faith in it, because if you do believe, then it will all turn into reality.

It is almost 8 a.m. now. I can finally go to bed with a big smile on my face. Thank you Liz.

5 bitaites quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Liz, and all,

I want you to have an idea of the very little that people in Timor have so that you can appreciate the very much that your laptops would bring to young women there.

I took the following photos when I was teaching Computer Engineerig in Dili from March to August this year. On the first one you see me with a good friend's familly (wonderful people!) and on another one, you see the interior of their house. So this is a 'privileged ' Dili's citizen (one with access to the University) familly house, in the mountains. At night the family gathers around the old radio to hear the news. Cost of the Internet is 3.000 USD a month for a 256 kbps connection.



As you can see, your laptops would truly make a difference for young women in Dili, Timor!

[Me teaching girls at the National University]

9 bitaites terça-feira, 25 de novembro de 2008

2 bitaites sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Chegam-me notícias daquele que acredito ser o homem da minha vida. Que é Timor, se Timor é um homem ou um mar. E acho lindo dizer isto. Ele já sabe agora, que parti, mas nunca o discutimos frente a frente. Isto traduz-se em telepatia intercontinental de "ha'u hein… ha'u hein". Digam isto devagarinho e com os agás aspirados para perceberem.

Ele disse "tenki ser". Ora a ideia de ser-se, muito menos obrigatoriemente (tenki = tem que)!, não existe por aqueles lados. Pelo menos transformada numa só palavra, como ser em português.

Este fenómeno da inserção pontual de palavras estrangeiras no tétum advém da necessidade de abstracção, ou até mesmo do desconhecimento de como o dizer na língua oficial local, já que não é essa a língua mãe de grande parte dos timorenses.

Obviamente que este fenómeno está também relacionado com o facto de existir uma partilha de pódium das línguas oficiais do país. O português vai marcando terreno com aquelas palavras poéticas como o nunca, o sempre, o ser.

E a verdade é que, por ser o tétum uma língua tão simples, que nem abstracções, pelo menos como as entendemos, as tem, consegue-se, ao traduzir para português, dizer poesia simples. Ao natural.

E por isso é que me apaixonei por Timor. Porque ele fala a minha língua.

0 bitaites quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Huh! (unkown) - Galaxy


Hoje sinto saudades, insuportáveis, como facas.
Não quero usar meias de lã nem golas altas, nem quero sentir o céu cinza em cima de mim, se dele não vai cair uma chuvada da qual não tenho de me abrigar.
Hoje só quero se for em tétum, e como abrigo, enrolo-me um tais.

--

Ohin ha'u nia laran moras, maka'as liu, hanesan catana sira mai ha'u nia an.
Ha'u lakoi hatais roupa mak manas, ha'u lakoi senti lalehan malahuk iha ha'u nia leten, tamba udan ne'e malirin, la'os hanesan Timor nian. Iha ne'eba ha'u lalika halai.
Ohin ha'u hakarak buat ida se buat ne'e ho tetum. Ohin, atu kous deit, ha'u hatais tais ida.

2 bitaites quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Era certinho, sagrado.

Todos os dias, saída das aulas por volta das 18h30 caminhava calmamente, havaianas, até ao Bairro. Nos meses de Junho e Julho, anoitece mais cedo, é Inverno, e talvez por ser a época seca, desenham-se tons densos de rosa e laranja no céu. Sem ou quase sem nuvens. Eu gosto mais dos pôres do Sol com nuvens, mas o certo é que aquela gama cromática, dava uma óptima entrada na penumbra que se seguia.

Entrava em casa, cobria-me de tunicas e lenços, para voltar a sair. Não estava frio algum, mas tinha de me tapar. Com a penumbra vêm também os mosquitos, que me adoram.

Saía de casa, descalça, e ao lado da minha casa (é a 2?), entre a parede do meu wc e o muro imponente que separa da rua que vai para Colmera, existe um pequeno arvoredo. Papaias, que são altas, e duas árvores, semi-raquíticas onde a rede que trouxe do Camboja encaixou muito bem.

Colocava as duas espirais de incenso insecticida em dois pequenos raminhos partidos: um perto da cabeça e outro perto dos pés. Deitava-me, a olhar o topo do Hotel Timor, vestia o iPod, fechava os olhos, ou deixava-os semi cerrados, e começava a cantar muito e bastante alto. Essencialmente a Marisa Monte, Sloppy Joe, e uma ou outra música timorense :)

Se alguém chegava ao Bairro, não me via, mas ouvia. O meu sítio era secreto. A rede é tão pequena que só eu caibo lá (talvez um dos seguranças às vezes batesse ali uma sestinha). Se fossem perguntar por mim a minha casa, os senhores professores que vivam comigo (cada um com a sua panca!), apontavam envergonhados para Sul: a miúda está doida... não a ouves?

E às vezes lá aparecia um ou outro, e a minha terapia diária de evasão terminava assim.

0 bitaites quarta-feira, 3 de setembro de 2008

Geologicamente falando, a ilha das Flores eh uma sucessiva sobreposicao de planos incriveis de montanhas vulcanicas, densamente cobertas por uma vegetacao que transborda vida verde. Biologicamente falando eh um museu vivo de frutas e madeira, embora nao tenha visto de memoravel aquilo que justifica tal nome de baptismo.

A ilha eh linda e grande. A ilha era dos portugueses, mas os portugueses ofereceram-na aos holandeses, em troca do mini-distrito de Liquica (Maubara) em Timor Leste. Tenho pensado muito nisto. Porque raio eh que terao trocado uma ilha inteira cheia de riquezas como esta, por mais um bocadinho de Timor?

Cheguei a conclusao que eu tambem ja fiz o mesmo, ao trocar a possibilidade do meu mes e tal de ferias a explorar a Indonesia por mais uns dias em Timor, e depois so duas semanas para esta viagem. Sao opcoes que nao se justificam e so se sentem. De coisas mais praticas, falarei ao vivo.

1 bitaites


Ainda na demanda do tasi mane, fiz-me a estrada na biskota Dili-Maliana. Terca feira as 6 da manha. Era para ter saido na Segunda, mas a noite de Domingo foi demasiada em divagacoes e nao acordei depois. Em Maliana tinha ficado de ligar ao Pedro Laranjeira, ex-aluno UNTL/FUP, uma pessoa boa, engracada, sorriso aberto, olhar cativante, bigode, pai de quase 2, com quem ja troquei boas e algumas conversas. O telemovel esta desligado. Vou ou nao vou para Bobonaro? Ele disse que estaria por la a fazer o projecto de medicao florestal com a cooperacao Portuguesa (dar-lhe-a passaporte para portugal daqui a pouco tempo). Esta indecisao nem chegou a ser porque os colegas da biskota ja me tinham enfiado na outra com aquele destino, onde o pessoal estava animado, mesmo apesar dos sacos de arroz serem mais que muitos. Nao sabem que os percebo e mandam bitaites "porque eh que ela pode trazer esta mochila enorme ca dentro e as minhas coisas estao em cima do tecto?". Fecho o bico e rio-me por dentro.

Bobonaro, o fim do mundo, nao so por ser longe de tudo, isolado, mas porque tem aquele aspecto de que o mundo ali ja acabou e o que sobra sao so as ruinas de tudo escavacado, desleixado, incendiado, abandonado. Ai meu deus onde me vim meter levem-me a policia. Na policia descubro o acampamento. Descubro tambem que ao contrario do que pensava nao so la esta o Pedro e o Marco (coordenador portugues, recem-caloiro em Timor), mas tambem 15 outros agrarios timorenses. Tasse bem, uma tenda para mim, outras duas para voces. Entre o passeio as termas, o jantar partilhado de marmita, o desfazer do acampamento na manha seguinte, ouco-os a discutir muito, mas nao percebo nada. "Pedro, hau la hatene... Bele explica mai hau?", "Depois explico professora." Entro na pickup ao lado dele, os outros marmanjos todos atras, na caixa aberta, coordenador inclusive:

"Eh que nos queremos leva-la ao tasi mane, e pensavamos que o coordenador hoje nao vinha para o campo conosco. Mas ele afinal veio e nao conseguimos assim fazer o desvio de 4h as escondidas dele! Estamos a tentar arranjar uma forma..."

3 bitaites quarta-feira, 27 de agosto de 2008

o monumento ao papa em tasi tolo:

o alin, irmao mais novo substituto:

um fim de semana inesquecivel, roots, inserida no seio da familia da zulmira, 100% tetum. forte. ainda recupero das emocoes...

o por do sol na noite do concerto reggea na praia:

4 bitaites segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Ai finalmente!, parece, com alivio, com sorriso, com o coracao cheio.
Vou embora.
Fiz o que tinha a fazer, espero voltar, mais ou menos em breve. Parece que o mar do Sul eh um mito: pelo menos todas as minhas tentativas de la chegar sairam frustradas. Entao desisto, e assim fica aquela aura de misterio no ar do que sera um mar timorense que se chama Homem. Eh um mito tao grande, que eles nem tem palavra em tetum para designar o Sul onde se encontra. Ou seja, nunca ninguem la vai...

Entao ficamos assim. Felizes.

1 bitaites sábado, 16 de agosto de 2008

Já sei qual o motivo que me trouxe a Timor, desta vez. Vim procurar a palavra mais linda do tétum. E o que encontrei é expressão, único.

Oin seluk liu. Traduzir à letra não pode ser, nesta língua em que o quem se confunde com o se. Diz-se isto de alguém, que é único, e a ideia (da dita tradução) é de que não há outra cara como a dele.

Agora que encontrei a expressão, já podia seguir viagem, sentir outros ventos, mas fica sempre a vontade de poder dizer outra vez oin seluk liu. Ouvir também sabe bem, e é tão confortável por aqui ficar, percorrer a pé os caminhos, mais, ou menos, povoados, fazer tudo com calma, falar devagar e muito.

0 bitaites quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Olho para esta cama de rede, entre dois pilares, e penso que em tempos me fascinaria calcular, com todos os vectores e forcas graviticas do mundo, qual a forma, mais cientificamente inteligente, de me deitar sobre ela, evitando o desgaste do seu lado direito fragilzado, de mil e uma linhas em rompimento.

Olho para a cama de rede, azul, um tais, e vejo, ali acima, bem no centro, um espanta espiritos de cristais cor de rosa, num gradiente dimensional, simetrico, perfeito. Ouco o tilintar suave, implicito na aragem da noite, embalado pelo balanco denso das copas das arvores que me cercam.

Entre mim e ela - a cama de rede -, tenho uma unica vela vermelha, baixa. Todo o restante bairro de Vila Verde sofreu um colapso de luz. Um corte, digamos.

Vou subir para a cama de rede, e deitar-me preguicosa nela. Deixar uma perna de fora, cruzar os bracos acima da cabeca, e contar os cristais que se iluminam com o cintilar da vela.

1 bitaites terça-feira, 12 de agosto de 2008

Foi assim, na véspera da partida, domingo, acordei de malas por fazer, fiquei sentada na cama a olhar o meu redor cheio de tais, roupa, sapatos, espanta espíritos, colares, sabonetes, papéis, medicamentos, livros, conchas, cestos, lipas, artesanato. Bloqueada, decidi ir para a praia. Talvez quando chegasse encontrasse um fio condutor de arrumação. Ou mesmo as coisas arrumadas.

Na praia, sozinha, contemplando já saudosa, aparecem dois para a sandes de abacate e galinha. Vão. Aparece um a partilhar o iPod. Vai. Aparece um convite para me juntar ao pessoal da música, lá ao fundo. Vou.

Chega o pôr-do-sol, não no mar, como é costume, mas acima da montanha que contorna a estrada para o Cristo Rei. O Sol desaparece e fica uma unha de Lua quase nova, brilhante. E o vocalista doce canta suave aquela melodia, o amigo assa na fogueira um atum. Perfeito para último dia.

Até que na hora da partida vejo que o meu telemóvel ultra quitado PDA GPS Wifi onde está TODA a minha vida desde há dois anos desapareceu. Por sinal, também desapareceu o do outro único malai presente no grupo de 10. Gerou-se uma tensão, uma inexplicação, uma confusão. Oito eram de confiança cega do meu amigo. Dois desconhecidos. Um dos amigos de peito, actor em filmagens para o “Balibo Five” (sobre os cinco jornalistas australianos mortos em Balibo em 1975) diz que um dos desconhecidos desapareceu.

Então, vamos todos para o Hotel Turismo com o motorista dele (actor timorense). Lá, o miúdo não se descose. A tensão cresce. Uma portuguesa de vestidinho de praia azul a stressar em tétum, um autraliano traído e 10 timorenses entre o envergonhado, o triste e o chateado. Dois de olhos postos no chão. Decidimos, os brancos, sair dali no momento em que eles se começam a preparar para despir na rua em frente ao Hotel. O líder, ema bo’ot, o actor, ex-vocalista dos Galaxy, imigrado para a Austrália, diz que algum deles foi quem roubou os telefones. E quem roubou, tem de ter os telefones consigo. Soube depois que o único que se recusou a tirar a roupa foi o segurança de actor. Não devolveu os telefones.

E foi isso que eu disse na polícia no dia seguinte antes de ir para o aeroporto.

Com esta série de imprevistos, nem jantei nos coqueiros, nem consegui avisar os convidados. Foram aparecendo no Bairro (os outros professores já tinham ido embora nos dias anteriores). Encomendei pizzas, fiquei com o australiano e o maninho rastafari Zerai (Zé da terra). Eles foram e voltei a sentar-me na cama a olhar, e assim fiquei até amanhecer. Só pensava que não queria arrumar as coisas. Estavam tão bem assim, no lugar delas.

De manhãzinha uma conversa difícil. Depois mais bloqueio. SOS Luísa ajuda-me com as malas que eu não consigo. Fui aos Correios mandar um caixote gigante de 20kg (há-de chegar!). Fui à esquadra fazer a denúncia à pressa com o polícia tuga mais lerdo do mundo (é ingenheira ou enginheira? Pode ser professora).

E corri para o avião a pensar que ia desistir, ia cancelar tudo porque ficou tanto por dizer, dar, entregar e fazer! Mas fui, a soluçar. Chegada a Bali, já se sabe, os relvados e terrenos organizados. A Rita, que já lá estava há uns dias, dá-me o contacto do Mr. Networking Connections Meco de nome, timorense de nacionalidade. Passo-lhe o meu bilhete, sem esperanças (há meses que tentava alterar o voo sem sucesso!). Ele liga-me no dia seguinte de manhã, 3 horas antes do check-in a dizer que consegue voo confirmado para Setembro, mas só tenho meia hora para decidir.

E pronto, em meia hora decidi.

Já passava da hora de embarque do voo antigo quando fui buscar o novo bilhete. Aproveitei também para encomendar um voo só de ida para Timor. Assim posso:

- jantar nos coqueiros

- reaver o telemóvel

- traduzir a crónica para tétum

- dar a volta a Timor Leste

- despedir-me como deve ser

- entre outros

Depois vou por terra até Timor ocidental, dali de barco para as Flores and so on and so on até chegar outra vez a Bali, dia 10 de Setembro.

Daí seguirei para a Europa, feliz, tranquila, serena de obra feita. (i hope!)

E pronto, resumidamente foi isto o que aconteceu.

3 bitaites quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Fui alvo de uma maninga.
Fala-se muito disto aqui, entre os locais, que, tanto elas como eles, tem de ter muita cautela com aqueles de quem se aproximam. Dizem que mesmo sem explicacao, mesmo nao havendo compatibilidade, se nao se tomar cuidado, o outro pode fazer umas "coisas assim" que nos fazem derreter em manteiga.

E as coisas assim podem ser so um toque no braco, ou um olhar que se cruza, ou o fumo de um cigarro. Depois dessa coisa assim ter sido lancada feita feitico, quem nao gostava passa a um estado de cegueira cardiaca temporaria.

Eh comum elas ou eles pedirem a uma tia matan do'ok (que ve longe, bruxa talvez) que faca aquelas coisas assim, que podem ser ver as tripas de uma galinha acabada de matar, ou mexer nas folhas das espeigas de milho, ou ate talvez ler as palavras da lama. Ali esta o segredo da maninga.

Timor lancou uma maninga em mim.

1 bitaites

Solucei um nim, assim, ela perguntou "entao e as beringelas, nao as queres usar?", e eu, como nao quero, devo dizer nao, ah portuguesa, mas o cerebro a timorense pensa que sim, de facto nao quero, e entao solucei um nim.

4 bitaites

Do aviao, em Bali,
desfocados pelas lagrimas,
relvados, casas com telhados,
terrenos organizados.

Ja em baixo,
que tedio,
elevadores e o ocidente,
em tudo.

Timor,
sem referencia alguma,
so a arbitrariedade do proprio lugar.

E eh por estas e por outras que se decide uma hora antes do embarque para a europa que NAAAAO. Eu nao vou para la. Eu vou voltar ali, fazer o que nao deu tempo e vemo nos portanto em meados de setembro. Weeeee adrenalina!

 

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