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2 bitaites quinta-feira, 6 de maio de 2010


Quero saber se vens comigo
a não andar e não falar,
quero saber se ao fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objecto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como o faziam os colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago eu aqui por teu silêncio.
De acordo, eu dou-te o meu
com uma condição: não nos compreender.

Pablo Neruda

1 bitaites

- Pois não?
- Há alguma coisa neste sítio...
- Oi? Sítio é do pica pau amarelo!
- Falo da forma como as ruas estão dispostas em Ipanema e das correntes de ar que por ali passam, maravilhosa e harmoniosamente...
- Deus me perdoe! Acorrentado é só no morro.
- Galáxias de luz é no que as favelas do morro se transformam quando cai a noite sobre elas, deixando a descoberto o camuflado que durante o dia as escondeu.
- Rapaz! Com essa conversa tô vendo que o “dia do fico” é para todos os portugueses e não só o cara, Pedro, que disse daqui não saio quando a família real lá no Portugal lhe disse meu amigo é hora de voltar. E aí esse tal de rei gritou ao Ipiranga, daqui não saio! tem Copacabana, tem prainha gostosa, os passeio na Tijuca, tanta fruta tropical...
- Fico, fico sim, com a textura do mar feito leite de côco suave na pele e os pés enfiados na areia que sentem latejante a pulsação da terra, viva, cachoeiras imitadas pelas copas das árvores de folha perene, sombra, abrigo do castanheiro de fernando pó, há quem lhe chame chapéu de sol, e as pessoas são livres, os banhos não ferem susceptibilidades, e se há crime e roubo é para nos lembrar que no paraíso anda tudo é de mãos abertas e bolsos vazios. Há vida aqui, há espaço para o improviso da vida.
- Eu, hein! Dessa vida, moça, cê só leva a vida que se leva.
- Levo o samba comigo, deixando-o aqui, é que “o mundo passa por mim todos os dias enquanto eu passo pelo mundo uma vez.”

6 bitaites segunda-feira, 3 de maio de 2010


Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos a olhar por cima dela com o nosso telescópio.
Ludwig Tieck

2 bitaites quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por volta de 2007 deu-se uma transformação silenciosa que é um marco na história: mais de metade da população humana reside actualmente em cidades. Das cidades mesopotâmicas do século IV a.C. às megalópoles que reúnem dezenas de milhões de habitantes, o processo de urbanização foi intermitente. Mas esteve sempre ligado à divisão do trabalho e à formação de classes, à concentração do poder e do saber. A civilização urbana actual nasce com a revolução industrial e herda as suas dualidades. Na cidade, onde a segregação social marginaliza os pobres; entre as cidades, porque ao desenvolvimento vertical de tecnologias futuristas responde o crescimento horizontal dos bairros de lata. As metrópoles, centros urbanos pensados como centro de lucros, defrontam-se para interceptar os fluxos de capitais, mercadorias e populações solventes, fazendo crescer bolhas imobiliárias e revoltas populares.
Do dossier Megalópoles ao Ataque do Planeta, Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Abril 2010

2 bitaites quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acabo de ler um texto inpirador, intitulado Women and how the entrepreneurial spirit can reach any corner of the planet and change lives, uma entrevista a Jacqueline Novogratz, CEO da Acumen Fund, que é uma «iniciativa sem fins lucrativos com uma abordagem empreendedora para resolver os problemas da pobreza global».
Depois de ler a entrevista, admiro as palavras e questiono-me: Mas afinal de onde é que vem isto das mulheres, em mim? E surgiu logo a imagem da Ervin à minha frente, e da história que se segue.

[Lembro-me sempre destas histórias quando tenho é mais o que fazer e devia estar a fazer tudo menos escrevê-las. Depois não consigo regressar à obrigação sem que antes a tenha registado, portanto aqui vai, como um exercício de (des)concentração.]


Conheci a Ervin através do Edwin, embora não ao mesmo tempo (já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos). O Edwin, em Kupang, capital de Timor Ocidental e de Nusa Tenggara, um dos arquipélagos mais orientais da Indonésia, passou-me o contacto da Ervin, de Bajawa, na ilha das Flores. Disse na altura que se eu ia para lá sozinha, a Ervin era a melhor pessoa para “dar umas voltas comigo” (“she is a nice girl, she will show you around, keep her number, believe me!”).

Ora bem, depois do Onny, timorense do ferry boat (repito: já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos), me ter levado a porto seguro e alimentado (soa dramático, mas é verdade!, e simples), e ainda depois do Heru me ter protegido e encaminhado (não preciso de repetir o que já disse do Onny e do Edwin), cheguei a Bajawa.

Lá, não me senti tão confortável como até então: naquela parte oeste da ilha, já existe uma influência qualquer do nosso mundo ocidental, que não se transmite em riqueza ou consumo, mas sim em algumas coisas mais depravadas. Não é confortável ser mulher, especialmente branca, e passear nas ruas daquela cidade de montanha. Já tinha ligado à Ervin na noite anterior quando cheguei, e ela ficara de aparecer no hotel ao final da manhã. Eu desisti rapidamente do passeio pela cidade, fechei-me no quarto, indescritível (penso-o com um sorriso na cara).


A Ervin chegou, de scooter e capacetes. Combinámos o preço de um dia de visita a diversas aldeias tradicionais animistas daquela zona (300.000 Rupias, aproximadamente 20€), e seguimos passando ainda na guesthouse da tia, e na loja de não sei quem, comprámos o meu bilhete de autocarro para a madrugada seguinte, e ainda fomos comprar comida e trocar dinheiro. Ela é da minha idade, boa onda, e fala inglês com umas variações deliciosas de inglês, como irão perceber a seguir com a história do filho dela.

Subimos montanhas na motinha impotente, parámos para tirar lascas de canela dos troncos das árvores, para cheirar as ervas aromáticas e ver flores de baunilha, cruzámo-nos, no meio do fim do mundo, com grupos de meninos e meninas pequenos e todos trajados no caminho da escola, cores fortes, sorrisos. Subimos acima de nuvens que protegem a ilha vulcânica, das Flores, cheia de vida.


Lá no cimo montanhoso e no fim da estrada (se é estrada, ou caminho que lhe podemos chamar), contou-me a história do seu filho. Que quando estava em Jakarta a trabahar (histórias de amor, quem não as tem…), um dia alguém bateu à porta da casa dela. Ela abriu e era uma senhora, prostituta, com um bebé nos braços, que lhe pedia para usar a casa de banho. Deixou-a entrar, mostrou-lhe o caminho, e aguardou. Tanto tempo até que foi lá ver o que se passava, e já só estava o bebé, ela tinha saído pela janela.

Bla bla bla, caos, e agora?, papeis, to make the long story short: chamou-lhe Hensome, por ser muito lindo, e ficou com ele. Como trabalha durante a semana, é a única mulher-guia da ilha das Flores, o Hensome fica com uma tia, doutra aldeia. A Ervin procurou e criou o seu próprio emprego para criar o filho, para melhorar a vida deles. Não sei se é verdade ou não esta história, de tão surreal, mas sei o resto, a família…


Porque no regresso ao hotel em Bajawa, cruzámo-nos com uma prima, na paragem de autocarro mais inóspita de sempre, que disse “hei prima hoje há cerimónia tradicional da aldeia dos teus pais” e a Ervin “eh pá a serio? Então eu vou. Sara, queres ir conhecer a casa dos meus pais? Podes ficar lá a dormir… Tu tens de ir, tu vais gostar”, e eu, why not, “sim, pode ser, só tenho de avisar o hotel e amanhã tenho o autocarro às 7 da manhã…”, e fomos. O que se seguiu foi a entrada directa, sem espinhas, para uma realidade que para mim só existia em filmes até então.


Chegámos à aldeia, um U de cabanas de bambu, encaradas por símbolos animistas, homem versus mulher, altares, católicos pelo meio, chão de terra e um bocado de frio. A casa dos pais estava cheia de gente, nem uma pessoa falava inglês, eram todos só dali. Ia acontecer coisa improtante naquela noite, as pessoas foram-se juntando na área comum da casa, que é sala, cozinha e entrada para o quarto, comum.


A cerimónia consistia na tomada da seguinte decisão: quem seria o homem da aldeia que no dia seguinte iria cortar um tronco de coqueiro à selva para substituir a madeira de um dos pequenos altares. Acontece de 11 em 11 anos.

?

Sim, isso. Ali não há televisões.

Os homens estavam concentrados numa divisão três degraus mais elevada do que aquela em que eu estava, sentada, sem saber onde pôr as mãos. Olhava para lá de soslaio, e a Ervin, finalmente conseguiu permissão para eu entrar, contra a vontade de um tio que achava que eu não tinha nada a ver com o assunto (eu não pedi nada!).


Ali ficava-se sentado no chão. O pé direito era demasiado baixo. Aguardava-se que a decisão fosse tomada por quem de direito, que se encontrava no terceiro compartimento, um buraco três degraus mais elevado, onde estavam as pessoas importantes da vila (era assim que a Ervin lhes chamava, “important people”).


No quarto onde eu estava, os homens fumavam, chegou um prato de arroz branco só cozinhado em côco ralado. Silêncio, espera. Veio a avó para o meu lado e deu-me a mão. Eu só queria estar ali invisível. A minha presença era demasiado importante. A Ervin deu-me um tais das Flores (sarong?), por sinal muito parecido com aqueles de Bobonaro, em Timor-Leste, e ia-me explicando, em surdina, montes de coisas daquela tradição, e da vida.


Quatro horas depois, a decisão veio, com um porco preto que mandaram vir, para o quarto intermédio. Catana em riste, golpe da testa, e sangramento do animal que guinchou e guinchou durante longos minutos. Quando o puseram na fogueira da cozinha ele ainda estava vivo. Eu estava branca, provavelmente com os joelhos e cotovelos a tremer. A Ervin tirava fotografias, mesmo contente, e eu disse-lhe que tinha de ir descansar um pouco (já era uma da manhã), e ausentei-me para o quarto.


Passado um bocado, estava quase a adormecer, a Ervin abre o mosquiteiro: “posso?” E a prima, e a outra prima, e a mãe, e um bebé de dois meses. Adormeci ali, com um bebé ao colo. Acordaram-me eram 4 da manhã, para ir comer os rojões do porquinho. Verde, mas não pude recusar.


Quase todas as semanas, desde que voltei, a Ervin, chama-me “sister” em sms trocadas como suspiros, e desta história ainda mais podia contar.

4 bitaites terça-feira, 16 de dezembro de 2008


Ter o céu roxo colado à pele, nunca estes dedos gelados. Nunca o frio. Só nos momentos em que saio do mar, e por a água estar ainda mais quente que o ar que se cola, é que sinto um ligeiro arrepio. Por... Um segundo, vá!

Ouvir os espanta espíritos de bambú que fazem um tilintar, que nem se pode chamar assim porque esta palavra tem is a mais e ali o tom é outro. Mais grave e quente.

O cheiro doce no ar que são correntes de incensos que se cruzam com os cigarros kretek, e caril, quente, como a música dos espanta espíritos, dos templos hindús.

Sempre quentinha, sempre com panos, tecidos, lenços, écharpes, tapada.

Em Ubud, sozinha, acabo de conseguir trocar a viagem em cima da hora. De repente não estou em casa amanhã, mas volto sim, só que daqui a 5 semanas. Até lá, não sei. Passeio no mercado, recuso um frangipani de pôr no cabelo por 1$, páro em frente a esta senhora cujos dentes estavam da cor das sementes, e até é raro por aqueles lados. Penso o que pensará ela de mim, e o que terá dado na cabeça do outro para me pedir tantos milhares de rupias por um frangipani, e como isso seria impossível naquele momento, porque acabo de vir do banco onde levantei dois milhões e meio que estão todos num só maço, no meu colo, quando reparo já estou dentro de um labirinto e decidi que dali não saio enquanto não passar por todos os possíveis corredores antros de cor viva vestidos com todos os tecidos.

Meu dito meu feito e saio dali para fora, pela rua encontro a tasca open-space do leitão na brasa que é esquartejado à nossa frente, sento-me no chão, numa mesa de 4, o sítio está a abarrotar. Junta-se um casal, que, de serem europeus, não falam, eu na minha como a marmita saborosa, cominhos, cravinho, e de repente, PUM, cai-me no braço, cortante, peso pesado. Olho para o lado, mantenho a calma, no braço já não está. No chão, ao meu lado, uma iguana de 40 centímetros, verde fluorescente e estrábica.

1 bitaites sexta-feira, 17 de outubro de 2008

As ondas de mar revolto, um vento quente com lenço nos cabelos, mãos à minha frente balouçam com sardas de pele sábia, tudo muito lentamente, quase cantado. A história é só uma pergunta e resposta. Sabes porque o canto matinal dos galos soa a lamento? Porque eles lamentam, sim, que mais uma noite tenha passado e que a tenhas desperdiçado a dormir.

0 bitaites

"Uma Frase e a 2ª História" já está escrita, mas será uma crónica publicada no Jornal Universitário do Porto (JUP) o que me impede de a publicar aqui para já (o JUP ainda nãp saiu... Está para breve!)



É meia porque ainda me sinto meia sem saber como a enfrentar – esta lição sobre o medo.

Depois de a ouvir, imaginei como reagiria se alguém na rua, comigo se cruzasse, com feições de bem e dissesse “vem comigo”. E esta semana tive oportunidade de reagir.

Uma tarde outonal, de chuva miudinha, céu carregado a ameçar mais e mais. Estou a chegar à paragem de autocarro de Sá da Bandeira. Trago o meu casacão verde, com o carapuço de pelinho à volta da cabeça enfiado, carrego uma grande cesta de palha de roupa suja (estou a ir para casa dos pais…) numa mão e a carteira na outra. Pessoas apressadas, abrigadas nas bordas dos prédios (não sabem que é por ali que os pássaros se largam…). A sede do BES é lindíssima. Dá vontade de ter dinheiro só para ir àquele banco.

Por entre as pessoas cruzo o olhar por milésimos de segundo, com desinteresse, com o olhar de alguém que parece o John Malkovich. Nem reparo que também ele olhou para mim, e as sobrancelhas se levantaram, como se já nos tivéssemos conhecido antes. Mas já estou a olhar para o lado, e nem vejo que à minha frente, a cara dele me diz “Olá, posso ser teu amigo?”

Assustei-me. A tendência é levantar os braços e não deixa-me em paz que queres quem és tu? E ele com o olhar mais triste do mundo ”olha, não vás, dás-me um cigarro?” E eu fui, embora, esconder-me na paragem, espreitar para trás, depois de camuflada. Ele continuou com o guarda-chuva, e mancava calmamente ao atravessar a rua.

O que ele me fez, não se faz, foi um jogo. Um jogo de confiança, um teste aos limites que o medo impõe.

Então, estamos num ferry ferrugento, já se sabe. A volta de 180º aconteceu há pouco tempo, mesmo antes dele começar a dançar tango no convés e de dizer que na bandeira do Brasil não devia estar o globo, mas sim o rabo das brasileiras. Um monumento nacional, disse. Sentamo-nos (deixei a varanda de onde testemunhei tamanho pião), e ele faz-me o convite. Quer que no dia seguinte vá a casa dele, em Bali, ter uma experiência maravilhosa, que nunca antes tive, e que nada de negativo me acontecerá. Não tem nada a ver com drogas, não me vou sentir ameaçada, ninguém me vai tocar. Não posso saber o que é, e tenho até ao final da viagem de barco para decidir. Caso decidisse sim, iria no dia seguinte, lá, ver do que falava. Caso decidisse que não, ele contaria do que se tratava, e eu já podia mudar de ideias.

Para tomar a decisão, houve muito que me passou pela cabeça. Incluindo o saco cheio de máscaras em que o ajudante indonésio deles mexia, enquanto ele me fazia tal convite. Dois gajos colossais de figura exótica, um remo e um saco de máscaras. Estou a dois dias de voltar para Portugal, depois de 5 semanas sozinha, em Timor e na Indonésia, tudo correu bem até agora. Este senhor é bom, não há dúvida. Mas quero assim tanto ter uma experiência mistério? Agora?

Claro que não. Digo-lhe isso quando já se vê o porto de Padang Bay, na ilha de Bali, ao fundo. E depois ele diz que sou cobarde, que o meu sexto sentido deixa muito a desejar. E conta-me o que tinha acabado de recusar. Eu não vou contar. É o nosso segredo.
E depois, sinto uma síncope no coração. Fico muito triste, quase miserável. Tenho vontade de chorar. Vêm flashes do que é o medo, de tudo que recusamos sem mais motivo para além daquele que é o nosso limite, de conforto. E a conversa que tivemos depois disto, na hora e tal que passou enquanto esperávamos lugar de estacionamento para o ferry, tomou uma dimensão filosófica, que até direito deu à planificação pormenorizada de uma caminhada pelas montanhas do Nepal.

E com palavras de Krishnamurti rematou. Um dia vou poder redimir-me, é o que espero da lição.

“Hay duas fuerzas que dominan al hombre una es el amor y la outra es el miedo.”

1 bitaites domingo, 28 de setembro de 2008

«Tengo que contarte esta historia en español. Es una historia turca, muy corta, en menos de un minuto vas a saberla.

Un hombre en la aldea donde vive se queda a la puerta de la mujer que ama. De lo otro lado, se pregunta "¿quién es?" y él respondió "soy yo". Entonces ella le dice para ir a la montaña por un año y luego regresar.


Un año después, él regresa. Golpes en la puerta y le preguntan "¿Quién es?". Él responde "Eres tú".»

0 bitaites quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Estou outra vez dentro de um barco, ferry, velho, ferrugento.
Estou deitada num banco corrido cujo estofo plastificado sucumbiu à evidência da sua idade.
Estou a escrever uma carta de amor em tétum. Quero ser como o do Amor em Tempos de Cólera e escrever histórias assim. Aceitam-se encomendas. Estou desempregada.
O banco corrido é curto demais para estar deitada, então sorrateiramente ponho o meu pezinho no banco do senhor do lado (não deve ser muçulmano porque estamos no Ramadão, é de dia e ele está a fumar um cigarro kretek com cheiro intenso a cravinho).
Estou a trincar a tampa da caneta – há’u nia laran monu ba ó – a olhar o infinito por estar a ouvir aquela música.

O infinito do horizonte entre Bali e Lombok, um dos estreitos mais profundos e perigosos do mundo, é intersectado por duas figuras que não deviam ali estar. Muito altos, morenos, cabelo comprido com um je ne sais quoi de explorador, grandes, ombros largos. Cabelo grisalho. Sardas. Trazem um remo na mão.

O infinito do meu iPod é intersectado por um idioma que não devia ali estar. Falam francês, só podem ser do Tahiti que os franceses não são assim. Ilha da Páscoa? Lá falam francês? Bem, certamente de alguma ilha exótica do Pacífico porque destas figuras não há para os meus lados. “Excuxe me, are you from Tahiti?”.

“No, I’m not. What about you?”
“Portugal.”
“Garota portuguesaaa! Eu nássi em Isspanha. E vô aprôveitá qui você aqui está fazendo essa linda viagem comigo para partilhar consigo um sonho que tenho. Talvez você ache que é utópico, mas é um sonho que eu tenho e espero poder concretizar um dia. Que é assim: um dia eu vou conseguir juntar tooooodos os passaportes espanhóis e fazer uma grande montanha com eles. Depois vou pegar em toooodas as bandeiras, e fazer um grande monte de bandeiras amarelas e vermelhas. Ao mesmo tempo vou reunir também toooodos os passaportes portugueses e fazer outra montanha, e outra com as bandeiras de Portugal. Depois, pego num fósforo e atiro. Quando tudo for cinzas, eu, Victor Vidal, serei o Primeiro Presidente da Nova Nação de nome Ibéria.”

Assim, sem mais nem menos. Eu já não ouvia português há uns tempos. E do meio do nada, o gajo de aspecto excêntrico que interrompera o trincar da minha caneta, transformou o meu ar céptico, de quem viaja sozinha, e fez-me rir até doer os maxilares. Não me queria acreditar no que acabara de ouvir.

Disse-lhe que não me parecia bem. Então e o fado, e o hino, e a história… e a língua…
Ao que ele responde “não tem mal… faz assim, se quer ir comprar sapatos só tem de dizer Yo quero comprar uns sssssapatos. É o portunhol. Uma palavra de cada língua. Mas quando você quer dizer sapatos, tem de dizer o ss como os espanhóis. Porque isso é o que os espanhóis têm de bom.”

E continua…

“Eu estou muito deprimido. Você deve ter reparado que estou viajando num ferry com um remo na mão. A polícia não me deixou atravessar numa canoa e esse era um grande objectivo meu, fazer um filme com o meu amigo sobre esta travessia mítica. Estou cansado, mas antes de dormir, vou-te contar três histórias….”

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Finalmente sentei-me e comi um iogurte.
Passadas duas semanas de Porto. Exactamente um mês depois de deixar Timor e partir para a Indonésia. Com tantas histórias para contar dessa viagem roots sobre montanhas (das a sério ou figuradas) e uma mão de pessoas autênticas.

Não há nada como poder comer um iogurte natural açucarado com pepitas de straciatella enquanto lembro coisas com um grande sorriso. E poder dizer bem alto "eu fiz isto!! eu fiz isto!", "eu estive ali!", "ele disse-me assim...".

Uma das histórias mais surreais que posso lembrar assim, sem ter a certeza que foi mesmo, aconteceu num ferry público que liga Lombok a Bali. Outro barco depois de muitos dias de muitos barcos. Com a cabeça na almofada à noite a balouçar. E este barco atravessava um dos estreitos mais profundos e perigosos do mundo.

A meio da viagem, de repente, em poucos segundos, o barco imponente deu uma volta de 180 graus. Da mesma forma que os barcos podem fazer um pião no mar alto, também pessoas como o excêntrico Victor Vidal, ou Django, podem aparecer.

Foi ele que ao longo das 6 horas de viagem (com intervalo de três horas de sono porque o coração lhe doía por a polícia não o ter deixado atravessar o estreito num barco a remos), me contou três histórias, duas frases, um sonho utópico. A meia lição, estonteante.

Acabo de encontrar este post sobre o personagem. Eu também tenho muito mais a dizer por ele.

E este post apesar de ter começado em tom de "então vamos lá fazer um overview desta temporada away", significa outras coisas. Que a vida continua bem, tal como foi antes.

0 bitaites quarta-feira, 17 de setembro de 2008


3 bitaites terça-feira, 16 de setembro de 2008

Não é que essas diferenças me sejam indiferentes. Não! De todo! … Mas penso que simplesmente aprendi a aceitar, a não julgar por ser mais fácil.
Contaram-me a seguinte história, sucinta, passada numa tribo amazónica: um homem está sentado numa cadeira sobre um tapete e uma mulher, sentada no chão, perto dele, lava-lhe os pés com dedicação.
Aos ocidentais presentes é pedido que comentem tal cenário. Para todos a descriminação da mulher é facto assente. Qual a surpresa quando nos é desvendado que naquela tribo nada de mais sagrado há do que a terra. Só as mulheres estão autorizadas a tocá-la. Os homens, para terem permissão, precisam da bênção delas.
Por isto não julgo.

Viajei do leste do oriente animista, passei pelo mix católico esotérico, fui-me aproximando de uma vertente mais ortodoxa, daí foi um salto para o islamismo. Com alívio, no final, o jeito relaxado dos hindus, com o seu cuidar das flores e oferendas. E depois, aqui, o ateísmo convicto, lê-se nos olhos a descrença.

Em Bali, não critico as loiras em topless nem as gordas em fio dental. Só fico chocada porque vim de onde o banho em público no feminino é feito em calções até ao joelho e t-shirt sem decote. Também não critico os risos histéricos dos japoneses quando posam teatralmente para as mil e uma fotos de grupo na praia. Nem a conversa dos surfistas da praia de Kuta.
Em Lombok, não critico os casais gay. Até os admiro. Também não critico os risos sem respeito de quem lhes vende abrigo.
Nos aeroportos, não julgo os chinocas stressados que me ultrapassam descarada e violentamente nas filas de aeroporto. Na terra deles devem ter sido obrigados a desenvolver esse instinto animal.
Cantores pop indonésios a dançar como o Michael Jackson.

A leveza com que se circunscreve o mundo inteiro em curtas semanas passando pelas culturas como por corredores de supermercado. E das prateleiras só os preços se decora. Não critico, mas não quero isso para mim.
Não julgo quem dá e espera reconhecimento.
Não critico a ganância, a preguiça, a má disposição, a mentira. Mas dou de mim tudo quando recebo o oposto.
Há espaço para todos aqui.

5 bitaites quarta-feira, 3 de setembro de 2008



Cheguei a Moni ao final da tarde. Do meu bungalow virado para a montanha inspiro proteccao. Montanha e Paz. Foho no Dame. Cansada da viagem de barco, 17 horas no esterco, exausta ainda pelos ultimos dias em Timor. As 4h30 da manha o ojek (motorista de moto) esperaria-me em frente ao bungalow, para me levar a subir o Kelimutu com o intuito de ver la o Sol nascer.

As 4h30 da manha desco do quarto, esta la o ojek. Aparece o Heru, com cara de pai para cima de mim. Marca presenca, faz olhar protector. Pede-me o numero de telefone. Olha mais uma vez para o ojek e diz-me em bahasa indonesia ate ja, em ingles que lhe telefone se precisar de alguma coisa.

Conheci-o na noite anterior no restaurante ali ao lado. Nao havia electricidade, o gerador nao estava a funcionar. O pequeno bungalow de montanha parecia idilico a luz de 3 ou 4 velas, e uma mesa corrida. Sentei-me ao lado do grupo dele: a mulher e a filha. So ele eh que falava ingles e parece-me que ficou todo comovido com a minha viagem. Um homem bom, bonito, com presenca, olhar directo. No dia seguinte, quando voltei do Kelimutu, ofereceu-me boleia ate Ende, tratou do meu transporte ate Bajawa, ofereceu-me cha de gengibre.

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Geologicamente falando, a ilha das Flores eh uma sucessiva sobreposicao de planos incriveis de montanhas vulcanicas, densamente cobertas por uma vegetacao que transborda vida verde. Biologicamente falando eh um museu vivo de frutas e madeira, embora nao tenha visto de memoravel aquilo que justifica tal nome de baptismo.

A ilha eh linda e grande. A ilha era dos portugueses, mas os portugueses ofereceram-na aos holandeses, em troca do mini-distrito de Liquica (Maubara) em Timor Leste. Tenho pensado muito nisto. Porque raio eh que terao trocado uma ilha inteira cheia de riquezas como esta, por mais um bocadinho de Timor?

Cheguei a conclusao que eu tambem ja fiz o mesmo, ao trocar a possibilidade do meu mes e tal de ferias a explorar a Indonesia por mais uns dias em Timor, e depois so duas semanas para esta viagem. Sao opcoes que nao se justificam e so se sentem. De coisas mais praticas, falarei ao vivo.

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Ainda na demanda do tasi mane, fiz-me a estrada na biskota Dili-Maliana. Terca feira as 6 da manha. Era para ter saido na Segunda, mas a noite de Domingo foi demasiada em divagacoes e nao acordei depois. Em Maliana tinha ficado de ligar ao Pedro Laranjeira, ex-aluno UNTL/FUP, uma pessoa boa, engracada, sorriso aberto, olhar cativante, bigode, pai de quase 2, com quem ja troquei boas e algumas conversas. O telemovel esta desligado. Vou ou nao vou para Bobonaro? Ele disse que estaria por la a fazer o projecto de medicao florestal com a cooperacao Portuguesa (dar-lhe-a passaporte para portugal daqui a pouco tempo). Esta indecisao nem chegou a ser porque os colegas da biskota ja me tinham enfiado na outra com aquele destino, onde o pessoal estava animado, mesmo apesar dos sacos de arroz serem mais que muitos. Nao sabem que os percebo e mandam bitaites "porque eh que ela pode trazer esta mochila enorme ca dentro e as minhas coisas estao em cima do tecto?". Fecho o bico e rio-me por dentro.

Bobonaro, o fim do mundo, nao so por ser longe de tudo, isolado, mas porque tem aquele aspecto de que o mundo ali ja acabou e o que sobra sao so as ruinas de tudo escavacado, desleixado, incendiado, abandonado. Ai meu deus onde me vim meter levem-me a policia. Na policia descubro o acampamento. Descubro tambem que ao contrario do que pensava nao so la esta o Pedro e o Marco (coordenador portugues, recem-caloiro em Timor), mas tambem 15 outros agrarios timorenses. Tasse bem, uma tenda para mim, outras duas para voces. Entre o passeio as termas, o jantar partilhado de marmita, o desfazer do acampamento na manha seguinte, ouco-os a discutir muito, mas nao percebo nada. "Pedro, hau la hatene... Bele explica mai hau?", "Depois explico professora." Entro na pickup ao lado dele, os outros marmanjos todos atras, na caixa aberta, coordenador inclusive:

"Eh que nos queremos leva-la ao tasi mane, e pensavamos que o coordenador hoje nao vinha para o campo conosco. Mas ele afinal veio e nao conseguimos assim fazer o desvio de 4h as escondidas dele! Estamos a tentar arranjar uma forma..."

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No momento em que o barco deu o primeiro sinal de arranque, tudo o que me estah dentro se apertou, como se enxagua uma toalha. Custa-me, que hei-de fazer?, custa-me largar esta ilha. Pensei que por terra e mar fosse mais facil do que larga-la de aviao, sem olhar para tras (e para os lados so vejo asas, calham-me sempre esses lugares). Mas mesmo assim custou, a toalha apertou, vejo agua a sair, deito-me no chao sobre o tais que estendi.
O telefone tocou, aquela voz que me eh tao familiar a outras rotacoes, tao distante para estes assuntos. "Mana, ro sa'e ona ka?". Sim, acertaste, o barco acaba de sair. Desta vez nao volto atras. Levanto-me ate a varanda, para verificar que estou no ir. Espreito o tilintar do mar de agua cristalina, sinto-me tentada a saltar. A toalha do meu dentro aperta, aperta.

Sao hobbies do coracao, os que eu invento, naqueles tempos mortos em que ate o ponteiro das horas ouco. Escolho vestir os headphones de alguma fantasia distante, inalcancavel, e ouvir, ate la chegar, a sincope platonica das minhas emocoes.

Estou num barco grande, ferrugento. Os pneus que o corpo ostenta lateralmente de derretidos, desconfio que ja passaram por um incendio. Dos cerca de 300 passageiros, diria que 250 sao muculmanos. Da multidao de tripulantes, sou o unico branco. A unica branca. Assim que me vi neste cenario, vesti as calcas, despi a saia, vesti a tunica por cima da tshirt, cobri o pescoco com outro tais. Ainda assim, os pes, as maos, a cara, o cabelo, mostram-me exotica aqueles olhos. Para me esconder mais, visto os tais headphones, e este caderno. Deitada no chao asqueroso, como os outros, mostro a minha "cara salgada" de ma (por oposicao a cara doce). Tambem eu trouxe a minha marmita de arroz embrulhada em papel castanho tipo encomenda, e como com as maos (isto eh um toque pessoal, porque me esqueci de trazer talheres). Desde o ataque de riso contagioso do pai da Zulmira que nao aguentou o meu exotismo na mesa (que eu como com a boca fechada e devagar, como uma boneca...), nestas situacoes de choque cultutal, tento ser o mais javardolas possivel. Mas so sujo quatro dedos de cada mao. O mindinho instintivamente ficar ao ar tipo bandeira.

Montes de bebes em cuecas, esteiras, colchoes, lipas, espalhadas pelo chao, mesmo debaixo dos bancos cor de laranja distribuidos simetricamente. Sao iguais aos dos antigos STCP.

3 bitaites quinta-feira, 28 de agosto de 2008

Troco mil e uma paisagens de tirar a respiracao por uma conversa simples, uma pequena invasao musical. (como se diz invasao sem parecer que eh alguma coisa ma?)

As vezes penso que estou louca, fora de mim, por estar fora de tudo, fora fora fora da realidade. Quando finalmente me sentei a estudar o lonely planet, ja em kupang, entrei em colapso: sera que tenho tempo de chegar onde preciso quando quero? O instinto que me sai natural eh meter me outra vez no caminho para timor. Qunado estou triste eh assim. Mas isso ja era demasiada loucura pegada, e o que o guia me mandou fazer foi ir a um pequeno bar decadente em cima da praia, falar com o ed. Mais tarde ele disse me que queria ter tirado uma foto da minha cara naquela altura. Eh que era so stress a raiar dos olhos. Vou a uma agencia de viagem, o rapazinho quer mais sacar me o numero de telemovel do que vender o bilhete de barco. Vou ao posto de turismo, as especialistas quase nao falam ingles. Acho que falo eu melhor o bahasa indonesia. Mas a confusao eh grande.

Com o Ed dei por mim confortavel. Mal cheguei, o bebado australiano cliente assiduo ha nao sei quantos anos diz "wassup mate? you cannot worry like that... here it is not worth it. you'll get there". Respirei fundo, sentei me de costas para o mar, logo a seguir troquei de direcao e quando reparei ja ali estava ha 6 horas. Parece que eu sou boa pessoa porque ja duas outras me disseram que nao posso ser assim tao simpatica e prestavel. Preferi ficar a ajuda lo com o site do bar dele, com as fotos do local (o photoshop faz maravilhas), a falar sobre os problemas da parte ocidental da ilha desde que a confusao se instalou no lorosae, do que meter me por ai a ver as vistas. As vezes mais vale umas palavras do que mil imagens.

Os outros podem nao perceber, mas eu sei ver so de olhar, quem me pode querer mal. Nao eh instinto. Eh que a vida ja muito me ensinou, e a estas pessoas do oriente oriental, ja as conheco de gingeira. Quase nunca sorrio.

O Ed, sei que me nao quer mal. Ajudei-o com a tecnologia e a decoracao, ele ofereceu me os cafes, os sumos, o jantar. E foi assim que se passou um dia na indonesia gastando 5 dolares. Hoje, ele levou me a umas aldeias perdidas, em troca das minhas fotos. Sentamo nos com um velho artista local, o ultimo construtor de sasandos no mundo. Sasando eh uma especie de viola, mas com cordas em toda a volta de uma cana de bambu. O velho tocou, cantou, falou, fumou. Eu so percebi a musica dele.

4 bitaites terça-feira, 12 de agosto de 2008




1 bitaites

Gostava de conseguir pintar ao jeito balinês, mas com palavras, o que é este cuidar das flores que todos nutrem aqui. Uma cabana com alpendre sobre o arrozal. Em redor floresta densa, tropical, céu carregado, muitas flores. Aranha com pelo na parede, lagarto a passear na minha janela, uma iguana que cai do tecto em cima do meu braço. Desequilibrou-se, coitada. Café Bali, coqueiros no horizonte cor-de-rosa e o guia da Indonésia acabado de comprar.

Quando acordei, depois de 12 horas de sono, mandei uma mensagem que dizia “I feel so good….”. Indeed. Não sei se me sinto exausta pela intensidade das duas últimas semanas, ou se pelo ritmo acelerado que há aqui: tantos carros, neons, consumo, gente, cores.

E por isso siga viajar, siga consumir paisagem, quilometros e flores!

 

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