De uma crónica publicada no JUP, intitulada
Hoje Não me Vou Queixar
Ai é tão longe, e doem-me as costas, ui que não tenho dinheiro, e a gasolina está tão cara, aquele gajo só me quer lixar. Não arranjo emprego, é tudo tão difícil, não consigo fazer nada, o trânsito, as compras. O verão fora de época, e a ela dói-lhe sempre a cabeça, a mim ninguém me compreende, os meus pais são forinhas, e este quer ultrapassar-me. Estás cheio de pressinha!! “Raisparta” o fumo, o barulho, o stress.
Existe um agente infeccioso que paira sobre os ombros das boas gentes desta terra. É geral: todos insistem em problematizar. E o errado nisto é que esse brainstorming de tudo o que é mau não funciona como alavanca na busca de soluções que confortem. Este agente infeccioso altamente contagioso, tem o dom de colar à pele uma máscara. A da fusão do coitadinho.
Para quem vem de fora, vê no Porto, se despido desta doença, uma cidade viva, agora de Baixa ressuscitada e coisas, eventos, turistas, casas lindas. Eu cá não vejo melancolia alguma. Mas ouço-a, quando sobre mim cai o eco das pessoas. Porque será tudo tão complicado?
Aos raros excêntricos, que se permitem a liberdade de acreditar, olha-se como patetas alegres. Coitados, andam tão enganadinhos!... E fazem coisas estranhas, como trazer estojos de lápis de cera nos bolsos, ou flores nas mãos. E aquela expressão na cara! De sorriso ao desbarato, como se fosse de se dar nos dias que correm!...
Isto dizem eles, verdadeiros coitados. Eles invejam porque “só a nós, os valentes, ocorrem ideias extraordinárias”, disseram-me em tempos.
E quem contou essa, também ofereceu outra história, valiosa, extraordinária. Num arquipélago tropical vulcânico, um milionário passeia no seu iate até atracar numa ilhota onde um pescador assa o seu peixe na fogueira. Diz-lhe o milionário que arranje um barquinho para que possa encontrar mais peixe e vender o que não precisa e com isso pode depois arranjar um outro barco, dividir tarefas, investir os lucros, abrir um negócio de conservas, guardar o excesso, para depois construir uma casa espectacular. O pescador pergunta-lhe só o que fazer depois de ter essa casa e todo o dinheiro. O milionário diz-lhe que aí pode descansar, viver tranquilo. “Mas isso é o que faço agora”, responde o pescador.
Um destes dias, enquanto subia uma das muitas montanhas que o Porto tem, ali ao lado de Mouzinho da Silveira, na rua de São João Novo, sentia o leve esforço que desperta o estar bem. Lá ao fundo ouvia alguém a cantar muito afinado, mas muito muito alto, alguma coisa romântica em inglês. Cada vez mais próxima a voz, mais e mais intensa no desenrolar da acção, em direcção a mim, ele vem… é este? Não! E passa o miúdo de 7 anos, oculinhos catitas, para o gorducho, com headphones, a interpretar cheio de feeling a balada do novo século. Enquanto ele descia em direcção ao Cubo na Ribeira, as pessoas paravam, vinham espreitar às portas das lojas, às janelas. E depois riam-se de tão inusitado cenário!
Daqui compreendo que o estado de espírito com que interpretamos as rotinas da nossa vida (que nada mais são do que a vida em si), depende do quão ágeis somos no balanço entre o deixar estar – aceitar, sem querer influenciar – e a marca da nossa diferença. A auto-determinação, que me permite saber, segura, que hoje, não me vou queixar. Vou cantar aos berros na rua, vou mostrar-me disponível, vou contar uma história, ensinar alguma coisa, a fazer um origami, vou por aí, aproveitar aqueles momentos em que sou só eu e a cidade. Vou sorrir sinceramente por conseguir ver nos gestos das pessoas que estão vivas, e sentem.
E com isto quero dizer o que se segue. Que está agora a começar o ano lectivo, ou o sexto bimestre, ou o Outono (pode escolher-se um começo aleatório). Está agora a começar um novo dia, e era lindo se, pelo menos durante este novo dia que começa, todos não problematizassem. A ver se o agente cai dos ombros para o chão, espezinhado por quem acredita que a vida pode ser boa, sem queixinhas.