Mostrar mensagens com a etiqueta fotos. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta fotos. Mostrar todas as mensagens
1 bitaites sábado, 21 de agosto de 2010

Deixei de conseguir escrever neste fundo cinzento, e quando assim é nada mais posso fazer senão calar-me enquanto preparo a paleta, sacola e marmita para cenário de fundo do que é dito, trocado pelo não dito, meu feito, escrevinhado - era eu em voos de regresso - ficcionado - na praia da Isla Negra, estendo a mão ao Neruda em horas de contemplar o Pacífico revolto à nossa frente - esquematizado, soluçado, alucinado, projectado, idealizado, e até mesmo calado, que "quando se ama o abismo é preciso ter asas" já dizia o outro e fica mas é para a memória o que estes olhos viram, e de nós ninguém há-de arrancar, temos muita pena mas é tudo demasiado, excessivo, amplo, abrangente e/ou complexo, nem sei dizer, mas imagino-o como o Deus das Pequenas Coisas que encontra Cem Anos de Solidão, com uma pitada de Papalagui e momentos Apocalise Now, versão lorosae, tão grande que tudo dali vem quente como um sonho de estar na Índia, ou em chás de gengibre que queimam e purificam. Eu também não sei explicar.

sem existir nos bastou
por não ter vindo foi vindo
e nos criou

6 bitaites segunda-feira, 3 de maio de 2010


Deveríamos fazer do comum algo de extraordinário e então nos surpreenderíamos descobrindo que está muitas vezes perto de nós a fonte de prazer que buscamos em algum lugar distante e difícil. Estamos muitas vezes a ponto de pisar na maravilhosa utopia mas acabamos a olhar por cima dela com o nosso telescópio.
Ludwig Tieck

2 bitaites quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por volta de 2007 deu-se uma transformação silenciosa que é um marco na história: mais de metade da população humana reside actualmente em cidades. Das cidades mesopotâmicas do século IV a.C. às megalópoles que reúnem dezenas de milhões de habitantes, o processo de urbanização foi intermitente. Mas esteve sempre ligado à divisão do trabalho e à formação de classes, à concentração do poder e do saber. A civilização urbana actual nasce com a revolução industrial e herda as suas dualidades. Na cidade, onde a segregação social marginaliza os pobres; entre as cidades, porque ao desenvolvimento vertical de tecnologias futuristas responde o crescimento horizontal dos bairros de lata. As metrópoles, centros urbanos pensados como centro de lucros, defrontam-se para interceptar os fluxos de capitais, mercadorias e populações solventes, fazendo crescer bolhas imobiliárias e revoltas populares.
Do dossier Megalópoles ao Ataque do Planeta, Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Abril 2010

2 bitaites terça-feira, 27 de abril de 2010


As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.
Fernando Sylvan

Abro as portas ao sol, deixo cair a mão sobre a grade semi lixada, ouço os sinos da igreja não sei se da Lapa, que tocam sempre fora de hora, antecipam-se ao tempo e é bom para me lembrar que tendo a correr demasiado atrás do prejuízo. E tenho a mania disto de criar e abandonar, envolver e fugir, deixar tudo no ar, e sob os castelos que assim se montam, que diz o Thoreau que é aí que devem estar, é agora o tempo de os alicerçar, nas nuvens. Ciclos disto a toda a hora, aceitando que a Lua, se existe é para respeitar e abraçar, que se somos livres temos de o saber celebrar, e menosprezo todos aqueles por quem as estações não passam, onde já se viu viver o inverno de forma igual às primaveras que em nós nascem. Tento seguir sempre mantendo alguma calma por dentro se não de que me valem os dias cheios, do sol na cara, dos ventos do mar, das flores que colho.

"Eu sou a princesa da Primavera e do Verão e a rainha de tuôdas as fluôres!" diz a Violeta quando dá por mim no momento em que subo o último degrau e a encontro. Mostra-me, pequenina, lá na varanda, que tem um cubo de papel nas mãozinhas em forma de dádiva. Estica os braços num movimento lento e vertical, eleva o cubo até ao nível dos olhos "Estou a fazer uma suôpa de fluôres, para ti também, não te preocupes." Numa moldura de flores amarelas enquadrada na varanda cor de rosa da casa onde cresci, aponta para longe, por trás da magnólia que já não está em flor: botões de micro rosinhas cor de rosa. "Chiêga-me aquelas fluôres!" Aponta, inclina-se, dependura-se. Queremos sempre as flores lá longe, perfumes que nos enfeitarão os cabelos, abismos dentro de cada e entre nós.

Entrego-me com ela aos jardins, e estamos de facto lá dentro, onde o passado e o futuro não existe, no sítio em que os pássaros não falam connosco só porque apreciam o silêncio mas compreendem-nos e a cada árvore fazemos festinhas, desculpa, mas vou ter de guardar estas pétalas para mim. É que estou a fazer uma suôpa. De cócoras na varanda, mão ainda caída sobre a grade semi lixada, olho para as camélias que trouxe e deixei na mesinha da sala. Suspiro em voz alta que vou ter de desistir de ti, prédio, vou ter de te deixar sair, JUP, vou ter de te abandonar, o meu rumo é o do sul e em mim ecoa a frase de Dan Gilbert, sobre encontrar a verdadeira felicidade: Accrue wealth, power and prestige. Then lose it.

Vou ali até ao Brasil e Chile ver se tudo cá continua igual e já volto. Fui! :)

1 bitaites quinta-feira, 22 de abril de 2010

Nos últimos anos, a realidade respondeu-me assiduamente que o jornalismo era uma linguagem tribal e maldita, um idioma de poder e superioridade. Tive a oportunidade de outras respostas, percorrendo um mapa de africanos que constroem novas ilhas: subversões picando o oceano. Escrever é conhecer com tempo. É lenta a doçura do mel.
Pedro Rosa Mendes

Comprei pela terceira vez o Madre Cacau, um dos livros mais lindos que conheço e que vou multiplicando por espaços, ora porque o perco em esquecimento ora o ofereço a quem merece. Editado pela ACEP, ilustrado por Alain Corbel e escrito por Pedro Rosa Mendes, jornalista que disse um dia que Timor Leste é uma ilha insustentável e depois o mundo caiu-lhe em cima. Ontem, aqui nos Dias do Desenvolvimento, numa sessão sobre "Media, Cidadania e Desenvolvimento", ouvi-o introduzir uma definição do que é o jornalismo cívico ou de desenvolvimento ou de causas. Ao que parece, é um tipo de jornalismo feito por jornalistas que não se resignam a posturas letárgicas. Rosa Mendes fala da preguiça. E faz lembrar o imperativo da cidadania. Uma espécie de curiosidade não intencional mas naturalmente vinculativa, não sei repetir.

O mundo da informação e os dias do desenvolvimento deviam ter mais destas Rosas, penso, e concordo com o outro, Alfonso Armada, que dizia que todos nós somos cúmplices na forma como condenamos alguns países à inexistência, países, lugares, chamemos-lhes causas.

2 bitaites domingo, 7 de março de 2010


Avidamente procuro um estado de não avidez.
Sem certezas, serena sei que só nesse espaço é possível aceitar o caminho dos eixos que se percorrem.
Anseio todo o momento apreciar viver sem o saber ou pensar.
Quando por fim chegar, sonho todos os dias, noites, sentar à janela, alpendre, varanda, e desencadear espontânea conversa com a vizinha, que passa e se deixa ficar.
E sair, ficar, não pensar, embora a meditação mo diga que o queria, mas pedia, a nostalgia latente, que por favor, não pense, em mim, no outro. Sabendo que se mentia, querendo, padecendo, por tudo menos tranquilidade, uma réstia de esperança, avidez, relação, que criamos na busca do culminar em isolamento.
Que só nos alimenta por dentro houvera perdido qualquer prazer sofisticado ensimesmado.

0 bitaites sábado, 27 de fevereiro de 2010



Vi a polícia balizar a rua, do Bonjardim. Por cima deles, fruto de temporal ocasional, sacos plásticos vazios esvoaçavam em movimentos espiralescos e aleatórios. Alguém passava carregando à cabeça um colchão de casal manchado, enchia a parte de trás de um camião aberto com isso e mais molduras da última ceia e abat-jours de veludo verde.

Outro levantava a fita que tapava o caminho para um carro passar na mesma, por baixo. Fez uma sequência de gestos ao carro que vinha a seguir: não com o dedo, aponta para uma fachada, traz com a mão a fachada até si. Pergunto-me através da janela, terá caído mesmo? Fui ver. Diz que são efeitos do clima, mas eu não acredito.

A famosa casa entaipada e desenhada pelo BE, tanta casa sem gente tanta gente sem casa (já com uns acrescentos em grafiti com algumas especulações sobre a sexualidade do Sócrates...), tem caído aos seus pés um rochedo enorme, misturado pelo metal de uma antena que voou e caiu em cima do Clio ali estacionado. Do grupo de pessoas que discute à porta do tasco do outro lado da rua, ouço dizerem-me "Menina, isso não é nada! Tem de ir ver ali atrás."

Está lá uma catarse de rufos, caleiras e outras peças amontoadas. Ninguém fala do clima, falam do Rio e da expropriação pela Câmara. "Tiraram-nos isto tudo e depois não fazem nada. Agora querem que vamos viver para outro lado, estas casinhas tão bonitas, vivi aqui a vida toda", encostada à pia de pedra onde ainda lava a roupa comunitariamente com as vizinhas do lado, do bairro, da ilha.

1 bitaites segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010


Enviada a carta com a minuta ridícula e sem esperar que os meses parem de passar enquanto eles se decidem a avançar com o processo, pude voltar a visitar o engenheiro para lhe entregar uma cópia da dita acrescida do aviso de recepção bem como da cópia do recibo de renda de Fevereiro com o novo-velho valor actualizado-mantido de 20€. E venha daí o imbróglio seguinte.

Enquanto aguardava ansiosamente o parecer / despacho / comunicado porvir, refiz contas ao orçamento que o engenheiro já avisou que vai levantar problemas. Não sabe bem porquê, ainda nem olhou para ele atentamente, mas parece-lhe. "Que nós não somos enganados", eia! Belo princípio, andamos todos a querer arrancar os olhos dos outros. Em Fevereiro o entretenimento foi pois tirar medidas e aprimorar o belo do modelo III do processo. Vesti assim o meu alter ego de empreiteira, engenheira e orçamentista, e não sei bem como até comecei o mês com um sorriso na cara ao pensar na fachada cada vez mais cadente e decadente. É que o processo parece um jogo tipo o filme, mensagens em código que alguém mete na caixa do correio e não poucas vezes assina só com siglas da Câmara do Porto, misteriosas.

Recebi outra dessas na semana passada, vinda de alguém que se esqueceu de falar com o colega do escritório ao lado da grande instituição camarária. Mais umas palavrinhas a acrescentar ao meu vocabulário burocrático crescente. Desta feita, quesitos e a hipotética formulação dos mesmos, aquando da vistoria que será feita em Abril, não pelo Porto Vivo, mas pela Câmara em si, que agora acredita que tenho mesmo de fazer obras, e que quer intimar-me a fazê-las.
Errr... Hey! Eu quero fazer obras!! Fale lá com o seu colega de lado que ele até já tem os papéis todos com o meu pedido. Olhe que não é um pedido qualquer: são 5 quilos de papéis.

Graças a deus que já cá não estão em casa, senão teriam encurrilhado com a humidade do ar que se fez sentir em Janeiro. Foi mês de andar atrás de quem tratasse das caleiras, do fogão e chaminé.

Sempre e para qualquer dúvida dirijo-me ali à senhora do mini café (que é só um balcão). Por acaso conhece quem trate? Na maior parte das vezes ela não sabe, mas assim o cimbalino a 50 cêntimos dá também direito a 5 minutos de alimento à sua curiosidade mórbida sobre os motivos que me trazem aqui ao bairro. Quando apliquei a palavra bairro, o filho dela, 40, bochechas, camisa de flanela, engasgou-se.
- Conhece quem arranje fogões aqui no bairro?
- BAIRRO?!? Onde é que pensa que está?
- Bem, este é o meu bairro, é onde eu moro, é assim que o trato.
- Que com o gás não se brinca, menina, diz, e que mais vale comprar um fogão novo.

A fuga fazia com que tivesse de estar a cozinhar enquanto tomava banho. Coisas da vida. Depois, a caminho do Largo do Padrão, trânsito infernal, ora levanto os olhos da poça ora reparo nos edifícios em redor à procura da loja muito boa para comprar fogões que o outro falou. Vejo a porta de alumínio e os outdoors recessos de neon que quase dizem "fogões a gaz" não fosse faltar o O o E e o Z num cor de laranja que se confunde de amarelo pálido. Um senhor de dentes pretos assobia do outro lado, que quer? é gás? Sim, é, e tento começar a demorar-me em explicações, que o antigo inquilino era um bocado porcalhão, ele interrompe constantemente, tenta adivinhar o final da história que me propus a contar ali no meio do passeio, ao lado de um tubo de queda roto quais quedas de água do Gerês. Diga-me lá a morada. Nós levamos lá a garrafa! Não sei porque dei a morada mas não é garrafa que eu quero, que aquilo estava uma miséria mas com o gás não se brinca, e mais vale comprar um novo. Ah então é um fogão que quer, pois que remédio, preços, onde é a loja. E assim veio um novo fogão a gás, no dia em que a dona Aurora foi levada pelo INEM para o hospital. Uma velhinha pequenina, com Parkinson, que me chamou pela primeira vez a atenção quando reparei no à vontade com que deixa a casa de pantufas e roupão e anda 50 metros até ao café das tijoleiras, aquele onde puseram uma mensagem ao lado da TV a dizer que ali é proibido ouvir o relato sem headphones quando está a decorrer jogo de futebol.

Estava eu dentro do mini café da auto-intitulada coscuvilheira que me pediu que me calasse para ver melhor o que o INEM estava a fazer ali. Olhei pela janela, e dentro de um Scarlett vermelho, um velhinho tratava de um raminho de flores tipo urze, se é que as flores podem ser rudes, num molhe dentro de copinho de plástico, pousado no tablier do carro, ao lado do terço pousado em renda de bilros.

3 bitaites quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

As Duas Frida (1939), Frida Kahlo

4 bitaites quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Final de dia stressante, 6ª feira com demasiada gente a massacrar-me, descarregar problemas em cima até ao contágio do espírito vencido. Ficamos as duas sentadas à mesa do restaurante. A mãe (dela) levantou-se uns segundos antes. Levo a mão à cabeça:
- Ai canerbos, Violeta! Porque é que eu às vezes falo assim com as pessoas?
- Tia, é normal. Também me acontece a mim às vezes... Aliás, às vezes até faço asneiras, sem saber que são asneiras, porque sou criança, não é, e ainda não sei tudo! E depois fico a sentir-me mesmo mal, porque eu fiz aquilo e nem sabia que era asneira. São dias. O melhor nessas alturas é ir dormir, já não há nada a fazer.

1 bitaites segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Hoje dei mais um passo no processo a que dou o nome de Porto-Morto-Vivo referente ao palácio a que chamo Olivença. Mais ou menos a cada duas semanas há assim um impulso, kafkiano, ora encrava ou avança, lenta e absurdamente.

Nem o processo tem originalmente esse nome, nem o palácio é palácio ou sito pela conservatória do registo predial em Olivença. O cerne disto tudo é o Porto Vivo, sociedade de reabilitação urbana que conduz o processo na baixa portuense... Chamo-lhe morto, para além de vivo, porque vai-se a ver e o processo torna-se um pouco suicida a dada altura, e desgasta até à zombificação do proponente.

Portanto, ponto de situação, há duas semanas que massacrava com telefonemas quase diários, "Então, já sabe o que posso fazer?" - "Ainda não, ligue amanhã." Pedia-lhe uma reacção à bela epístola que tinha enviado uns dias antes e onde era possível ler, não necessariamente pela ordem sugerida, palavras como

fachada extraordinária,
parecer despacho...
balizar bombeiros.
correcção: artigos!
anexo assentos
coeficiente é 1
jurídico
encravou.
Tais dissertações poéticas (não fossem os números dos artigos e decretos a que se referiam) tiveram como destinatários o engenheiro, a doutora, a sigla, a família. Foram lidas em voz alta qual ensaio que aguarda aprovação do júri do momento.

Na 6ª tive autorização do engenheiro para desencravar o encravado jurídico cujo antídoto tomará efeito caso eu escreva uma nova epístola, desta feita registada, e com aviso de recepção. Encontrei-me com ele, camarário, no prédio espesso ali no Pátio do Bolhão. Ofereceu-me umas belas cópias desfocadas e com grão da minuta que me orientou na execução do próximo passo, a nova tarefa. "Rídicula", o próprio apelidou-a. Mas tem que ser. E, hey!, se é isto que permite desencravar o RECRIA em gestação há dois meses, numa qualquer pilha de dossiers em escritório amarelecido, siga com a minuta!
Cara senhora inquilina, lina,
trago-lhe uma correcção extraordinária
rídicula
e isto é só para a avisar
que a dita correcção
se aplica à sua renda mensal de 20€
que a partir de agora e solenemente
ao abrigo do disposto no
artº 11º, 12º, 9º
Lei 46/85 de 20 de Setembro
decreto preambular do decreto
321B/90 1379-A 1379-17/2009
Como ia eu a dizer
o coeficiente 2010 é 1
a renda de 20€
é corrigida para
20€
só para avisar
registado e com aviso de recepção.
Atentamente.

Foto de Nopasaran

3 bitaites sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deixei o ano com um grande paradoxo que é esse termo jamais em forma de nó no cérebro. Jamais. Já. Mais. Alguém disse, e fiquei dividida entre o nunca e o impreterivelmente imposto, anotei-o.

Entrei no ano acreditando vir a voltar a andar com um mini canivete suíço no porta chaves, navalha, caneta, palito e lima das unhas. E um relógio. E uma pen. E juntar um batôn com caixinha rosa estilo bola de discoteca, mais as chaves de casa, do prédio, do JUP, o comando da garagem, e uma miniatura de livro com a Declaração dos Direitos Humanos. Em menos de 12 passas já tinha o canivete, que perdi passado uns dias. Nunca troquei a pilha ao relógio, juntei a pen mas não usei. Do batôn partiu-se o cabo, as chaves foram trocadas, o comando passou de mãos. O livro continua na mesinha. Carrego no bolso mais do que quero, posso, devo e mereço.

Hoje tiro tudo, é das luas, invoco deliverables do ano passado, no qual, fazendo o balanço de contas, foram três as noites que dormi em praia tropical, colchão bem no meio do areal, recorte de coqueiros na contra luz, manto de céu estrelado sobre mim. Vi o outro lado do mundo. Vi o mundo do avesso. Dividi cada dia com outro mundo, virtual, e neste acordei mais que vezes de todo perdida, des-reconhecendo andaime, sofá, tapete, fuso horário. O conforto só vive por dentro, no avesso.

Do outro lado do calendário, a caligrafia mantém-se, a reflexão é outra. Porque a partir de agora vou pensar menos. Ou vou tirar menos tempo para pensar. Sem deixar de comunicar. Em 2010, quero pensar, sim, só que mais rápido. E mais. Como quem dá lanço: Pensar, pensar... Saltar.

Ter uma queda para, ponto parágrafo, não um dom mas a índole, a vocação.
Ser o que se é, ponto parágrafo, e venha ele, fazer as pazes com o mundo, repetir para si próprio três vezes, azul, turquesa, vermelho!, em voz alta, diz o narrador, pensar, pensar, fazer!, que Anónimos de A grande se fazem todos, com os seus céus roxos ou laranja, amarelos, frios, distantes, intensos.

O que quero para os outros, o que quero para mim, o que quero para o mundo, o que vier tem de prever, que o que conta do que temos, é o tempo de o celebrar. Esqueci-me. Deixei para amanhã.
Jamais. Já. Mais.

0 bitaites terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hapara Violencia Kontra Feto / Pára a Violência contra a Mulher / Stop Violence Against Women
UNIFEM Timor-Leste 2007

Hoje exige-se a erradicação da violência contra a mulher.
Enquanto olho para este cartaz, ironicamente, só me ocorre um outro lado da história, que é o da violência no sentido inverso, que por sua vez está ocasionalmente abrangida no âmbito da violência doméstica: atenção, apesar do feminino, não tem género. Ha'u mak vitima! / Eu é que sou vítima!

Mas ok, falemos de mulheres hoje. No bairro do Bonjardim, no outro dia tocou-me à porta uma senhora a quem tinha pedido por telefone para lá ir fazer (curiosas) limpezas (mas essa seria outra história). Quando abri a porta lá em baixo, contra-luz vi primeiro uma figura pequena e frágil, de chapéu de abas largas. Um passo para dentro do edifício e a cara totalmente desfeita, derretida em queimaduras, sem sobrancelhas, pestanas, e os olhos quase de borracha. Na manhã desse dia, quando lhe liguei, foi o marido que atendeu, ultra agressivo, desconfiado, brejeiro. Ela entrou, sentiu o desconforto do meu olhar directo nos olhos dela, sei que não aguentou isso e foi. Quando voltei a ligar-lhe o marido deu um berro tipo "nem pensar!", eu atónita perguntei porquê, ele mais enraivecido com não sei o quê, insisti, não adiantou, não sei o que fazer. Violência física com violência intelectual se paga e se os números de 1 em cada 3 apontam mais para a primeira, não é fácil disseminar as teias em que a segunda se desenvolve e parasita o lugar que a própria mulher mostra ter face ao homem. Não há Lei da Paridade que imponha resultados reais - a mudança tem de vir da base.

Resta-me dizer que na acção de sensibilização sobre Mulheres na Política do mês de Outubro, quem dinamizava o workshop contou que não são dois mas sim cinco os géneros que existem, e não sei se isto é novidade para vós, mas a mim o queixo caiu-me um pouco e certamente levou-me a pensar na multiplicidade de muros de violência e opressões que tem estado tão longe de mim (será?).

Eu cá sou da paz. Tenho no entanto a certeza que é urgente fazer guerra à violência e a minha angústia é que o ataque global necessário não precisa de mais armas do que a própria consciência, só que essa parece-se com fragmentos de granada estilhaçada.

E tenho a certeza que o senhor do cartaz é quem o diria melhor, de indicador e médio afastados: Peace.
--
Em 1999, a Organização das Nações Unidas designou, oficialmente, o 25 de Novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Os defensores dos direitos das mulheres já tinham estabelecido, em 1981, o 25 de Novembro como o dia contra a violência. A data relembrara o assassinato das irmãs Mirabal, activistas políticas da República Dominicana, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo, no dia 25 de Novembro de 1960.

Esta data visa relembrar que, em todo o mundo, pelo menos uma em cada três mulheres já foi agredida, forçada a ter relações sexuais ou sofreu algum tipo de abuso ao longo da sua vida, geralmente por parte de alguém conhecido.

1 bitaites sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Dia sem luz nem sombra, o de ontem, cinzento, no qual se discutiu o jornalismo universitário na Faculdade de Direito, a convite da equipa do Tribuna.

César Príncipe (que cito no título deste post), interveio inspirando e demarcando a responsabilidade do jornalista enquanto manipulador / facilitador da consciência colectiva.

Começou por pegar no futebol com uma ironia subtil a propósito do jogo da noite anterior. Insistiu tão prolongadamente no assunto que com o exagero permitiu perceber o estado geral das coisas. O jornalismo é isso: numa tentativa de ilustrar o que é a sociedade local ou global, impõe hábitos. De consumo. Postura. Jornalismo é poder e é alienação, é luz e sombra.

Outro discurso, bem mais derrotista, falava em sangue, suor e lágrimas, capacidade de sofrimento, sabedoria na espera e trabalho, afinco, alma, dor, solidão, uma tragédia. Falava de crime e de cliques. Não gostei. A definição de jornalismo de proximidade não ficou muito clara, embora à primeira vista seja sonante. Resta conhecer as ferramentas de medida dessa distância e se Fénix renascerá das cinzas.

Estava já eu quase a chorar com o sofrimento do outro quando Príncipe responde “Que o sofrimento tem de ser democrático”, o que me fez sentir mais amparada. Depois, quando lhe agradeci no final em privado o discurso construtivo, reflectiu ainda sobre outras esferas. Falou do Muro de Berlim, e do entretenimento do espectáculo televisivo nas comemorações do 20º aniversário da sua queda. Enquanto o ouvia, senti e assisti a uma tempestade de areia nos olhos da população mundial. Quis saber dos outros muros todos que hoje ainda existem. Quis vê-los, lê-los, e outras aliterações e imposições sobre as quais pouca consciência existe.

1 bitaites

350
3 bitaites domingo, 18 de outubro de 2009

Foto de Marisa Gonçalves

350, diz hoje o mundo em uníssono. E já tem vindo a repeti-lo, apelando à acção climática, exigindo o pagamento da dívida que principalmente os países do Norte têm de pagar ao Sul do mundo, que são quem mais sofre pelas alterações provocadas pela mão do Homem no ambiente.

350, dizem, é o número mais importante do mundo. Indica o nível que os cientistas consideram ser o limite máximo de segurança para a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Há dois anos, climatologistas de topo, após terem observado o rápido derretimento do gelo do Árctico e outros sinais assustadores de alterações climáticas, publicaram uma série de estudos segundo os quais o planeta estava em risco de catástrofe natural e humana se as concentrações de CO2 atmosférico se mantivessem acima das 350 partes por milhão.
Da meta global estabelecida para sustentar o planeta e evitar a completa catástrofe, se por um lado a Europa dos 15 tem conseguido reduzir em 5% as emissões de gases que provocam o efeito de estufa, Portugal, encontra-se no 2º lugar negativo do ranking, tendo aumentado as suas emissões em 36%, logo a seguir a Espanha que aumentou 52%. (dados de 2007)

Este retrocesso esteve bem explícito durante o dia de hoje na inércia intensa que se viu na cidade do Porto. Ao mesmo tempo, mundo fora, apelava-se aos líderes mundiais que em Dezembro em Copenhaga, seja assinado um ambicioso, justo e vinculativo tratado global de clima. Desenhem-se estratégias de acção, políticas climáticas com base nos mais recentes dados científicos e suficientemente fortes para baixar os níveis até aos 350.
Neste momento, sobretudo porque queimamos tanto combustível fóssil, a concentração atmosférica de CO2 é de 390 ppm – o que é muitíssimo elevado, e é por isso que o gelo está a derreter, a seca está a espalhar-se, as florestas estão a morrer. Para fazer este número descer, a primeira tarefa será parar de pôr mais carbono na atmosfera. Isto implica uma transição muito rápida para energia solar e eólica e outras formas de energia renovável. Se pararmos de lançar mais carbono na atmosfera, as florestas e oceanos irão lentamente sugar parte dele do ar e trazer-nos de volta a níveis mais seguros.
É difícil quebrar com os vícios, sei. E muito mais quando a lavagem cerebral com que os media presenteiam as vidas de muita gente manipula hábitos ao ponto de fazer crer que o consumo sem escrúpulos, a dívida desregrada, a vida em crédito, é que são a opção. As mudanças climáticas são efeito de um estilo de vida que não pode ser mais.

Contaram-me que nos Açores os locais compram batatas de Espanha, que custam só 40 cêntimos e que as batatas locais, de produção biológica e baixo consumo, custam 80 cêntimos o Kg e não pode ser. A mesma pessoa que o disse, usa roupas de marca e um relógio caro no pulso. Não comprou essas peças na feira para poupar 20€, mas acha fulcral poupar aqueles 40 cêntimos das batatas.

Eu cá ando a repensar a minha forma de vida, aquilo que (e como) consumo.
Eu cá, quanto mais coisas tenho, mais pobre me sinto e as pessoas mais felizes que conheci só tinham duas ou três coisas, mas sempre comida boa na mesa.

3 bitaites quarta-feira, 2 de setembro de 2009








Felenko Yefe - Momo Wandel Soumah

Não quero ver Setembro chegar, não quero.
Nada de calos nem poeira na sola dos pés, ou verniz vermelho na ponta dos dedos.
De repente fica frio, e já se veste mais um casaco, e outro, camadas que nos afastam de nós.
E longe vão os dias de sol na portada, e desvios do buraco da lagarta na maçã, trincando carneiros contados, cercando a dita, sem pudor mas com cautela, em noites de brisa quente, madrugadas de vento que sacode cortinas. Transparentes, luminosas.

Aquela frase que se repete pela ânsia dos pôres-do-sol contados e luz ténue no horizonte povoado. Talvez seja por ter nascido no magusto, pelo cabelo ter sido sempre da cor do Outono - mesmo naquela altura em que o pintei de mercurocromo e havia reflexos vermelhos e esverdeados - there's something about the fall, falling down on me.

Os chinelos dão lugar a botas com lã quente.
Já não me embrulho numa lipa leve para sentir o conforto do trabalho em casa - abraço-me de cobertores, aquecedores, incensos e música.
Saio à rua, pulsos arrepiados, e cheira a castanhas.
No Verão há quem não queira acabar de ler o livro - histórias demasiado boas, coisas que se demoram. Chegando Setembro, sei que dou por mim embrenhada, fechada lutando numa mesa e quadros, à minha volta que "Eu amo o Longe e a Miragem, / Amo os abismos, as torrentes, os desertos… ". Ficar a ver isto acontecer, é uma espécie de sina, ou aceitar uma missão.
Vejo, Setembro entrou, de mansinho, porque hoje já é dia 3.

De boas-vindas, indómita a vontade de escrever, te, uma carta.
É que sempre insisti fazê-lo. Mesmo em anos de silêncio escrito, em papel, que destinatários foram outros. Tipo cuidar de flores, tivera eu um bonsai, sempre voam envelopes, colagens, espirais azuis, mas nunca mais tomate vermelho, Matisse.

2 bitaites sábado, 8 de agosto de 2009

Na International School on Digital Transformation, para onde fui directa de 2 dias de aeroporto à volta do mundo, entrei com ideias inspiradoras - não fossem os exemplos demasiado centrados no caso americano - sobre "Social Change Infrastructure: Building Values Into the Way our World Works" (Nicholas Reville).

Que é tempo de reflectir sobre os pontos onde a sociedade e a tecnologia se encontram, e fazê-lo como activistas e não como mero exercício de observação. [Aqui a primeira palavra que ficou a ecoar, e me fez reflectir antes o percurso que andamos e/ou ando a traçar.]

Criticando o poder que grandes empresas detêm para a manipulação da sociedade - claro que de um ponto de vista tecnológico, informativo e comunicacional - bate com o pé: "podemos decidir a forma que o nosso mundo tem", e apela:

  • Aos Académicos – "que sejam a mudança climática"
  • Aos Estudantes – "que se juntem ao movimento - sejam activistas"
  • Às Organizações – "que alinhem as suas tecnologias com os seus valores"
  • Às Fundações – "que adoptem uma abordagem comum para a construção das infraestruras sociais"
E sim, claro, era bom que toda a gente participasse, mas não sei se basta a "abertura e transparência" para criar o "envolvimento para uma sociedade participativa". [Aqui outra palavra-eco, que tem de ser escrita em inglês, que em português soa estranho participatory.]

A verdade é que do meu ponto de vista, apesar de até ser fácil envolver as pessoas etereamente com um discurso apaixonado sobre determinada causa, os activistas são muitas vezes vistos como o pequeno grupo de maluquinhos que quer impôr coisas que ninguém percebeu muito bem. [E a propósito desta necessidade de saber passar as mensagens, adorei o trabalho da Tactical Technology Collective, que desenvolve publicações e formação para a visualização e comunicação "for social change".]

Já Siva Vaidhyanathan vinha a dizer a seguir (para além da polémica, citada agora pela 3ª vez no blog, "O Google é a lente através da qual vemos o mundo"), que "pequenos grupos de minorias podem de facto fazer mudar o discourse", e citou A Biblioteca de Babel (Borges, 1941), talvez como uma forma de mostrar a grandeza do "projecto do conhecimento humano vs a googlização de tudo", que deu nome à sua apresentação.

Estava eu já completamente saturada de tais embrenhices conspirativas, dissertações rebuscadas e questões complexas, com o cérebro a funcionar ao ritmo da água de côco que julgo que ainda estava a digerir no estômago enquanto pensava que o mundo se vê através de muitas lentes, e como Caeiro, somos todos do tamanho do que vemos e que isso não se mede pelos pixeis da caixa de pesquisa do Google, quando alguém faz descer à terra.

Sinto a leve aragem de um papel que abana na mão, e uma caneta na outra, de quem está agora no palco: Warigia Bowman, sobre os "Desafios e Oportunidades para a Tecnologia de Informação na África Oriental". Tal qual chapada de luva branca ao dizer que a tecnologia de informação pode ser só uma caneta e um papel. Ser activista, participativo, bem sucedido é saber o que as pessoas precisam.

E depois exemplos concretos, novidades, sobre os motivos do cyber-apartheid vs inclusão digital no México, pela voz do antropólogo social Scott Robinson; ou a forma como as tecnologias móveis passam para cima naqueles locais onde não existem infraestruturas físicas, e criam mudanças reais através de "advocacia móvel" e oportunidades inovadoras de desenvolvimento, apresentada pela fundadora do MobileActive.org, e TED Fellow, Katrin Verclas.

Aqui, à procura do significado de advocacia - que em inglês soa a coisa activista (mas talvez seja culpa dos sítios onde a vejo escrita) - que não é mais do que a contestação de uma causa:
(...) encontram-se sempre entrelaçadas a dignidade do homem e a responsabilidade da profissão na luta pelo direito, pois só esta é própria da advocacia.
COUTURE, Eduardo Jorge

Só que se são muitas as pessoas que sabem o que é a dignidade do Homem, especialmente no mundo ocidental, eu não estou certa. Cada vez tenho mais pessoas por perto que não se acomodam a um sentimento de ganância, e elevam outros valores. Para quê? Porque querem chegar ao "outro bilião", parece. Podem procurar o mundo no Google todos os dias, mas viram também uma motivação qualquer em fazer coisas boas por um desevolvimento justo, sustentàvel e equitativo a pensando globalmente, agindo localmente.

Depois disto tudo, a (minha) lavagem cerebral fechou com Sunil Abraham, que cheio de metáforas e analogias, encheu o espírito activista, participativo, advogado e digital de todos os que o ouviram.
I am a child of piracy. I would not be here if i was not a pirate throughout my life. I could only get through school by pirating the books. To me, criticizing the piracy is like spiting on my mother’s face.
***
Dois meses de loucos, vejo, na tentativa de estabilização, que são palavras que ficam, a repetir-se, a provocar acção. E, aparentemente, sim, escolhi uma localização geográfica bastante exacta para já (uma entrevista que me fizeram aqui), e quero oferecer algumas destas a pessoal - gente boa! - que conheci por aí, e pô-los a falar, falar, falar. Are you listening?

1 bitaites

1 bitaites sexta-feira, 31 de julho de 2009

 

Copyright 2006 | Template cedido por GeckoandFly e modificado e convertido para Blogger Beta porBlogcrowds.
Muito obrigada :) Se queres conteúdo reproduzir, basta pedir!