Era certinho, sagrado.
Todos os dias, saída das aulas por volta das 18h30 caminhava calmamente, havaianas, até ao Bairro. Nos meses de Junho e Julho, anoitece mais cedo, é Inverno, e talvez por ser a época seca, desenham-se tons densos de rosa e laranja no céu. Sem ou quase sem nuvens. Eu gosto mais dos pôres do Sol com nuvens, mas o certo é que aquela gama cromática, dava uma óptima entrada na penumbra que se seguia.
Entrava em casa, cobria-me de tunicas e lenços, para voltar a sair. Não estava frio algum, mas tinha de me tapar. Com a penumbra vêm também os mosquitos, que me adoram.
Saía de casa, descalça, e ao lado da minha casa (é a 2?), entre a parede do meu wc e o muro imponente que separa da rua que vai para Colmera, existe um pequeno arvoredo. Papaias, que são altas, e duas árvores, semi-raquíticas onde a rede que trouxe do Camboja encaixou muito bem.
Colocava as duas espirais de incenso insecticida em dois pequenos raminhos partidos: um perto da cabeça e outro perto dos pés. Deitava-me, a olhar o topo do Hotel Timor, vestia o iPod, fechava os olhos, ou deixava-os semi cerrados, e começava a cantar muito e bastante alto. Essencialmente a Marisa Monte, Sloppy Joe, e uma ou outra música timorense :)
Se alguém chegava ao Bairro, não me via, mas ouvia. O meu sítio era secreto. A rede é tão pequena que só eu caibo lá (talvez um dos seguranças às vezes batesse ali uma sestinha). Se fossem perguntar por mim a minha casa, os senhores professores que vivam comigo (cada um com a sua panca!), apontavam envergonhados para Sul: a miúda está doida... não a ouves?
E às vezes lá aparecia um ou outro, e a minha terapia diária de evasão terminava assim.
quarta-feira, 15 de outubro de 2008
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2 bitaites:
uau, uma descricao bastante grafica!
Neca
Obg por estes bocadinhos...
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