0 bitaites domingo, 18 de janeiro de 2009


Das coisas mais impressionantes que vi foram cemitérios em locais inesperados, com ou sem fundo azul. O que impressionou nesses cemitérios não foi o desenquadramento da morte em cenário de vida tropical, mas sim o facto de a morte ter vindo, em massa, e em data única. Campas de todos os tamanhos, de nomes variáveis - por vezes, de apelidos iguais - e que coincidem na inscrição do dia final: massacres, esquartejamentos, "pedaços colados às paredes da igreja", encontram o seu descanso que se consome na doce balada do mar.

Pergunto-me sobre as marcas que ficam, na pequena vila de Liquiçá (na foto) onde todos os habitantes não têm outra opção senão recordar o que ali viveram em 1999.
Pergunto-me sobre o imaginário dos adolescentes que enquanto crianças assistiram a uma desgraça sangrenta assim.

E a ferida aberta que fica naqueles corpos que nunca apareceram depois de chacinas, torturas, genocídios pela auto determinação?

Amen.

3 bitaites terça-feira, 13 de janeiro de 2009


5 bitaites quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


I'm an Author for Global Voices

O Global Voices Online é um projecto de jornalismo cidadão da Universidade de Harvard que pretende "agregar, selecionar e amplificar a conversação global online – iluminando locais e pessoal que outros meios geralmente ignoram".

Leiam o Global Voices Manifesto e... check me out!

7 bitaites segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

[Chamo-lhe chilrear dos pássaros porque tenho vergonha de o chamar pelo nome - que me descubram - e quem tiver de perceber, perceberá.]

Sempre tive tendência a gostar de grande egos, dos que falam muito na primeira pessoa. E digo isto enquanto ouço o Jorge Cruz "tu és o que és e eu sou, eu sou eu". E do meu, nada sei, não que não o tenha - talvez até seja grande - mas não o sei explicar em mim, embora consiga só de olhar, identificar quem é que o tem, e tem grande, como eu, erradamente, gosto. O chilrear dos pássaros tem um grande ego.

Vício é o nome de alguém que já me foi muito querido. Acarreta com ele mil palavras que estão sempre por dentro, a teclar, ou a refrescar, para saber. E há sempre aqueles, que nem sonham, que o são em mim, e eu sigo e procuro e quero saber. Porque quero saber? Era o que acontecia com a primeira palavra do dicionário do telemóvel. O chilrear dos pássaros é um vício, obsessivo, anónimo.

Quando olhamos para o ferido e pensamos "eu não quero ver isto", quando entramos no carrossel da vertigem e pensamos "eu não quero estar aqui", quando ganhamos coragem e vamos falar e pensamos "ai já não posso voltar atrás". O chilrear dos pássaros tem a velocidade dos planetas, e o eco das montanhas, embora talvez não vejamos nem ouçamos isso, porque embala.

1 bitaites sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escrevo porque acabo de ter um ano extraordinário. Estou agora naquele espaço do passo que se dá para entrar no próximo, e não quero seguir, sem agradecer, contra tudo o que esperava, ter passado do preto para o branco, com todos os tons de emoções que se podem encenar pelo meio, nos mais diversos cenários do mundo.

Primeiro, era eu a entrar na Casa de Saúde da Boavista, ainda manca, com uma malinha nas mãos, e sozinha, "venho para ser operada". Dali saí inchada, mais leve do peso dos dentes e parafusos que de mim já não fazem mais parte. O luto do corpo invadido.

Depois era eu, em trânsito, no aeroporto de Hong Kong, a não acreditar, por não saber ainda, que a vida, fazendo-se, corre como uma roleta de ter histórias para contar. A altamente improvável diáspora.

E tudo o que daí surgiu, por andar com os braços abertos. A melhor coisa que fiz até hoje, quando contigo partilhei a madrugada, de Sol acima das nuvens. Cada qual com a sua paz.

As plavras mais lindas que dei, as palavras mais lindas que recebi. Assumir-me platónica e solitária, como forma de estar, e deixar, nos outros, pedaços assim. E da solidão, sempre que em dias como hoje, vir raios de Sol ténues, amarelos enquanto batem no paralelo granítico da Ribeira, sentir que as gotas de chuva são pesadas, nascem ouvidos quando vejo alguém a perguntar: se a tua casa estivesse a arder e só pudesses retirar uma coisa, o que escolhias?

Nada. Agora, vai tudo acontecer.
(O tom nostálgico vai mudar.)

1 bitaites quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

3 bitaites terça-feira, 23 de dezembro de 2008


0 bitaites domingo, 21 de dezembro de 2008

Ok, o acidente aconteceu, e voltei. Passado algum tempo, umas semanas, talvez uns meses, saiu-me um pedacinho de vidro de carro de um ouvido. Isso explicou porque às vezes sangrava por ali. Durante uns meses largos, sem explicação aparente para que acontecesse, um raio atingia a pequena rótula do dedo polegar da mão direita, provocando espasmos de dor lancinante que me imobilizavam. E depois, também sem motivo algum, a trovoada acabava. Esquizofrenia total.

Era tudo tão físico e real, mas, ao mesmo tempo, eu por vezes questionava-me quanto disso que eu sentia não viria só do meu estado de espírito, rebentado. Sempre assim com uma ocupação cerebral, julgo que um simples caso de disponibilidade emocional.

Depois decidi criar este blog, tirar os dentes e o parafuso, organizar as minhas ideias, e voltar a Timor, fechar um ciclo. Não imaginei na altura que, fechar este, abriria tantos mais.

Há seis meses dizia isto, ouvia isto, vezes sem conta
.

Entretanto, a escala que as coisas ganharam, e as proporções que as coisas vão tomando. Avançar com ideias que se distribuem por locais geagraficamente dispersos, coordenando um projecto, a partir de Portugal, onde são agora 23h de sábado, e ter de falar com pessoas que estão agora nos USA a almoçar, e com outras que estão em Timor, praia de domingo de manhãzinha. Ter agora de saber também que, se dos US não me responderam, é por causa do Thanks Giving, ou, de Timor, festejos da independência, lamentos da ocupação, do massacre. Ter vontades, projectos, sonhos, que nem sequer dão espaço ao pé de se queixar das dores nos ossos, do frio.

E vivo nestes dias uma realidade que, de virtual, se concretiza. Quando me cruzo com vidas que são a sério, e não só a ilusão do imaginado, letras e fotografias, e que representam ideias, não consigo deixar de pensar em alguma forma de as filtrar, tratar, digitalizar, e partilhar. É uma coladela que se multiplica convergindo naquilo que acredito ser o 7º sentido, uma qualquer extrapolação dos nossos dedos para as janelas do tecnológico.

4 bitaites terça-feira, 16 de dezembro de 2008


Ter o céu roxo colado à pele, nunca estes dedos gelados. Nunca o frio. Só nos momentos em que saio do mar, e por a água estar ainda mais quente que o ar que se cola, é que sinto um ligeiro arrepio. Por... Um segundo, vá!

Ouvir os espanta espíritos de bambú que fazem um tilintar, que nem se pode chamar assim porque esta palavra tem is a mais e ali o tom é outro. Mais grave e quente.

O cheiro doce no ar que são correntes de incensos que se cruzam com os cigarros kretek, e caril, quente, como a música dos espanta espíritos, dos templos hindús.

Sempre quentinha, sempre com panos, tecidos, lenços, écharpes, tapada.

Em Ubud, sozinha, acabo de conseguir trocar a viagem em cima da hora. De repente não estou em casa amanhã, mas volto sim, só que daqui a 5 semanas. Até lá, não sei. Passeio no mercado, recuso um frangipani de pôr no cabelo por 1$, páro em frente a esta senhora cujos dentes estavam da cor das sementes, e até é raro por aqueles lados. Penso o que pensará ela de mim, e o que terá dado na cabeça do outro para me pedir tantos milhares de rupias por um frangipani, e como isso seria impossível naquele momento, porque acabo de vir do banco onde levantei dois milhões e meio que estão todos num só maço, no meu colo, quando reparo já estou dentro de um labirinto e decidi que dali não saio enquanto não passar por todos os possíveis corredores antros de cor viva vestidos com todos os tecidos.

Meu dito meu feito e saio dali para fora, pela rua encontro a tasca open-space do leitão na brasa que é esquartejado à nossa frente, sento-me no chão, numa mesa de 4, o sítio está a abarrotar. Junta-se um casal, que, de serem europeus, não falam, eu na minha como a marmita saborosa, cominhos, cravinho, e de repente, PUM, cai-me no braço, cortante, peso pesado. Olho para o lado, mantenho a calma, no braço já não está. No chão, ao meu lado, uma iguana de 40 centímetros, verde fluorescente e estrábica.

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Canto de Ossanha - Maria João

Acompanhar o passo, que é estar assim no vai-não-vai de quem quer entrar nos carrinhos de choque, que é estar a dar saltinhos em falso na berma de piscina, que é estar a ver uma coreografia de fora e querer entrar na dança. Querer, mas ficar com um abacate no estômago, voyeurimo desta janela, que já não mostra o que se sabia, porque as coisas tomaram proporções diferentes.

Ó menina, que homem que escreve assim não se pode descurar! E isso de juntar facas e peito na mesma frase, é porque o caldo já está entornado!...

Brrr são caixas que se multiplicam enquanto os cenários se trocam, olho uma parede branca, e sai, em tremor, "ESTOU A DEMORAR MUITO TEMPO". Tento desenhar os limites exactos para que os galhos não se confudam, da árvore dos macacos. Luto uma luta constante de interesses caoticamente diversos por motivos diferentes em determinadas acções.

Ó menina, que o casamento não vem das letras! Posso querer porque canta assim, para ser porque escreve assim. Porque pinta assim. Porque toca assim. (E entretanto vou ficando para tia.)

Tenho a certeza que vivendo assim neste limbo a coisa há-de resvalar, dentro ou fora do carrinho de choque, dentro ou fora das águas azuis, dentro ou fora da pista de dança. Quando atingir o insuportável, vou manter o passo. Acompanhar o passo. Ei, eu quero entrar, estás a ouvir? Eu quero.

 

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