2 bitaites sábado, 23 de fevereiro de 2008

Há um je ne sais quoi em algumas músicas interpretadas ao vivo por algumas pessoas, que me desconcerta. E a linguagem corporal, essencial, que revela nas expressões faciais, como toda a gente sabe, coisas bem mais dizedoras sobre o sustento do som.

Adoro bigodes, de gato.
Passámos como rainhas (já nem éramos princesas) pelos corredores carmim e populados da casa, entrámos, os melhores lugares. Mesmo à minha frente um espectáculo quente que acendeu em mim as palavras da Marta Ren "my fire is burning orange blue".

Saí apaixonadíssima a dizer muitas coisas com os braços e um sorriso que faz doer as bochechas. A Annie em dois tempos debitou uma sequência, mais que conveniente, exacta!, sobre a envolvência invasora.

E passo a citá-la:

Esqueci-me de te ouvir, quando cantavas.
De olhar bem fundo nos teus olhos e beber as tuas palavras como mel,de sentir a tua pulsação - veia com veia, sangue com sangue, pele com pele - e a voz quedar-se-me muda, as mãos quietas, ainda que trémulas.
De avançar e seguir-te por uma rua, sem mudar de direcção e sem que a rua acabe. ou, se acabar, que tu mudes de direcção e que os teus olhos parem.

Nos meus.
E que não seja preciso um toque , nem um sorriso, mas que as palavras que não dizemos se bastem.
Quando somos só nós.
*

Ela sorri e interpela-te. Ganha coragem, enche o peito do coração grande que lhe assiste, e beija a suavidade do teu respirar. Tu cruzas um pé sobre o outro e aumentas a distância. O teu bigode encavalitado sobre os lábios finos, a boca pequena, fechada a meia voz, para que ouro que te não sai pela boca seja só teu.

De perfil. Falas com ela de perfil, ainda que estejas de frente. Guardas-te, resguardas-te, mas pedes-lhe um cigarro. Ela adianta-se e dá-te lume. Dar-te-ia a mão, ainda que o não saiba. Sem que seja necessário sair daqui e ir para o mundo encantado de pele de que lhe falas com a tua boca grande. Escondida sob o farto bigode escuro.

Ontem, no dia em que o cd (claro que é original! eu não saco) do Jorge chegou a Timor, dia esse em que pela 4ª vez em pouco mais de duas semanas a data «8 de Março de 1914» de certa forma se repete, deixei transparecer o meu coração aberto.

0 bitaites sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Embora esteja em espanhol, é um dos textos mais esclarecedores que já li sobre a situação em Timor. Vejam lá >

2 bitaites

"eu quero ir eu quero ir eu quero ir eu quero ir atrás de ti...."

apareçam e vejam com os vossos ouvidos o que de bom se faz em Portugal:
JORGE CRUZ às 23h30 no contagiarte.

(para quem ainda não conhece, espreitem o post sobre ele)



2 bitaites quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

...um diálogo hilariante assinado pelo Fernando Pessoa! Leiam, vale a pena!


"(...) -O seu olhar tem qualquer cousa de música tocada a bordo de um barco, no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta.
- Não diga que é uma noite fria de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...
- Isso também é possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer cousa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...
- Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...
- Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.
- Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única cousa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança criança queria ser a rainha de um naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister de uma heráldica realmente compassiva... Mas quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais é que pensamos nisso a sério...
- Eu como nunca falo a crianças creio no instinto artístico delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo, eue stou querendo penetrar o íntimo sentido dessas cousas que me estava dizendo... Perdoa-me?
- Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm.
São sempre demasiado íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas falsas, representam farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
- Isso é tão verdadeiro… Para quê dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sensações.
- Sim, sim… É a minha vez de pedir perdão… Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma cousa justa… Mudemos de assunto… Que tarde que é sempre! Não se torne a zangar… Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum…
- Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando… Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois… Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos totalmente a conversa… As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas novelas… Como exemplo…
- Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo… Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca os lemos.
- Leu alguma vez uma gramática?
- Eu nunca. Tive sempre uma versão profunda a saber como se dizem as cousas… A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as excepções e para os pleonasmos… Escapar às regras e dizer cousas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna. Não é assim que se diz?
- Absolutamente… O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) – o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos… São palavras que dão sentido às frases… Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos… Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou – cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo – tinha tencionado dedicar a sua vida a destruir os verbos…
- (Ele porque se suicidou?)
- Espere, ainda não sei… Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da significação… Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si… A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro… Um revólver…
- Ah, não… Isso de modo algum… Não vê que não podia ser um revólver?...
Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça… O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve… É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga – uma (deliciosa) rapaz que eu inventei.
- Dão-se bem?
- Tanto quanto é possível… Mas essa rapariga, não imagina, (…)"

1 bitaites

Existe uma vida em mim que vai para além da vida vivida. Oferecem-me, em tempo, e recebo, em margem de manobra, um espaço cerebral tabulado “way beyond limits”. Para chegar lá basta pisar, sem que o saiba, uma qualquer linha fronteiriça e seguir.

E dou por mim já a ver-me de fora, na mesma contemplativa, como se estivesse a analisar a paisagem interior por dentro do meu sonho, com traços perfeitamente delineados do que vou estar a fazer naquele outro tempo, e com quem, e como. Até o calor na pele eu sinto e parto-me a rir em voz alta no espaço vivido, confundo os sentidos do espaço pensado, falo o diálogo imaginado.

fantasia

do Lat. phantasia < Gr. phantasia, imagem
s. f.,
imaginação;
em que há imaginação;
obra de imaginação;
devaneio, sonho, ficção.

do Lat. phantasia < Gr. phantasía, imagem
s. f.,
capricho, extravagância;
adorno, arrebique;
variação musical sobre um tema musical, ao arbítrio do artista;
paráfrase de uma ária de ópera;
quadro em que o pintor se afastou das regras estabelecidas, para seguir a sua imaginação;
vestimenta para disfarce faceto ou burlesco no Carnaval ou em outras festas.

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Não é que eu ligue muito à Lua, nunca tive daquelas contemplações poéticas pelo astro, apesar da minha certeza durante anos que ia ser astrónoma. Faço mais o estilo constelações. Gosto sempre de assistir (e divulgar) visões raras de planetas, passagens etéreas de cometas, e claro está, eclipses.

Para hoje sugiro:

00h 36m - Entrada da Lua na penumbra
01h 43m - Entrada da Lua na sombra
03h 00m - Início do eclipse total
03h 25m - Máximo do eclipse
03h 50m - Fim do eclipse total
05h 07m - Saída da Lua da sombra
06h 15m - Saída da Lua da penumbra

(mais informação aqui >>)

Como olhar tanto tempo seguido para o céu cansa, devem colar na televisão, e usar os intervalos para espreitar pela janela! É que hoje vão passar na RTP1 os dois primeiros episódios de uma série sobre Timor à 01h55 (mais informação aqui >>).

(Não é que eu pense não estar acordada para assistir a tudo isto mas... Alguém sabe como se gravam programas de televisão hoje em dia, sem VHS? )

4 bitaites terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Estou a pensar organizar um ciclo de cinema em Timor para os alunos da Universidade, que naturalmente não têm acesso a filmes. Em Timor não existe um único cinema. A organização do ciclo será um pouco ad hoc: temos projectores que a FEUP ofereceu, temos paredes brancas e um clima óptimo para fazer as projecções ao ar livre, no átrio da Universidade.

A ideia surgiu do grande vazio cultural que reconheci no ano passado aos meus alunos. Se por um lado têm vidas extremamente difíceis (grande parte deles vivem em campos de refugiados em jardins da cidade, sem electricidade nem água), por outro lado nem têm oportunidades de contacto com algum tipo de arte porque a cidade simplesmente não disponibiliza. Assim, sinto que é quase minha obrigação dar-lhes a mostrar um pouco do mundo exterior. Gostava de conseguir compilações cinematográficas que exteriorizassem optimismo, confiança, segurança. Visto que o pólo da Universidade Nacional onde trabalho funciona em cooperação com o IPAD e a Fundação das Universidades Portuguesas, seria interessante e produtivo mostrar-lhes filmes em língua portuguesa. De qualquer das formas, prefiro privilegiar o cinema europeu mas que seja fácil de assimilar, tendo em conta certas limitações que os alunos têm.

Contactei alguns cineclubes portugueses a perguntar se podiam disponibilizar alguns dvds de qualidade em jeito de cooperação com a nossa ex-colónia, que possam servir para este ciclo de cinema. Posso trazê-los de volta em Agosto, ou, posso deixá-los na Biblioteca da Universidade para futura utilização dos alunos.

Para já recebi feedback positivo do Cinanima e do Cineclube do Porto :)

De qualquer das formas, tendo em conta que não sou expert no assunto, a vossa opinião será valiosa! Sugestões?

3 bitaites segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pode ser a pessoa mais linda, intrigante, misteriosa, interessante, mas assim que dá aquele erro de português perde para aí uns 50 pontos.

Qualquer erro é mau; todos nós os cometemos. Mas este de que falo é péssimo, dá-me náuseas, e pode dividir-se em duas categorias: as palavras inventadas (tipo "fizes-te") ou a troca imperfeita do pretérito perfeito do indicativo pelo presente do indicativo combinado com o pronome reflexo "te".

Para o primeiro caso, pouco há a fazer. Trata-se de ignorância redonda.

Para o segundo caso, sugiro que, em voz alta, acentuando a sílaba tónica, se questione: "quero dizer mos-TRAS-te ou MOS-tras-te?".

Quando tenho alguma discussão em algum mundo virtual no qual vou vivendo parte da minha vida (sms, chat, ...), dou-me como vencedora (e dou a conversa como terminada) quando sou ignobilmente acusada. Pfff...

exemplo: "Sua vaca, o que fizes-te é inaceitável e com isso mostras te bem do que és capaz." Bah...

(O exemplo dado acima é ficção literária. Qualquer semelhança com a realidade trata-se - ou tratasse??? - de pura coincidência.)

2 bitaites



Bill Withers - Use Me na voz da Fiona Apple

My friends feel it's their appointed duty
They keep trying to tell me all you want to do is use me
But my answer yeah to all that use me stuff
Is I wanna spread the news that if it feels this good getting used
Oh you just keep on using me until you use me up
Until you use me up

My brother sit me right down and he talked to me
He told me that I ought not to let you just walk on me
And I'm sure he meant well yeah but when our talk was through
I said brother if you only knew you'd wish that you were in my shoes
You just keep on using me until you use me up
Until you use me up

Oh sometimes yeah it's true you really do abuse me
You get in a crowd of high class people and then you act real rude to me
But oh baby baby baby baby when you love me I can't get enough
I and I wanna spread the news that if it feels this good getting used
Oh you just keep on using me until you use me up
Until you use me up

Talking about you using me but it all depends on what you do
It ain't too bad the way you're using me
Cause I sure am using you to do the things you do
Ah ha to do the things you do

2 bitaites domingo, 17 de fevereiro de 2008

 

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