1 bitaites sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Fernando enviou este texto há uma temporada atrás, e partilho-o agora convosco.

"Em cada 100 euros que o patrão paga pela minha força de trabalho, o Estado, e muito bem, tira-me 20 euros para o IRS e 11 euros para a Segurança Social.
O meu patrão, por cada 100 euros que paga pela minha força de trabalho, é obrigado a dar ao Estado, e muito bem, mais 23,75 euros para a Segurança Social. E por cada 100 euros de riqueza que eu produzo, o Estado, e muito bem, retira ao meu patrão outros 33 euros. Cada vez que eu, no supermercado, gasto os 100 euros que o meu patrão pagou, o Estado, e muito bem, fica com 21 euros para si.

Em resumo:

Quando ganho 100 euros, o Estado fica quase com 55.
Quando gasto 100 euros, o Estado, no mínimo, cobra 21.
Quando lucro 100 euros, o Estado enriquece 33.

Quando compro um carro, uma casa, herdo um quadro, registo os meus negócios ou peço uma certidão, o Estado, e muito bem, fica com quase metade das verbas envolvidas no caso.

Eu pago e acho muito bem, portanto exijo: um sistema de ensino que garanta cultura, civismo e futuro emprego para os meus filhos.
Serviços de saúde exemplares. Um hospital bem equipado a menos de 20 km da minha casa.
Estradas largas, sem buracos e bem sinalizadas em todo o país. Auto-estradas sem portagens. Pontes que não caiam.
Tribunais com capacidade para decidir processos em menos de um ano.
Uma máquina fiscal que cobre igualitariamente os impostos.

Eu pago, e por isso quero ter, quando chegar, a reforma garantida e jardins públicos e espaços verdes bem tratados e seguros. Polícia eficiente e equipada.
Os monumentos do meu país bem conservados e abertos ao publico, uma orquestra sinfónica. Filmes criados em Portugal. E, no mínimo, que não haja um Único caso de fome e miséria nesta terra.

Na pior das hipóteses, cada 300 euros em circulação em Portugal garantem ao Estado 100 euros de receita.

Portanto, Sr. Primeiro-ministro, governe-se com o dinheirinho que lhe dou porque eu quero e tenho direito a tudo isto.

Um português contribuinte."

4 bitaites terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

No sábado - 1 de Março - há nova toma de inaugurações em Miguel Bombarda. É sempre uma tarde bem passada. Sugiro:

  • a exposição «le livre des merveilles du monde‏» da prima Mary no Muuda (por coincidência este espaço muito giro é de uma ex-chefe minha da Seara.com)

  • o processo documental «Projecto Morro» no espaço petit cabanon da irmã Inês.
  • o CCBombarda tem criado um ambiente cheio de vida (quase ao estilo Alice, pelo menos aos olhos da minha Violeta que fica encantada com tantas cores, disfarces e sons).

Vemo-nos LÁ.

3 bitaites

Aconteceu-me há uns tempos atrás ir ver "Il Caimano" do Nani Moretti ao cinema do Campo Alegre e ser surpreendida pela projecção de uma curta chamada "História Trágica com Final Feliz", da Regina Pessoa, que agora vos deixo. Enjoy:

4 bitaites domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fico extasiada durante uns minutos com os fenómenos de dispersão global.

Neste labirinto onde tenho vivido, cruzo-me num momento fácil com o coleccionador de beijos que em tempos procurei, ansiei, nos corredores errados. Ele tinha o que eu julgava mais valioso. Depois tirou-o do bolso e mostrou-mo, sem cerimónia e eu nem apreciei.

A Raquel acorda-me da epifania e ri a música "someone told me that you have a boyfriend that looks like a girlfriend".

Volto a mim, fica a onda magnética que sou e que balança em fases assíncronas com as de outros.

Acontece prai duas vezes por dia, desde há meses, olhar para o relógio e ver que são 11 e 11. Para além do palíndromo numérico perfeito, por acaso trata-se também do meu dia de anos.

Estou curiosa para ver como é que este fenómeno se reflectirá noutros fusos horários.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade

2 bitaites sábado, 23 de fevereiro de 2008

Há um je ne sais quoi em algumas músicas interpretadas ao vivo por algumas pessoas, que me desconcerta. E a linguagem corporal, essencial, que revela nas expressões faciais, como toda a gente sabe, coisas bem mais dizedoras sobre o sustento do som.

Adoro bigodes, de gato.
Passámos como rainhas (já nem éramos princesas) pelos corredores carmim e populados da casa, entrámos, os melhores lugares. Mesmo à minha frente um espectáculo quente que acendeu em mim as palavras da Marta Ren "my fire is burning orange blue".

Saí apaixonadíssima a dizer muitas coisas com os braços e um sorriso que faz doer as bochechas. A Annie em dois tempos debitou uma sequência, mais que conveniente, exacta!, sobre a envolvência invasora.

E passo a citá-la:

Esqueci-me de te ouvir, quando cantavas.
De olhar bem fundo nos teus olhos e beber as tuas palavras como mel,de sentir a tua pulsação - veia com veia, sangue com sangue, pele com pele - e a voz quedar-se-me muda, as mãos quietas, ainda que trémulas.
De avançar e seguir-te por uma rua, sem mudar de direcção e sem que a rua acabe. ou, se acabar, que tu mudes de direcção e que os teus olhos parem.

Nos meus.
E que não seja preciso um toque , nem um sorriso, mas que as palavras que não dizemos se bastem.
Quando somos só nós.
*

Ela sorri e interpela-te. Ganha coragem, enche o peito do coração grande que lhe assiste, e beija a suavidade do teu respirar. Tu cruzas um pé sobre o outro e aumentas a distância. O teu bigode encavalitado sobre os lábios finos, a boca pequena, fechada a meia voz, para que ouro que te não sai pela boca seja só teu.

De perfil. Falas com ela de perfil, ainda que estejas de frente. Guardas-te, resguardas-te, mas pedes-lhe um cigarro. Ela adianta-se e dá-te lume. Dar-te-ia a mão, ainda que o não saiba. Sem que seja necessário sair daqui e ir para o mundo encantado de pele de que lhe falas com a tua boca grande. Escondida sob o farto bigode escuro.

Ontem, no dia em que o cd (claro que é original! eu não saco) do Jorge chegou a Timor, dia esse em que pela 4ª vez em pouco mais de duas semanas a data «8 de Março de 1914» de certa forma se repete, deixei transparecer o meu coração aberto.

0 bitaites sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Embora esteja em espanhol, é um dos textos mais esclarecedores que já li sobre a situação em Timor. Vejam lá >

2 bitaites

"eu quero ir eu quero ir eu quero ir eu quero ir atrás de ti...."

apareçam e vejam com os vossos ouvidos o que de bom se faz em Portugal:
JORGE CRUZ às 23h30 no contagiarte.

(para quem ainda não conhece, espreitem o post sobre ele)



2 bitaites quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

...um diálogo hilariante assinado pelo Fernando Pessoa! Leiam, vale a pena!


"(...) -O seu olhar tem qualquer cousa de música tocada a bordo de um barco, no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta.
- Não diga que é uma noite fria de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...
- Isso também é possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer cousa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...
- Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...
- Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.
- Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única cousa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança criança queria ser a rainha de um naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister de uma heráldica realmente compassiva... Mas quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais é que pensamos nisso a sério...
- Eu como nunca falo a crianças creio no instinto artístico delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo, eue stou querendo penetrar o íntimo sentido dessas cousas que me estava dizendo... Perdoa-me?
- Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm.
São sempre demasiado íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas falsas, representam farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
- Isso é tão verdadeiro… Para quê dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sensações.
- Sim, sim… É a minha vez de pedir perdão… Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma cousa justa… Mudemos de assunto… Que tarde que é sempre! Não se torne a zangar… Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum…
- Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando… Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois… Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos totalmente a conversa… As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas novelas… Como exemplo…
- Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo… Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca os lemos.
- Leu alguma vez uma gramática?
- Eu nunca. Tive sempre uma versão profunda a saber como se dizem as cousas… A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as excepções e para os pleonasmos… Escapar às regras e dizer cousas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna. Não é assim que se diz?
- Absolutamente… O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) – o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos… São palavras que dão sentido às frases… Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos… Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou – cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo – tinha tencionado dedicar a sua vida a destruir os verbos…
- (Ele porque se suicidou?)
- Espere, ainda não sei… Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da significação… Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si… A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro… Um revólver…
- Ah, não… Isso de modo algum… Não vê que não podia ser um revólver?...
Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça… O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve… É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga – uma (deliciosa) rapaz que eu inventei.
- Dão-se bem?
- Tanto quanto é possível… Mas essa rapariga, não imagina, (…)"

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Existe uma vida em mim que vai para além da vida vivida. Oferecem-me, em tempo, e recebo, em margem de manobra, um espaço cerebral tabulado “way beyond limits”. Para chegar lá basta pisar, sem que o saiba, uma qualquer linha fronteiriça e seguir.

E dou por mim já a ver-me de fora, na mesma contemplativa, como se estivesse a analisar a paisagem interior por dentro do meu sonho, com traços perfeitamente delineados do que vou estar a fazer naquele outro tempo, e com quem, e como. Até o calor na pele eu sinto e parto-me a rir em voz alta no espaço vivido, confundo os sentidos do espaço pensado, falo o diálogo imaginado.

fantasia

do Lat. phantasia < Gr. phantasia, imagem
s. f.,
imaginação;
em que há imaginação;
obra de imaginação;
devaneio, sonho, ficção.

do Lat. phantasia < Gr. phantasía, imagem
s. f.,
capricho, extravagância;
adorno, arrebique;
variação musical sobre um tema musical, ao arbítrio do artista;
paráfrase de uma ária de ópera;
quadro em que o pintor se afastou das regras estabelecidas, para seguir a sua imaginação;
vestimenta para disfarce faceto ou burlesco no Carnaval ou em outras festas.

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Não é que eu ligue muito à Lua, nunca tive daquelas contemplações poéticas pelo astro, apesar da minha certeza durante anos que ia ser astrónoma. Faço mais o estilo constelações. Gosto sempre de assistir (e divulgar) visões raras de planetas, passagens etéreas de cometas, e claro está, eclipses.

Para hoje sugiro:

00h 36m - Entrada da Lua na penumbra
01h 43m - Entrada da Lua na sombra
03h 00m - Início do eclipse total
03h 25m - Máximo do eclipse
03h 50m - Fim do eclipse total
05h 07m - Saída da Lua da sombra
06h 15m - Saída da Lua da penumbra

(mais informação aqui >>)

Como olhar tanto tempo seguido para o céu cansa, devem colar na televisão, e usar os intervalos para espreitar pela janela! É que hoje vão passar na RTP1 os dois primeiros episódios de uma série sobre Timor à 01h55 (mais informação aqui >>).

(Não é que eu pense não estar acordada para assistir a tudo isto mas... Alguém sabe como se gravam programas de televisão hoje em dia, sem VHS? )

 

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