3 bitaites domingo, 15 de junho de 2008

Vi algo inédito na vida real quando voltávamos de Manatuto, 6ª feira, já era noite, depois dos festejos do Santo António.

Penso que todos conhecem aquelas ilustrações antigas, de livros de crianças, em que está representado um menino com um gorro à anão dos 7 anões, e um pau ao ombro, com uma trouxa de pano na ponta. Como quem se fez à estrada para encontrar a Branca de Neve, ou o Lobo Mau, ou os frutos silvestres da floresta encantada (sei lá, eu não sou muito especialista nestes assuntos de bonecada, apagaram-se da minha memória para dar espaço a zeros e uns). Procurei imagens no Google, unsuccessfully, porque queria ter a certeza de que todos sabem do que falo.

Vi esse menino, acompanhado de outros dois, a caminhar pela estrada, com o céu por cima, o mar ao lado, a trouxa às costas, na ponta do pau.

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No dia de Portugal disse a frase mais complicada de sempre aos meus alunos, em tétum, antes da aula começar:

"Ohin ha'u temke taka servisu tuku neen tanba ohin loron Portuhal no iha festa iha embaixador nia uma. No ha'u temke prepara."


E na foto estão os coleguinhas de casa vestidos a rigor para a festa da nata que houve na casa do embaixador.

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Tenho andado com o coração nas mãos. É assim, no outro dia alguém disse quando chega a meia noite vêm os arrepios (isto descontextualizado soa a poético qual eco no meu avesso de quem está a divagar num espaço qualquer imaginado entre a relva que pisa e as constelações deste lado do equador)

…entro numa cerimónia tradicional dos festejos do Santo António, arrepio-me de olhar as senhoras embrulhadas nos tais, a tocar o batuque com a sua postura impecável. E os homens, decompostos, saltam, dançam, atrás delas, catana em riste, repetindo insistentemente “tama mai” / “entra vem”, o dia inteiro, chamando as pessoas para a festa. Agacho-me, de cócoras, e os meus pés ganham raízes ali à porta.

…cantam “donde vas mariposas vuelen”, sotaque local, com estranhos penteados, pés descalços, num palco ao meu nível, em contra luz mas sei a direcção do olhar, arrepio-me de calor dos trópicos.

…vivo numa balbúrdia de país, com diferenças sociais brutais (não gosto de usar esta palavra, nem que a usem), cravadas nas cores da pele, no dinheiro no bolso, na rotina do dia-a-dia, na fauna que se junta como no jardim zoológico, arrepio-me por estar a viver uma circunstância sociológica única. Por mais doloroso que seja, não há outro país como este, recente, tropical, ferido, invadido.

…ouço o #41 do Dave arrepio-me de outros tempos, “playing time against my troubles, oh”.

…entro no mar quente, arrepio-me de frio.

…penso no futuro incerto, arrepio-me de planos.

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Vi uma cabra nos momentos antes de dar à luz, na berma de uma estrada em Com. Eu nem teria reparado se alguém não me tivesse chamado a atenção para as marcas de sangue que havia à volta. Ela estava tranquila nas descontracções, e escolheu um sítio que me pareceu absolutamente aleatório para o evento. Provavelmente a escolha baseou-se num mecanismo qualquer inato à sabedoria animal, para a qual não estou sensibilizada. Muitas são as vezes em que me deparo boquiaberta com a agilidade destes animais que surgem nos locais mais improváveis, acompanhados pelos filhotes de todas as cores (não todas, claro) a quem dá vontade de fazer festinhas, conseguisse eu subir as encostas mais íngremes, trepar as rochas verticais, içar-me pelas ladeiras em escarpa.

3 bitaites sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pergunto-lhe quantos anos faz e oferece-me, de prenda, a resposta que se segue.

Que nasceu no mato, onde muitos viveram durante os 24 anos de ocupação indonésia. A mãe diz que nasceu em 85. O tio (tio de casta, não é irmão do pai nem da mãe, nem casado com alguém que seja) diz que nasceu em 82. A menina que cortou o cordão umbilical diz que já não era altura das chuvas, e que as plantações de milho na planície de Lospalos tinham fruto. Então alguém escolheu o dia 5 de Junho, anos mais tarde, não se sabe quando, na altura em que houve registo de datas de nascimento. Continuo sem saber quantos anos faz. Pergunto-me como seria viver anos e anos no mato, sem saber a quantas se está, sem ter sequer mais marcas sazonais do que a fruta da época. Nós vivemos na apatia da vida que se rege por ciclos de frio e calor, e estamos sempre à espera que o tempo passe até chegarem as férias de Verão, para depois começar tudo de novo.

Se pergunto as horas, olham para a inclinação do Sol.
Se pergunto o peso ou a altura, recebo aquela resposta que mistura sorriso com ligeira inclinação da cabeça para o ombro direito, e um estender de braços com mãos abertas, palmas para o chão. A minha vida é uma agenda que existe num modelo conceptual, no pda e em papel. Porque nos preocupamos nós com tantos números?

6 bitaites segunda-feira, 9 de junho de 2008

O melhor emprego do mundo no Porto a partir de Setembro.

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Há um ror de pessoas que chegam ao meu blog através de pesquisas por:

Tenho um visitante assíduo do Azerbeijão, e outro de um país "not set", que, ao não fazer parte da lista de países do Google Analytics, faz-me supor que terá de ser ainda mais recôndito que este onde estou.

Existe uma grande distância entre ser especialista e acreditar nas estatísticas. Por exemplo, posso dizer com a maior convicção, a título de curiosidade, que o sal em Timor é muito mais salgado e que vem sempre no formato fininho, entre a farinha e o açúcar em Portugal. Logo a seguir vem outro dizer com aquela altivez majestosa de quem cá é rei por dois meses há três anos consecutivos para passar umas apetecíveis férias de verão bem pagas que o sal em Timor é muito menos salgado, e vende-se em cristais enormes.

Não há verdades absolutas, só dolorosas questões existenciais alimentadas pelo lirismo inebriante de algumas quantas almas ingénuas.

O uruguaio fluente em português - embora me agrade o seu espanhol - da UN diz-me que Com é incrível e eu confirmo que parece nem ser Timor com aqueles caixotes do lixo metricamente colocados, a estrada arranjada ("a estrada" é mesmo singular naquela aldeia) e limpa, as pessoas com sorrisos verdadeiramente felizes e ocupações, empregos. Depois ele diz que só é pena
a praia ter crocodilos. Toda a gente sabe que isto é um mito maubere, uma lenda como tantas outras. Não há crocodilos aqui, todos falam deles, mas nunca na primeira pessoa de alguém que os viu. Ao que ele me responde que não acredita que Portugal exista.

8 bitaites domingo, 8 de junho de 2008

Não sou eu quem lês na vida a sério, naquela que não é virtual, perguntam-me porque tens sempre o ar mais triste.


Mesmo nos dias, que se repetem, em que acordo com canto de felicidade, existe nostalgia nas melodias. Mesmo contemplativa, deslumbrada, com vontade de me fundir com a vida, há uma certa melancolia que se prende ao meu olhar. Mesmo no reencontro há muito esperado é como se estivesse envolvida por um abatimento profundo. Na mesma linha, nas despedidas só dou palmadinhas nas costas do outro.

Que sou fleumática, dizem uns, que parece que nada me toca, atiram-me outros à cara, como se isso, por dentro, não me fosse tocar.

Resguardo a minha intenção, mesmo quando desejo muito, com um tímido sério sibilante sim.

5 bitaites quarta-feira, 4 de junho de 2008

Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. Tenho medo da sua falsa inocência, da sua submissão aparente, da sua eficácia tenebrosa, do seu ódio silencioso e vesgo. Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. Escrevo à mão para que os erros sejam meus e as personagens iguais aos da minha cabeça e não resultado da imaginação delirante e asséptica de uma disquete esquizofrénica, inventando situações desconfortáveis e aberrantes como as dos sonhos das gripes. E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contra-gosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla ou em que me encontro junto de alguém que carrega numa tecla, a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio Cambo onde os olhos dos crocodilos dançam à flor do lodo à espera da imprevidência de um cabrito.

António Lobo Antunes, Crónicas

6 bitaites segunda-feira, 2 de junho de 2008

De Dili para Bali para Jakarta para Singapura para Siem Reap no Camboja volto a Singapura e vou para Johor Bahru na Malásia e depois voo para Bali e regresso a Dili, onde o campo de refugiados em frente ao Hotel Timor foi evacuado.

Estou sentada no aeroporto de Singapura. Trago sapatilhas le coq sportif, calças indonésias, camisola chinesa, carteira timorense. No ipod toca a banda sonora do Frida. Faço contas à semana de férias e perco-me entre os reeis do Camboja, ringgits malaios, dólares de Singapura. Procuro bem a ver se as rupias indonésias me chegam para a noite em Bali, cruzo-me com dólares de Hong Kong e poucos americanos. Lá ao fundo, os euros é que me safam.

Preciso de queimar os últimos cartuchos do cartão de telefone, mas a panóplia de países é limitada. Conheço alguém na Austrália com quem não falo desde a Holanda, há... mmmm... 3 anos? Parece que também vai à Tailândia em Agosto, talvez nos encontremos por lá.

Sinto-me global como Singapura, mas claro que muito menos civilizada que essa babilónia cosmopolita. Little India que podia ser em Nova Iorque, mas com menos brancos, Chinatown no seu lugar, grandes torres espelhadas com marcas ocidentais. Cinema ao ar livre à porta do museu de graça, calor sem mosquitos, transportes eficientes, preocupações ambientais, comida barata. O que é um sítio autêntico?

Sinto compaixão pelo Camboja, depois dos anos sangrentos a ferida infectou com turistas invasores do património riquíssimo.

Sinto-me cansada como a Malásia.

Sinto.

Em Bali o taxista de taxa fixa que me leva do aeroporto para o Hotel, sugere a meio do caminho, que eu vá antes a pé porque está muito trânsito. No aeroporto conheço um deslumbrante e exótico do Tahiti, osteopata, que estudou em Londres com o meu amigo Yassine.

Parece-me que o mundo vai perdendo escala na maquete da minha vida.










 

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