terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Era 6ª feira, e aproveitei a consulta do trabalho às 11h para nem ir trabalhar de manhã. Troca por troca, escolhi a fisioterapia, embora o tédio da conversa de há meses seja equiparável ao templo entediante onde tenho fingido que laboro, por opção patronal. Já não sei bem porquê, estava de trombas, apesar de ser uma manhã que aquecia e a sequência na rádio estava em harmonia com as minhas vontades. Entrei na clínica e aquelas perguntas iniciais ainda demoraram algum tempo. Lá ao fundo, sem olhar, sentia o olhar colado de uma bata branca. Entre mim e ele, só o balcão, a administrativa e uma carrada de perguntas, papéis e canetas. Não olhei, mas já sabia que o doutor era jovem e a intromissão visual começava a incomodar. Prolongou-se, eu respondia, assinava, um metro e sessenta, corava e via sem olhar os braços cruzados, entrei dia 26 de Novembro, a mão esquerda a coçar o queixo como quem está a perceber tudo, e cabeça a acenar para cima e para baixo, como se fosse um expert, e eu irritadíssima, 52 quilos, desviei os olhos um grau à esquerda da administrativa e olhei para ele no tom mais arrogante, a verdadeira bitch, "sim... que foi?!?!??".

- Eu conheço-te. Conheço-te sim. - e abanava a cabeça e coçava o queixo e tinha um sorriso. Só franzi as sobrancelhas, fiz cara de má e nem perguntei de onde. Fiquei a olhar, à espera, tirei a cara de má e pus a de expectante, com a testa levantada. - Eu conheço-te e já te vi a desmaiar.

Sorrio, confirmo, mesmo estando a olhar para o Dr. Perfect-Stranger. Em média desmaio uma vez por ano. Em 2007, apesar de tudo, não desmaiei. Pelo menos da forma como entendo que é o desmaio.

25 de Dezembro de 2006
Tarde passada em casa dos avós. Para abrir o bolo de anos do Menino Jesus vou à cozinha buscar uma faca. Meto a mão na gaveta. Tiro a mão da gaveta e sinto aquele frio que até podia ser uma carícia. Mas na gaveta não há ternuras. Nem olho para a mão e só digo "cortei o dedo" (que não se entenda que cortei o dedo fora). O pai começou logo a esbracejar imenso "tem calma! tem calma! isso não é nada! não vais desmaiar! tem calma". Eu ainda nem tinha olhado (nem ele), estava só a apertar o dedo e a virar-me para voltar para a sala. No virar da cabeça uma mancha no chão de duas ou três pingas de sangue chamou-me a atenção. O pai esbracejava, eu fui andando para o sofá onde estava o tio a gozar com a situação "mete o dedo na boca que assim o sangue sai por um lado e entra por outro".

Gota de sangue. Gota de água.

Começo a sentir aquela invasão que é a evasão de sentidos, começa por um cheiro asséptico que sinto sempre e não existe, como se me estivessem já a acordar como fazem nos filmes, cheirando éter ou lá o que é. Depois sinto uma pancada seca no sítio onde o pescoço encontra o peito, naquela parte do osso que tem uma quebra. É neste ponto que digo "vou desmaiar". Depois vou deixando de sentir por partes, de baixo para cima, e entro numa dimensão
v
e
r
t
i
g
i
n
o
s
a
de completa desorientação
de dúvidas
de sufoco
que aconteceu? onde estou? que se passa? quem são estes? que estão a dizer? porque falam tão alto? quem me está a mexer? quero respirar, quero sair, estou a cair, quem sou? fiz alguma asneira? estão-me a matar? larguem-me, quero ir, quero respirar, quero sair, não consigo, não consigo, não consigo, onde estou? o que é isto? quem são? o que querem? o que é que eu fiz? que está a acontecer? como vai acabar? isto não tem fim? vou cair? vou cair vou cair vou cair

vou cair.

Expiro inspiro expiro fundo,
Fico branca, fria, suada, a tremer.
Desmaiei. Quanto tempo? Para aí 10 segundos.
Mas as ideias não são as imagens, os 10 segundos podiam ter sido um dia inteiro de viagem, uma longa metragem de transe psicadélico, da luz ao fundo do túnel, imagens que correm o espaço, muitas coisas que acontecem e passam por mim e na minha cabeça aquelas perguntas e à minha volta sempre atitudes de desespero.

Nota: se alguma vez me vires desmaiar provavelmente antes irei anunciar. Nesta altura deves ajudar-me a deitar, levantar as pernas de forma manter a cabeça num plano mais baixo que o resto do corpo, permitindo assim que o sangue corra para o cérebro. Não berres, não atires água para a cara, não batas, não dês sinais de angústia. Isso influencia o "sonho" que estou a ter inconsciente.

De cada vez que desmaio nada volta a ser igual. É uma pequena morte. Cada vez que desmaio, perco um bocadinho de mim, nem que sejam só os 10 segundos que o desmaio leva.

16 de Janeiro de 2008
ela dizia
- euvoupicá/euvoupicá /euvoupicá, - como se fosse uma criança de 7 anos a dar lanço para mergulhar na piscina dos grandes. "Eu vou picar agora!", e só picou passado uns segundos.
- Parece que está a gozar comigo! Olhe que eu costumo desmaiar!
- Eu já piquei. Rebentou tudo! Arranja-me álcool, algodão, depressa! - desta vez não disse que parecia que estava a gozar comigo, mas pensei. Não olhei para o braço, olhei para a enfermeira e vejo-a vermelha, a suar, atrapalhada. Olho para a minha mãe encolhendo os ombros (tipo "que se passa? esta gaja não se cala? tem de dizer tudo o que está a fazer e mal?").

Cheiro, baque.
- Estou a sentir-me mal. Vou desmaiar.




[la petite morte roubada de typeforyou.org]

1 bitaites:

Annie disse...
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