quarta-feira, 1 de abril de 2009

Acabo de ler um texto inpirador, intitulado Women and how the entrepreneurial spirit can reach any corner of the planet and change lives, uma entrevista a Jacqueline Novogratz, CEO da Acumen Fund, que é uma «iniciativa sem fins lucrativos com uma abordagem empreendedora para resolver os problemas da pobreza global».
Depois de ler a entrevista, admiro as palavras e questiono-me: Mas afinal de onde é que vem isto das mulheres, em mim? E surgiu logo a imagem da Ervin à minha frente, e da história que se segue.

[Lembro-me sempre destas histórias quando tenho é mais o que fazer e devia estar a fazer tudo menos escrevê-las. Depois não consigo regressar à obrigação sem que antes a tenha registado, portanto aqui vai, como um exercício de (des)concentração.]


Conheci a Ervin através do Edwin, embora não ao mesmo tempo (já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos). O Edwin, em Kupang, capital de Timor Ocidental e de Nusa Tenggara, um dos arquipélagos mais orientais da Indonésia, passou-me o contacto da Ervin, de Bajawa, na ilha das Flores. Disse na altura que se eu ia para lá sozinha, a Ervin era a melhor pessoa para “dar umas voltas comigo” (“she is a nice girl, she will show you around, keep her number, believe me!”).

Ora bem, depois do Onny, timorense do ferry boat (repito: já o mencionei brevemente num post muito anterior, mas muito mais há a dizer sobre ele, e provavelmente o farei quando tiver outra tarefa inadiável entre mãos), me ter levado a porto seguro e alimentado (soa dramático, mas é verdade!, e simples), e ainda depois do Heru me ter protegido e encaminhado (não preciso de repetir o que já disse do Onny e do Edwin), cheguei a Bajawa.

Lá, não me senti tão confortável como até então: naquela parte oeste da ilha, já existe uma influência qualquer do nosso mundo ocidental, que não se transmite em riqueza ou consumo, mas sim em algumas coisas mais depravadas. Não é confortável ser mulher, especialmente branca, e passear nas ruas daquela cidade de montanha. Já tinha ligado à Ervin na noite anterior quando cheguei, e ela ficara de aparecer no hotel ao final da manhã. Eu desisti rapidamente do passeio pela cidade, fechei-me no quarto, indescritível (penso-o com um sorriso na cara).


A Ervin chegou, de scooter e capacetes. Combinámos o preço de um dia de visita a diversas aldeias tradicionais animistas daquela zona (300.000 Rupias, aproximadamente 20€), e seguimos passando ainda na guesthouse da tia, e na loja de não sei quem, comprámos o meu bilhete de autocarro para a madrugada seguinte, e ainda fomos comprar comida e trocar dinheiro. Ela é da minha idade, boa onda, e fala inglês com umas variações deliciosas de inglês, como irão perceber a seguir com a história do filho dela.

Subimos montanhas na motinha impotente, parámos para tirar lascas de canela dos troncos das árvores, para cheirar as ervas aromáticas e ver flores de baunilha, cruzámo-nos, no meio do fim do mundo, com grupos de meninos e meninas pequenos e todos trajados no caminho da escola, cores fortes, sorrisos. Subimos acima de nuvens que protegem a ilha vulcânica, das Flores, cheia de vida.


Lá no cimo montanhoso e no fim da estrada (se é estrada, ou caminho que lhe podemos chamar), contou-me a história do seu filho. Que quando estava em Jakarta a trabahar (histórias de amor, quem não as tem…), um dia alguém bateu à porta da casa dela. Ela abriu e era uma senhora, prostituta, com um bebé nos braços, que lhe pedia para usar a casa de banho. Deixou-a entrar, mostrou-lhe o caminho, e aguardou. Tanto tempo até que foi lá ver o que se passava, e já só estava o bebé, ela tinha saído pela janela.

Bla bla bla, caos, e agora?, papeis, to make the long story short: chamou-lhe Hensome, por ser muito lindo, e ficou com ele. Como trabalha durante a semana, é a única mulher-guia da ilha das Flores, o Hensome fica com uma tia, doutra aldeia. A Ervin procurou e criou o seu próprio emprego para criar o filho, para melhorar a vida deles. Não sei se é verdade ou não esta história, de tão surreal, mas sei o resto, a família…


Porque no regresso ao hotel em Bajawa, cruzámo-nos com uma prima, na paragem de autocarro mais inóspita de sempre, que disse “hei prima hoje há cerimónia tradicional da aldeia dos teus pais” e a Ervin “eh pá a serio? Então eu vou. Sara, queres ir conhecer a casa dos meus pais? Podes ficar lá a dormir… Tu tens de ir, tu vais gostar”, e eu, why not, “sim, pode ser, só tenho de avisar o hotel e amanhã tenho o autocarro às 7 da manhã…”, e fomos. O que se seguiu foi a entrada directa, sem espinhas, para uma realidade que para mim só existia em filmes até então.


Chegámos à aldeia, um U de cabanas de bambu, encaradas por símbolos animistas, homem versus mulher, altares, católicos pelo meio, chão de terra e um bocado de frio. A casa dos pais estava cheia de gente, nem uma pessoa falava inglês, eram todos só dali. Ia acontecer coisa improtante naquela noite, as pessoas foram-se juntando na área comum da casa, que é sala, cozinha e entrada para o quarto, comum.


A cerimónia consistia na tomada da seguinte decisão: quem seria o homem da aldeia que no dia seguinte iria cortar um tronco de coqueiro à selva para substituir a madeira de um dos pequenos altares. Acontece de 11 em 11 anos.

?

Sim, isso. Ali não há televisões.

Os homens estavam concentrados numa divisão três degraus mais elevada do que aquela em que eu estava, sentada, sem saber onde pôr as mãos. Olhava para lá de soslaio, e a Ervin, finalmente conseguiu permissão para eu entrar, contra a vontade de um tio que achava que eu não tinha nada a ver com o assunto (eu não pedi nada!).


Ali ficava-se sentado no chão. O pé direito era demasiado baixo. Aguardava-se que a decisão fosse tomada por quem de direito, que se encontrava no terceiro compartimento, um buraco três degraus mais elevado, onde estavam as pessoas importantes da vila (era assim que a Ervin lhes chamava, “important people”).


No quarto onde eu estava, os homens fumavam, chegou um prato de arroz branco só cozinhado em côco ralado. Silêncio, espera. Veio a avó para o meu lado e deu-me a mão. Eu só queria estar ali invisível. A minha presença era demasiado importante. A Ervin deu-me um tais das Flores (sarong?), por sinal muito parecido com aqueles de Bobonaro, em Timor-Leste, e ia-me explicando, em surdina, montes de coisas daquela tradição, e da vida.


Quatro horas depois, a decisão veio, com um porco preto que mandaram vir, para o quarto intermédio. Catana em riste, golpe da testa, e sangramento do animal que guinchou e guinchou durante longos minutos. Quando o puseram na fogueira da cozinha ele ainda estava vivo. Eu estava branca, provavelmente com os joelhos e cotovelos a tremer. A Ervin tirava fotografias, mesmo contente, e eu disse-lhe que tinha de ir descansar um pouco (já era uma da manhã), e ausentei-me para o quarto.


Passado um bocado, estava quase a adormecer, a Ervin abre o mosquiteiro: “posso?” E a prima, e a outra prima, e a mãe, e um bebé de dois meses. Adormeci ali, com um bebé ao colo. Acordaram-me eram 4 da manhã, para ir comer os rojões do porquinho. Verde, mas não pude recusar.


Quase todas as semanas, desde que voltei, a Ervin, chama-me “sister” em sms trocadas como suspiros, e desta história ainda mais podia contar.

2 bitaites:

Aestas disse...

no cume do mundo...

Annie disse...

e mais uma em que não posso deixar de sorrir e suspirar, por teres esse coração lindo que sabe tão bem contar :)

estou contigo varias vezes por dia, mas é uma vergonha n vir a esta tua casa há tanto tempo :)

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