terça-feira, 28 de outubro de 2008

De uma crónica publicada no JUP, intitulada

Hoje Não me Vou Queixar

Ai é tão longe, e doem-me as costas, ui que não tenho dinheiro, e a gasolina está tão cara, aquele gajo só me quer lixar. Não arranjo emprego, é tudo tão difícil, não consigo fazer nada, o trânsito, as compras. O verão fora de época, e a ela dói-lhe sempre a cabeça, a mim ninguém me compreende, os meus pais são forinhas, e este quer ultrapassar-me. Estás cheio de pressinha!! “Raisparta” o fumo, o barulho, o stress.

Existe um agente infeccioso que paira sobre os ombros das boas gentes desta terra. É geral: todos insistem em problematizar. E o errado nisto é que esse brainstorming de tudo o que é mau não funciona como alavanca na busca de soluções que confortem. Este agente infeccioso altamente contagioso, tem o dom de colar à pele uma máscara. A da fusão do coitadinho.

Para quem vem de fora, vê no Porto, se despido desta doença, uma cidade viva, agora de Baixa ressuscitada e coisas, eventos, turistas, casas lindas. Eu cá não vejo melancolia alguma. Mas ouço-a, quando sobre mim cai o eco das pessoas. Porque será tudo tão complicado?

Aos raros excêntricos, que se permitem a liberdade de acreditar, olha-se como patetas alegres. Coitados, andam tão enganadinhos!... E fazem coisas estranhas, como trazer estojos de lápis de cera nos bolsos, ou flores nas mãos. E aquela expressão na cara! De sorriso ao desbarato, como se fosse de se dar nos dias que correm!...

Isto dizem eles, verdadeiros coitados. Eles invejam porque “só a nós, os valentes, ocorrem ideias extraordinárias”, disseram-me em tempos.

E quem contou essa, também ofereceu outra história, valiosa, extraordinária. Num arquipélago tropical vulcânico, um milionário passeia no seu iate até atracar numa ilhota onde um pescador assa o seu peixe na fogueira. Diz-lhe o milionário que arranje um barquinho para que possa encontrar mais peixe e vender o que não precisa e com isso pode depois arranjar um outro barco, dividir tarefas, investir os lucros, abrir um negócio de conservas, guardar o excesso, para depois construir uma casa espectacular. O pescador pergunta-lhe só o que fazer depois de ter essa casa e todo o dinheiro. O milionário diz-lhe que aí pode descansar, viver tranquilo. “Mas isso é o que faço agora”, responde o pescador.

Um destes dias, enquanto subia uma das muitas montanhas que o Porto tem, ali ao lado de Mouzinho da Silveira, na rua de São João Novo, sentia o leve esforço que desperta o estar bem. Lá ao fundo ouvia alguém a cantar muito afinado, mas muito muito alto, alguma coisa romântica em inglês. Cada vez mais próxima a voz, mais e mais intensa no desenrolar da acção, em direcção a mim, ele vem… é este? Não! E passa o miúdo de 7 anos, oculinhos catitas, para o gorducho, com headphones, a interpretar cheio de feeling a balada do novo século. Enquanto ele descia em direcção ao Cubo na Ribeira, as pessoas paravam, vinham espreitar às portas das lojas, às janelas. E depois riam-se de tão inusitado cenário!

Daqui compreendo que o estado de espírito com que interpretamos as rotinas da nossa vida (que nada mais são do que a vida em si), depende do quão ágeis somos no balanço entre o deixar estar – aceitar, sem querer influenciar – e a marca da nossa diferença. A auto-determinação, que me permite saber, segura, que hoje, não me vou queixar. Vou cantar aos berros na rua, vou mostrar-me disponível, vou contar uma história, ensinar alguma coisa, a fazer um origami, vou por aí, aproveitar aqueles momentos em que sou só eu e a cidade. Vou sorrir sinceramente por conseguir ver nos gestos das pessoas que estão vivas, e sentem.

E com isto quero dizer o que se segue. Que está agora a começar o ano lectivo, ou o sexto bimestre, ou o Outono (pode escolher-se um começo aleatório). Está agora a começar um novo dia, e era lindo se, pelo menos durante este novo dia que começa, todos não problematizassem. A ver se o agente cai dos ombros para o chão, espezinhado por quem acredita que a vida pode ser boa, sem queixinhas.

4 bitaites:

Marisa disse...

Fiquei surpreendida! Exprimes tão bem o estado de espírito que traz clareza aos meus dias:
"depende do quão ágeis somos no balanço entre o deixar estar – aceitar, sem querer influenciar – e a marca da nossa diferença"

Pedro Serrão disse...

Clap Clap Clap! :)

Anas disse...

Que lucidez tão grande, acho que há muito tempo não te via tão lúcida e feliz, ainda bem amiga.
Sim tens razão, o dia-a-dia é tão igual para tanta gente que temos de valorizar as pequenas coisas do dia e... sermos felizes. Há que relativizar, viver, sentir, sorrir, chorar, conviver, um dia de cada vez

Anónimo disse...

Um olá a todos.
Depois de conhecer a Sara (hoje, pessoalmente) não fico surpreendida com este magnífico texto, que tão bem retrata aquilo que se vive na nossa e nas outras cidades...
Tão jovem e tão ciente!
Tão nova e tão desperta para o que a vida tem de bom!
Gostei muito de conhecer a Sara.
Que a sua energia positiva se espalhe por muitas pessoas e por muitos lugares.
Um abraço especial!
Manuela Mota Ribeiro

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