sexta-feira, 17 de outubro de 2008

"Uma Frase e a 2ª História" já está escrita, mas será uma crónica publicada no Jornal Universitário do Porto (JUP) o que me impede de a publicar aqui para já (o JUP ainda nãp saiu... Está para breve!)



É meia porque ainda me sinto meia sem saber como a enfrentar – esta lição sobre o medo.

Depois de a ouvir, imaginei como reagiria se alguém na rua, comigo se cruzasse, com feições de bem e dissesse “vem comigo”. E esta semana tive oportunidade de reagir.

Uma tarde outonal, de chuva miudinha, céu carregado a ameçar mais e mais. Estou a chegar à paragem de autocarro de Sá da Bandeira. Trago o meu casacão verde, com o carapuço de pelinho à volta da cabeça enfiado, carrego uma grande cesta de palha de roupa suja (estou a ir para casa dos pais…) numa mão e a carteira na outra. Pessoas apressadas, abrigadas nas bordas dos prédios (não sabem que é por ali que os pássaros se largam…). A sede do BES é lindíssima. Dá vontade de ter dinheiro só para ir àquele banco.

Por entre as pessoas cruzo o olhar por milésimos de segundo, com desinteresse, com o olhar de alguém que parece o John Malkovich. Nem reparo que também ele olhou para mim, e as sobrancelhas se levantaram, como se já nos tivéssemos conhecido antes. Mas já estou a olhar para o lado, e nem vejo que à minha frente, a cara dele me diz “Olá, posso ser teu amigo?”

Assustei-me. A tendência é levantar os braços e não deixa-me em paz que queres quem és tu? E ele com o olhar mais triste do mundo ”olha, não vás, dás-me um cigarro?” E eu fui, embora, esconder-me na paragem, espreitar para trás, depois de camuflada. Ele continuou com o guarda-chuva, e mancava calmamente ao atravessar a rua.

O que ele me fez, não se faz, foi um jogo. Um jogo de confiança, um teste aos limites que o medo impõe.

Então, estamos num ferry ferrugento, já se sabe. A volta de 180º aconteceu há pouco tempo, mesmo antes dele começar a dançar tango no convés e de dizer que na bandeira do Brasil não devia estar o globo, mas sim o rabo das brasileiras. Um monumento nacional, disse. Sentamo-nos (deixei a varanda de onde testemunhei tamanho pião), e ele faz-me o convite. Quer que no dia seguinte vá a casa dele, em Bali, ter uma experiência maravilhosa, que nunca antes tive, e que nada de negativo me acontecerá. Não tem nada a ver com drogas, não me vou sentir ameaçada, ninguém me vai tocar. Não posso saber o que é, e tenho até ao final da viagem de barco para decidir. Caso decidisse sim, iria no dia seguinte, lá, ver do que falava. Caso decidisse que não, ele contaria do que se tratava, e eu já podia mudar de ideias.

Para tomar a decisão, houve muito que me passou pela cabeça. Incluindo o saco cheio de máscaras em que o ajudante indonésio deles mexia, enquanto ele me fazia tal convite. Dois gajos colossais de figura exótica, um remo e um saco de máscaras. Estou a dois dias de voltar para Portugal, depois de 5 semanas sozinha, em Timor e na Indonésia, tudo correu bem até agora. Este senhor é bom, não há dúvida. Mas quero assim tanto ter uma experiência mistério? Agora?

Claro que não. Digo-lhe isso quando já se vê o porto de Padang Bay, na ilha de Bali, ao fundo. E depois ele diz que sou cobarde, que o meu sexto sentido deixa muito a desejar. E conta-me o que tinha acabado de recusar. Eu não vou contar. É o nosso segredo.
E depois, sinto uma síncope no coração. Fico muito triste, quase miserável. Tenho vontade de chorar. Vêm flashes do que é o medo, de tudo que recusamos sem mais motivo para além daquele que é o nosso limite, de conforto. E a conversa que tivemos depois disto, na hora e tal que passou enquanto esperávamos lugar de estacionamento para o ferry, tomou uma dimensão filosófica, que até direito deu à planificação pormenorizada de uma caminhada pelas montanhas do Nepal.

E com palavras de Krishnamurti rematou. Um dia vou poder redimir-me, é o que espero da lição.

“Hay duas fuerzas que dominan al hombre una es el amor y la outra es el miedo.”

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