4 bitaites sexta-feira, 28 de agosto de 2009

A certa hora da madrugada - julgo que quando ainda não havia tons diferentes, da negritude do céu, que cobre, amorfo - corria um vento, levando qualquer vestígio que tivesse ficado dos dias que passam. Varria em sonhos agitados, inconscientemente tudo o que se sabe, nos sussurros que dizem:

Eu, como rio.

Justificando assim o silêncio, como se coisas não fossem necessariamente ditas. Mas sim:

Tocam as margens, e correm, tocando.

0 bitaites quinta-feira, 20 de agosto de 2009










Ha'u koko
Haluha ne'e hotu
No se ne'e los
Entaun acontese deit.

(Na foto, do outro lado)

2 bitaites sábado, 15 de agosto de 2009

Gostava de lavar a roupa à mão, foi esse o final de uma história e o início da resposta a uma pergunta, que veio depois de caminhada distante, longa até amanhecer, até o pé doer. Que gostava de pegar em cada peça sua, e deixar a água passar, esfregar o sítio de cada nódoa que não tinha mais que a sua própria história também.
E é isso motivo de separação?
Que começaram a ver a vida com caminhos diferentes, e aparecem máquinas de lavar a roupa, que diz que não quer usar, porque gosta de cuidar das suas coisas assim, com tempo.
Seguiu, ouve esta história, de um casal que vive na montanha. Ele, passa os dias no campo e à noite traz de modo os vegetais. Ela fica em casa, vende no mercado ou aos vizinhos, põe o olho nas crianças. Só que um dia ele não pode ir porque tem o pé ferido. Ela embrulha o cabelo numa lipa, pega no cesto e segue para o arrozal.
Ao regressar a casa, na estrada, baixa-se para apanhar uma flor, frangipani, lágrima de um santo qualquer. Coloca-a no cabelo e volta.

2 bitaites sábado, 8 de agosto de 2009

Na International School on Digital Transformation, para onde fui directa de 2 dias de aeroporto à volta do mundo, entrei com ideias inspiradoras - não fossem os exemplos demasiado centrados no caso americano - sobre "Social Change Infrastructure: Building Values Into the Way our World Works" (Nicholas Reville).

Que é tempo de reflectir sobre os pontos onde a sociedade e a tecnologia se encontram, e fazê-lo como activistas e não como mero exercício de observação. [Aqui a primeira palavra que ficou a ecoar, e me fez reflectir antes o percurso que andamos e/ou ando a traçar.]

Criticando o poder que grandes empresas detêm para a manipulação da sociedade - claro que de um ponto de vista tecnológico, informativo e comunicacional - bate com o pé: "podemos decidir a forma que o nosso mundo tem", e apela:

  • Aos Académicos – "que sejam a mudança climática"
  • Aos Estudantes – "que se juntem ao movimento - sejam activistas"
  • Às Organizações – "que alinhem as suas tecnologias com os seus valores"
  • Às Fundações – "que adoptem uma abordagem comum para a construção das infraestruras sociais"
E sim, claro, era bom que toda a gente participasse, mas não sei se basta a "abertura e transparência" para criar o "envolvimento para uma sociedade participativa". [Aqui outra palavra-eco, que tem de ser escrita em inglês, que em português soa estranho participatory.]

A verdade é que do meu ponto de vista, apesar de até ser fácil envolver as pessoas etereamente com um discurso apaixonado sobre determinada causa, os activistas são muitas vezes vistos como o pequeno grupo de maluquinhos que quer impôr coisas que ninguém percebeu muito bem. [E a propósito desta necessidade de saber passar as mensagens, adorei o trabalho da Tactical Technology Collective, que desenvolve publicações e formação para a visualização e comunicação "for social change".]

Já Siva Vaidhyanathan vinha a dizer a seguir (para além da polémica, citada agora pela 3ª vez no blog, "O Google é a lente através da qual vemos o mundo"), que "pequenos grupos de minorias podem de facto fazer mudar o discourse", e citou A Biblioteca de Babel (Borges, 1941), talvez como uma forma de mostrar a grandeza do "projecto do conhecimento humano vs a googlização de tudo", que deu nome à sua apresentação.

Estava eu já completamente saturada de tais embrenhices conspirativas, dissertações rebuscadas e questões complexas, com o cérebro a funcionar ao ritmo da água de côco que julgo que ainda estava a digerir no estômago enquanto pensava que o mundo se vê através de muitas lentes, e como Caeiro, somos todos do tamanho do que vemos e que isso não se mede pelos pixeis da caixa de pesquisa do Google, quando alguém faz descer à terra.

Sinto a leve aragem de um papel que abana na mão, e uma caneta na outra, de quem está agora no palco: Warigia Bowman, sobre os "Desafios e Oportunidades para a Tecnologia de Informação na África Oriental". Tal qual chapada de luva branca ao dizer que a tecnologia de informação pode ser só uma caneta e um papel. Ser activista, participativo, bem sucedido é saber o que as pessoas precisam.

E depois exemplos concretos, novidades, sobre os motivos do cyber-apartheid vs inclusão digital no México, pela voz do antropólogo social Scott Robinson; ou a forma como as tecnologias móveis passam para cima naqueles locais onde não existem infraestruturas físicas, e criam mudanças reais através de "advocacia móvel" e oportunidades inovadoras de desenvolvimento, apresentada pela fundadora do MobileActive.org, e TED Fellow, Katrin Verclas.

Aqui, à procura do significado de advocacia - que em inglês soa a coisa activista (mas talvez seja culpa dos sítios onde a vejo escrita) - que não é mais do que a contestação de uma causa:
(...) encontram-se sempre entrelaçadas a dignidade do homem e a responsabilidade da profissão na luta pelo direito, pois só esta é própria da advocacia.
COUTURE, Eduardo Jorge

Só que se são muitas as pessoas que sabem o que é a dignidade do Homem, especialmente no mundo ocidental, eu não estou certa. Cada vez tenho mais pessoas por perto que não se acomodam a um sentimento de ganância, e elevam outros valores. Para quê? Porque querem chegar ao "outro bilião", parece. Podem procurar o mundo no Google todos os dias, mas viram também uma motivação qualquer em fazer coisas boas por um desevolvimento justo, sustentàvel e equitativo a pensando globalmente, agindo localmente.

Depois disto tudo, a (minha) lavagem cerebral fechou com Sunil Abraham, que cheio de metáforas e analogias, encheu o espírito activista, participativo, advogado e digital de todos os que o ouviram.
I am a child of piracy. I would not be here if i was not a pirate throughout my life. I could only get through school by pirating the books. To me, criticizing the piracy is like spiting on my mother’s face.
***
Dois meses de loucos, vejo, na tentativa de estabilização, que são palavras que ficam, a repetir-se, a provocar acção. E, aparentemente, sim, escolhi uma localização geográfica bastante exacta para já (uma entrevista que me fizeram aqui), e quero oferecer algumas destas a pessoal - gente boa! - que conheci por aí, e pô-los a falar, falar, falar. Are you listening?

1 bitaites

1 bitaites sexta-feira, 31 de julho de 2009

3 bitaites

Foi ainda antes de sair mas já tinha largado grande parte. Fosse o caderno de um ano, com tudo tudo o que acontecia - um guia para memórias fracas - que acabou, e habituar-me à textura do novo papel. O telemóvel do qual tive de desistir quando se tornou uma vergonha ter chamadas a tratar de negócios - da vida! - perdidas na imensidão do que é estática e ruído.

Algures no tempo que por ali ia, veio ninho. Só meditação, que foram as duas semanas de escadote, esfregão da loiça (lixívia) e aspirador, na mão, e um prédio. E o que já sabia, que era partir quando, de ombros mais largos, já tudo tinha um sítio, o cheiro a verniz e um recanto que fosse - o reflexo de vidro irregular de antigo, na parede em frente caso esteja deitada.

A Violeta berra lá ao fundo do átrio que há-de ter espelhos "Tiia!", e eu fui porque ouvi, e, já agora, voltava a despedir-me. Que se passa Violeta? "O Baltazar mudou de casa contigo!", apontava para um topo recôndito, mas ele lá estava. E passados poucos dias eu estava no erli sun. Gosto de ir estando com as pessoas, uma por uma, a um ritmo que imponho na aparente indiferença.

O Baltazar é uma gaivota que aparece sempre, e que não ataca os sacos do lixo na beira da estrada que aguardam o camião que ao chegar faz sempre abanar o chão e as portadas da casa de Mouzinho da Silveira. O Baltazar observa, lá de cima, mas não tem intenções, não é gaivota com grito de morte, como as outras. Disse à Violeta que com o Baltazar não precisava de falar, nem quando estávamos sozinhos, mas que olhávamos sempre um pelo outro.

Com o Baltazar numa janela diferente agora, ainda penduro cortinas, ainda organizo a lista de contactos, e tento lidar com o facto de ter o mundo à distância de uma mensagem, ou através da lente que se chama Google, com quem andei a meter-me meses a fio, e agora levo com o que dizem que pedi - saturação - quando o que mereço e me protege, dizem, tem outro nome.

0 bitaites quarta-feira, 29 de julho de 2009


Estou em processo. O meu silêncio fala na voz do desenquadrado, que o pior jetlag é o cultural. E a lentidão não é mais do que não conseguir acompanhar o que corre por dentro. Assim, em câmara lenta, desculpo-me. Estou em progresso.

PS - Não é que tenha deixado de gostar de silêncio, de cerejas, de mãos, da violeta, de bossa nova, de olhar, do LOST, de luz baixa, de constelações, de lã, de sapatinhos, de flutuar no mar, de canecas de café fraco, de incenso e velas, do cheiro do frangipani, de quadros brancos para escrever, de cremes, do Platão e/ou de fado, mas aquilo à direita estava a irritar-me. E o mesmo para as palavras do Rui Veloso, "esse teu ar grave e sério / (...) / nesse teu jeito fechado / de quem mói o sentimento".

1 bitaites

0 bitaites quarta-feira, 22 de julho de 2009

Já no destino, que não é mais do que ponto de partida, folheio de trás para a frente ainda sem tempo de o pensar. O toque à janela quando menos era esperado, em noite de luar lulik, em forma de bela tal qual o acessório tradicional. O lábio inferior a tremer, a cabeça apontada para baixo, pousada nuns joelhos à frente, soluço que desagua em riso de lágrimas, ou vice versa, não percebi. Três noites num colchão na praia, como lençol só o manto de céu estrelado. Sala de partos, quase a desmaiar só de ouvir (ver não via que fechei os olhos com força), a futura mãe a arfar silenciosamente, a médica cubana de bisturi na mão "preparem-na! tem de ser cesariana! Sara, vamos lá?" Ai onde... E logo depois o funeral em Santa Cruz, missa cantada por baixo do Sol intenso, e pessoas espalhadas pelas campas. A síncope no coração ao avistar Timor aproximar-se do avião.
A maratona pelo aeroporto de Frankfurt, correndo desalmadamente em menos de 10 minutos o que no regresso demorei 45 a andar. Para não perder, não perder, chegar rápido lá, a Díli, onde deixo, mais uma vez, a pele e sensações que num clique se apagam e duvido que tenham mesmo acontecido. Voltarei, para verificar.

 

Copyright 2006 | Template cedido por GeckoandFly e modificado e convertido para Blogger Beta porBlogcrowds.
Muito obrigada :) Se queres conteúdo reproduzir, basta pedir!