2 bitaites domingo, 7 de março de 2010


Avidamente procuro um estado de não avidez.
Sem certezas, serena sei que só nesse espaço é possível aceitar o caminho dos eixos que se percorrem.
Anseio todo o momento apreciar viver sem o saber ou pensar.
Quando por fim chegar, sonho todos os dias, noites, sentar à janela, alpendre, varanda, e desencadear espontânea conversa com a vizinha, que passa e se deixa ficar.
E sair, ficar, não pensar, embora a meditação mo diga que o queria, mas pedia, a nostalgia latente, que por favor, não pense, em mim, no outro. Sabendo que se mentia, querendo, padecendo, por tudo menos tranquilidade, uma réstia de esperança, avidez, relação, que criamos na busca do culminar em isolamento.
Que só nos alimenta por dentro houvera perdido qualquer prazer sofisticado ensimesmado.

0 bitaites sábado, 27 de fevereiro de 2010



Vi a polícia balizar a rua, do Bonjardim. Por cima deles, fruto de temporal ocasional, sacos plásticos vazios esvoaçavam em movimentos espiralescos e aleatórios. Alguém passava carregando à cabeça um colchão de casal manchado, enchia a parte de trás de um camião aberto com isso e mais molduras da última ceia e abat-jours de veludo verde.

Outro levantava a fita que tapava o caminho para um carro passar na mesma, por baixo. Fez uma sequência de gestos ao carro que vinha a seguir: não com o dedo, aponta para uma fachada, traz com a mão a fachada até si. Pergunto-me através da janela, terá caído mesmo? Fui ver. Diz que são efeitos do clima, mas eu não acredito.

A famosa casa entaipada e desenhada pelo BE, tanta casa sem gente tanta gente sem casa (já com uns acrescentos em grafiti com algumas especulações sobre a sexualidade do Sócrates...), tem caído aos seus pés um rochedo enorme, misturado pelo metal de uma antena que voou e caiu em cima do Clio ali estacionado. Do grupo de pessoas que discute à porta do tasco do outro lado da rua, ouço dizerem-me "Menina, isso não é nada! Tem de ir ver ali atrás."

Está lá uma catarse de rufos, caleiras e outras peças amontoadas. Ninguém fala do clima, falam do Rio e da expropriação pela Câmara. "Tiraram-nos isto tudo e depois não fazem nada. Agora querem que vamos viver para outro lado, estas casinhas tão bonitas, vivi aqui a vida toda", encostada à pia de pedra onde ainda lava a roupa comunitariamente com as vizinhas do lado, do bairro, da ilha.

0 bitaites segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Passa por desmistificar o paradoxo da gregária sociedade que se esqueceu e desertou-se. Imiscuiu-se passivamente num modo de vida que é o egoísmo, afastou o que se pensa daquilo que se diz, ou pelo menos disse-o Fernando Nobre, num final de tarde de Janeiro em Santa Catarina, onde apresentou o seu último livro Humanidade, Despertar para a Cidadania Global Solidária.

O tempo urge, concordo, de dar forma à noção do que é a cidadania, os direitos, os deveres. Vivemos numa democracia afinal, "papoila, frágil, desenraizada, murcha". Nasce também nos sítios mais inóspitos.

Vejo-o agora dar um passo em frente com postura de humanista, semeando palavras, ideias, pela cidadania, solidariedade e fraternidade. Pasmo: só pode ser coisa boa. O mote está lançado. "Uma vez líder, só tenho direitos? Ao que parece os líderes de hoje flutuam na órbita estratosférica, saíram deste planeta." Deixe-se de lado a barreira do trio arquitectónico orquestrado, o Desconfiado, o Leit Motif e o Alibi. Percebamos o que são a fragilidade e a força do improvável na vida. Façamo-lo todos os dias, quais novos 12 trabalhos de Hércules:

1. A miséria, a exclusão, o desemprego e o comércio justo;
2. A crise climática e ambiental;
3. As guerras e as armas;
4. As crises sistémicas das finanças e da confiança;
5. A fome;
6. Os direitos humanos;
7. O direito internacional e a reforma das instituições internacionais;
8. Os terrorismos, insegurança e desgovernação;
9. O subdesenvolvimento e os objectivos de desenvolvimento do Milénio;
10. As migrações;
11. Os confrontos culturais, sociais, religiosos e civilizacionais;
12. As democracias.

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Enviada a carta com a minuta ridícula e sem esperar que os meses parem de passar enquanto eles se decidem a avançar com o processo, pude voltar a visitar o engenheiro para lhe entregar uma cópia da dita acrescida do aviso de recepção bem como da cópia do recibo de renda de Fevereiro com o novo-velho valor actualizado-mantido de 20€. E venha daí o imbróglio seguinte.

Enquanto aguardava ansiosamente o parecer / despacho / comunicado porvir, refiz contas ao orçamento que o engenheiro já avisou que vai levantar problemas. Não sabe bem porquê, ainda nem olhou para ele atentamente, mas parece-lhe. "Que nós não somos enganados", eia! Belo princípio, andamos todos a querer arrancar os olhos dos outros. Em Fevereiro o entretenimento foi pois tirar medidas e aprimorar o belo do modelo III do processo. Vesti assim o meu alter ego de empreiteira, engenheira e orçamentista, e não sei bem como até comecei o mês com um sorriso na cara ao pensar na fachada cada vez mais cadente e decadente. É que o processo parece um jogo tipo o filme, mensagens em código que alguém mete na caixa do correio e não poucas vezes assina só com siglas da Câmara do Porto, misteriosas.

Recebi outra dessas na semana passada, vinda de alguém que se esqueceu de falar com o colega do escritório ao lado da grande instituição camarária. Mais umas palavrinhas a acrescentar ao meu vocabulário burocrático crescente. Desta feita, quesitos e a hipotética formulação dos mesmos, aquando da vistoria que será feita em Abril, não pelo Porto Vivo, mas pela Câmara em si, que agora acredita que tenho mesmo de fazer obras, e que quer intimar-me a fazê-las.
Errr... Hey! Eu quero fazer obras!! Fale lá com o seu colega de lado que ele até já tem os papéis todos com o meu pedido. Olhe que não é um pedido qualquer: são 5 quilos de papéis.

Graças a deus que já cá não estão em casa, senão teriam encurrilhado com a humidade do ar que se fez sentir em Janeiro. Foi mês de andar atrás de quem tratasse das caleiras, do fogão e chaminé.

Sempre e para qualquer dúvida dirijo-me ali à senhora do mini café (que é só um balcão). Por acaso conhece quem trate? Na maior parte das vezes ela não sabe, mas assim o cimbalino a 50 cêntimos dá também direito a 5 minutos de alimento à sua curiosidade mórbida sobre os motivos que me trazem aqui ao bairro. Quando apliquei a palavra bairro, o filho dela, 40, bochechas, camisa de flanela, engasgou-se.
- Conhece quem arranje fogões aqui no bairro?
- BAIRRO?!? Onde é que pensa que está?
- Bem, este é o meu bairro, é onde eu moro, é assim que o trato.
- Que com o gás não se brinca, menina, diz, e que mais vale comprar um fogão novo.

A fuga fazia com que tivesse de estar a cozinhar enquanto tomava banho. Coisas da vida. Depois, a caminho do Largo do Padrão, trânsito infernal, ora levanto os olhos da poça ora reparo nos edifícios em redor à procura da loja muito boa para comprar fogões que o outro falou. Vejo a porta de alumínio e os outdoors recessos de neon que quase dizem "fogões a gaz" não fosse faltar o O o E e o Z num cor de laranja que se confunde de amarelo pálido. Um senhor de dentes pretos assobia do outro lado, que quer? é gás? Sim, é, e tento começar a demorar-me em explicações, que o antigo inquilino era um bocado porcalhão, ele interrompe constantemente, tenta adivinhar o final da história que me propus a contar ali no meio do passeio, ao lado de um tubo de queda roto quais quedas de água do Gerês. Diga-me lá a morada. Nós levamos lá a garrafa! Não sei porque dei a morada mas não é garrafa que eu quero, que aquilo estava uma miséria mas com o gás não se brinca, e mais vale comprar um novo. Ah então é um fogão que quer, pois que remédio, preços, onde é a loja. E assim veio um novo fogão a gás, no dia em que a dona Aurora foi levada pelo INEM para o hospital. Uma velhinha pequenina, com Parkinson, que me chamou pela primeira vez a atenção quando reparei no à vontade com que deixa a casa de pantufas e roupão e anda 50 metros até ao café das tijoleiras, aquele onde puseram uma mensagem ao lado da TV a dizer que ali é proibido ouvir o relato sem headphones quando está a decorrer jogo de futebol.

Estava eu dentro do mini café da auto-intitulada coscuvilheira que me pediu que me calasse para ver melhor o que o INEM estava a fazer ali. Olhei pela janela, e dentro de um Scarlett vermelho, um velhinho tratava de um raminho de flores tipo urze, se é que as flores podem ser rudes, num molhe dentro de copinho de plástico, pousado no tablier do carro, ao lado do terço pousado em renda de bilros.

3 bitaites quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

As Duas Frida (1939), Frida Kahlo

4 bitaites quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Final de dia stressante, 6ª feira com demasiada gente a massacrar-me, descarregar problemas em cima até ao contágio do espírito vencido. Ficamos as duas sentadas à mesa do restaurante. A mãe (dela) levantou-se uns segundos antes. Levo a mão à cabeça:
- Ai canerbos, Violeta! Porque é que eu às vezes falo assim com as pessoas?
- Tia, é normal. Também me acontece a mim às vezes... Aliás, às vezes até faço asneiras, sem saber que são asneiras, porque sou criança, não é, e ainda não sei tudo! E depois fico a sentir-me mesmo mal, porque eu fiz aquilo e nem sabia que era asneira. São dias. O melhor nessas alturas é ir dormir, já não há nada a fazer.

1 bitaites segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Hoje dei mais um passo no processo a que dou o nome de Porto-Morto-Vivo referente ao palácio a que chamo Olivença. Mais ou menos a cada duas semanas há assim um impulso, kafkiano, ora encrava ou avança, lenta e absurdamente.

Nem o processo tem originalmente esse nome, nem o palácio é palácio ou sito pela conservatória do registo predial em Olivença. O cerne disto tudo é o Porto Vivo, sociedade de reabilitação urbana que conduz o processo na baixa portuense... Chamo-lhe morto, para além de vivo, porque vai-se a ver e o processo torna-se um pouco suicida a dada altura, e desgasta até à zombificação do proponente.

Portanto, ponto de situação, há duas semanas que massacrava com telefonemas quase diários, "Então, já sabe o que posso fazer?" - "Ainda não, ligue amanhã." Pedia-lhe uma reacção à bela epístola que tinha enviado uns dias antes e onde era possível ler, não necessariamente pela ordem sugerida, palavras como

fachada extraordinária,
parecer despacho...
balizar bombeiros.
correcção: artigos!
anexo assentos
coeficiente é 1
jurídico
encravou.
Tais dissertações poéticas (não fossem os números dos artigos e decretos a que se referiam) tiveram como destinatários o engenheiro, a doutora, a sigla, a família. Foram lidas em voz alta qual ensaio que aguarda aprovação do júri do momento.

Na 6ª tive autorização do engenheiro para desencravar o encravado jurídico cujo antídoto tomará efeito caso eu escreva uma nova epístola, desta feita registada, e com aviso de recepção. Encontrei-me com ele, camarário, no prédio espesso ali no Pátio do Bolhão. Ofereceu-me umas belas cópias desfocadas e com grão da minuta que me orientou na execução do próximo passo, a nova tarefa. "Rídicula", o próprio apelidou-a. Mas tem que ser. E, hey!, se é isto que permite desencravar o RECRIA em gestação há dois meses, numa qualquer pilha de dossiers em escritório amarelecido, siga com a minuta!
Cara senhora inquilina, lina,
trago-lhe uma correcção extraordinária
rídicula
e isto é só para a avisar
que a dita correcção
se aplica à sua renda mensal de 20€
que a partir de agora e solenemente
ao abrigo do disposto no
artº 11º, 12º, 9º
Lei 46/85 de 20 de Setembro
decreto preambular do decreto
321B/90 1379-A 1379-17/2009
Como ia eu a dizer
o coeficiente 2010 é 1
a renda de 20€
é corrigida para
20€
só para avisar
registado e com aviso de recepção.
Atentamente.

Foto de Nopasaran

3 bitaites sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deixei o ano com um grande paradoxo que é esse termo jamais em forma de nó no cérebro. Jamais. Já. Mais. Alguém disse, e fiquei dividida entre o nunca e o impreterivelmente imposto, anotei-o.

Entrei no ano acreditando vir a voltar a andar com um mini canivete suíço no porta chaves, navalha, caneta, palito e lima das unhas. E um relógio. E uma pen. E juntar um batôn com caixinha rosa estilo bola de discoteca, mais as chaves de casa, do prédio, do JUP, o comando da garagem, e uma miniatura de livro com a Declaração dos Direitos Humanos. Em menos de 12 passas já tinha o canivete, que perdi passado uns dias. Nunca troquei a pilha ao relógio, juntei a pen mas não usei. Do batôn partiu-se o cabo, as chaves foram trocadas, o comando passou de mãos. O livro continua na mesinha. Carrego no bolso mais do que quero, posso, devo e mereço.

Hoje tiro tudo, é das luas, invoco deliverables do ano passado, no qual, fazendo o balanço de contas, foram três as noites que dormi em praia tropical, colchão bem no meio do areal, recorte de coqueiros na contra luz, manto de céu estrelado sobre mim. Vi o outro lado do mundo. Vi o mundo do avesso. Dividi cada dia com outro mundo, virtual, e neste acordei mais que vezes de todo perdida, des-reconhecendo andaime, sofá, tapete, fuso horário. O conforto só vive por dentro, no avesso.

Do outro lado do calendário, a caligrafia mantém-se, a reflexão é outra. Porque a partir de agora vou pensar menos. Ou vou tirar menos tempo para pensar. Sem deixar de comunicar. Em 2010, quero pensar, sim, só que mais rápido. E mais. Como quem dá lanço: Pensar, pensar... Saltar.

Ter uma queda para, ponto parágrafo, não um dom mas a índole, a vocação.
Ser o que se é, ponto parágrafo, e venha ele, fazer as pazes com o mundo, repetir para si próprio três vezes, azul, turquesa, vermelho!, em voz alta, diz o narrador, pensar, pensar, fazer!, que Anónimos de A grande se fazem todos, com os seus céus roxos ou laranja, amarelos, frios, distantes, intensos.

O que quero para os outros, o que quero para mim, o que quero para o mundo, o que vier tem de prever, que o que conta do que temos, é o tempo de o celebrar. Esqueci-me. Deixei para amanhã.
Jamais. Já. Mais.

0 bitaites quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Está decidido: Porto-Morto-Vivo, nova rubrica no meu blog. Encadeado por hífens da burocrata em que me tornei, pela reabilitação urbana do centro do Porto.
Qual palácio escondido a quem dei o nome Olivença, se há 8 meses havia fôlego, um qualquer encantamento, hoje o que tenho é urticária no couro cabeludo para não estender os braços ao céu a berrar: leva-me! Singra de mim este peso do nevoeiro que me rodeia quando expiro.
Começo esta rubrica para aliviar, para justificar para informar alertar, divagar. Escrevo para exorcizar, porque se entristece ensimesmado o ar grave e sério do Porto a cada dia que passa.

Da edição de Outubro do JUP,

Jusqu’ici tout va bien

Vive-se período eleitoral, altura em que se esperaria um diálogo mais aberto e real no centro da cidade do Porto. Que cada cidadão fizesse jus ao seu estatuto e tivesse uma palavra a dizer, mesmo que não fervilhasse em críticas acesas por um sentido de pertença à sua comunidade.

Estamos em período eleitoral, e na Rua do Bonjardim, aos domingos de manhã, um vizinho vira as colunas na janela e deixa o pimba tocar bem alto para quem vai a passar na rua ou mesmo para aqueles que se deixam estar no seu lugar. É coisa que o vizinho repete todos os fins-de-semana, e não é por estarmos em período eleitoral que ele havia de mudar. Nunca há quem olhe ou dance, mas na Rua do Bonjardim, agora que o Outono entrou de céu cinzento carregado, as notas só ecoam ligeiramente diferentes porque o chão de paralelo granítico absorve a humidade criando um jogo triste de espelhos, que reflectem as baladas, entre o chão e a vidraça dos prédios em ruínas.

No bairro, durante a semana, ouvem-se bem alto os programas televisivos duvidosos no conteúdo que lavam a consciência de um povo desempregado perseverante no saudosismo sebastianista. Talvez seja ele, o sempre esperado, que os levou a decidir nunca pegar nas casas devolutas, assombradas, decadentes de um bairro que só não é deserto, porque há olhares a medo por trás de cortinas corridas, a cada raro sinal de vida que pouco corre lá fora. Nunca é tempo de mudar, de inspirar, de ter uma palavra a dizer e levá-la em frente. O próprio carro do comício que passa com locutor de voz ultrapassada, megafone em riste, parece não acreditar no seu apelo: ao partido e ao voto. O bairro desconfia daquele proclamador outsider, olha-o de lado. Eventualmente ele deixa de aparecer. Na Rua do Bonjardim, de tanto olharem para a televisão ou através de cortinas, deixaram de ver que tudo em redor está a ruir. Mais! Eu sei, porque vi, que eles esqueceram aqueles hectares de terreno das traseiras, hoje escondidos em jardins secretos, que um dia traziam uma economia ao local.

Assisto a esta apatia, temo pela minha própria inércia, e imagino as formas diferentes que as vidas poderiam assumir, assim que cada cidadão decidisse abrir as janelas à sua cidade. Mas por aqui, o que verdadeiramente ecoa, não é o Portugal no Coração, nem a carripana do comício. Ouve-se em cada olhar, «Jusqu’ici tout va bien.» Quantos mentirão a si próprios até ao culminar do fim mais triste. Que o que somos não é o conforto doloroso da vida que fazemos todos os dias mas sim aquilo que daí conseguimos criar.

À Rua do Bonjardim, a criação chega em pacotes de bailarinas de grupos pimba com roupas rosa shocking, ora em versão sistema-de-som-à-janela, ora pela mágica caixa negra cuja programação e conteúdo deixa pouco a desejar no que diz respeito a atentados ao intelecto social. E é assim, que no centro da cidade do Porto, a consciência se vai criando com a alienação dos valores e objectivos, com a exploração da desgraça do outro e a personificação do espírito do coitado.

Vejo o quão fácil foi deixar o corpo ser levado pela corrente, desenhando um percurso inerte. Vive-se período eleitoral e devia apetecer cortar o paradigma pela raiz, escolher a inspiração, não permitir que outros decidam que o meu caminho é o do outro. Acabo de ver “Into the Wild”, que citava Thoreau pedindo «mais do que o amor, o dinheiro, a fé, a fama, a justiça… dá-me a verdade.» É altura de, na Rua do Bonjardim, romper cortinas velhas, abalar fachadas decrépitas, provocar uma reacção e pedir, tão simples, a verdade.

2 bitaites segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Houve um tempo em que o que fazia era música. Uns anos depois - mas outros tantos antes de agora - “ser músico”, era sinónimo de ser lírico, ou pelo menos dizia-o alguém por quem por acaso tenho ainda muito apreço.

Hoje, tenho vontade de fazer música. Melhor, tenho vontade de ser música – não a personalidade mas essas ondas que percorrem o ar que respiro e aquilo em que os meus braços podem estender-se. Já por várias vezes quis tentar explicar o que isto é, e revejo-o algures em frente a um teclado, Gershwin em igreja barroca, momento em que me sinto entrar nas ditas ondas, sentidas, na medida de quem ultrapassa aquele milésimo de segundo de erro, de lag, de diferença, entre fazer música e sê-la.

Fazia já longa data de que não corria, andava sequer.
Passeio alegre, mas não tanto, sofrido. Verão, quente, noite. Conversas viradas para o rio, sentadas, a ver que ou o mar ou o Douro ou ambos ainda não tinham aceite o facto daquela língua de terra ou areia ter aparecido ali no meio, permitindo um qualquer relacionamento de foz mais suave. Gaivotas sobrevoam ondas revoltas no Cabedelo, marés vivas de Agosto. [Acompanha, bis, o passo.]

Havia luar também e o cristal mais lindo, vindo de florestas amazónicas, esferas de consciência, tal como a que eu trazia de outros orientes, bem mais triste.
Convidou-me a um passeio, caminhada, bengala.
Convidou-me a acelerar, subtilmente e qual coração nas mãos, quando dei por mim era passo de corrida, a trote combinando braços, pernas pés e cabeça num movimento contínuo, orgânico, natural que o meu corpo houvera esquecido ser. Comparo-o a ser música, não a personalidade, mas o passo, o corpo.

Para o Natal era o que eu queria, tocar, ser música, 48 horas ou mais sem parar. Sem reparar. Mas o Natal obriga a enfrentar pequenos monstros debaixo da cama, fugindo deles. O Natal obriga a vestir a pele do outro e depois tapá-la com cachecóis grossos e luvas máscaras, da nossa tristeza que o frio corrói por dentro.

“Que podemos fazer nós para ajudá-los?”, pergunta a Violeta, 4, é que se não têm casa nós temos uma tão grande. E fome? Resta sempre comida em casa.

No meio de tesouras, papéis, estrelas, recortes, after eights e chás em flor, à janela bate alguém, que fala da Indonésia. Pergunto se lá está a celebrar o Natal, a resposta mais linda, presta atenção, “Eu comemoro se tu também.”

Neste Natal, Desconsolada, não cantei os parabéns ao menino Jesus, à volta de bolo de aniversário com vela de pilha desafinada pelos anos que passam.

 

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