3 bitaites sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deixei o ano com um grande paradoxo que é esse termo jamais em forma de nó no cérebro. Jamais. Já. Mais. Alguém disse, e fiquei dividida entre o nunca e o impreterivelmente imposto, anotei-o.

Entrei no ano acreditando vir a voltar a andar com um mini canivete suíço no porta chaves, navalha, caneta, palito e lima das unhas. E um relógio. E uma pen. E juntar um batôn com caixinha rosa estilo bola de discoteca, mais as chaves de casa, do prédio, do JUP, o comando da garagem, e uma miniatura de livro com a Declaração dos Direitos Humanos. Em menos de 12 passas já tinha o canivete, que perdi passado uns dias. Nunca troquei a pilha ao relógio, juntei a pen mas não usei. Do batôn partiu-se o cabo, as chaves foram trocadas, o comando passou de mãos. O livro continua na mesinha. Carrego no bolso mais do que quero, posso, devo e mereço.

Hoje tiro tudo, é das luas, invoco deliverables do ano passado, no qual, fazendo o balanço de contas, foram três as noites que dormi em praia tropical, colchão bem no meio do areal, recorte de coqueiros na contra luz, manto de céu estrelado sobre mim. Vi o outro lado do mundo. Vi o mundo do avesso. Dividi cada dia com outro mundo, virtual, e neste acordei mais que vezes de todo perdida, des-reconhecendo andaime, sofá, tapete, fuso horário. O conforto só vive por dentro, no avesso.

Do outro lado do calendário, a caligrafia mantém-se, a reflexão é outra. Porque a partir de agora vou pensar menos. Ou vou tirar menos tempo para pensar. Sem deixar de comunicar. Em 2010, quero pensar, sim, só que mais rápido. E mais. Como quem dá lanço: Pensar, pensar... Saltar.

Ter uma queda para, ponto parágrafo, não um dom mas a índole, a vocação.
Ser o que se é, ponto parágrafo, e venha ele, fazer as pazes com o mundo, repetir para si próprio três vezes, azul, turquesa, vermelho!, em voz alta, diz o narrador, pensar, pensar, fazer!, que Anónimos de A grande se fazem todos, com os seus céus roxos ou laranja, amarelos, frios, distantes, intensos.

O que quero para os outros, o que quero para mim, o que quero para o mundo, o que vier tem de prever, que o que conta do que temos, é o tempo de o celebrar. Esqueci-me. Deixei para amanhã.
Jamais. Já. Mais.

0 bitaites quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Está decidido: Porto-Morto-Vivo, nova rubrica no meu blog. Encadeado por hífens da burocrata em que me tornei, pela reabilitação urbana do centro do Porto.
Qual palácio escondido a quem dei o nome Olivença, se há 8 meses havia fôlego, um qualquer encantamento, hoje o que tenho é urticária no couro cabeludo para não estender os braços ao céu a berrar: leva-me! Singra de mim este peso do nevoeiro que me rodeia quando expiro.
Começo esta rubrica para aliviar, para justificar para informar alertar, divagar. Escrevo para exorcizar, porque se entristece ensimesmado o ar grave e sério do Porto a cada dia que passa.

Da edição de Outubro do JUP,

Jusqu’ici tout va bien

Vive-se período eleitoral, altura em que se esperaria um diálogo mais aberto e real no centro da cidade do Porto. Que cada cidadão fizesse jus ao seu estatuto e tivesse uma palavra a dizer, mesmo que não fervilhasse em críticas acesas por um sentido de pertença à sua comunidade.

Estamos em período eleitoral, e na Rua do Bonjardim, aos domingos de manhã, um vizinho vira as colunas na janela e deixa o pimba tocar bem alto para quem vai a passar na rua ou mesmo para aqueles que se deixam estar no seu lugar. É coisa que o vizinho repete todos os fins-de-semana, e não é por estarmos em período eleitoral que ele havia de mudar. Nunca há quem olhe ou dance, mas na Rua do Bonjardim, agora que o Outono entrou de céu cinzento carregado, as notas só ecoam ligeiramente diferentes porque o chão de paralelo granítico absorve a humidade criando um jogo triste de espelhos, que reflectem as baladas, entre o chão e a vidraça dos prédios em ruínas.

No bairro, durante a semana, ouvem-se bem alto os programas televisivos duvidosos no conteúdo que lavam a consciência de um povo desempregado perseverante no saudosismo sebastianista. Talvez seja ele, o sempre esperado, que os levou a decidir nunca pegar nas casas devolutas, assombradas, decadentes de um bairro que só não é deserto, porque há olhares a medo por trás de cortinas corridas, a cada raro sinal de vida que pouco corre lá fora. Nunca é tempo de mudar, de inspirar, de ter uma palavra a dizer e levá-la em frente. O próprio carro do comício que passa com locutor de voz ultrapassada, megafone em riste, parece não acreditar no seu apelo: ao partido e ao voto. O bairro desconfia daquele proclamador outsider, olha-o de lado. Eventualmente ele deixa de aparecer. Na Rua do Bonjardim, de tanto olharem para a televisão ou através de cortinas, deixaram de ver que tudo em redor está a ruir. Mais! Eu sei, porque vi, que eles esqueceram aqueles hectares de terreno das traseiras, hoje escondidos em jardins secretos, que um dia traziam uma economia ao local.

Assisto a esta apatia, temo pela minha própria inércia, e imagino as formas diferentes que as vidas poderiam assumir, assim que cada cidadão decidisse abrir as janelas à sua cidade. Mas por aqui, o que verdadeiramente ecoa, não é o Portugal no Coração, nem a carripana do comício. Ouve-se em cada olhar, «Jusqu’ici tout va bien.» Quantos mentirão a si próprios até ao culminar do fim mais triste. Que o que somos não é o conforto doloroso da vida que fazemos todos os dias mas sim aquilo que daí conseguimos criar.

À Rua do Bonjardim, a criação chega em pacotes de bailarinas de grupos pimba com roupas rosa shocking, ora em versão sistema-de-som-à-janela, ora pela mágica caixa negra cuja programação e conteúdo deixa pouco a desejar no que diz respeito a atentados ao intelecto social. E é assim, que no centro da cidade do Porto, a consciência se vai criando com a alienação dos valores e objectivos, com a exploração da desgraça do outro e a personificação do espírito do coitado.

Vejo o quão fácil foi deixar o corpo ser levado pela corrente, desenhando um percurso inerte. Vive-se período eleitoral e devia apetecer cortar o paradigma pela raiz, escolher a inspiração, não permitir que outros decidam que o meu caminho é o do outro. Acabo de ver “Into the Wild”, que citava Thoreau pedindo «mais do que o amor, o dinheiro, a fé, a fama, a justiça… dá-me a verdade.» É altura de, na Rua do Bonjardim, romper cortinas velhas, abalar fachadas decrépitas, provocar uma reacção e pedir, tão simples, a verdade.

2 bitaites segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Houve um tempo em que o que fazia era música. Uns anos depois - mas outros tantos antes de agora - “ser músico”, era sinónimo de ser lírico, ou pelo menos dizia-o alguém por quem por acaso tenho ainda muito apreço.

Hoje, tenho vontade de fazer música. Melhor, tenho vontade de ser música – não a personalidade mas essas ondas que percorrem o ar que respiro e aquilo em que os meus braços podem estender-se. Já por várias vezes quis tentar explicar o que isto é, e revejo-o algures em frente a um teclado, Gershwin em igreja barroca, momento em que me sinto entrar nas ditas ondas, sentidas, na medida de quem ultrapassa aquele milésimo de segundo de erro, de lag, de diferença, entre fazer música e sê-la.

Fazia já longa data de que não corria, andava sequer.
Passeio alegre, mas não tanto, sofrido. Verão, quente, noite. Conversas viradas para o rio, sentadas, a ver que ou o mar ou o Douro ou ambos ainda não tinham aceite o facto daquela língua de terra ou areia ter aparecido ali no meio, permitindo um qualquer relacionamento de foz mais suave. Gaivotas sobrevoam ondas revoltas no Cabedelo, marés vivas de Agosto. [Acompanha, bis, o passo.]

Havia luar também e o cristal mais lindo, vindo de florestas amazónicas, esferas de consciência, tal como a que eu trazia de outros orientes, bem mais triste.
Convidou-me a um passeio, caminhada, bengala.
Convidou-me a acelerar, subtilmente e qual coração nas mãos, quando dei por mim era passo de corrida, a trote combinando braços, pernas pés e cabeça num movimento contínuo, orgânico, natural que o meu corpo houvera esquecido ser. Comparo-o a ser música, não a personalidade, mas o passo, o corpo.

Para o Natal era o que eu queria, tocar, ser música, 48 horas ou mais sem parar. Sem reparar. Mas o Natal obriga a enfrentar pequenos monstros debaixo da cama, fugindo deles. O Natal obriga a vestir a pele do outro e depois tapá-la com cachecóis grossos e luvas máscaras, da nossa tristeza que o frio corrói por dentro.

“Que podemos fazer nós para ajudá-los?”, pergunta a Violeta, 4, é que se não têm casa nós temos uma tão grande. E fome? Resta sempre comida em casa.

No meio de tesouras, papéis, estrelas, recortes, after eights e chás em flor, à janela bate alguém, que fala da Indonésia. Pergunto se lá está a celebrar o Natal, a resposta mais linda, presta atenção, “Eu comemoro se tu também.”

Neste Natal, Desconsolada, não cantei os parabéns ao menino Jesus, à volta de bolo de aniversário com vela de pilha desafinada pelos anos que passam.

1 bitaites segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.
Anónimos, José Ferreira

0 bitaites terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hapara Violencia Kontra Feto / Pára a Violência contra a Mulher / Stop Violence Against Women
UNIFEM Timor-Leste 2007

Hoje exige-se a erradicação da violência contra a mulher.
Enquanto olho para este cartaz, ironicamente, só me ocorre um outro lado da história, que é o da violência no sentido inverso, que por sua vez está ocasionalmente abrangida no âmbito da violência doméstica: atenção, apesar do feminino, não tem género. Ha'u mak vitima! / Eu é que sou vítima!

Mas ok, falemos de mulheres hoje. No bairro do Bonjardim, no outro dia tocou-me à porta uma senhora a quem tinha pedido por telefone para lá ir fazer (curiosas) limpezas (mas essa seria outra história). Quando abri a porta lá em baixo, contra-luz vi primeiro uma figura pequena e frágil, de chapéu de abas largas. Um passo para dentro do edifício e a cara totalmente desfeita, derretida em queimaduras, sem sobrancelhas, pestanas, e os olhos quase de borracha. Na manhã desse dia, quando lhe liguei, foi o marido que atendeu, ultra agressivo, desconfiado, brejeiro. Ela entrou, sentiu o desconforto do meu olhar directo nos olhos dela, sei que não aguentou isso e foi. Quando voltei a ligar-lhe o marido deu um berro tipo "nem pensar!", eu atónita perguntei porquê, ele mais enraivecido com não sei o quê, insisti, não adiantou, não sei o que fazer. Violência física com violência intelectual se paga e se os números de 1 em cada 3 apontam mais para a primeira, não é fácil disseminar as teias em que a segunda se desenvolve e parasita o lugar que a própria mulher mostra ter face ao homem. Não há Lei da Paridade que imponha resultados reais - a mudança tem de vir da base.

Resta-me dizer que na acção de sensibilização sobre Mulheres na Política do mês de Outubro, quem dinamizava o workshop contou que não são dois mas sim cinco os géneros que existem, e não sei se isto é novidade para vós, mas a mim o queixo caiu-me um pouco e certamente levou-me a pensar na multiplicidade de muros de violência e opressões que tem estado tão longe de mim (será?).

Eu cá sou da paz. Tenho no entanto a certeza que é urgente fazer guerra à violência e a minha angústia é que o ataque global necessário não precisa de mais armas do que a própria consciência, só que essa parece-se com fragmentos de granada estilhaçada.

E tenho a certeza que o senhor do cartaz é quem o diria melhor, de indicador e médio afastados: Peace.
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Em 1999, a Organização das Nações Unidas designou, oficialmente, o 25 de Novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Os defensores dos direitos das mulheres já tinham estabelecido, em 1981, o 25 de Novembro como o dia contra a violência. A data relembrara o assassinato das irmãs Mirabal, activistas políticas da República Dominicana, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo, no dia 25 de Novembro de 1960.

Esta data visa relembrar que, em todo o mundo, pelo menos uma em cada três mulheres já foi agredida, forçada a ter relações sexuais ou sofreu algum tipo de abuso ao longo da sua vida, geralmente por parte de alguém conhecido.

1 bitaites sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Dia sem luz nem sombra, o de ontem, cinzento, no qual se discutiu o jornalismo universitário na Faculdade de Direito, a convite da equipa do Tribuna.

César Príncipe (que cito no título deste post), interveio inspirando e demarcando a responsabilidade do jornalista enquanto manipulador / facilitador da consciência colectiva.

Começou por pegar no futebol com uma ironia subtil a propósito do jogo da noite anterior. Insistiu tão prolongadamente no assunto que com o exagero permitiu perceber o estado geral das coisas. O jornalismo é isso: numa tentativa de ilustrar o que é a sociedade local ou global, impõe hábitos. De consumo. Postura. Jornalismo é poder e é alienação, é luz e sombra.

Outro discurso, bem mais derrotista, falava em sangue, suor e lágrimas, capacidade de sofrimento, sabedoria na espera e trabalho, afinco, alma, dor, solidão, uma tragédia. Falava de crime e de cliques. Não gostei. A definição de jornalismo de proximidade não ficou muito clara, embora à primeira vista seja sonante. Resta conhecer as ferramentas de medida dessa distância e se Fénix renascerá das cinzas.

Estava já eu quase a chorar com o sofrimento do outro quando Príncipe responde “Que o sofrimento tem de ser democrático”, o que me fez sentir mais amparada. Depois, quando lhe agradeci no final em privado o discurso construtivo, reflectiu ainda sobre outras esferas. Falou do Muro de Berlim, e do entretenimento do espectáculo televisivo nas comemorações do 20º aniversário da sua queda. Enquanto o ouvia, senti e assisti a uma tempestade de areia nos olhos da população mundial. Quis saber dos outros muros todos que hoje ainda existem. Quis vê-los, lê-los, e outras aliterações e imposições sobre as quais pouca consciência existe.

1 bitaites

1 bitaites sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pensavam que já passava do tempo mas veio a ver-se que afinal era cedo demais quando naquela manhã de São Martinho vim parar a este mundo estranho.

Dizem que por a Lua estar em Aquário e outras combinações que tais, houvera nascido para a fama, mas a astróloga tinha sotaque afectado - e mais! degustava esponjinhas de tofu em óleos - e confundi o destino com teima, decidindo naquele momento teimar no motivo que me leva a coçar o nariz sempre que manuseio castanhas, essas belas irmãs das bolotas, que fechadinhas em si mesmas ou enfarruscadas por cinzas de carvão e tinta de jornal (ora aí está!) simbolizam o meu dia de anos.

Mas a história não é bem assim, porque não foi bem decidir em teimar. A verdade é que desde sempre achei que as castanhas estavam para o nariz na medida em que as cebolas estão para as lágrimas, refiro-me a comichões fisiológicas daquelas que permitem extravazar tudo o que vai por dentro.

Em movimentos compulsivos de indicador na ponta do nariz e fungo. Enquanto descasco as castanhas, repetindo-se-me a frase do pasteleiro "doutora, que eu tenho um coração de manteiga, três dias no congelador".

Reparo que apesar do coração de manteiga, as castanhas não estão a surtir nele o efeito que a mim faz-me romper com todo e qualquer protocolo social, na hora da descasca. Logo eu que sou pessoa tão séria.

Perguntando aqui e ali timidamente enquanto metia mais uma castanha à boca, "mas então e tu, não te coças?", e a coisa foi crescendo, tomou proporções virtuais e do inquérito da semana passada concluo que ninguém mais há que sofra do mesmo mal a não ser familiares próximos: mãe e irmãos. Isso não explica porque é que levei 26 anos a perceber que os outros não são iguais. Era como se me dissessem que nem toda a gente chora a alma em lágrimas enquanto corta cebola aos bocadinhos.

4 bitaites domingo, 8 de novembro de 2009

350
3 bitaites domingo, 18 de outubro de 2009

Foto de Marisa Gonçalves

350, diz hoje o mundo em uníssono. E já tem vindo a repeti-lo, apelando à acção climática, exigindo o pagamento da dívida que principalmente os países do Norte têm de pagar ao Sul do mundo, que são quem mais sofre pelas alterações provocadas pela mão do Homem no ambiente.

350, dizem, é o número mais importante do mundo. Indica o nível que os cientistas consideram ser o limite máximo de segurança para a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Há dois anos, climatologistas de topo, após terem observado o rápido derretimento do gelo do Árctico e outros sinais assustadores de alterações climáticas, publicaram uma série de estudos segundo os quais o planeta estava em risco de catástrofe natural e humana se as concentrações de CO2 atmosférico se mantivessem acima das 350 partes por milhão.
Da meta global estabelecida para sustentar o planeta e evitar a completa catástrofe, se por um lado a Europa dos 15 tem conseguido reduzir em 5% as emissões de gases que provocam o efeito de estufa, Portugal, encontra-se no 2º lugar negativo do ranking, tendo aumentado as suas emissões em 36%, logo a seguir a Espanha que aumentou 52%. (dados de 2007)

Este retrocesso esteve bem explícito durante o dia de hoje na inércia intensa que se viu na cidade do Porto. Ao mesmo tempo, mundo fora, apelava-se aos líderes mundiais que em Dezembro em Copenhaga, seja assinado um ambicioso, justo e vinculativo tratado global de clima. Desenhem-se estratégias de acção, políticas climáticas com base nos mais recentes dados científicos e suficientemente fortes para baixar os níveis até aos 350.
Neste momento, sobretudo porque queimamos tanto combustível fóssil, a concentração atmosférica de CO2 é de 390 ppm – o que é muitíssimo elevado, e é por isso que o gelo está a derreter, a seca está a espalhar-se, as florestas estão a morrer. Para fazer este número descer, a primeira tarefa será parar de pôr mais carbono na atmosfera. Isto implica uma transição muito rápida para energia solar e eólica e outras formas de energia renovável. Se pararmos de lançar mais carbono na atmosfera, as florestas e oceanos irão lentamente sugar parte dele do ar e trazer-nos de volta a níveis mais seguros.
É difícil quebrar com os vícios, sei. E muito mais quando a lavagem cerebral com que os media presenteiam as vidas de muita gente manipula hábitos ao ponto de fazer crer que o consumo sem escrúpulos, a dívida desregrada, a vida em crédito, é que são a opção. As mudanças climáticas são efeito de um estilo de vida que não pode ser mais.

Contaram-me que nos Açores os locais compram batatas de Espanha, que custam só 40 cêntimos e que as batatas locais, de produção biológica e baixo consumo, custam 80 cêntimos o Kg e não pode ser. A mesma pessoa que o disse, usa roupas de marca e um relógio caro no pulso. Não comprou essas peças na feira para poupar 20€, mas acha fulcral poupar aqueles 40 cêntimos das batatas.

Eu cá ando a repensar a minha forma de vida, aquilo que (e como) consumo.
Eu cá, quanto mais coisas tenho, mais pobre me sinto e as pessoas mais felizes que conheci só tinham duas ou três coisas, mas sempre comida boa na mesa.

 

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