1 bitaites quarta-feira, 16 de julho de 2008

ai ai... bainhira ó nia liman komesa kona ha'u...

Taka-Matan - Galaxy

(não tenho tido tempo, estou cheia de trabalho, estou muito deprimida porque o meu tempo aqui está a acabar e não pode ser. deixo para já esta música, adoro adoro adoro, e o próximo post será sobre as fugas inebriantes que os concertos deles me proporcionam)


2 bitaites quarta-feira, 9 de julho de 2008


Ao segundo dia, ventos de força enigmática levantam a poeira da cidade, seca agora que não chove há alguns dias. Um côco que se solta, sucumbindo à gravidade, trespassa o telhado de zinco do quiosque de fruta ali ao lado. Parece que alguma coisa está para acontecer, ou então os deuses zangaram-se por motivos de força maior. O vento chega a todo o lado. Um entre centenas de jeeps UN (que percorrem o país a altas velocidades), cintilante, invejável, imponente, destoando dos táxis de meter dó adaptados de potenciais carros a abater da Malásia, desvia-se da sinalética assassina que invade a estrada.

A história resume-se assim: o governo timorense decide que vai comprar 65 carros japoneses de luxo para cada um dos deputados da nação, os estudantes manifestam a sua indignação face a tal compra tendo em conta que o povo tem fome. Da primeira rodada de protestos, em Junho, em frente à Universidade Nacional, tal número é reduzido para 27, 3 para cada uma das 9 comissões parlamentares. Poucos dias depois, o governo repensa a nova decisão (poderá ser “hanoin hikas”, arrependimento) e volta a incrementar o número para o plano original. Nova vaga de protestos começa esta semana, no mesmo local, mas o que surpreende agora é o facto de isto não poder ser: lembraram-se que não é permitido por lei fazer manifestações a menos de 100 m de edifícios oficiais. A porta do Parlamento é na mesma rua, no lado oposto da porta da Universidade.

Podem comprar tamanha quantidade de carros de luxo? Então podem comprar arroz para o povo, baixar os preços.
A compra de carros faz sentido? Então, primeiro construam estradas seguras, para diminuir o número de mortes por ano em acidentes pelas ravinas abaixo.
Cada deputado deve ter um carro? Então queremos combustível mais barato, para também nós podermos reaver o preço das mikrolets, biskotas e táxis, que aumentou tanto nos últimos meses.
É o que eles pedem.

A novidade da democracia incendeia convicções de uma forma quase passional, como se de uma adolescência tardia se tratasse. A catarse acontece nas traseiras da Universidade, juntam-se ao estilo revolucionário, com meia dúzia de líderes, cada qual na sua vez no centro, elevado, braço no ar a incendiar as tais convicções. Dali saem 10, de cada vez, com fita-cola na boca. Dirigem-se para a porta principal, ficam de pé, em linha, nas escadas, em silêncio, imóveis. No terceiro palco, do outro lado da rua, um jardim zoológico policial circunscreve a área. A UNPOL (coreanos, malaios, brasileiros, indianos, australianos, neo-zelandeses, entre outros) comanda, enquanto fuma umas cigarradas, dá umas palmadas nas costas deste e daquele, traz águas para o pessoal, vira costas à Universidade. Quando a contagem decrescente dos 5 minutos chega ao fim, a Polícia Nacional, bruta, entra em acção, pegando pelo cachaço, nos estudantes, enfiando-os no carro prisão. Isto repete-se pelo menos duas vezes por dia, todos os dias. Já estarão uns 50 manifestantes na esquadra.

Entretanto, o Kuweit oferece 12 BMWs à presidência. Não quero imaginar as pedras de artifício naquelas chapas quando começarem a circular pelas ruas de Díli.
Entretanto, correm boatos de planos de assalto a casa de deputados pelos manifestantes.

Que a bolha rebente, é algo eminente. E o vento, enigmático, semeia o cenário faroeste.

1 bitaites segunda-feira, 30 de junho de 2008

Hoje, quando anoitecer, não vou deixar que fechem as cortinas só porque é hora de resguarda. Vou recolher para fora e percorrer os passeios remendados até encontrar alguém sentado na berma e aí sento-me eu também demasiado perto sem falar.

Hoje quando entrar em casa vou desligar as luzes e abrir as cortinas, para que pudesse ver de perfil as flores do aloendro, não sentindo o veneno, caso na cadeira me sentasse a olhar.

8 bitaites sexta-feira, 27 de junho de 2008

Para quem não sabe, o Google tem um tipo de pesquisa especial que serve para fazer câmbios. Quando estou entediada, lá lhe pergunto eu “1200 USD TO EURO” e ele responde-me com o valor que estou a ganhar em Euros. Dispo o tédio, visto pruridos.

Entretanto tenho encontrado outras formas de enganar o tempo, entre elas a culinária. Gosto mesmo de cozinhar para muitos, e fazer da refeição um momento solene. Acontece mais ou menos uma ou duas vezes por semana que temos um jantar requintado.

E adorava que o Google também disponibilizasse uma pesquisa especial que permitisse perguntar “300 gramas de lentilhas TO colheres”, e assim saber as medidas com os materiais que tenho.

SEMANA do ESTUFADO DE LEGUMES E LENTILHAS

Corte a cebola e pique os dentes de alho; refogue-os em metade do azeite. Acrescente a flor de anis, o gengibre e o cardamomo picado, deixando apurar. Adicione a banana, a maçã, cortadas em pedaços, e deixe cozinhar. Junte a canela e o caril, mexa e envolva o leite. Quando ferver, acrescente a água, tempere com sal e pimenta, deixando ferver durante 10 minutos.

À parte coza as lentilhas em água abundante. Corte as curgetes e a beringela em cubos, as cenouras em rodelas; junte o restante azeite e tempere com os cominhos em pó, os orégãos e o molho de soja. Leve ao forno a 180ºC, durante 20 minutos. Misture todos os ingredientes, confeccionados, sirva regado com o molho e decore com hortelã.

in Grandes Receitas de Legumes - Minilivros

8 bitaites

Aproveitem a benção da banda larga e ouçam enquanto lêem:



Maria tulipa e Pompeu. Gosto de nomes decorados de flores, é assim que se vão chamar os meus filhos (talvez ele não seja flor mas podia bem ser). Talvez por isso simpatize com a Margarida, e era com ela que estava a falar, no terraço do Motion, onde temos reaggea ao vivo às quintas feiras à noite. Depois de eles tocarem o No Woman No Cry, houve acesa discussão acerca do verdadeiro significado da balada. Reunimos as seguintes hipóteses:

• Não há mulher que não chore
• Mulher, não chores!
• Não! As mulheres não choram…
• Não tenho mulher mas não choro

A minha conclusão foi circular: tal como dizia no início da performance, não gosto da música. No entanto, essa não está no top five das piores de sempre para mim.

Há aquela do assobio, muito recente, que passa na rádio. Essa é das que menos gosto. Tocava no outro dia na praia do Caz Bar, na baía da Areia Branca. Éramos só quatro no areal feito pista de dança, sem havaianas sequer, pés enterrados na areia, com velas espalhadas pela praia, uma fogueira, cadeiras baixas de madeira, a música a tocar. Já deviam ser quase quatro da manhã, fujo até ao mar, olho para Díli, duas baías à frente, e penso que tem mais luzes do que devia ter, e quase não tem! Lado a lado, lá ao fundo, aqueles que apanham polvos, de lanterna na mão na maré baixa que se estende longos metros distanciando-se do areal. Pousada no meu ombro a entropia de constelações! Adoro não as reconhecer, embora diga, sempre que o queixo me cai com um céu daqueles, que devia ter trazido um mapa que permitisse reconhecer-lhes alguma ordem. Sei que nessa noite tocou a do assobio, e sei que será difícil esquecer-me do surrealismo da festa de quatro que se proporcionou.

Na lista das mais odiadas vêm a seguir duas veraneantes que sempre que ouço recuso-me, bato o pé e sento-me de braços cruzados. Summer Jam e Summer of 69.
We Are the Champions, iaque…

Troféu entregue à I Will Survive. Odeio odeio odeio as reacções que aquilo provoca nas pessoas, os comportamentos semi-selvátivos que se geram espontaneamente de pessoal aos abraços e pontapés com cervejas na mão, como se de um jogo de futebol se tratasse.

E foi com essa música que aconteceu a noite em que tudo parou e os batuques entraram sonantes. Estávamos então a discutir o cerne do Bob Marley… se é machista, egoísta ou simplesmente um solitário. Eu disse, pronto não gosto, mas até gosto de ouvir o No Woman No Cry tocada por estes gajos, agora se me viessem tocar o I Will Survive… Isso é que não! E pimbas. A menina indonésia desafinada salta para o palco onde a banda já estava a aquecer um som agradável e de repente… At first I was afraid… e eu NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO POR FAVOR! Como é possível? Eu não quero! Eu não gosto! Não deixem! E todos os que participavam na conversa anterior só se riam. O mais cómico foi eu ter dito ao ouvido do australiano 2 minutos antes “The worst song ever is I Will Survive”, ele foi para o palco com o seu batuque, sem saber qual iam tocar e saiu essa. Esperneei, zangada. Queixei-me muito, quis muito que aquilo acabasse e, a verdade foi que passados trinta segundos, um curto-circuito acabou com a brincadeira, a electricidade foi abaixo. A cantoria parou.

Pensam que foi só isso? A cantoria parou para dar lugar a uma longa improvisação instrumental dos rastafararis em palco, aos quais se foram juntando mais e mais elementos, a fazer sons com tudo e mais alguma coisa: pauzinhos, latas de cerveja, copos, batuques, areia em garrafas. E os pés começaram a mexer-se muito e rápido e foi ESPECTACULAR. Voltámos ao bairro com a moral ao auge, ouvimos a Mariza na palhota enquanto comíamos leite creme às colherzinhas de café.

7 bitaites segunda-feira, 23 de junho de 2008

E assim, depois de uma noite solitária no bairro, voltei ao Ramelau. Não foi bem voltar, porque da outra vez fiquei pelo caminho. Ontem, data que muito me apraz em geral, pelo solstício, e que não há ano que passe sem que tente fazer algo especial, quando revi a estrada suicida, atravessada pelos mesmos cavalos selvagens, percorrida pé ante pé pelas figuras surrealistas das montanhas timorenses, e por ali encontrei o local trágico, ainda com os escombros do que restou de mim na altura, senti uma onda a abalar-me com emoções tão fortes que não me lembro de as já ter sentido alguma vez, ou outras de igual intensidade. Gostava de encontrar uma forma mais transparente de vos transmitir a impressão que ficou em mim, mas não há.

Portanto, depois segui viagem, tive uma noite incrível de luar laranja e acampamento na fogueira, alguém me fotografou acima das nuvens - fosse eu um avião -, desci a montanha, senti o meu pé, e voltei para casa, como se 13 meses tivessem existido como lapso para que a viagem continuasse mais tarde, com alívio e plenitude.



NOTA: esta foto é original, não foi tratada. Não sei por qual fenómeno da natureza, mas aparece alguém sentado na minha cabeça, a olhar para a Nossa Senhora que existe nos 2963 metros do Ramelau. Como vêm, estou acima das nuvens. IMPRESSIONANTE.

5 bitaites sexta-feira, 20 de junho de 2008

Final de semana intensa, sinto um cansaço imenso, preciso de actividade cerebral suspensa. Depois disto.

Do cinema, das curtas, retiro alguma plenitude. Por mais lírico que possa parecer, sei que pelo menos uma das 18 curtas apresentadas pode ter fascinado, e até, em certa medida, pode ter mostrado novas perspectivas de vida a, pelo menos um dos 50 assistentes diários.

Discuti com pessoas diferentes, por motivos variadíssimos, tensa, sem me deixar atravessar por incompetências. A relação com o outro aqui é só porque e se me apetece, o que pode parecer um paradoxo, tendo em conta a forma como este parágrafo começou e que vivo no bairro big brother. Portanto explico-me, o que eu faço é o que eu quero fazer, o que dou de mim está na proporção da vontade de ser mais eu, para mim e para o outro. Parece que só aqui é que a vida faz sentido, que a vida é só minha, não sei bem explicar.

[Conheci alguém que fala tal e qual eu. Até irrita, aquilo das palavras lentas, agora percebo, e um som por dentro, nas pausas, que é tipo “mmm”, parece o eco dos meus silêncios.]

Todos os 20 e tal do bairro foram jantar à Areia Branca. Resolvi tirar tempo para pensar, ficar. Lamentavelmente dizer “não vou jantar, preciso de pensar na vida” soa esotérico, e parece bem mais são (queria usar sano, mas não me deixam) dizer que “ah! hoje não, dói-me a cabeça, estou cansada”.

Ao final da tarde, quando saí das aulas, decidi fazer um desvio no meu percurso, para ver um pôr-do-sol cor-de-laranja fluorescente na marginal do Palácio. Dou por mim sentada no murinho a (tentar) desenhar a arrebatadora fragilidade das mãos da Ica Nói, filha de 3 anos da aluna Clara. Conheci-a no outro dia em Manatuto, queria que a Violeta brincasse com ela. Ela tem medo de mim, monstra branca. E quando lhe perguntei “Ha’u bele hasai foto husi ó nia liman?”, justificando depois a vontade de a fotografar com o facto de ela ter as mãos mais incríveis que alguma vez vi, ela não me respondeu, nunca, e escondeu as mãos atrás dos joelhos flectidos. Só me resta lembrar, e daí os desenhos, para tentar perpetuar. Em tétum lembrar diz-se conjugando dois verbos de uma forma que eu até acho poética. As palavras “hanoin fale” significam “pensar” e “voltar”. “Fale”/”voltar” é usado quando falamos de deslocações, muitas vezes em conjunto com “fila” – ha’u fila fale / eu volto ao mesmo sítio. Então lembrar é voltar a pensar. Na viagem do meu pensamento àquelas mãos esguias, compridas, artistas, voltei a pensar numa visão que tive, bem real, mas que permanece como uma ilusão. Eu na montanha, deitada em pedaços, com frio. Aparece uma senhora pelo meio das árvores, vestida com tais e lipas na cabeça, os lábios rubros daquela masca que as mulheres cá insistem em mascar, dizendo que torna os dentes mais fortes (eu só vejo mascadoras com os poucos dentes pretos). Eu não falo, nem ela. Eu tenho um olhar muito triste, cansado. Ela põe-se de cócoras e segura a minha mão, com as mãos dela. Parece que as sinto agora. Ficámos assim durante uma eternidade que durou até hoje, porque isto não existia em palavras. E depois, claro, o turbilhão descontrolado em que a vida se transformou a partir dali, e o estado letárgico onde me abriguei desde então. Até agora. Refazendo as contas, treze meses, três cirurgias e duas meias voltas ao mundo depois (“fila fale”), estou pronta, sem arrependimentos (“hanoin hikas”).

4 bitaites quinta-feira, 19 de junho de 2008

Conhecido como "A Hora do Mosquito", este evento, orientado por mim, que reúne variadíssimos exercícios de alongamento para empenados, toma lugar às 2ªs, 4ªs e 6ªs, antes do jantar, no jardim do bairro.

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2 bitaites quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aqui divago sobre os animais, as estrelas, os avessos, comidas, eventos sociais, eu e mim.

Será que sabem que existe uma vida exterior em velocidade cruzeiro para além desta que despejo em algumas noites no meu belo quarto, outra vez com vista para a palhota, as flores dos aloendros venenosos, cortinas de lipas, espanta espíritos de Maubara?

Cinecurtas ao almoço

Com vista a:
(genericamente)
- desenvolver a capacidade de síntese, o sentido de abstracção e a criatividade;
(especificamente)
- dar a conhecer outras formas de contar histórias mediante o uso criativo de pontos de vistas culturalmente diversos e estratégias variadas, desde as mais convencionais às mais tecnológicas;
- promover um tipo de cinema pouco habitual na oferta existente em Timor-Leste;
(indirectamente)
- facilitar a compreensão e dinamização de disciplinas associadas à literatura, às tecnologias de informação e à informática;

dois docentes da Fundação das Universidade Portuguesas (FUP), Manuel Salvador e Sara Moreira, em exercício de funções na UNTL, no âmbito das formações promovidas pela FUP nessa instituição, contactaram vários cineclubes, designadamente o Cinanima, o Cineclube de Avanca e o Cine Angra do Heroísmo, com vista à realização de uma pequena mostra e promoção de cinema em curta-metragem, a realizar em Timor-Leste, e pensando em especial no público-alvo estudantil universitário.

Já em Dili, entraram em contacto com o Instituto Camões (ICA) com vista a concretizar a referida mostra. Na sequência, segue o convite para um primeiro ciclo a título experimental.

Da programação constarão títulos diversos gentilmente cedidos pelos Cineclubes acima referenciados. A estas entidades um especial obrigado. A selecção dos títulos é da responsabilidade dos organizadores.

Aos futuros espectadores, que uma curta por dia estimule de facto a imaginação e a ousadia! E, em nome da equipa organizadora, muito benvindos!
Isabel Gaspar, do ICA

Check it out (desculpem não tinha as sinopses todas neste PC e não coloco aqui os flyers porque estão feios...)

 

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