Ai havia tanto para dizer, tantas palavras, ou algumas outras conjugadas assim como o meu cérebro as pensa, ou noutras formas, noutros modos, que têm tanto para contar… Histórias que vão do interior de um organismo que se adapta, até à relação com os outros, tão complexa. Então se forem timorenses!... É melhor ir por partes, e começar por dizer que hoje não foi um dia qualquer.
Começa com um telefonema de parabéns – é sempre engraçado poder dá-los a alguém com 8 horas de avanço. A enxaqueca era terrível, derivada da profilaxia da malária, que não tem dado pesadelos, mas sonhos bons demais. Claro que eles são a gorjeta pelo latejar encefalóide que atormenta todas as minhas 3ªs feiras (Ferrari, gostava tanto que lesses este post…)(e não, não era ele o aniversariante).
Madrugo entre suores de sonhos que nem sei se foram, ou se só estavam eminentes por outros sinais quaisquer. E a feira popular já corria lá fora, na rua do Hotel Timor, logo à frente da minha janela, nem 7 da manhã eram. O Hotel Timor é o mais caro do país e ridículo na sua prepotência. É também o local onde uma panóplia multinacionalíssima de jornalistas se reúne para decidir o que vai ser manchete por esse mundo fora, acompanhada da calça beije, do gin tónico e umas cigarradas.

Já sabia, porque vi ontem afixado na sala de professores, que hoje não haveria aulas, devido à “Formatura dos alunos para recepção ao Ex.mo Senhor Presidente da República José Ramos Horta”. Terceiro mundismo, pensei, com aquela risada irónica para dentro, e acrescentei que ao menos poderia dormir um pouco mais já que a enxaqueca estava a matar-me, bem como as precedentes noites pouco dormidas, pelos sonhos ou pelas insónias, propositadas ou involuntárias. Mas a feira popular deixou-me curiosa, vesti a camisa branca com o alfinete-libelinha, e pus-me a andar sem o pequeno almoço.
Logo a seguir, isto vai ser forte, pensei, arrependendo-me (em tétm, há’u hanoin-hikas, ou “voltando a pensar”, re-traduzindo à letra) no estômago vazio, quando vejo gente e gente e gente, com os melhores fatos, e crianças com bandeirinhas de Timor. Por mim passa um miúdo de dois anos – eles andam sozinhos pela rua – que usava uns calções grandes demais para as suas pernas raquíticas, azul turquesa forte, com pregas e com a marca vertical do ferro de passar, um colete da mesma cor, e na mesma desproporção, uma t-shirt branca por baixo. Vê-me a mim, branca, vestida nas mesmas cores, com uma expressão entre o sono, a fome e o sorriso, e corre para as pernas de alguém que estava uns metros à frente. Assim sente-se seguro da monstra-malai que não pára de o observar, mas continua a espreitar ora pela esquerda, ora pela direita das pernas do pai.
Sol abrasador e pouco passa das 8, já pingo pelas costas. Os miúdos são milhares e têm todos as bandeiras mais ou menos serpenteantes, têm todos os uniformes das escolas. Pólos de botões no decote, com o tronco de cor forte e diferente da das mangas. Estão ansiosos, contentes, olham-me como se fosse um momento só deles, estão tão contentes e inquietos na sua formatura ao longo da marginal em frente ao Palácio do Governo, que se tornam foliões em ovações sucessivas ao camião do lixo que passa na estrada, qualquer ciclista, um jeep, outro, muitos. E o presidenti, ba nee’be? Decido circular em busca de um tiga roda (três rodas) que me venda umas bolachas e um sumo para enganar a fome. Sigo com as bolachas de chocolate e a lata de sumol. Parecem-me tão erradas neste contexto, apetece-me oferecer comida aos outros, e logo a seguir sinto a pequenez da minha vontade. Se pudesse escolher alguém, a quem ofereceria a minha comida?
Contorno o quarteirão do Palácio, e lá atrás, na Universidade sou eu quem é aclamada como se fosse o Ramos Horta, mártir, “ressuscitado”, ao lado do Papa em fotografias nas t-shirts brancas de tantos. Já nem coro em Timor. Fotografo-os descaradamente, e aos alunos que se penduraram por cima daquele vão que cobre os três degraus de entrada na Universidade. A porta do Parlamento fica do outro lado, e é o destino do Presidenti que está para vir. Continuo a circular, volto à marginal, encontro a Verónica e o Mateus, e mais não sei quantos alunos pelo caminho. Pocuro um spot onde possa ficar para assistir ao espectáculo de 3 minutos em que o FBI, CIA, Grupo de Operações Especiais, SWAT Team, ONU, Embaixadores, Diplomatas, Serviços Secretos. TODOS dentro de grandes jeeps blindados, janelas espelhadas, metralhadoras, sirenes, bastões. Um aparato digno de Hollywood, seguido de uma corrida cómica do povo pelo Palácio do Governo adentro.

(Estranhei que este, desde o atentado, ao contrário do ano passado, tenha fechado a sua passagem pelos jardins. No ano passado era comum fazer essa travessia a pé, já que o Palácio está a meio caminho entre o bairro e a embaixada, e o bom peixe do Rocela. Agora por questões de segurança, labele, não pode passar. No entanto, no dia em que o Presidenti lá está, o povo todo, eu também, entra por ali em corridas descontraídas e sem controlo algum. Não pude fotografar porque estava demasiado concentrada no movimento perna,-joelho-pé-havaiana da incursão acelerada.)
Acaba-se o espectáculo – de louvar a equipa de robocops timorenses protectores do novo-mártir – e celebro com goiaba no Café Brasil. Isto tudo dá-me uma lufada de Moodle cerebral e de repente dou por mim com a disciplina de Inteligência Artificial já toda preparada na plataforma de e-learning. Almoço no timorense com a Marisa, porque desde que experimentei nunca mais consegui esquecer aquele sumo de lima com gelo granizado BRUTAL, desisto do download de 15MB do cartaz para o ciclo de cinema que tento fazer há 3 dias no bairro, e vou à Timor Telecom. Em 10 minutos a ligação dedicada por satélite à net acaba com o desespero raisparta a net em Timor que me tem atormentado e alimentado enxaquecas. Não me deixo ficar por aqui, e vou imprimir os cartazes depois da análise de mercado loja-a-loja das impressões a cores A3. Deixo os cartazes na UNTL, sigo de bike para a Areia Branca a tempo do pôr-so-sol mágico com sumo de papaia e limão (Construíram em 5 dias uma auto-estrada pela marginal, para que o Presidenti pudesse chegar a casa sem buracos, o que torna muito mais suaves estas investidas em duas rodas até à praia).
Em casa tenho uma lagosta indescritível que sugo até ao tutano com todos os dedos e dentes e martelos de pedras, durante 45 minutos non-stop. Quero lá saber dos meus ruídos na ingestão!...
E porque 5ª é noite de Motion. lá vamos nós participar nesta fauna de relações entre deslocados. Como vieram aqui parar? Que estou em aqui a fazer? Chega a hora da cinderela, recolho até à palhota, já trago a guitarra na mão, não participo na conversa, e só penso em duas coisas:
- É assim viver em estado de sítio.
- Ai havia tanto mais a dizer…