2 bitaites segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Houve um tempo em que o que fazia era música. Uns anos depois - mas outros tantos antes de agora - “ser músico”, era sinónimo de ser lírico, ou pelo menos dizia-o alguém por quem por acaso tenho ainda muito apreço.

Hoje, tenho vontade de fazer música. Melhor, tenho vontade de ser música – não a personalidade mas essas ondas que percorrem o ar que respiro e aquilo em que os meus braços podem estender-se. Já por várias vezes quis tentar explicar o que isto é, e revejo-o algures em frente a um teclado, Gershwin em igreja barroca, momento em que me sinto entrar nas ditas ondas, sentidas, na medida de quem ultrapassa aquele milésimo de segundo de erro, de lag, de diferença, entre fazer música e sê-la.

Fazia já longa data de que não corria, andava sequer.
Passeio alegre, mas não tanto, sofrido. Verão, quente, noite. Conversas viradas para o rio, sentadas, a ver que ou o mar ou o Douro ou ambos ainda não tinham aceite o facto daquela língua de terra ou areia ter aparecido ali no meio, permitindo um qualquer relacionamento de foz mais suave. Gaivotas sobrevoam ondas revoltas no Cabedelo, marés vivas de Agosto. [Acompanha, bis, o passo.]

Havia luar também e o cristal mais lindo, vindo de florestas amazónicas, esferas de consciência, tal como a que eu trazia de outros orientes, bem mais triste.
Convidou-me a um passeio, caminhada, bengala.
Convidou-me a acelerar, subtilmente e qual coração nas mãos, quando dei por mim era passo de corrida, a trote combinando braços, pernas pés e cabeça num movimento contínuo, orgânico, natural que o meu corpo houvera esquecido ser. Comparo-o a ser música, não a personalidade, mas o passo, o corpo.

Para o Natal era o que eu queria, tocar, ser música, 48 horas ou mais sem parar. Sem reparar. Mas o Natal obriga a enfrentar pequenos monstros debaixo da cama, fugindo deles. O Natal obriga a vestir a pele do outro e depois tapá-la com cachecóis grossos e luvas máscaras, da nossa tristeza que o frio corrói por dentro.

“Que podemos fazer nós para ajudá-los?”, pergunta a Violeta, 4, é que se não têm casa nós temos uma tão grande. E fome? Resta sempre comida em casa.

No meio de tesouras, papéis, estrelas, recortes, after eights e chás em flor, à janela bate alguém, que fala da Indonésia. Pergunto se lá está a celebrar o Natal, a resposta mais linda, presta atenção, “Eu comemoro se tu também.”

Neste Natal, Desconsolada, não cantei os parabéns ao menino Jesus, à volta de bolo de aniversário com vela de pilha desafinada pelos anos que passam.

1 bitaites segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.
Anónimos, José Ferreira

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Hapara Violencia Kontra Feto / Pára a Violência contra a Mulher / Stop Violence Against Women
UNIFEM Timor-Leste 2007

Hoje exige-se a erradicação da violência contra a mulher.
Enquanto olho para este cartaz, ironicamente, só me ocorre um outro lado da história, que é o da violência no sentido inverso, que por sua vez está ocasionalmente abrangida no âmbito da violência doméstica: atenção, apesar do feminino, não tem género. Ha'u mak vitima! / Eu é que sou vítima!

Mas ok, falemos de mulheres hoje. No bairro do Bonjardim, no outro dia tocou-me à porta uma senhora a quem tinha pedido por telefone para lá ir fazer (curiosas) limpezas (mas essa seria outra história). Quando abri a porta lá em baixo, contra-luz vi primeiro uma figura pequena e frágil, de chapéu de abas largas. Um passo para dentro do edifício e a cara totalmente desfeita, derretida em queimaduras, sem sobrancelhas, pestanas, e os olhos quase de borracha. Na manhã desse dia, quando lhe liguei, foi o marido que atendeu, ultra agressivo, desconfiado, brejeiro. Ela entrou, sentiu o desconforto do meu olhar directo nos olhos dela, sei que não aguentou isso e foi. Quando voltei a ligar-lhe o marido deu um berro tipo "nem pensar!", eu atónita perguntei porquê, ele mais enraivecido com não sei o quê, insisti, não adiantou, não sei o que fazer. Violência física com violência intelectual se paga e se os números de 1 em cada 3 apontam mais para a primeira, não é fácil disseminar as teias em que a segunda se desenvolve e parasita o lugar que a própria mulher mostra ter face ao homem. Não há Lei da Paridade que imponha resultados reais - a mudança tem de vir da base.

Resta-me dizer que na acção de sensibilização sobre Mulheres na Política do mês de Outubro, quem dinamizava o workshop contou que não são dois mas sim cinco os géneros que existem, e não sei se isto é novidade para vós, mas a mim o queixo caiu-me um pouco e certamente levou-me a pensar na multiplicidade de muros de violência e opressões que tem estado tão longe de mim (será?).

Eu cá sou da paz. Tenho no entanto a certeza que é urgente fazer guerra à violência e a minha angústia é que o ataque global necessário não precisa de mais armas do que a própria consciência, só que essa parece-se com fragmentos de granada estilhaçada.

E tenho a certeza que o senhor do cartaz é quem o diria melhor, de indicador e médio afastados: Peace.
--
Em 1999, a Organização das Nações Unidas designou, oficialmente, o 25 de Novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Os defensores dos direitos das mulheres já tinham estabelecido, em 1981, o 25 de Novembro como o dia contra a violência. A data relembrara o assassinato das irmãs Mirabal, activistas políticas da República Dominicana, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo, no dia 25 de Novembro de 1960.

Esta data visa relembrar que, em todo o mundo, pelo menos uma em cada três mulheres já foi agredida, forçada a ter relações sexuais ou sofreu algum tipo de abuso ao longo da sua vida, geralmente por parte de alguém conhecido.

1 bitaites sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Dia sem luz nem sombra, o de ontem, cinzento, no qual se discutiu o jornalismo universitário na Faculdade de Direito, a convite da equipa do Tribuna.

César Príncipe (que cito no título deste post), interveio inspirando e demarcando a responsabilidade do jornalista enquanto manipulador / facilitador da consciência colectiva.

Começou por pegar no futebol com uma ironia subtil a propósito do jogo da noite anterior. Insistiu tão prolongadamente no assunto que com o exagero permitiu perceber o estado geral das coisas. O jornalismo é isso: numa tentativa de ilustrar o que é a sociedade local ou global, impõe hábitos. De consumo. Postura. Jornalismo é poder e é alienação, é luz e sombra.

Outro discurso, bem mais derrotista, falava em sangue, suor e lágrimas, capacidade de sofrimento, sabedoria na espera e trabalho, afinco, alma, dor, solidão, uma tragédia. Falava de crime e de cliques. Não gostei. A definição de jornalismo de proximidade não ficou muito clara, embora à primeira vista seja sonante. Resta conhecer as ferramentas de medida dessa distância e se Fénix renascerá das cinzas.

Estava já eu quase a chorar com o sofrimento do outro quando Príncipe responde “Que o sofrimento tem de ser democrático”, o que me fez sentir mais amparada. Depois, quando lhe agradeci no final em privado o discurso construtivo, reflectiu ainda sobre outras esferas. Falou do Muro de Berlim, e do entretenimento do espectáculo televisivo nas comemorações do 20º aniversário da sua queda. Enquanto o ouvia, senti e assisti a uma tempestade de areia nos olhos da população mundial. Quis saber dos outros muros todos que hoje ainda existem. Quis vê-los, lê-los, e outras aliterações e imposições sobre as quais pouca consciência existe.

1 bitaites

1 bitaites sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pensavam que já passava do tempo mas veio a ver-se que afinal era cedo demais quando naquela manhã de São Martinho vim parar a este mundo estranho.

Dizem que por a Lua estar em Aquário e outras combinações que tais, houvera nascido para a fama, mas a astróloga tinha sotaque afectado - e mais! degustava esponjinhas de tofu em óleos - e confundi o destino com teima, decidindo naquele momento teimar no motivo que me leva a coçar o nariz sempre que manuseio castanhas, essas belas irmãs das bolotas, que fechadinhas em si mesmas ou enfarruscadas por cinzas de carvão e tinta de jornal (ora aí está!) simbolizam o meu dia de anos.

Mas a história não é bem assim, porque não foi bem decidir em teimar. A verdade é que desde sempre achei que as castanhas estavam para o nariz na medida em que as cebolas estão para as lágrimas, refiro-me a comichões fisiológicas daquelas que permitem extravazar tudo o que vai por dentro.

Em movimentos compulsivos de indicador na ponta do nariz e fungo. Enquanto descasco as castanhas, repetindo-se-me a frase do pasteleiro "doutora, que eu tenho um coração de manteiga, três dias no congelador".

Reparo que apesar do coração de manteiga, as castanhas não estão a surtir nele o efeito que a mim faz-me romper com todo e qualquer protocolo social, na hora da descasca. Logo eu que sou pessoa tão séria.

Perguntando aqui e ali timidamente enquanto metia mais uma castanha à boca, "mas então e tu, não te coças?", e a coisa foi crescendo, tomou proporções virtuais e do inquérito da semana passada concluo que ninguém mais há que sofra do mesmo mal a não ser familiares próximos: mãe e irmãos. Isso não explica porque é que levei 26 anos a perceber que os outros não são iguais. Era como se me dissessem que nem toda a gente chora a alma em lágrimas enquanto corta cebola aos bocadinhos.

4 bitaites domingo, 8 de novembro de 2009

350
3 bitaites domingo, 18 de outubro de 2009

Foto de Marisa Gonçalves

350, diz hoje o mundo em uníssono. E já tem vindo a repeti-lo, apelando à acção climática, exigindo o pagamento da dívida que principalmente os países do Norte têm de pagar ao Sul do mundo, que são quem mais sofre pelas alterações provocadas pela mão do Homem no ambiente.

350, dizem, é o número mais importante do mundo. Indica o nível que os cientistas consideram ser o limite máximo de segurança para a concentração de dióxido de carbono na atmosfera.
Há dois anos, climatologistas de topo, após terem observado o rápido derretimento do gelo do Árctico e outros sinais assustadores de alterações climáticas, publicaram uma série de estudos segundo os quais o planeta estava em risco de catástrofe natural e humana se as concentrações de CO2 atmosférico se mantivessem acima das 350 partes por milhão.
Da meta global estabelecida para sustentar o planeta e evitar a completa catástrofe, se por um lado a Europa dos 15 tem conseguido reduzir em 5% as emissões de gases que provocam o efeito de estufa, Portugal, encontra-se no 2º lugar negativo do ranking, tendo aumentado as suas emissões em 36%, logo a seguir a Espanha que aumentou 52%. (dados de 2007)

Este retrocesso esteve bem explícito durante o dia de hoje na inércia intensa que se viu na cidade do Porto. Ao mesmo tempo, mundo fora, apelava-se aos líderes mundiais que em Dezembro em Copenhaga, seja assinado um ambicioso, justo e vinculativo tratado global de clima. Desenhem-se estratégias de acção, políticas climáticas com base nos mais recentes dados científicos e suficientemente fortes para baixar os níveis até aos 350.
Neste momento, sobretudo porque queimamos tanto combustível fóssil, a concentração atmosférica de CO2 é de 390 ppm – o que é muitíssimo elevado, e é por isso que o gelo está a derreter, a seca está a espalhar-se, as florestas estão a morrer. Para fazer este número descer, a primeira tarefa será parar de pôr mais carbono na atmosfera. Isto implica uma transição muito rápida para energia solar e eólica e outras formas de energia renovável. Se pararmos de lançar mais carbono na atmosfera, as florestas e oceanos irão lentamente sugar parte dele do ar e trazer-nos de volta a níveis mais seguros.
É difícil quebrar com os vícios, sei. E muito mais quando a lavagem cerebral com que os media presenteiam as vidas de muita gente manipula hábitos ao ponto de fazer crer que o consumo sem escrúpulos, a dívida desregrada, a vida em crédito, é que são a opção. As mudanças climáticas são efeito de um estilo de vida que não pode ser mais.

Contaram-me que nos Açores os locais compram batatas de Espanha, que custam só 40 cêntimos e que as batatas locais, de produção biológica e baixo consumo, custam 80 cêntimos o Kg e não pode ser. A mesma pessoa que o disse, usa roupas de marca e um relógio caro no pulso. Não comprou essas peças na feira para poupar 20€, mas acha fulcral poupar aqueles 40 cêntimos das batatas.

Eu cá ando a repensar a minha forma de vida, aquilo que (e como) consumo.
Eu cá, quanto mais coisas tenho, mais pobre me sinto e as pessoas mais felizes que conheci só tinham duas ou três coisas, mas sempre comida boa na mesa.

7 bitaites sábado, 12 de setembro de 2009

(English version of Pablo Neruda's poem "Who dies?" can be found here)

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê,
quem não ouve música, quem não encontra
graça em si mesmo.
Morre lentamente quem destroi o seu amor-próprio,
quem não deixa ajudar.
Morre lentamente quem se transforma
em escravo do hábito,
repetindo todos os dias os mesmos trajectos, quem
não muda de marca, não se arrisca a vestir um nova cor ou
não conversa com quem não conhece.
Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru.
Morre lentamente quem evita uma paixão,
quem prefere o negro
sobre o branco e os pontos sobre os "is"
em detrimento de um redemoinho de emoções justamente
as que resgatam o brilho dos olhos, sorrisos dos bocejos, corações aos tropeços e sentimentos.
Morre lentamente quem não vira a mesa quando está feliz
com o seu trabalho, quem não arrisca o certo
pelo incerto para ir atrás de um sonho, quem não se permite
pelo menos uma vez na vida fugir dos conselhos sensatos.
Morre lentamente, quem passa os dias
queixando-se da sua má sorte ou da chuva incessante.
Morre lentamente, quem abandona
um projecto antes de iniciá-lo,
não pergunta sobre um assunto que desconhece ou não responde quando lhe indagam sobre algo que sabe.

Evitemos a morte em doses suaves, recordando sempre
que estar vivo exige um esforço muito maior
que o simples facto de respirar.
somente a perseverança fará que conquistemos
um estágio esplêndido de felicidade.
Pablo Neruda

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Early 2007 I decided to go to East Timor to work as a Computer Engineering teacher in the National University for one semester. I was leaving to the other side of the world, I would be living in a very different time zone (9 hours of difference between Portugal and Timor!) and I was very excited to learn about the first country of the millennium, which used to be a Portuguese colony. Once again, I decided to create a new blog to easily share some stories about my new experience with family and friends despite the physical distance.

I named it CouldIHaveBeen.blog.com and it was simply about sarita - me! - in timor lorosa'e - which is the name of the country in tétum, the local language, meaning both East Timor and Timor of the Rising Sun. I remember creating the blog and sending an email to all my friends, family and former colleagues from the company where I was working, saying "here's where you can find me!".


Now that I am reading parts of it again, I realize that I am a blogger especially because I have always enjoyed writing a lot. I carry a notebook and a pen with me since I can remember. My second blog was a kind of a diary that I could share with my dearest friends that were very faraway from me.

Through a literary approach complemented with pictures and quoting poems, I would describe my day to day activities while reflecting on the impact that such culture was having in my own way of perceiving life.

Back then, as I checked the statistics I could see that it was also calling the attention of new visitors who were probably interested in East Timor situation, which is not very disseminated. I was thrilled to arrive home and check my mailbox seeing that people were actually reading me and commenting my thoughts.

Nevertheless this blog ended with a tragical event. I had a big car accident in the mountains of East Timor and I had to come back home sooner than I expected. It was a very tough year for me and I had no will to write more than complaining about it, so I decided to stop.

A few months later, however, a new blog (this one!!) would come as a therapy. But once again, that's a new story, on a different blog, coming in a different post :)

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This post is an open letter to my mentee Hawah Abdul, a Kenyan activist who is taking part of an educational program in Copenhagen, Denmark called Global Change.

She works for a non-governmental organization called Centre for Conflict Resolution(CCR-Kenya), together with the Youths in promoting peaceful coexistence amongst diverse communities, mainly capacity building, advocacy, and community mobilization. She says that most of their targets are the pastoralists who normally conflict over pasture and water which results from the Climate Changes in Kenya. Hawah expects the Global Change course to help her carry out her duties more effectively including campaigns and advocacy.

A new collaboration between MS ActionAid / Global Change and the Global Voices Online, which I'm part of, has lead to the creation of a mentor-project. That's where I come in. I will be Hawah's blogging-mentor until mid-October, and I hope that we through the coming weeks will have a chance to engage in some interesting dialogues on everything relating to blogging.

 

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