3 bitaites terça-feira, 13 de abril de 2010


Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro. Tinha decidido tirar uns tempos deste imbróglio e já que nada aguardavam da minha parte, restava-me das duas uma, massacrar com emails assertivos tic tac tic tac o tempo está a contar há novidades? precisam de alguma coisa? qual o ponto de situação? e agora qual o próximo passo? ou a outra opção pela qual optei seria dar uma pausa a mim mesma. É que isto tudo anda muito próximo dos estudos que se fazem sobre a eutanásia.

Ora portanto a timeline é a seguinte

Final de Maio de 2009: sou proprietária de um belo prédio decadente na rua do Bonjardim o qual imediatamente apelido de Palácio Olivença, idealizando uma imagem reabilitada cor de rosa, azul petróleo ou azulinho, o 1º de muitos em todo o bairro.

Junho de 2009: inicio processo de candidatura ao programa RECRIA junto do Porto Vivo, SRU. Passo duas semanas com um escadote, uma bacia de lixivia e uma faca na mão, a ganhar calos com o esterco herdado, a conhecer cada centímetro do soalho, paredes e portadas e a meditar sobre a vida.

Setembro de 2009: Estou instalada. Tenho duas inquilinas velhotas já de há mais de décadas. Estou prestes a ter mais uma inquilina, na minha casa. Chamo a Câmara para remover entulho das escadas que está ali há 5 anos.

Outubro de 2009: chamo bombeiros para balizarem passeio, nao quero ninguém a passar por baixo da minha varanda. Inesquecível & indescritível.

Dezembro de 2009: consigo terminar o rally paper das certidões de óbito, nascimento, registos prediais, contratos de mil novecentos e troca o passo, orçamentos, declarações, fotografias, papelada. Submeto processo RECRIA 40/09.

Janeiro de 2010: aparece de surpresa uma visita da CMP a propósito de um relatório de bombeiros que receberam. Não sabem nada sobre o RECRIA.

Fevereiro de 2010: Recebo uma carta da CMP com o processo que o Palácio Olivença tem aberto. Fico pasma ao saber que o historial de intimações a obras já vem desde 2006. Começo a perder a paciência com o anterior proprietário que além do mais era porcalhão.

Março de 2010: recebo a conta de remoção do entulho pela Câmara: 42€ por um metro cúbico. Ainda bem que poupei duas rendas da senhora da cave, assim já quase tenho dinheiro para pagar o lixo dela.

Abril de 2010: Saio da pausa que me dei, ligo ao engenheiro a perguntar como é que está a coisa afinal com o Recria, é que vou ter uma vistoria da CMP amanhã e acho que me querem obrigar a fazer obras. Isso avança? Não há orçamento. Como? Não há verba, diz a lesma mole a branca sentada no seu escritório castanho desbotado, em 2010 é impossível. Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro.

Apesar de ainda haver quem consiga levar avante a épica preparação burocrática do dossier de candidatura ao programa RECRIA, aparentemente a reabilitação da zona de intervenção prioritária do centro do Porto afinal não é prioridade e as verbas não são suficientes.

No entanto, a mesma Câmara Municipal do Porto, detentora de capitais públicos da Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense, diz-me agora que ou faço obras ou sou contrônedada, desculpe? não percebi, contrônedada, contrô quê?, contra ordenada! Xiça, e é mesmo assim? Pode sempre pedir prorrogação, a cada 15 dias do prazo. Mas isso... (o beicinho treme-me).

Penso na latinha de tinta anti ferrugem que comprei por 5€ na semana passada ali na drogaria para começar eu própria a restaurar a varanda. Deu origem a uma bela conversa e posteriores pensamentos sobre a humanização do comércio. O Zé conta-me que um vizinho meu que trabalha com ele lá não sei onde lhe disse que a mulher mandou dizer que ele dissesse à amiga da namorada dele que estava no outro dia ali vestida à trolha pendurada a lixar a ferrugem toda com um cartãozinho de meter dó. É que há um novo produto para tirar a ferrugem, um spray que transforma tudo em pózinhos perlimpimpim e de repente o Palácio Olivença já é todo cor de rosa com estrelas brancas, como o jeep que a Violeta vai ter quando for grande.

Resta-me sonhar com incentivos e apoios que existem e não existem, e não deixar apagar esta história toda tal qual mais uma fachada decrépita do centro do Porto. Esta cidade vai cair toda de podre, ouviram? Disse eu ao trio da CMP assim que entraram no carro para ir embora, lavrar, assinar e carimbar o auto que chegará ao Palácio por correio registado dentro de dias.

Moral da história: nunca chamem os bombeiros.

1 bitaites

Somos livres, percorremos todos os sótãos furados e sentamos, sentimos corações como bombas, de vida.
Somos livres, a desistência já não mais existe e os braços são o que se prolonga do dia para as luzes quentes que nos cobrem.
Somos livres, sem raízes nem muros, deixamos o passo da vida decidir que podemos, esquecer o que sabemos, e é agora.
Somos livres, recusamos carregar segredos, e se a poesia é silêncio então a vida é igual a isto, mesmo assim, somos livres, não arranques fica marca deixa cair.

2 bitaites segunda-feira, 15 de março de 2010

Para terminar, como não me sentir particularmente chocado com os dados financeiros divulgados pelas Nações Unidas no dia 23 de Junho de 2009! No mundo, no último ano, dezoito milhões de milhões de dólares foram utilizados para financiar ou avalizar bancos e outras instituições financeiras, enquanto em quarenta e nove anos foram apenas disponibilizados dois milhões de milhões de dólares pelos países doadores para a ajuda ao desenvolvimento dos países mais pobres. Por outras palavras: num ano, as instituições financeiras receberam nove vezes mais do que a soma dos países pobres em quarenta e nove anos! Prioridades...
Humanidade - Despertar para a CIdadania Global Solidária, Fernando Nobre

2 bitaites domingo, 7 de março de 2010


Avidamente procuro um estado de não avidez.
Sem certezas, serena sei que só nesse espaço é possível aceitar o caminho dos eixos que se percorrem.
Anseio todo o momento apreciar viver sem o saber ou pensar.
Quando por fim chegar, sonho todos os dias, noites, sentar à janela, alpendre, varanda, e desencadear espontânea conversa com a vizinha, que passa e se deixa ficar.
E sair, ficar, não pensar, embora a meditação mo diga que o queria, mas pedia, a nostalgia latente, que por favor, não pense, em mim, no outro. Sabendo que se mentia, querendo, padecendo, por tudo menos tranquilidade, uma réstia de esperança, avidez, relação, que criamos na busca do culminar em isolamento.
Que só nos alimenta por dentro houvera perdido qualquer prazer sofisticado ensimesmado.

0 bitaites sábado, 27 de fevereiro de 2010



Vi a polícia balizar a rua, do Bonjardim. Por cima deles, fruto de temporal ocasional, sacos plásticos vazios esvoaçavam em movimentos espiralescos e aleatórios. Alguém passava carregando à cabeça um colchão de casal manchado, enchia a parte de trás de um camião aberto com isso e mais molduras da última ceia e abat-jours de veludo verde.

Outro levantava a fita que tapava o caminho para um carro passar na mesma, por baixo. Fez uma sequência de gestos ao carro que vinha a seguir: não com o dedo, aponta para uma fachada, traz com a mão a fachada até si. Pergunto-me através da janela, terá caído mesmo? Fui ver. Diz que são efeitos do clima, mas eu não acredito.

A famosa casa entaipada e desenhada pelo BE, tanta casa sem gente tanta gente sem casa (já com uns acrescentos em grafiti com algumas especulações sobre a sexualidade do Sócrates...), tem caído aos seus pés um rochedo enorme, misturado pelo metal de uma antena que voou e caiu em cima do Clio ali estacionado. Do grupo de pessoas que discute à porta do tasco do outro lado da rua, ouço dizerem-me "Menina, isso não é nada! Tem de ir ver ali atrás."

Está lá uma catarse de rufos, caleiras e outras peças amontoadas. Ninguém fala do clima, falam do Rio e da expropriação pela Câmara. "Tiraram-nos isto tudo e depois não fazem nada. Agora querem que vamos viver para outro lado, estas casinhas tão bonitas, vivi aqui a vida toda", encostada à pia de pedra onde ainda lava a roupa comunitariamente com as vizinhas do lado, do bairro, da ilha.

0 bitaites segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Passa por desmistificar o paradoxo da gregária sociedade que se esqueceu e desertou-se. Imiscuiu-se passivamente num modo de vida que é o egoísmo, afastou o que se pensa daquilo que se diz, ou pelo menos disse-o Fernando Nobre, num final de tarde de Janeiro em Santa Catarina, onde apresentou o seu último livro Humanidade, Despertar para a Cidadania Global Solidária.

O tempo urge, concordo, de dar forma à noção do que é a cidadania, os direitos, os deveres. Vivemos numa democracia afinal, "papoila, frágil, desenraizada, murcha". Nasce também nos sítios mais inóspitos.

Vejo-o agora dar um passo em frente com postura de humanista, semeando palavras, ideias, pela cidadania, solidariedade e fraternidade. Pasmo: só pode ser coisa boa. O mote está lançado. "Uma vez líder, só tenho direitos? Ao que parece os líderes de hoje flutuam na órbita estratosférica, saíram deste planeta." Deixe-se de lado a barreira do trio arquitectónico orquestrado, o Desconfiado, o Leit Motif e o Alibi. Percebamos o que são a fragilidade e a força do improvável na vida. Façamo-lo todos os dias, quais novos 12 trabalhos de Hércules:

1. A miséria, a exclusão, o desemprego e o comércio justo;
2. A crise climática e ambiental;
3. As guerras e as armas;
4. As crises sistémicas das finanças e da confiança;
5. A fome;
6. Os direitos humanos;
7. O direito internacional e a reforma das instituições internacionais;
8. Os terrorismos, insegurança e desgovernação;
9. O subdesenvolvimento e os objectivos de desenvolvimento do Milénio;
10. As migrações;
11. Os confrontos culturais, sociais, religiosos e civilizacionais;
12. As democracias.

1 bitaites


Enviada a carta com a minuta ridícula e sem esperar que os meses parem de passar enquanto eles se decidem a avançar com o processo, pude voltar a visitar o engenheiro para lhe entregar uma cópia da dita acrescida do aviso de recepção bem como da cópia do recibo de renda de Fevereiro com o novo-velho valor actualizado-mantido de 20€. E venha daí o imbróglio seguinte.

Enquanto aguardava ansiosamente o parecer / despacho / comunicado porvir, refiz contas ao orçamento que o engenheiro já avisou que vai levantar problemas. Não sabe bem porquê, ainda nem olhou para ele atentamente, mas parece-lhe. "Que nós não somos enganados", eia! Belo princípio, andamos todos a querer arrancar os olhos dos outros. Em Fevereiro o entretenimento foi pois tirar medidas e aprimorar o belo do modelo III do processo. Vesti assim o meu alter ego de empreiteira, engenheira e orçamentista, e não sei bem como até comecei o mês com um sorriso na cara ao pensar na fachada cada vez mais cadente e decadente. É que o processo parece um jogo tipo o filme, mensagens em código que alguém mete na caixa do correio e não poucas vezes assina só com siglas da Câmara do Porto, misteriosas.

Recebi outra dessas na semana passada, vinda de alguém que se esqueceu de falar com o colega do escritório ao lado da grande instituição camarária. Mais umas palavrinhas a acrescentar ao meu vocabulário burocrático crescente. Desta feita, quesitos e a hipotética formulação dos mesmos, aquando da vistoria que será feita em Abril, não pelo Porto Vivo, mas pela Câmara em si, que agora acredita que tenho mesmo de fazer obras, e que quer intimar-me a fazê-las.
Errr... Hey! Eu quero fazer obras!! Fale lá com o seu colega de lado que ele até já tem os papéis todos com o meu pedido. Olhe que não é um pedido qualquer: são 5 quilos de papéis.

Graças a deus que já cá não estão em casa, senão teriam encurrilhado com a humidade do ar que se fez sentir em Janeiro. Foi mês de andar atrás de quem tratasse das caleiras, do fogão e chaminé.

Sempre e para qualquer dúvida dirijo-me ali à senhora do mini café (que é só um balcão). Por acaso conhece quem trate? Na maior parte das vezes ela não sabe, mas assim o cimbalino a 50 cêntimos dá também direito a 5 minutos de alimento à sua curiosidade mórbida sobre os motivos que me trazem aqui ao bairro. Quando apliquei a palavra bairro, o filho dela, 40, bochechas, camisa de flanela, engasgou-se.
- Conhece quem arranje fogões aqui no bairro?
- BAIRRO?!? Onde é que pensa que está?
- Bem, este é o meu bairro, é onde eu moro, é assim que o trato.
- Que com o gás não se brinca, menina, diz, e que mais vale comprar um fogão novo.

A fuga fazia com que tivesse de estar a cozinhar enquanto tomava banho. Coisas da vida. Depois, a caminho do Largo do Padrão, trânsito infernal, ora levanto os olhos da poça ora reparo nos edifícios em redor à procura da loja muito boa para comprar fogões que o outro falou. Vejo a porta de alumínio e os outdoors recessos de neon que quase dizem "fogões a gaz" não fosse faltar o O o E e o Z num cor de laranja que se confunde de amarelo pálido. Um senhor de dentes pretos assobia do outro lado, que quer? é gás? Sim, é, e tento começar a demorar-me em explicações, que o antigo inquilino era um bocado porcalhão, ele interrompe constantemente, tenta adivinhar o final da história que me propus a contar ali no meio do passeio, ao lado de um tubo de queda roto quais quedas de água do Gerês. Diga-me lá a morada. Nós levamos lá a garrafa! Não sei porque dei a morada mas não é garrafa que eu quero, que aquilo estava uma miséria mas com o gás não se brinca, e mais vale comprar um novo. Ah então é um fogão que quer, pois que remédio, preços, onde é a loja. E assim veio um novo fogão a gás, no dia em que a dona Aurora foi levada pelo INEM para o hospital. Uma velhinha pequenina, com Parkinson, que me chamou pela primeira vez a atenção quando reparei no à vontade com que deixa a casa de pantufas e roupão e anda 50 metros até ao café das tijoleiras, aquele onde puseram uma mensagem ao lado da TV a dizer que ali é proibido ouvir o relato sem headphones quando está a decorrer jogo de futebol.

Estava eu dentro do mini café da auto-intitulada coscuvilheira que me pediu que me calasse para ver melhor o que o INEM estava a fazer ali. Olhei pela janela, e dentro de um Scarlett vermelho, um velhinho tratava de um raminho de flores tipo urze, se é que as flores podem ser rudes, num molhe dentro de copinho de plástico, pousado no tablier do carro, ao lado do terço pousado em renda de bilros.

3 bitaites quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

As Duas Frida (1939), Frida Kahlo

4 bitaites quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Final de dia stressante, 6ª feira com demasiada gente a massacrar-me, descarregar problemas em cima até ao contágio do espírito vencido. Ficamos as duas sentadas à mesa do restaurante. A mãe (dela) levantou-se uns segundos antes. Levo a mão à cabeça:
- Ai canerbos, Violeta! Porque é que eu às vezes falo assim com as pessoas?
- Tia, é normal. Também me acontece a mim às vezes... Aliás, às vezes até faço asneiras, sem saber que são asneiras, porque sou criança, não é, e ainda não sei tudo! E depois fico a sentir-me mesmo mal, porque eu fiz aquilo e nem sabia que era asneira. São dias. O melhor nessas alturas é ir dormir, já não há nada a fazer.

1 bitaites segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Hoje dei mais um passo no processo a que dou o nome de Porto-Morto-Vivo referente ao palácio a que chamo Olivença. Mais ou menos a cada duas semanas há assim um impulso, kafkiano, ora encrava ou avança, lenta e absurdamente.

Nem o processo tem originalmente esse nome, nem o palácio é palácio ou sito pela conservatória do registo predial em Olivença. O cerne disto tudo é o Porto Vivo, sociedade de reabilitação urbana que conduz o processo na baixa portuense... Chamo-lhe morto, para além de vivo, porque vai-se a ver e o processo torna-se um pouco suicida a dada altura, e desgasta até à zombificação do proponente.

Portanto, ponto de situação, há duas semanas que massacrava com telefonemas quase diários, "Então, já sabe o que posso fazer?" - "Ainda não, ligue amanhã." Pedia-lhe uma reacção à bela epístola que tinha enviado uns dias antes e onde era possível ler, não necessariamente pela ordem sugerida, palavras como

fachada extraordinária,
parecer despacho...
balizar bombeiros.
correcção: artigos!
anexo assentos
coeficiente é 1
jurídico
encravou.
Tais dissertações poéticas (não fossem os números dos artigos e decretos a que se referiam) tiveram como destinatários o engenheiro, a doutora, a sigla, a família. Foram lidas em voz alta qual ensaio que aguarda aprovação do júri do momento.

Na 6ª tive autorização do engenheiro para desencravar o encravado jurídico cujo antídoto tomará efeito caso eu escreva uma nova epístola, desta feita registada, e com aviso de recepção. Encontrei-me com ele, camarário, no prédio espesso ali no Pátio do Bolhão. Ofereceu-me umas belas cópias desfocadas e com grão da minuta que me orientou na execução do próximo passo, a nova tarefa. "Rídicula", o próprio apelidou-a. Mas tem que ser. E, hey!, se é isto que permite desencravar o RECRIA em gestação há dois meses, numa qualquer pilha de dossiers em escritório amarelecido, siga com a minuta!
Cara senhora inquilina, lina,
trago-lhe uma correcção extraordinária
rídicula
e isto é só para a avisar
que a dita correcção
se aplica à sua renda mensal de 20€
que a partir de agora e solenemente
ao abrigo do disposto no
artº 11º, 12º, 9º
Lei 46/85 de 20 de Setembro
decreto preambular do decreto
321B/90 1379-A 1379-17/2009
Como ia eu a dizer
o coeficiente 2010 é 1
a renda de 20€
é corrigida para
20€
só para avisar
registado e com aviso de recepção.
Atentamente.

Foto de Nopasaran

 

Copyright 2006 | Template cedido por GeckoandFly e modificado e convertido para Blogger Beta porBlogcrowds.
Muito obrigada :) Se queres conteúdo reproduzir, basta pedir!