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bitaites
quinta-feira, 17 de abril de 2008
Ai havia tanto para dizer, tantas palavras, ou algumas outras conjugadas assim como o meu cérebro as pensa, ou noutras formas, noutros modos, que têm tanto para contar… Histórias que vão do interior de um organismo que se adapta, até à relação com os outros, tão complexa. Então se forem timorenses!... É melhor ir por partes, e começar por dizer que hoje não foi um dia qualquer.
Começa com um telefonema de parabéns – é sempre engraçado poder dá-los a alguém com 8 horas de avanço. A enxaqueca era terrível, derivada da profilaxia da malária, que não tem dado pesadelos, mas sonhos bons demais. Claro que eles são a gorjeta pelo latejar encefalóide que atormenta todas as minhas 3ªs feiras (Ferrari, gostava tanto que lesses este post…)(e não, não era ele o aniversariante).
Madrugo entre suores de sonhos que nem sei se foram, ou se só estavam eminentes por outros sinais quaisquer. E a feira popular já corria lá fora, na rua do Hotel Timor, logo à frente da minha janela, nem 7 da manhã eram. O Hotel Timor é o mais caro do país e ridículo na sua prepotência. É também o local onde uma panóplia multinacionalíssima de jornalistas se reúne para decidir o que vai ser manchete por esse mundo fora, acompanhada da calça beije, do gin tónico e umas cigarradas.
Já sabia, porque vi ontem afixado na sala de professores, que hoje não haveria aulas, devido à “Formatura dos alunos para recepção ao Ex.mo Senhor Presidente da República José Ramos Horta”. Terceiro mundismo, pensei, com aquela risada irónica para dentro, e acrescentei que ao menos poderia dormir um pouco mais já que a enxaqueca estava a matar-me, bem como as precedentes noites pouco dormidas, pelos sonhos ou pelas insónias, propositadas ou involuntárias. Mas a feira popular deixou-me curiosa, vesti a camisa branca com o alfinete-libelinha, e pus-me a andar sem o pequeno almoço.Logo a seguir, isto vai ser forte, pensei, arrependendo-me (em tétm, há’u hanoin-hikas, ou “voltando a pensar”, re-traduzindo à letra) no estômago vazio, quando vejo gente e gente e gente, com os melhores fatos, e crianças com bandeirinhas de Timor. Por mim passa um miúdo de dois anos – eles andam sozinhos pela rua – que usava uns calções grandes demais para as suas pernas raquíticas, azul turquesa forte, com pregas e com a marca vertical do ferro de passar, um colete da mesma cor, e na mesma desproporção, uma t-shirt branca por baixo. Vê-me a mim, branca, vestida nas mesmas cores, com uma expressão entre o sono, a fome e o sorriso, e corre para as pernas de alguém que estava uns metros à frente. Assim sente-se seguro da monstra-malai que não pára de o observar, mas continua a espreitar ora pela esquerda, ora pela direita das pernas do pai.
Sol abrasador e pouco passa das 8, já pingo pelas costas. Os miúdos são milhares e têm todos as bandeiras mais ou menos serpenteantes, têm todos os uniformes das escolas. Pólos de botões no decote, com o tronco de cor forte e diferente da das mangas. Estão ansiosos, contentes, olham-me como se fosse um momento só deles, estão tão contentes e inquietos na sua formatura ao longo da marginal

(Estranhei que este, desde o atentado, ao contrário do ano passado, tenha fechado a sua passagem pelos jardins. No ano passado era comum fazer essa travessia a pé, já que o Palácio está a meio caminho entre o bairro e a embaixada, e o bom peixe do Rocela. Agora por questões de segurança, labele, não pode passar. No entanto, no dia
Acaba-se o espectáculo – de louvar a equipa de robocops timorenses protectores do novo-mártir – e celebro com goiaba no Café Brasil. Isto tudo dá-me uma lufada de Moodle cerebral e de repente dou por mim com a disciplina de Inteligência Artificial já toda preparada na plataforma de e-learning. Almoço no timorense com a Marisa, porque desde que experimentei nunca mais consegui esquecer aquele sumo de lima com gelo granizado BRUTAL, desisto do download de 15MB do cartaz para o ciclo de cinema que tento fazer há 3 dias no bairro, e vou à Timor Telecom. Em 10 minutos a ligação dedicada por satélite à net acaba com o desespero raisparta a net em Timor que me tem atormentado e alimentado enxaquecas. Não me deixo ficar por aqui, e vou imprimir os cartazes depois da análise de mercado loja-a-loja das impressões a cores A3. Deixo os cartazes na UNTL, sigo de bike para a Areia Branca a tempo do pôr-so-sol mágico com sumo de papaia e limão (Construíram em 5 dias uma auto-estrada pela marginal, para que o Presidenti pudesse chegar a casa sem buracos, o que torna muito mais suaves estas investidas em duas rodas até à praia).
Em casa tenho uma lagosta indescritível que sugo até ao tutano com todos os dedos e dentes e martelos de pedras, durante 45 minutos non-stop. Quero lá saber dos meus ruídos na ingestão!...
E porque 5ª é noite de Motion. lá vamos nós participar nesta fauna de relações entre deslocados. Como vieram aqui parar? Que estou em aqui a fazer? Chega a hora da cinderela, recolho até à palhota, já trago a guitarra na mão, não participo na conversa, e só penso em duas coisas:
- É assim viver em estado de sítio.
- Ai havia tanto mais a dizer…








