sábado, 8 de agosto de 2009

Na International School on Digital Transformation, para onde fui directa de 2 dias de aeroporto à volta do mundo, entrei com ideias inspiradoras - não fossem os exemplos demasiado centrados no caso americano - sobre "Social Change Infrastructure: Building Values Into the Way our World Works" (Nicholas Reville).

Que é tempo de reflectir sobre os pontos onde a sociedade e a tecnologia se encontram, e fazê-lo como activistas e não como mero exercício de observação. [Aqui a primeira palavra que ficou a ecoar, e me fez reflectir antes o percurso que andamos e/ou ando a traçar.]

Criticando o poder que grandes empresas detêm para a manipulação da sociedade - claro que de um ponto de vista tecnológico, informativo e comunicacional - bate com o pé: "podemos decidir a forma que o nosso mundo tem", e apela:

  • Aos Académicos – "que sejam a mudança climática"
  • Aos Estudantes – "que se juntem ao movimento - sejam activistas"
  • Às Organizações – "que alinhem as suas tecnologias com os seus valores"
  • Às Fundações – "que adoptem uma abordagem comum para a construção das infraestruras sociais"
E sim, claro, era bom que toda a gente participasse, mas não sei se basta a "abertura e transparência" para criar o "envolvimento para uma sociedade participativa". [Aqui outra palavra-eco, que tem de ser escrita em inglês, que em português soa estranho participatory.]

A verdade é que do meu ponto de vista, apesar de até ser fácil envolver as pessoas etereamente com um discurso apaixonado sobre determinada causa, os activistas são muitas vezes vistos como o pequeno grupo de maluquinhos que quer impôr coisas que ninguém percebeu muito bem. [E a propósito desta necessidade de saber passar as mensagens, adorei o trabalho da Tactical Technology Collective, que desenvolve publicações e formação para a visualização e comunicação "for social change".]

Já Siva Vaidhyanathan vinha a dizer a seguir (para além da polémica, citada agora pela 3ª vez no blog, "O Google é a lente através da qual vemos o mundo"), que "pequenos grupos de minorias podem de facto fazer mudar o discourse", e citou A Biblioteca de Babel (Borges, 1941), talvez como uma forma de mostrar a grandeza do "projecto do conhecimento humano vs a googlização de tudo", que deu nome à sua apresentação.

Estava eu já completamente saturada de tais embrenhices conspirativas, dissertações rebuscadas e questões complexas, com o cérebro a funcionar ao ritmo da água de côco que julgo que ainda estava a digerir no estômago enquanto pensava que o mundo se vê através de muitas lentes, e como Caeiro, somos todos do tamanho do que vemos e que isso não se mede pelos pixeis da caixa de pesquisa do Google, quando alguém faz descer à terra.

Sinto a leve aragem de um papel que abana na mão, e uma caneta na outra, de quem está agora no palco: Warigia Bowman, sobre os "Desafios e Oportunidades para a Tecnologia de Informação na África Oriental". Tal qual chapada de luva branca ao dizer que a tecnologia de informação pode ser só uma caneta e um papel. Ser activista, participativo, bem sucedido é saber o que as pessoas precisam.

E depois exemplos concretos, novidades, sobre os motivos do cyber-apartheid vs inclusão digital no México, pela voz do antropólogo social Scott Robinson; ou a forma como as tecnologias móveis passam para cima naqueles locais onde não existem infraestruturas físicas, e criam mudanças reais através de "advocacia móvel" e oportunidades inovadoras de desenvolvimento, apresentada pela fundadora do MobileActive.org, e TED Fellow, Katrin Verclas.

Aqui, à procura do significado de advocacia - que em inglês soa a coisa activista (mas talvez seja culpa dos sítios onde a vejo escrita) - que não é mais do que a contestação de uma causa:
(...) encontram-se sempre entrelaçadas a dignidade do homem e a responsabilidade da profissão na luta pelo direito, pois só esta é própria da advocacia.
COUTURE, Eduardo Jorge

Só que se são muitas as pessoas que sabem o que é a dignidade do Homem, especialmente no mundo ocidental, eu não estou certa. Cada vez tenho mais pessoas por perto que não se acomodam a um sentimento de ganância, e elevam outros valores. Para quê? Porque querem chegar ao "outro bilião", parece. Podem procurar o mundo no Google todos os dias, mas viram também uma motivação qualquer em fazer coisas boas por um desevolvimento justo, sustentàvel e equitativo a pensando globalmente, agindo localmente.

Depois disto tudo, a (minha) lavagem cerebral fechou com Sunil Abraham, que cheio de metáforas e analogias, encheu o espírito activista, participativo, advogado e digital de todos os que o ouviram.
I am a child of piracy. I would not be here if i was not a pirate throughout my life. I could only get through school by pirating the books. To me, criticizing the piracy is like spiting on my mother’s face.
***
Dois meses de loucos, vejo, na tentativa de estabilização, que são palavras que ficam, a repetir-se, a provocar acção. E, aparentemente, sim, escolhi uma localização geográfica bastante exacta para já (uma entrevista que me fizeram aqui), e quero oferecer algumas destas a pessoal - gente boa! - que conheci por aí, e pô-los a falar, falar, falar. Are you listening?

2 bitaites:

mãenuela disse...

Uns, com os olhos postos no passado, vêem o que não vêem; outros, fitos os mesmos olhos no futuro, vêem o que não pode ver-se
(Ricardo Reis)

Aestas disse...

sim, let's ACT!

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