quinta-feira, 26 de março de 2009

A cidade cinzenta tinha lugares escondidos, pequenas portas que quase nunca se abriam.
Várias vezes iam dar a vãos de escadas desiluminados, que eram também salas de fumo, ou paredes declaratórias de amores foleiros, ou simplesmente brejeirices perpetuadas, nem cómicas. Num fatídico 17 de Novembro, a Lei do Bom Senso exigiu ar para todos, abolindo tais fumos dentro do aquário. Os vãos de escadas não sucumbiram imediatamente, tornaram-se ainda mais obscuros. A grande novidade foi no bar do meio, que passou a ser só irrespirável pelo intensamente enjoativo cheiro dos panikes, gordurosos, que cada qual na sua vidinha, se permitia alarvemente devorar. Eu também. Queimavam a língua.

As horas de sol da parte exterior do bar do meio estavam diaria e metodicamente contadas. O espaço exterior do bar do meio estava afundado no meio de duas torres da cidade cinzenta, o que lhe conferia uma aura de desconforto ecoante, como que em pequenas doses injectáveis.
Gostava de me sentar lá sozinha numa cadeira de plástico vermelho, em finais de quartas feiras cinzentas, quando lá não havia mais ninguém. Talvez só o menino de preto.

É que um dia abri a portinhola metálica ao lado do elevador daquela torre, que tinha uma inscrição hexadecimal. Havia um escadote de cor espacial e máquinas que emitiam ruídos. Outra portinhola lá em cima, e uma perspectiva azul, inédita, abriu-se assim à minha frente. Consegui elevar-me, ver a cidade cinzenta como cenário.
Por lá falava-se (uns de mãos nos bolsos, outros com elas estendidas à frente, de indignadas), no relvado que ninguém pisava. Ora nós, ali, privilegiados, caminhávamos sobre pedrinhas redondas. Aproximámo-nos do limite.
Espreitando, vi ali um, só, menino, sentado. Estava, ficou e sempre permaneceu, vestido de preto, insistindo nunca tocar com pele na textura de cor tão crua.
Nunca mais lá voltei.

Escrevi uma carta a um dos nomeados representantes da cidade cinzenta, expondo aqueles que acreditava serem os contrastes a criar, para um futuro melhor, claro, numa visão de engenharia, iludida, abanada, a meio tempo no seu plano. Pudesse relê-la agora, existisse cloud computing na altura.

A cidade cinzenta não trazia mapa, e só hoje consegui sair de lá, trouxe comigo a planta que dali tracei. Procure-me agora ela, nos caminhos que não quis saber, ela ou eu.

2 bitaites:

Inês Dias de Carvalho disse...

...tu n vais conseguir resistir à cidade cinzenta... tenho a certeza que vais continuar a procurá-la... nem que seja pelo desafio de a tornar mais colorida.

parabéns mestre sara!

muitos beijinhos*

mãenuela disse...

Escreveste a carta e não tiveste resposta?
Fizeste bem sair de lá.
Deixaste a porta aberta para quem quizer sair também.

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