3 bitaites quarta-feira, 16 de junho de 2010

Não passa de hoje.
Lê-se num canto recôndito improvável do edifício, impresso em placa dourada.



Hoje, fecha-se um ciclo. Decidi há um ano atrás dedicar o meu tempo à sociedade civil, particularmente enquanto presidente do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto, que muda hoje de Direcção. Vou chamar ao Núcleo só JUP, menos hermético, e que como poucos ou muitos sabem, é na verdade mais do que o Jornal Universitário do Porto e faz-se de uma associação sem fins lucrativos com 23 anos de existência.

Dei por mim com o JUP nas mãos, de forma mais ou menos incerta, ingénua e inesperada. É que o JUP é como uma daquelas relações dos dias que correm, que surgem com leveza e naturalidade, sem grande certeza do compromisso, e rapidamente se entranham na pele como uma paixão assolapada que nos muda as referências do que é a primordial prioridade do que nos ocupa mente e gestos.

Sim, o JUP traz felicidade e traz desilusões também, mas só porque nos envolve numa grande vontade de o viver intensamente, e não há pesar que apague os momentos de euforia que foram aqueles de chapéu de ardina e jornal em riste num colectivo de entusiastas que distribuiam rua fora os dez mil pacotes de notícias quentinhas, acabadas de sair da gráfica, ainda com a tinta a sujar mãos, cara e mangas. É bonito que o JUP exista, e ainda mais ainda em papel, é bonito conhecer e fazer parte do processo, é bonito criar laços através dele e conhecer anarquistas, poetas, escritores, espiões, pidescos, fotógrafos, cépticos e apaixonados. Políticos de hoje e de amanhã, entre meta discussões prolongadas pelas ruas graníticas desta nossa cidade desenhada em rascunhos no papel de mesa de um tasco qualquer. A planear a revolução. A questionar a informação. A discutir a evolução. A despertar para o poder do jornalismo, em lições como tragos do que é ser solidário.

Revejo listas e listas e listas de tarefas e ideias pintadas a lápis de cêra coloridos espalhadas em diagramas pelas paredes, cadernos, papéis, emails. Sorrio. Recordo ideias de boicotes e insultos pelo voluntarismo ou pelo falso liberalismo. Sorrio, e leio novamente a versão integral Oração de Sapiência de Mia Couto, cujos sapatos sujos desde o início tentei descalçar por acreditar que muito têm a iluminar sobre a forma de se fazer o JUP
Estamos todos nós estreando um combate interno para domesticar os nosso antigos fantasmas. Não podemos entrar na modernidade com o actual fardo de preconceitos. À porta da modernidade precisamos de nos descalçar. Eu contei sete sapatos sujos que necessitamos deixar na soleira da porta dos tempos novos. Haverá muitos. Mas eu tinha que escolher e sete é um número mágico
Vale a pena conhecê-los na versão integral do texto.

Cruzei-me hoje com um desafio proposto pelo Le Monde Diplomatique deste mês, a uma série de pensadores. Por favor criem uma fórmula que defina o que é a identidade. Do JUP, digo eu, ou pelo menos foi para onde fui transportada quando li a equação apresentada pelo artista Telmo Alcobia: Inquietação + Movimento Perpétuo Associativo = Ser Português. É esta a identidade que revejo no JUP, que ele em mim representa, nutre e provoca:
a inquietação (...) é aquela força motriz que me faz trabalhar. (...) É a minha «acha para a fogueira», é o meu aviso sobre as coisas públicas e humanas. Mas, quando saio do atelier, parece-me ouvir o Movimento Perpétuo Associativo, com a sua representação da falta de entusiasmo com que as ideias são recebidas. A inquiteção constrói, a desilusão destrói. Cada um que se verga à desistência torna-se cínico e o mundo torna-se mais cinzento. E quando uma mancha de cor se procura afirmar na multidão, correr um risco - inovar -, mil vozes prevêem fracassos. (...) Mas a escolha também é nossa. Lutar para mudar este "fado". Portugal precisa de ti, e menos cinzento.
Sempre grata, sempre solidária, pela tonificação do corpo associativo e um grande bem haja a quem aí vem e que muito admiro.


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