2 bitaites quinta-feira, 29 de abril de 2010

Por volta de 2007 deu-se uma transformação silenciosa que é um marco na história: mais de metade da população humana reside actualmente em cidades. Das cidades mesopotâmicas do século IV a.C. às megalópoles que reúnem dezenas de milhões de habitantes, o processo de urbanização foi intermitente. Mas esteve sempre ligado à divisão do trabalho e à formação de classes, à concentração do poder e do saber. A civilização urbana actual nasce com a revolução industrial e herda as suas dualidades. Na cidade, onde a segregação social marginaliza os pobres; entre as cidades, porque ao desenvolvimento vertical de tecnologias futuristas responde o crescimento horizontal dos bairros de lata. As metrópoles, centros urbanos pensados como centro de lucros, defrontam-se para interceptar os fluxos de capitais, mercadorias e populações solventes, fazendo crescer bolhas imobiliárias e revoltas populares.
Do dossier Megalópoles ao Ataque do Planeta, Le Monde Diplomatique edição portuguesa, Abril 2010

2 bitaites terça-feira, 27 de abril de 2010


As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.
Fernando Sylvan

Abro as portas ao sol, deixo cair a mão sobre a grade semi lixada, ouço os sinos da igreja não sei se da Lapa, que tocam sempre fora de hora, antecipam-se ao tempo e é bom para me lembrar que tendo a correr demasiado atrás do prejuízo. E tenho a mania disto de criar e abandonar, envolver e fugir, deixar tudo no ar, e sob os castelos que assim se montam, que diz o Thoreau que é aí que devem estar, é agora o tempo de os alicerçar, nas nuvens. Ciclos disto a toda a hora, aceitando que a Lua, se existe é para respeitar e abraçar, que se somos livres temos de o saber celebrar, e menosprezo todos aqueles por quem as estações não passam, onde já se viu viver o inverno de forma igual às primaveras que em nós nascem. Tento seguir sempre mantendo alguma calma por dentro se não de que me valem os dias cheios, do sol na cara, dos ventos do mar, das flores que colho.

"Eu sou a princesa da Primavera e do Verão e a rainha de tuôdas as fluôres!" diz a Violeta quando dá por mim no momento em que subo o último degrau e a encontro. Mostra-me, pequenina, lá na varanda, que tem um cubo de papel nas mãozinhas em forma de dádiva. Estica os braços num movimento lento e vertical, eleva o cubo até ao nível dos olhos "Estou a fazer uma suôpa de fluôres, para ti também, não te preocupes." Numa moldura de flores amarelas enquadrada na varanda cor de rosa da casa onde cresci, aponta para longe, por trás da magnólia que já não está em flor: botões de micro rosinhas cor de rosa. "Chiêga-me aquelas fluôres!" Aponta, inclina-se, dependura-se. Queremos sempre as flores lá longe, perfumes que nos enfeitarão os cabelos, abismos dentro de cada e entre nós.

Entrego-me com ela aos jardins, e estamos de facto lá dentro, onde o passado e o futuro não existe, no sítio em que os pássaros não falam connosco só porque apreciam o silêncio mas compreendem-nos e a cada árvore fazemos festinhas, desculpa, mas vou ter de guardar estas pétalas para mim. É que estou a fazer uma suôpa. De cócoras na varanda, mão ainda caída sobre a grade semi lixada, olho para as camélias que trouxe e deixei na mesinha da sala. Suspiro em voz alta que vou ter de desistir de ti, prédio, vou ter de te deixar sair, JUP, vou ter de te abandonar, o meu rumo é o do sul e em mim ecoa a frase de Dan Gilbert, sobre encontrar a verdadeira felicidade: Accrue wealth, power and prestige. Then lose it.

Vou ali até ao Brasil e Chile ver se tudo cá continua igual e já volto. Fui! :)

1 bitaites quinta-feira, 22 de abril de 2010

Nos últimos anos, a realidade respondeu-me assiduamente que o jornalismo era uma linguagem tribal e maldita, um idioma de poder e superioridade. Tive a oportunidade de outras respostas, percorrendo um mapa de africanos que constroem novas ilhas: subversões picando o oceano. Escrever é conhecer com tempo. É lenta a doçura do mel.
Pedro Rosa Mendes

Comprei pela terceira vez o Madre Cacau, um dos livros mais lindos que conheço e que vou multiplicando por espaços, ora porque o perco em esquecimento ora o ofereço a quem merece. Editado pela ACEP, ilustrado por Alain Corbel e escrito por Pedro Rosa Mendes, jornalista que disse um dia que Timor Leste é uma ilha insustentável e depois o mundo caiu-lhe em cima. Ontem, aqui nos Dias do Desenvolvimento, numa sessão sobre "Media, Cidadania e Desenvolvimento", ouvi-o introduzir uma definição do que é o jornalismo cívico ou de desenvolvimento ou de causas. Ao que parece, é um tipo de jornalismo feito por jornalistas que não se resignam a posturas letárgicas. Rosa Mendes fala da preguiça. E faz lembrar o imperativo da cidadania. Uma espécie de curiosidade não intencional mas naturalmente vinculativa, não sei repetir.

O mundo da informação e os dias do desenvolvimento deviam ter mais destas Rosas, penso, e concordo com o outro, Alfonso Armada, que dizia que todos nós somos cúmplices na forma como condenamos alguns países à inexistência, países, lugares, chamemos-lhes causas.

3 bitaites terça-feira, 13 de abril de 2010


Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro. Tinha decidido tirar uns tempos deste imbróglio e já que nada aguardavam da minha parte, restava-me das duas uma, massacrar com emails assertivos tic tac tic tac o tempo está a contar há novidades? precisam de alguma coisa? qual o ponto de situação? e agora qual o próximo passo? ou a outra opção pela qual optei seria dar uma pausa a mim mesma. É que isto tudo anda muito próximo dos estudos que se fazem sobre a eutanásia.

Ora portanto a timeline é a seguinte

Final de Maio de 2009: sou proprietária de um belo prédio decadente na rua do Bonjardim o qual imediatamente apelido de Palácio Olivença, idealizando uma imagem reabilitada cor de rosa, azul petróleo ou azulinho, o 1º de muitos em todo o bairro.

Junho de 2009: inicio processo de candidatura ao programa RECRIA junto do Porto Vivo, SRU. Passo duas semanas com um escadote, uma bacia de lixivia e uma faca na mão, a ganhar calos com o esterco herdado, a conhecer cada centímetro do soalho, paredes e portadas e a meditar sobre a vida.

Setembro de 2009: Estou instalada. Tenho duas inquilinas velhotas já de há mais de décadas. Estou prestes a ter mais uma inquilina, na minha casa. Chamo a Câmara para remover entulho das escadas que está ali há 5 anos.

Outubro de 2009: chamo bombeiros para balizarem passeio, nao quero ninguém a passar por baixo da minha varanda. Inesquecível & indescritível.

Dezembro de 2009: consigo terminar o rally paper das certidões de óbito, nascimento, registos prediais, contratos de mil novecentos e troca o passo, orçamentos, declarações, fotografias, papelada. Submeto processo RECRIA 40/09.

Janeiro de 2010: aparece de surpresa uma visita da CMP a propósito de um relatório de bombeiros que receberam. Não sabem nada sobre o RECRIA.

Fevereiro de 2010: Recebo uma carta da CMP com o processo que o Palácio Olivença tem aberto. Fico pasma ao saber que o historial de intimações a obras já vem desde 2006. Começo a perder a paciência com o anterior proprietário que além do mais era porcalhão.

Março de 2010: recebo a conta de remoção do entulho pela Câmara: 42€ por um metro cúbico. Ainda bem que poupei duas rendas da senhora da cave, assim já quase tenho dinheiro para pagar o lixo dela.

Abril de 2010: Saio da pausa que me dei, ligo ao engenheiro a perguntar como é que está a coisa afinal com o Recria, é que vou ter uma vistoria da CMP amanhã e acho que me querem obrigar a fazer obras. Isso avança? Não há orçamento. Como? Não há verba, diz a lesma mole a branca sentada no seu escritório castanho desbotado, em 2010 é impossível. Não aguentei e desliguei o telefone na cara do engenheiro.

Apesar de ainda haver quem consiga levar avante a épica preparação burocrática do dossier de candidatura ao programa RECRIA, aparentemente a reabilitação da zona de intervenção prioritária do centro do Porto afinal não é prioridade e as verbas não são suficientes.

No entanto, a mesma Câmara Municipal do Porto, detentora de capitais públicos da Porto Vivo, Sociedade de Reabilitação Urbana da Baixa Portuense, diz-me agora que ou faço obras ou sou contrônedada, desculpe? não percebi, contrônedada, contrô quê?, contra ordenada! Xiça, e é mesmo assim? Pode sempre pedir prorrogação, a cada 15 dias do prazo. Mas isso... (o beicinho treme-me).

Penso na latinha de tinta anti ferrugem que comprei por 5€ na semana passada ali na drogaria para começar eu própria a restaurar a varanda. Deu origem a uma bela conversa e posteriores pensamentos sobre a humanização do comércio. O Zé conta-me que um vizinho meu que trabalha com ele lá não sei onde lhe disse que a mulher mandou dizer que ele dissesse à amiga da namorada dele que estava no outro dia ali vestida à trolha pendurada a lixar a ferrugem toda com um cartãozinho de meter dó. É que há um novo produto para tirar a ferrugem, um spray que transforma tudo em pózinhos perlimpimpim e de repente o Palácio Olivença já é todo cor de rosa com estrelas brancas, como o jeep que a Violeta vai ter quando for grande.

Resta-me sonhar com incentivos e apoios que existem e não existem, e não deixar apagar esta história toda tal qual mais uma fachada decrépita do centro do Porto. Esta cidade vai cair toda de podre, ouviram? Disse eu ao trio da CMP assim que entraram no carro para ir embora, lavrar, assinar e carimbar o auto que chegará ao Palácio por correio registado dentro de dias.

Moral da história: nunca chamem os bombeiros.

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Somos livres, percorremos todos os sótãos furados e sentamos, sentimos corações como bombas, de vida.
Somos livres, a desistência já não mais existe e os braços são o que se prolonga do dia para as luzes quentes que nos cobrem.
Somos livres, sem raízes nem muros, deixamos o passo da vida decidir que podemos, esquecer o que sabemos, e é agora.
Somos livres, recusamos carregar segredos, e se a poesia é silêncio então a vida é igual a isto, mesmo assim, somos livres, não arranques fica marca deixa cair.

 

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