4 bitaites quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Final de dia stressante, 6ª feira com demasiada gente a massacrar-me, descarregar problemas em cima até ao contágio do espírito vencido. Ficamos as duas sentadas à mesa do restaurante. A mãe (dela) levantou-se uns segundos antes. Levo a mão à cabeça:
- Ai canerbos, Violeta! Porque é que eu às vezes falo assim com as pessoas?
- Tia, é normal. Também me acontece a mim às vezes... Aliás, às vezes até faço asneiras, sem saber que são asneiras, porque sou criança, não é, e ainda não sei tudo! E depois fico a sentir-me mesmo mal, porque eu fiz aquilo e nem sabia que era asneira. São dias. O melhor nessas alturas é ir dormir, já não há nada a fazer.

1 bitaites segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Hoje dei mais um passo no processo a que dou o nome de Porto-Morto-Vivo referente ao palácio a que chamo Olivença. Mais ou menos a cada duas semanas há assim um impulso, kafkiano, ora encrava ou avança, lenta e absurdamente.

Nem o processo tem originalmente esse nome, nem o palácio é palácio ou sito pela conservatória do registo predial em Olivença. O cerne disto tudo é o Porto Vivo, sociedade de reabilitação urbana que conduz o processo na baixa portuense... Chamo-lhe morto, para além de vivo, porque vai-se a ver e o processo torna-se um pouco suicida a dada altura, e desgasta até à zombificação do proponente.

Portanto, ponto de situação, há duas semanas que massacrava com telefonemas quase diários, "Então, já sabe o que posso fazer?" - "Ainda não, ligue amanhã." Pedia-lhe uma reacção à bela epístola que tinha enviado uns dias antes e onde era possível ler, não necessariamente pela ordem sugerida, palavras como

fachada extraordinária,
parecer despacho...
balizar bombeiros.
correcção: artigos!
anexo assentos
coeficiente é 1
jurídico
encravou.
Tais dissertações poéticas (não fossem os números dos artigos e decretos a que se referiam) tiveram como destinatários o engenheiro, a doutora, a sigla, a família. Foram lidas em voz alta qual ensaio que aguarda aprovação do júri do momento.

Na 6ª tive autorização do engenheiro para desencravar o encravado jurídico cujo antídoto tomará efeito caso eu escreva uma nova epístola, desta feita registada, e com aviso de recepção. Encontrei-me com ele, camarário, no prédio espesso ali no Pátio do Bolhão. Ofereceu-me umas belas cópias desfocadas e com grão da minuta que me orientou na execução do próximo passo, a nova tarefa. "Rídicula", o próprio apelidou-a. Mas tem que ser. E, hey!, se é isto que permite desencravar o RECRIA em gestação há dois meses, numa qualquer pilha de dossiers em escritório amarelecido, siga com a minuta!
Cara senhora inquilina, lina,
trago-lhe uma correcção extraordinária
rídicula
e isto é só para a avisar
que a dita correcção
se aplica à sua renda mensal de 20€
que a partir de agora e solenemente
ao abrigo do disposto no
artº 11º, 12º, 9º
Lei 46/85 de 20 de Setembro
decreto preambular do decreto
321B/90 1379-A 1379-17/2009
Como ia eu a dizer
o coeficiente 2010 é 1
a renda de 20€
é corrigida para
20€
só para avisar
registado e com aviso de recepção.
Atentamente.

Foto de Nopasaran

3 bitaites sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Deixei o ano com um grande paradoxo que é esse termo jamais em forma de nó no cérebro. Jamais. Já. Mais. Alguém disse, e fiquei dividida entre o nunca e o impreterivelmente imposto, anotei-o.

Entrei no ano acreditando vir a voltar a andar com um mini canivete suíço no porta chaves, navalha, caneta, palito e lima das unhas. E um relógio. E uma pen. E juntar um batôn com caixinha rosa estilo bola de discoteca, mais as chaves de casa, do prédio, do JUP, o comando da garagem, e uma miniatura de livro com a Declaração dos Direitos Humanos. Em menos de 12 passas já tinha o canivete, que perdi passado uns dias. Nunca troquei a pilha ao relógio, juntei a pen mas não usei. Do batôn partiu-se o cabo, as chaves foram trocadas, o comando passou de mãos. O livro continua na mesinha. Carrego no bolso mais do que quero, posso, devo e mereço.

Hoje tiro tudo, é das luas, invoco deliverables do ano passado, no qual, fazendo o balanço de contas, foram três as noites que dormi em praia tropical, colchão bem no meio do areal, recorte de coqueiros na contra luz, manto de céu estrelado sobre mim. Vi o outro lado do mundo. Vi o mundo do avesso. Dividi cada dia com outro mundo, virtual, e neste acordei mais que vezes de todo perdida, des-reconhecendo andaime, sofá, tapete, fuso horário. O conforto só vive por dentro, no avesso.

Do outro lado do calendário, a caligrafia mantém-se, a reflexão é outra. Porque a partir de agora vou pensar menos. Ou vou tirar menos tempo para pensar. Sem deixar de comunicar. Em 2010, quero pensar, sim, só que mais rápido. E mais. Como quem dá lanço: Pensar, pensar... Saltar.

Ter uma queda para, ponto parágrafo, não um dom mas a índole, a vocação.
Ser o que se é, ponto parágrafo, e venha ele, fazer as pazes com o mundo, repetir para si próprio três vezes, azul, turquesa, vermelho!, em voz alta, diz o narrador, pensar, pensar, fazer!, que Anónimos de A grande se fazem todos, com os seus céus roxos ou laranja, amarelos, frios, distantes, intensos.

O que quero para os outros, o que quero para mim, o que quero para o mundo, o que vier tem de prever, que o que conta do que temos, é o tempo de o celebrar. Esqueci-me. Deixei para amanhã.
Jamais. Já. Mais.

0 bitaites quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Está decidido: Porto-Morto-Vivo, nova rubrica no meu blog. Encadeado por hífens da burocrata em que me tornei, pela reabilitação urbana do centro do Porto.
Qual palácio escondido a quem dei o nome Olivença, se há 8 meses havia fôlego, um qualquer encantamento, hoje o que tenho é urticária no couro cabeludo para não estender os braços ao céu a berrar: leva-me! Singra de mim este peso do nevoeiro que me rodeia quando expiro.
Começo esta rubrica para aliviar, para justificar para informar alertar, divagar. Escrevo para exorcizar, porque se entristece ensimesmado o ar grave e sério do Porto a cada dia que passa.

Da edição de Outubro do JUP,

Jusqu’ici tout va bien

Vive-se período eleitoral, altura em que se esperaria um diálogo mais aberto e real no centro da cidade do Porto. Que cada cidadão fizesse jus ao seu estatuto e tivesse uma palavra a dizer, mesmo que não fervilhasse em críticas acesas por um sentido de pertença à sua comunidade.

Estamos em período eleitoral, e na Rua do Bonjardim, aos domingos de manhã, um vizinho vira as colunas na janela e deixa o pimba tocar bem alto para quem vai a passar na rua ou mesmo para aqueles que se deixam estar no seu lugar. É coisa que o vizinho repete todos os fins-de-semana, e não é por estarmos em período eleitoral que ele havia de mudar. Nunca há quem olhe ou dance, mas na Rua do Bonjardim, agora que o Outono entrou de céu cinzento carregado, as notas só ecoam ligeiramente diferentes porque o chão de paralelo granítico absorve a humidade criando um jogo triste de espelhos, que reflectem as baladas, entre o chão e a vidraça dos prédios em ruínas.

No bairro, durante a semana, ouvem-se bem alto os programas televisivos duvidosos no conteúdo que lavam a consciência de um povo desempregado perseverante no saudosismo sebastianista. Talvez seja ele, o sempre esperado, que os levou a decidir nunca pegar nas casas devolutas, assombradas, decadentes de um bairro que só não é deserto, porque há olhares a medo por trás de cortinas corridas, a cada raro sinal de vida que pouco corre lá fora. Nunca é tempo de mudar, de inspirar, de ter uma palavra a dizer e levá-la em frente. O próprio carro do comício que passa com locutor de voz ultrapassada, megafone em riste, parece não acreditar no seu apelo: ao partido e ao voto. O bairro desconfia daquele proclamador outsider, olha-o de lado. Eventualmente ele deixa de aparecer. Na Rua do Bonjardim, de tanto olharem para a televisão ou através de cortinas, deixaram de ver que tudo em redor está a ruir. Mais! Eu sei, porque vi, que eles esqueceram aqueles hectares de terreno das traseiras, hoje escondidos em jardins secretos, que um dia traziam uma economia ao local.

Assisto a esta apatia, temo pela minha própria inércia, e imagino as formas diferentes que as vidas poderiam assumir, assim que cada cidadão decidisse abrir as janelas à sua cidade. Mas por aqui, o que verdadeiramente ecoa, não é o Portugal no Coração, nem a carripana do comício. Ouve-se em cada olhar, «Jusqu’ici tout va bien.» Quantos mentirão a si próprios até ao culminar do fim mais triste. Que o que somos não é o conforto doloroso da vida que fazemos todos os dias mas sim aquilo que daí conseguimos criar.

À Rua do Bonjardim, a criação chega em pacotes de bailarinas de grupos pimba com roupas rosa shocking, ora em versão sistema-de-som-à-janela, ora pela mágica caixa negra cuja programação e conteúdo deixa pouco a desejar no que diz respeito a atentados ao intelecto social. E é assim, que no centro da cidade do Porto, a consciência se vai criando com a alienação dos valores e objectivos, com a exploração da desgraça do outro e a personificação do espírito do coitado.

Vejo o quão fácil foi deixar o corpo ser levado pela corrente, desenhando um percurso inerte. Vive-se período eleitoral e devia apetecer cortar o paradigma pela raiz, escolher a inspiração, não permitir que outros decidam que o meu caminho é o do outro. Acabo de ver “Into the Wild”, que citava Thoreau pedindo «mais do que o amor, o dinheiro, a fé, a fama, a justiça… dá-me a verdade.» É altura de, na Rua do Bonjardim, romper cortinas velhas, abalar fachadas decrépitas, provocar uma reacção e pedir, tão simples, a verdade.

 

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