terça-feira, 27 de abril de 2010


As flores mudam de cor
quando lhes tocas e falas.
Fernando Sylvan

Abro as portas ao sol, deixo cair a mão sobre a grade semi lixada, ouço os sinos da igreja não sei se da Lapa, que tocam sempre fora de hora, antecipam-se ao tempo e é bom para me lembrar que tendo a correr demasiado atrás do prejuízo. E tenho a mania disto de criar e abandonar, envolver e fugir, deixar tudo no ar, e sob os castelos que assim se montam, que diz o Thoreau que é aí que devem estar, é agora o tempo de os alicerçar, nas nuvens. Ciclos disto a toda a hora, aceitando que a Lua, se existe é para respeitar e abraçar, que se somos livres temos de o saber celebrar, e menosprezo todos aqueles por quem as estações não passam, onde já se viu viver o inverno de forma igual às primaveras que em nós nascem. Tento seguir sempre mantendo alguma calma por dentro se não de que me valem os dias cheios, do sol na cara, dos ventos do mar, das flores que colho.

"Eu sou a princesa da Primavera e do Verão e a rainha de tuôdas as fluôres!" diz a Violeta quando dá por mim no momento em que subo o último degrau e a encontro. Mostra-me, pequenina, lá na varanda, que tem um cubo de papel nas mãozinhas em forma de dádiva. Estica os braços num movimento lento e vertical, eleva o cubo até ao nível dos olhos "Estou a fazer uma suôpa de fluôres, para ti também, não te preocupes." Numa moldura de flores amarelas enquadrada na varanda cor de rosa da casa onde cresci, aponta para longe, por trás da magnólia que já não está em flor: botões de micro rosinhas cor de rosa. "Chiêga-me aquelas fluôres!" Aponta, inclina-se, dependura-se. Queremos sempre as flores lá longe, perfumes que nos enfeitarão os cabelos, abismos dentro de cada e entre nós.

Entrego-me com ela aos jardins, e estamos de facto lá dentro, onde o passado e o futuro não existe, no sítio em que os pássaros não falam connosco só porque apreciam o silêncio mas compreendem-nos e a cada árvore fazemos festinhas, desculpa, mas vou ter de guardar estas pétalas para mim. É que estou a fazer uma suôpa. De cócoras na varanda, mão ainda caída sobre a grade semi lixada, olho para as camélias que trouxe e deixei na mesinha da sala. Suspiro em voz alta que vou ter de desistir de ti, prédio, vou ter de te deixar sair, JUP, vou ter de te abandonar, o meu rumo é o do sul e em mim ecoa a frase de Dan Gilbert, sobre encontrar a verdadeira felicidade: Accrue wealth, power and prestige. Then lose it.

Vou ali até ao Brasil e Chile ver se tudo cá continua igual e já volto. Fui! :)

2 bitaites:

Anónimo disse...

Força!
O mundo roda e avança.
;)*

mãenuela disse...

Ao que esse Dan Gilbert chama felicidade sintética, eu chamo conformismo, acomodação: o marido trocou-a por duas de vinte, mas até foi bom porque agora não o ouve ressonar? ficou paraplégico mas agora tem desconto no irs?
Ou como dizia la fontaine: são verdes, não prestam...

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