sábado, 27 de fevereiro de 2010



Vi a polícia balizar a rua, do Bonjardim. Por cima deles, fruto de temporal ocasional, sacos plásticos vazios esvoaçavam em movimentos espiralescos e aleatórios. Alguém passava carregando à cabeça um colchão de casal manchado, enchia a parte de trás de um camião aberto com isso e mais molduras da última ceia e abat-jours de veludo verde.

Outro levantava a fita que tapava o caminho para um carro passar na mesma, por baixo. Fez uma sequência de gestos ao carro que vinha a seguir: não com o dedo, aponta para uma fachada, traz com a mão a fachada até si. Pergunto-me através da janela, terá caído mesmo? Fui ver. Diz que são efeitos do clima, mas eu não acredito.

A famosa casa entaipada e desenhada pelo BE, tanta casa sem gente tanta gente sem casa (já com uns acrescentos em grafiti com algumas especulações sobre a sexualidade do Sócrates...), tem caído aos seus pés um rochedo enorme, misturado pelo metal de uma antena que voou e caiu em cima do Clio ali estacionado. Do grupo de pessoas que discute à porta do tasco do outro lado da rua, ouço dizerem-me "Menina, isso não é nada! Tem de ir ver ali atrás."

Está lá uma catarse de rufos, caleiras e outras peças amontoadas. Ninguém fala do clima, falam do Rio e da expropriação pela Câmara. "Tiraram-nos isto tudo e depois não fazem nada. Agora querem que vamos viver para outro lado, estas casinhas tão bonitas, vivi aqui a vida toda", encostada à pia de pedra onde ainda lava a roupa comunitariamente com as vizinhas do lado, do bairro, da ilha.

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