1 bitaites segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Antes de mais, quero que saibas:
todos somos anónimos e nenhum
de nós se consegue esconder da face
que se torna estranha dia após dia
e que os reflexos devolvem inclementes.
Lamento que o desgosto te tenha encontrado
aí, onde te foste esconder com a mágoa
de emprestar civilização a quem dela precisa;
sempre é melhor que estar aqui a ser civilizado,
dia após dia vivendo a mesma mentira, a rotina
das horas marcadas. Tu sabes que escolhas temos:
partir ou ficar, e normalmente escolhemos partir
- tememos as raízes, as âncoras de carne na noite,
os seus dedos nos dias que nos pertencem plenos.
Partimos para encher os olhos de mundo,
as mãos e a boca com a terra dos caminhos estranhos
e não cruzados. É por isso que choramos, quando há
demasiado pó nos olhos e não vemos; quando a terra
que fica no lugar da saliva do outro não nos deixa respirar;
chorar limpa-nos a mente e serve para não ser sangue
o líquido vertido para lavar as feridas das mãos e dos olhos.
Enquanto engordo este poema não sei que ar respiras,
que noite conheces aí nesse país do dia de antes,
mas sei que chorar é bom, mas não vale a pena.
Não lamentes nada: vive porque o caminho chama
e sozinhos conseguiremos encontrar-nos sendo cada vez mais
nós mesmos, sem remorsos ou segundas intenções.
Anónimos, José Ferreira

0 bitaites terça-feira, 24 de novembro de 2009

Hapara Violencia Kontra Feto / Pára a Violência contra a Mulher / Stop Violence Against Women
UNIFEM Timor-Leste 2007

Hoje exige-se a erradicação da violência contra a mulher.
Enquanto olho para este cartaz, ironicamente, só me ocorre um outro lado da história, que é o da violência no sentido inverso, que por sua vez está ocasionalmente abrangida no âmbito da violência doméstica: atenção, apesar do feminino, não tem género. Ha'u mak vitima! / Eu é que sou vítima!

Mas ok, falemos de mulheres hoje. No bairro do Bonjardim, no outro dia tocou-me à porta uma senhora a quem tinha pedido por telefone para lá ir fazer (curiosas) limpezas (mas essa seria outra história). Quando abri a porta lá em baixo, contra-luz vi primeiro uma figura pequena e frágil, de chapéu de abas largas. Um passo para dentro do edifício e a cara totalmente desfeita, derretida em queimaduras, sem sobrancelhas, pestanas, e os olhos quase de borracha. Na manhã desse dia, quando lhe liguei, foi o marido que atendeu, ultra agressivo, desconfiado, brejeiro. Ela entrou, sentiu o desconforto do meu olhar directo nos olhos dela, sei que não aguentou isso e foi. Quando voltei a ligar-lhe o marido deu um berro tipo "nem pensar!", eu atónita perguntei porquê, ele mais enraivecido com não sei o quê, insisti, não adiantou, não sei o que fazer. Violência física com violência intelectual se paga e se os números de 1 em cada 3 apontam mais para a primeira, não é fácil disseminar as teias em que a segunda se desenvolve e parasita o lugar que a própria mulher mostra ter face ao homem. Não há Lei da Paridade que imponha resultados reais - a mudança tem de vir da base.

Resta-me dizer que na acção de sensibilização sobre Mulheres na Política do mês de Outubro, quem dinamizava o workshop contou que não são dois mas sim cinco os géneros que existem, e não sei se isto é novidade para vós, mas a mim o queixo caiu-me um pouco e certamente levou-me a pensar na multiplicidade de muros de violência e opressões que tem estado tão longe de mim (será?).

Eu cá sou da paz. Tenho no entanto a certeza que é urgente fazer guerra à violência e a minha angústia é que o ataque global necessário não precisa de mais armas do que a própria consciência, só que essa parece-se com fragmentos de granada estilhaçada.

E tenho a certeza que o senhor do cartaz é quem o diria melhor, de indicador e médio afastados: Peace.
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Em 1999, a Organização das Nações Unidas designou, oficialmente, o 25 de Novembro como Dia Internacional para a Eliminação da Violência contra a Mulher.

Os defensores dos direitos das mulheres já tinham estabelecido, em 1981, o 25 de Novembro como o dia contra a violência. A data relembrara o assassinato das irmãs Mirabal, activistas políticas da República Dominicana, a mando do ditador dominicano Rafael Trujilo, no dia 25 de Novembro de 1960.

Esta data visa relembrar que, em todo o mundo, pelo menos uma em cada três mulheres já foi agredida, forçada a ter relações sexuais ou sofreu algum tipo de abuso ao longo da sua vida, geralmente por parte de alguém conhecido.

1 bitaites sexta-feira, 20 de novembro de 2009


Dia sem luz nem sombra, o de ontem, cinzento, no qual se discutiu o jornalismo universitário na Faculdade de Direito, a convite da equipa do Tribuna.

César Príncipe (que cito no título deste post), interveio inspirando e demarcando a responsabilidade do jornalista enquanto manipulador / facilitador da consciência colectiva.

Começou por pegar no futebol com uma ironia subtil a propósito do jogo da noite anterior. Insistiu tão prolongadamente no assunto que com o exagero permitiu perceber o estado geral das coisas. O jornalismo é isso: numa tentativa de ilustrar o que é a sociedade local ou global, impõe hábitos. De consumo. Postura. Jornalismo é poder e é alienação, é luz e sombra.

Outro discurso, bem mais derrotista, falava em sangue, suor e lágrimas, capacidade de sofrimento, sabedoria na espera e trabalho, afinco, alma, dor, solidão, uma tragédia. Falava de crime e de cliques. Não gostei. A definição de jornalismo de proximidade não ficou muito clara, embora à primeira vista seja sonante. Resta conhecer as ferramentas de medida dessa distância e se Fénix renascerá das cinzas.

Estava já eu quase a chorar com o sofrimento do outro quando Príncipe responde “Que o sofrimento tem de ser democrático”, o que me fez sentir mais amparada. Depois, quando lhe agradeci no final em privado o discurso construtivo, reflectiu ainda sobre outras esferas. Falou do Muro de Berlim, e do entretenimento do espectáculo televisivo nas comemorações do 20º aniversário da sua queda. Enquanto o ouvia, senti e assisti a uma tempestade de areia nos olhos da população mundial. Quis saber dos outros muros todos que hoje ainda existem. Quis vê-los, lê-los, e outras aliterações e imposições sobre as quais pouca consciência existe.

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1 bitaites sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Pensavam que já passava do tempo mas veio a ver-se que afinal era cedo demais quando naquela manhã de São Martinho vim parar a este mundo estranho.

Dizem que por a Lua estar em Aquário e outras combinações que tais, houvera nascido para a fama, mas a astróloga tinha sotaque afectado - e mais! degustava esponjinhas de tofu em óleos - e confundi o destino com teima, decidindo naquele momento teimar no motivo que me leva a coçar o nariz sempre que manuseio castanhas, essas belas irmãs das bolotas, que fechadinhas em si mesmas ou enfarruscadas por cinzas de carvão e tinta de jornal (ora aí está!) simbolizam o meu dia de anos.

Mas a história não é bem assim, porque não foi bem decidir em teimar. A verdade é que desde sempre achei que as castanhas estavam para o nariz na medida em que as cebolas estão para as lágrimas, refiro-me a comichões fisiológicas daquelas que permitem extravazar tudo o que vai por dentro.

Em movimentos compulsivos de indicador na ponta do nariz e fungo. Enquanto descasco as castanhas, repetindo-se-me a frase do pasteleiro "doutora, que eu tenho um coração de manteiga, três dias no congelador".

Reparo que apesar do coração de manteiga, as castanhas não estão a surtir nele o efeito que a mim faz-me romper com todo e qualquer protocolo social, na hora da descasca. Logo eu que sou pessoa tão séria.

Perguntando aqui e ali timidamente enquanto metia mais uma castanha à boca, "mas então e tu, não te coças?", e a coisa foi crescendo, tomou proporções virtuais e do inquérito da semana passada concluo que ninguém mais há que sofra do mesmo mal a não ser familiares próximos: mãe e irmãos. Isso não explica porque é que levei 26 anos a perceber que os outros não são iguais. Era como se me dissessem que nem toda a gente chora a alma em lágrimas enquanto corta cebola aos bocadinhos.

4 bitaites domingo, 8 de novembro de 2009

 

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