1 bitaites domingo, 21 de junho de 2009

Fecho as portadas que rangem ao calor, não preciso agora, que ele já existe cá dentro.
Faço-o quando aos primeiros raios também os pássaros cantam a abertura para a manhã que aí vem. Digo a mim própria “o silêncio não me incomoda”, e entreabro os olhos, ouço a música de baile que ecoa pela rua do bairro novo. Cheira a verniz e a incenso. Cheira a cravinho e a rosmaninho.

Nas pilhas de papéis amontoados, caoticamente catalogados, encaixotados, cadernos destronados, desmultiplicados por tantos outros que hão-de vir (já cá estão, mas não os sei), encontro "um velho poema irlandês" transcrito do Requiem para o Navegador Solitário. Dei de caras com ele em Maio, numa parede de guesthouse na Irlanda profunda. E sei que era o final aquilo que me tocava, “may god hold you / in the palm of his hand”. Balelas que procuro, conforto que desprezo.

Nos montes que vou religiosamente desconstruindo, um fluxo de folhas, registos que transfiro deste para aquele, para o outro. Como se estivesse a joeirar o arroz em várias redes finas que se sobrepõem, encontro-o num nível intermédio (até agora, nas arrumações, demasiado próximo para ser notado). Eis o email que se dobra em quatro, “para ler daqui a 20 anos” declamado, sobre quem encanta e vem do nada:

vai acontecer muito mais tarde
do que as pessoas
pura e simplesmente
porque apesar de não teres culpa do que se passou no passado
tens coisas a resolver no presente

Ter coisas a resolver no presente, como os vermelhos de Matisse, ou “Ser Frida Kahlo”, por publicar, réstias das águas passadas, flores de camomila prensadas.

E porque escrevo, porque partilho, não é para chegar a alguém, nem trago mensagem alguma. É um processo simples de secretariado, que não são só os números que se arrumam nas gavetas, e não tenho vergonha ou medo de que as minhas estejam aqui, ora mais, ora menos, ficcionadas. E, confesso, pensei-o por duas vezes ao passar pelo Pátio da Paz: que não é de ignorar quando se sabe de pessoa que é aquilo que faz.

4 bitaites sexta-feira, 19 de junho de 2009



A minha nova música de despertar. Toda a gente devia.

4 bitaites segunda-feira, 8 de junho de 2009

A conclusão disto tudo (e bastou a primeira semana de Junho...) é: cede-se alojamento a troco de bricolage.
De repente vejo-me na pele da personagem principal de um grande épico.
São quatro as grandes montanhas que se me deparam, e vejo agora que é bem possível que façam parte de uma grande cordilheira central. Tentarei delinear.
Deram-me as chaves de um prédio a troco de dinheiro. Agora dou ali abrigo a quem sinta, com o tacto, e acarinhe, com as ferramentas, as suas partes. Já o tenho feito intensamente, e doem os músculos, as roupas estão estragadas, as mãos já mais não são de princesa. Foi como apalpar grande parte do edifício, apagar com um pano as alturas das miúdas a lápis nas paredes, retirar as missangas presas no soalho. Gosto de dramatizar e chamar-lhe um épico, fachadas destronadas, balde, escadote e esfregona.
Eu nisto tudo, sei lá um je ne sais quoi de COMO?!? E do trabalho meticuloso, cada centímetro de cada canto e pormenor da casa, o detalhe mais doce vi, mas no outro prédio que herdei: "Não passa de hoje." inscrito em local recôndito do Núcleo de Jornalismo Académico do Porto.
Em Olivença, a maior parte das surpresas encravou pelo enjoativo cheiro a cão, a gosma que se enrolou com o chão, os fungos nas paredes. Já pouco disso há agora. Só dores nos músculos e tudo o resto, de raíz que aí vem.
Portanto, contrato de seis meses, possivelmente renováveis.
Que entre uma parede e a outra, há toda a meditação da vida, quem somos e para onde vamos. E também bolhas nos dedos, detergentes químicos voláteis, e um soalho inteiro para envernizar.

 

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