4 bitaites terça-feira, 31 de março de 2009


Foi por vontade de Deus
que eu vivo nesta ansiedade.
Que todos os ais são meus,
Que é toda a minha saudade.
Foi por vontade de Deus.

Que estranha forma de vida
tem este meu coração:
vive de forma perdida;
Quem lhe daria o condão?
Que estranha forma de vida.

Coração independente,
coração que não comando:
vive perdido entre a gente,
teimosamente sangrando,
coração independente.

Eu não te acompanho mais:
pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
porque teimas em correr,
eu não te acompanho mais.
Amália Rodrigues


Mensagem para aquele de nome vício: voltei a usar brincos. Toma lá!

2 bitaites quinta-feira, 26 de março de 2009

A cidade cinzenta tinha lugares escondidos, pequenas portas que quase nunca se abriam.
Várias vezes iam dar a vãos de escadas desiluminados, que eram também salas de fumo, ou paredes declaratórias de amores foleiros, ou simplesmente brejeirices perpetuadas, nem cómicas. Num fatídico 17 de Novembro, a Lei do Bom Senso exigiu ar para todos, abolindo tais fumos dentro do aquário. Os vãos de escadas não sucumbiram imediatamente, tornaram-se ainda mais obscuros. A grande novidade foi no bar do meio, que passou a ser só irrespirável pelo intensamente enjoativo cheiro dos panikes, gordurosos, que cada qual na sua vidinha, se permitia alarvemente devorar. Eu também. Queimavam a língua.

As horas de sol da parte exterior do bar do meio estavam diaria e metodicamente contadas. O espaço exterior do bar do meio estava afundado no meio de duas torres da cidade cinzenta, o que lhe conferia uma aura de desconforto ecoante, como que em pequenas doses injectáveis.
Gostava de me sentar lá sozinha numa cadeira de plástico vermelho, em finais de quartas feiras cinzentas, quando lá não havia mais ninguém. Talvez só o menino de preto.

É que um dia abri a portinhola metálica ao lado do elevador daquela torre, que tinha uma inscrição hexadecimal. Havia um escadote de cor espacial e máquinas que emitiam ruídos. Outra portinhola lá em cima, e uma perspectiva azul, inédita, abriu-se assim à minha frente. Consegui elevar-me, ver a cidade cinzenta como cenário.
Por lá falava-se (uns de mãos nos bolsos, outros com elas estendidas à frente, de indignadas), no relvado que ninguém pisava. Ora nós, ali, privilegiados, caminhávamos sobre pedrinhas redondas. Aproximámo-nos do limite.
Espreitando, vi ali um, só, menino, sentado. Estava, ficou e sempre permaneceu, vestido de preto, insistindo nunca tocar com pele na textura de cor tão crua.
Nunca mais lá voltei.

Escrevi uma carta a um dos nomeados representantes da cidade cinzenta, expondo aqueles que acreditava serem os contrastes a criar, para um futuro melhor, claro, numa visão de engenharia, iludida, abanada, a meio tempo no seu plano. Pudesse relê-la agora, existisse cloud computing na altura.

A cidade cinzenta não trazia mapa, e só hoje consegui sair de lá, trouxe comigo a planta que dali tracei. Procure-me agora ela, nos caminhos que não quis saber, ela ou eu.

0 bitaites terça-feira, 17 de março de 2009

Moving Cause, porque há que movê-las, quando são valiosas.

É o caso do projecto Bonecas de Ataúro, em exposição no Clube Literário do Porto. Trata-se de um negócio social que levou um grupo de mulheres timorenses a criar uma oficina de bordados e costura onde desenvolvem peças únicas e criativas, de grande impacto social e económico na comunidade local. A Moving Cause é a entidade sem fins lucrativos que representa as Bonecas de Ataúro em Portugal.

Nascida em Fevereiro de 2009, a Moving Cause promove e difunde projectos valiosos e isolados de empreendedorismo social a nível Global, dando-lhes visibilidade através da internet, e apostando na sustentabilidade dessas iniciativas através de formação em gestão de negócio e tecnologia e de apoio no acesso às TICs.

A Moving Cause constitui-se pois como uma das primeiras entidades de empreendedorismo social em Portugal. O nosso objectivo é o de propôr soluções inovadoras de intervenção social.

Com esta sessão queremos apresentar-vos a Moving Cause e conversar acerca da desmistificação dos temas da responsabilidade, empreendedorismo e negócio social, bem como do desenvolvimento sustentável, com o desejo de que em conjunto comecemos a "mover causas".

A Moving Cause convida para a sua sessão de lançamento que será acompanhada por um Porto de Honra.

Oradoras: Ana Boa-Ventura | Inês Carvalho | Joana Costa | Sara Moreira
Leituras: Ana Luisa Rego | Maria Sotto Mayor | Marisa Gonçalves
Data: 20 de Março de 2009 | 21.30
Localização: Rua Nova da Alfândega, 22 | 4050-430 PORTO Telefone 222 089 228 | www.clubeliterariodoporto.co.pt/mapa.htm

0 bitaites segunda-feira, 9 de março de 2009

Mestre Casal Aguiar e Paulo Castro Seixas

Trouxe-me à memória um rapazinho, esta exposição de fotografia (e o seu respectivo enquadramento pelo antropólogo, Paulo Castro Seixas*).
O rapazinho, por quem nutro grande admiração, tem a história que se segue.

Ele começava a pensar, era incontrolável, inevitável.
E só algum tempo depois é que reparou que quando o fazia, se escondia, fisicamente, mesmo que já estivesse sozinho antes. Era como se aquelas ideias só fossem de se ter longe, de si. Não era por haver Sol ou a elegia da sombra. Era sim um sorriso que só se tem de olhos fechados.
Repetia-se sem regra alguma.
E a pergunta, mostrar a alguém é explicá-lo? Questão que se prendia com as atmosferas, e se existe razão para elas. Há muito que passara a acreditar que uma explicação não é mais do que redutora, e para quê? É vivê-la, para fora, reflecti-la. Por dentro. Talvez tenha sido nessa *viagem que ensina a vida, a viagem que ensina a vida? Por vezes acontece, com aquela vertigem que é quando com ela se cruza, muitas outras viagens depois. A viagem que ensina a vida, confunde-se. Com a vida.

LUGAR DO DESENHO | FUNDAÇÃO JÚLIO RESENDE
Livro e Exposição POVO, LUGARES E PAISAGENS DE TIMOR
Fotografias de MANUEL CASAL AGUIAR e RUI LÉLIS
Rua Pintor Júlio Resende, 346 Valbom 4420-534 Gondomar Tel. 224 649 061 / 2
info@lugardodesenho.org www.lugardodesenho.org
exposição aberta até 14 de Abril de 2009


Sobre o artista, Manuel Aguiar, e o seu reencontro 42 anos depois com um dos fotografados, já escrevi antes aqui.

 

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