3 bitaites quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

antes


e depois

1 bitaites

Sarita mora no musseque,
sofre no musseque,
mas passeia garrida na baixa
toda vermelha e azul,
toda sorriso branco de marfim,
e os brancos ficam a olhar,
perdidos no seu olhar.
Sarita usa brincos amarelos de lata
penteado de deusa egípcia
andar de gazela no mato,
desce à cidade
e sorri para toda a gente.
Depois, às seis e meia,
Sarita vai viver pró musseque
com os brancos perdidos no seu olhar!
António Cardoso

2 bitaites terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Meu deus, disse o q disse, o improvável aconteceu, e depois não mais conseguiu dormir, por tremer.
Começou assim «esta noite as horas todas passaram a sonhar contigo», a voz apareceu em palavras de intenção, subir todas as montanhas do mundo. Todos os que por ali passavam, só de olhar, enchiam-se de uma compaixão solene «é o amor isto nos meus olhos?»

E há um ano atrás,
Em vez de jogar com os genes,
vai jogar com as essências
ouvir o sussurro do vento que percorre as nossas montanhas do avesso.

0 bitaites domingo, 18 de janeiro de 2009


Das coisas mais impressionantes que vi foram cemitérios em locais inesperados, com ou sem fundo azul. O que impressionou nesses cemitérios não foi o desenquadramento da morte em cenário de vida tropical, mas sim o facto de a morte ter vindo, em massa, e em data única. Campas de todos os tamanhos, de nomes variáveis - por vezes, de apelidos iguais - e que coincidem na inscrição do dia final: massacres, esquartejamentos, "pedaços colados às paredes da igreja", encontram o seu descanso que se consome na doce balada do mar.

Pergunto-me sobre as marcas que ficam, na pequena vila de Liquiçá (na foto) onde todos os habitantes não têm outra opção senão recordar o que ali viveram em 1999.
Pergunto-me sobre o imaginário dos adolescentes que enquanto crianças assistiram a uma desgraça sangrenta assim.

E a ferida aberta que fica naqueles corpos que nunca apareceram depois de chacinas, torturas, genocídios pela auto determinação?

Amen.

3 bitaites terça-feira, 13 de janeiro de 2009


6 bitaites quarta-feira, 7 de janeiro de 2009


I'm an Author for Global Voices

O Global Voices Online é um projecto de jornalismo cidadão da Universidade de Harvard que pretende "agregar, selecionar e amplificar a conversação global online – iluminando locais e pessoal que outros meios geralmente ignoram".

Leiam o Global Voices Manifesto e... check me out!

7 bitaites segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

[Chamo-lhe chilrear dos pássaros porque tenho vergonha de o chamar pelo nome - que me descubram - e quem tiver de perceber, perceberá.]

Sempre tive tendência a gostar de grande egos, dos que falam muito na primeira pessoa. E digo isto enquanto ouço o Jorge Cruz "tu és o que és e eu sou, eu sou eu". E do meu, nada sei, não que não o tenha - talvez até seja grande - mas não o sei explicar em mim, embora consiga só de olhar, identificar quem é que o tem, e tem grande, como eu, erradamente, gosto. O chilrear dos pássaros tem um grande ego.

Vício é o nome de alguém que já me foi muito querido. Acarreta com ele mil palavras que estão sempre por dentro, a teclar, ou a refrescar, para saber. E há sempre aqueles, que nem sonham, que o são em mim, e eu sigo e procuro e quero saber. Porque quero saber? Era o que acontecia com a primeira palavra do dicionário do telemóvel. O chilrear dos pássaros é um vício, obsessivo, anónimo.

Quando olhamos para o ferido e pensamos "eu não quero ver isto", quando entramos no carrossel da vertigem e pensamos "eu não quero estar aqui", quando ganhamos coragem e vamos falar e pensamos "ai já não posso voltar atrás". O chilrear dos pássaros tem a velocidade dos planetas, e o eco das montanhas, embora talvez não vejamos nem ouçamos isso, porque embala.

1 bitaites sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Escrevo porque acabo de ter um ano extraordinário. Estou agora naquele espaço do passo que se dá para entrar no próximo, e não quero seguir, sem agradecer, contra tudo o que esperava, ter passado do preto para o branco, com todos os tons de emoções que se podem encenar pelo meio, nos mais diversos cenários do mundo.

Primeiro, era eu a entrar na Casa de Saúde da Boavista, ainda manca, com uma malinha nas mãos, e sozinha, "venho para ser operada". Dali saí inchada, mais leve do peso dos dentes e parafusos que de mim já não fazem mais parte. O luto do corpo invadido.

Depois era eu, em trânsito, no aeroporto de Hong Kong, a não acreditar, por não saber ainda, que a vida, fazendo-se, corre como uma roleta de ter histórias para contar. A altamente improvável diáspora.

E tudo o que daí surgiu, por andar com os braços abertos. A melhor coisa que fiz até hoje, quando contigo partilhei a madrugada, de Sol acima das nuvens. Cada qual com a sua paz.

As plavras mais lindas que dei, as palavras mais lindas que recebi. Assumir-me platónica e solitária, como forma de estar, e deixar, nos outros, pedaços assim. E da solidão, sempre que em dias como hoje, vir raios de Sol ténues, amarelos enquanto batem no paralelo granítico da Ribeira, sentir que as gotas de chuva são pesadas, nascem ouvidos quando vejo alguém a perguntar: se a tua casa estivesse a arder e só pudesses retirar uma coisa, o que escolhias?

Nada. Agora, vai tudo acontecer.
(O tom nostálgico vai mudar.)

 

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