quinta-feira, 2 de julho de 2009

Podia falar primeiro sobre os cheiros, sei agora, regressada pela quarta vez e meia a Timor. O suor de cravinho misturado com as queimadas da época, mais frangipanis intensos logo ali ao lado da fossa. O estômago, revoltado, exprime-se em espasmos de enjoo forte, naquilo que é quase vomitar toda a diferença para marcar território num calor que não é meu.

Podia romancear histórias do Padre João Transfiguração e o seu sermão aos peixes da Baía dos Porcos, que já não tem carcaça de um carro velho na segunda curva ao pôr-do-sol, com coqueiros no perfil rosa-alaranjado, do mais bonito que há em Díli, e que todos os dias é diferente.

Podia dissertar sobre o menino que se chama Jennifer Lopez, e que não tem terra - é de Timor - nem família. Diz que as mulheres levam porrada quando os homens bebem tua, e é assim que temki ser, porque não trabalham. Ai é? Mas os homens deixam-nas ir trabalhar? Pois não, que o lugar é em casa.

Podia descrever a conversa à boleia com o filho de determinado líder político, bem parecido, com sonhos, palavras, e qual o contexto? Pergunto-me se alguma vez terá jantado naquelas que eram as barracas de Pantaikelapa, rodeadas de coqueiros altos e de céus que choram repentinamente, em plena época seca. De felicidade. Já não há o meu restaurante preferido, a madeira deu lugar a coberturas de lona, plásticas. Restam memórias do que por ali passei.

Podia cascar em determinada e única empresa de telecomunicações que me desgosta, e que me comunica que compre cartões na candonga ao dobro do preço, ou em beco incerto só entre as 7 e as 8 da manhã. Facsimile, 3 USD por minuto. Internet, 8 USD por hora. E julgam-me mal criada, parcial, politizada ou interessada. Pior: uma amante sem escrúpulos. Soubessem eles que o coração trago-o nas mãos porque se esqueceu de sentir, há muito tempo.

Podia, e hei-de, apelar à isenção, justificar a minha motivação, se é que pode ser explicada.

Podia escrever, sim, mas espera-se que o calor na pele assente, aguarda-se que o vendaval tropical entre, que o que procuro agora é ainda o meu lugar no meio desta terra. Um fuso horário que não se coaduna com o meu período de escrita (onde já se viu dissertar ao pequeno almoço…), uma paisagem onde faltam símbolos que fantasiei à distância (o mercado, na berma da praia sem luzes, transformou-se em construção sólida…), e um galo Manu e outros, que cantam ao amanhecer quando alguém varre a estrada.

6 bitaites:

mãenuela disse...

Pelo sonho é que vamos, Comovidos e mudos. Chegamos? Não chegamos? Haja ou não frutos, Pelo Sonho é que vamos. Basta a fé no que temos. Basta a esperança naquilo Que talvez não teremos. Basta que a alma demos, Com a mesma alegria, ao que é do dia-a-dia. Chegamos? Não chegamos? Partimos. Vamos. Somos" - Sebastião da Gama,in "Pelo Sonho é que Vamos"

mãenuela disse...

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre, tomando sempre novas qualidades.
E se todo o mundo é composto de mudança
Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, e do bem, (se algum houve...) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.
E em mim converte, e em mim converte em choro o doce canto.

E,afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía
Que não se muda, que não se muda já como soía

neca disse...

que grande texto! **

Anónimo disse...

Sim senhor que belo texto, cada vez escreves melhor Sarita e mais vezes me obrigas a ler o texto para entender tudo. Fantástico!! a quantidade de assuntos e de histórias que contas, umas camufladas nas outras.Ainda bem que escreveste, queria saber como estás, até agora só tinha lido umas frases estranhas no twitter. Sei que desta vez vai ser por pouco tempo mas vai contando coisas, é sempre bom saber o que passa na tua second life.

Beijoss

Bárbara

Anónimo disse...

Foi na escrita, lendo-a que "conheci" o pouco que sei sobre. Foi apenas por esse contar das estórias, pelos textos que aqui vão estando que um dia disse: vou falar com ela.

Força Sarita! É um prazer ler o que escreves e entende-se claramente que o país do Sol nascente te dá toda a força necessária. Mostra-a.
:)

mãenuela disse...

aBarbara é demais! manda o post anonimo, e assina

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