2 bitaites sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Chegam-me notícias daquele que acredito ser o homem da minha vida. Que é Timor, se Timor é um homem ou um mar. E acho lindo dizer isto. Ele já sabe agora, que parti, mas nunca o discutimos frente a frente. Isto traduz-se em telepatia intercontinental de "ha'u hein… ha'u hein". Digam isto devagarinho e com os agás aspirados para perceberem.

Ele disse "tenki ser". Ora a ideia de ser-se, muito menos obrigatoriemente (tenki = tem que)!, não existe por aqueles lados. Pelo menos transformada numa só palavra, como ser em português.

Este fenómeno da inserção pontual de palavras estrangeiras no tétum advém da necessidade de abstracção, ou até mesmo do desconhecimento de como o dizer na língua oficial local, já que não é essa a língua mãe de grande parte dos timorenses.

Obviamente que este fenómeno está também relacionado com o facto de existir uma partilha de pódium das línguas oficiais do país. O português vai marcando terreno com aquelas palavras poéticas como o nunca, o sempre, o ser.

E a verdade é que, por ser o tétum uma língua tão simples, que nem abstracções, pelo menos como as entendemos, as tem, consegue-se, ao traduzir para português, dizer poesia simples. Ao natural.

E por isso é que me apaixonei por Timor. Porque ele fala a minha língua.

4 bitaites terça-feira, 28 de outubro de 2008

De uma crónica publicada no JUP, intitulada

Hoje Não me Vou Queixar

Ai é tão longe, e doem-me as costas, ui que não tenho dinheiro, e a gasolina está tão cara, aquele gajo só me quer lixar. Não arranjo emprego, é tudo tão difícil, não consigo fazer nada, o trânsito, as compras. O verão fora de época, e a ela dói-lhe sempre a cabeça, a mim ninguém me compreende, os meus pais são forinhas, e este quer ultrapassar-me. Estás cheio de pressinha!! “Raisparta” o fumo, o barulho, o stress.

Existe um agente infeccioso que paira sobre os ombros das boas gentes desta terra. É geral: todos insistem em problematizar. E o errado nisto é que esse brainstorming de tudo o que é mau não funciona como alavanca na busca de soluções que confortem. Este agente infeccioso altamente contagioso, tem o dom de colar à pele uma máscara. A da fusão do coitadinho.

Para quem vem de fora, vê no Porto, se despido desta doença, uma cidade viva, agora de Baixa ressuscitada e coisas, eventos, turistas, casas lindas. Eu cá não vejo melancolia alguma. Mas ouço-a, quando sobre mim cai o eco das pessoas. Porque será tudo tão complicado?

Aos raros excêntricos, que se permitem a liberdade de acreditar, olha-se como patetas alegres. Coitados, andam tão enganadinhos!... E fazem coisas estranhas, como trazer estojos de lápis de cera nos bolsos, ou flores nas mãos. E aquela expressão na cara! De sorriso ao desbarato, como se fosse de se dar nos dias que correm!...

Isto dizem eles, verdadeiros coitados. Eles invejam porque “só a nós, os valentes, ocorrem ideias extraordinárias”, disseram-me em tempos.

E quem contou essa, também ofereceu outra história, valiosa, extraordinária. Num arquipélago tropical vulcânico, um milionário passeia no seu iate até atracar numa ilhota onde um pescador assa o seu peixe na fogueira. Diz-lhe o milionário que arranje um barquinho para que possa encontrar mais peixe e vender o que não precisa e com isso pode depois arranjar um outro barco, dividir tarefas, investir os lucros, abrir um negócio de conservas, guardar o excesso, para depois construir uma casa espectacular. O pescador pergunta-lhe só o que fazer depois de ter essa casa e todo o dinheiro. O milionário diz-lhe que aí pode descansar, viver tranquilo. “Mas isso é o que faço agora”, responde o pescador.

Um destes dias, enquanto subia uma das muitas montanhas que o Porto tem, ali ao lado de Mouzinho da Silveira, na rua de São João Novo, sentia o leve esforço que desperta o estar bem. Lá ao fundo ouvia alguém a cantar muito afinado, mas muito muito alto, alguma coisa romântica em inglês. Cada vez mais próxima a voz, mais e mais intensa no desenrolar da acção, em direcção a mim, ele vem… é este? Não! E passa o miúdo de 7 anos, oculinhos catitas, para o gorducho, com headphones, a interpretar cheio de feeling a balada do novo século. Enquanto ele descia em direcção ao Cubo na Ribeira, as pessoas paravam, vinham espreitar às portas das lojas, às janelas. E depois riam-se de tão inusitado cenário!

Daqui compreendo que o estado de espírito com que interpretamos as rotinas da nossa vida (que nada mais são do que a vida em si), depende do quão ágeis somos no balanço entre o deixar estar – aceitar, sem querer influenciar – e a marca da nossa diferença. A auto-determinação, que me permite saber, segura, que hoje, não me vou queixar. Vou cantar aos berros na rua, vou mostrar-me disponível, vou contar uma história, ensinar alguma coisa, a fazer um origami, vou por aí, aproveitar aqueles momentos em que sou só eu e a cidade. Vou sorrir sinceramente por conseguir ver nos gestos das pessoas que estão vivas, e sentem.

E com isto quero dizer o que se segue. Que está agora a começar o ano lectivo, ou o sexto bimestre, ou o Outono (pode escolher-se um começo aleatório). Está agora a começar um novo dia, e era lindo se, pelo menos durante este novo dia que começa, todos não problematizassem. A ver se o agente cai dos ombros para o chão, espezinhado por quem acredita que a vida pode ser boa, sem queixinhas.

2 bitaites quinta-feira, 23 de outubro de 2008


...tem aqui a resposta completa.

0 bitaites quarta-feira, 22 de outubro de 2008


Huh! (unkown) - Galaxy


Hoje sinto saudades, insuportáveis, como facas.
Não quero usar meias de lã nem golas altas, nem quero sentir o céu cinza em cima de mim, se dele não vai cair uma chuvada da qual não tenho de me abrigar.
Hoje só quero se for em tétum, e como abrigo, enrolo-me um tais.

--

Ohin ha'u nia laran moras, maka'as liu, hanesan catana sira mai ha'u nia an.
Ha'u lakoi hatais roupa mak manas, ha'u lakoi senti lalehan malahuk iha ha'u nia leten, tamba udan ne'e malirin, la'os hanesan Timor nian. Iha ne'eba ha'u lalika halai.
Ohin ha'u hakarak buat ida se buat ne'e ho tetum. Ohin, atu kous deit, ha'u hatais tais ida.

0 bitaites terça-feira, 21 de outubro de 2008

Podem ler o Poema Português de Pedro Lebre traduzido de português para tétum e inglês por mim aqui >>.

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Fotos de Ricardo Meireles

0 bitaites sábado, 18 de outubro de 2008

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"Quéiu o veniz ruoixo puque o ruoixo é a minha côi peferida. O meu nome é violeta, sabias?"

1 bitaites sexta-feira, 17 de outubro de 2008

As ondas de mar revolto, um vento quente com lenço nos cabelos, mãos à minha frente balouçam com sardas de pele sábia, tudo muito lentamente, quase cantado. A história é só uma pergunta e resposta. Sabes porque o canto matinal dos galos soa a lamento? Porque eles lamentam, sim, que mais uma noite tenha passado e que a tenhas desperdiçado a dormir.

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Uma preocupa-se e quer compreender a situação financeira actual.
Outra pensa é passageiro, isto vai dar cá uma reviravolta!

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"Uma Frase e a 2ª História" já está escrita, mas será uma crónica publicada no Jornal Universitário do Porto (JUP) o que me impede de a publicar aqui para já (o JUP ainda nãp saiu... Está para breve!)



É meia porque ainda me sinto meia sem saber como a enfrentar – esta lição sobre o medo.

Depois de a ouvir, imaginei como reagiria se alguém na rua, comigo se cruzasse, com feições de bem e dissesse “vem comigo”. E esta semana tive oportunidade de reagir.

Uma tarde outonal, de chuva miudinha, céu carregado a ameçar mais e mais. Estou a chegar à paragem de autocarro de Sá da Bandeira. Trago o meu casacão verde, com o carapuço de pelinho à volta da cabeça enfiado, carrego uma grande cesta de palha de roupa suja (estou a ir para casa dos pais…) numa mão e a carteira na outra. Pessoas apressadas, abrigadas nas bordas dos prédios (não sabem que é por ali que os pássaros se largam…). A sede do BES é lindíssima. Dá vontade de ter dinheiro só para ir àquele banco.

Por entre as pessoas cruzo o olhar por milésimos de segundo, com desinteresse, com o olhar de alguém que parece o John Malkovich. Nem reparo que também ele olhou para mim, e as sobrancelhas se levantaram, como se já nos tivéssemos conhecido antes. Mas já estou a olhar para o lado, e nem vejo que à minha frente, a cara dele me diz “Olá, posso ser teu amigo?”

Assustei-me. A tendência é levantar os braços e não deixa-me em paz que queres quem és tu? E ele com o olhar mais triste do mundo ”olha, não vás, dás-me um cigarro?” E eu fui, embora, esconder-me na paragem, espreitar para trás, depois de camuflada. Ele continuou com o guarda-chuva, e mancava calmamente ao atravessar a rua.

O que ele me fez, não se faz, foi um jogo. Um jogo de confiança, um teste aos limites que o medo impõe.

Então, estamos num ferry ferrugento, já se sabe. A volta de 180º aconteceu há pouco tempo, mesmo antes dele começar a dançar tango no convés e de dizer que na bandeira do Brasil não devia estar o globo, mas sim o rabo das brasileiras. Um monumento nacional, disse. Sentamo-nos (deixei a varanda de onde testemunhei tamanho pião), e ele faz-me o convite. Quer que no dia seguinte vá a casa dele, em Bali, ter uma experiência maravilhosa, que nunca antes tive, e que nada de negativo me acontecerá. Não tem nada a ver com drogas, não me vou sentir ameaçada, ninguém me vai tocar. Não posso saber o que é, e tenho até ao final da viagem de barco para decidir. Caso decidisse sim, iria no dia seguinte, lá, ver do que falava. Caso decidisse que não, ele contaria do que se tratava, e eu já podia mudar de ideias.

Para tomar a decisão, houve muito que me passou pela cabeça. Incluindo o saco cheio de máscaras em que o ajudante indonésio deles mexia, enquanto ele me fazia tal convite. Dois gajos colossais de figura exótica, um remo e um saco de máscaras. Estou a dois dias de voltar para Portugal, depois de 5 semanas sozinha, em Timor e na Indonésia, tudo correu bem até agora. Este senhor é bom, não há dúvida. Mas quero assim tanto ter uma experiência mistério? Agora?

Claro que não. Digo-lhe isso quando já se vê o porto de Padang Bay, na ilha de Bali, ao fundo. E depois ele diz que sou cobarde, que o meu sexto sentido deixa muito a desejar. E conta-me o que tinha acabado de recusar. Eu não vou contar. É o nosso segredo.
E depois, sinto uma síncope no coração. Fico muito triste, quase miserável. Tenho vontade de chorar. Vêm flashes do que é o medo, de tudo que recusamos sem mais motivo para além daquele que é o nosso limite, de conforto. E a conversa que tivemos depois disto, na hora e tal que passou enquanto esperávamos lugar de estacionamento para o ferry, tomou uma dimensão filosófica, que até direito deu à planificação pormenorizada de uma caminhada pelas montanhas do Nepal.

E com palavras de Krishnamurti rematou. Um dia vou poder redimir-me, é o que espero da lição.

“Hay duas fuerzas que dominan al hombre una es el amor y la outra es el miedo.”

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"Mas sei que não vou por aí"
Cântico Negro, José Régio

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Era certinho, sagrado.

Todos os dias, saída das aulas por volta das 18h30 caminhava calmamente, havaianas, até ao Bairro. Nos meses de Junho e Julho, anoitece mais cedo, é Inverno, e talvez por ser a época seca, desenham-se tons densos de rosa e laranja no céu. Sem ou quase sem nuvens. Eu gosto mais dos pôres do Sol com nuvens, mas o certo é que aquela gama cromática, dava uma óptima entrada na penumbra que se seguia.

Entrava em casa, cobria-me de tunicas e lenços, para voltar a sair. Não estava frio algum, mas tinha de me tapar. Com a penumbra vêm também os mosquitos, que me adoram.

Saía de casa, descalça, e ao lado da minha casa (é a 2?), entre a parede do meu wc e o muro imponente que separa da rua que vai para Colmera, existe um pequeno arvoredo. Papaias, que são altas, e duas árvores, semi-raquíticas onde a rede que trouxe do Camboja encaixou muito bem.

Colocava as duas espirais de incenso insecticida em dois pequenos raminhos partidos: um perto da cabeça e outro perto dos pés. Deitava-me, a olhar o topo do Hotel Timor, vestia o iPod, fechava os olhos, ou deixava-os semi cerrados, e começava a cantar muito e bastante alto. Essencialmente a Marisa Monte, Sloppy Joe, e uma ou outra música timorense :)

Se alguém chegava ao Bairro, não me via, mas ouvia. O meu sítio era secreto. A rede é tão pequena que só eu caibo lá (talvez um dos seguranças às vezes batesse ali uma sestinha). Se fossem perguntar por mim a minha casa, os senhores professores que vivam comigo (cada um com a sua panca!), apontavam envergonhados para Sul: a miúda está doida... não a ouves?

E às vezes lá aparecia um ou outro, e a minha terapia diária de evasão terminava assim.

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musicovery.com

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têm de seguir o link, sorry. Visitem a página do meu irmão.

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O quarto de leitura.



O quadro do brainstorming.

0 bitaites segunda-feira, 13 de outubro de 2008



Apesar de sonhadora convicta, na minha vida, nocturna, é por fases que sonho intensamente.

Nesses sonhos cíclicos que acontecem, tenho experiências internas que podiam tomar lugar no sítio onde estou e que encontrei hoje.

Estou num pátio, na Ribeira, calçada portuguesa. O pátio é rectangular e grande, está coberto de videiras baixas. As mesas e cadeiras de ferro forjado, pesado.

À minha volta só eu, mas procuro um vulto que está muitas vezes lá, nos sonhos. Veste-se de preto, é alto e magro. Traz uma onda de mistério nos ombros, baixos. Os olhos são brilhantes e muito negros. Podia ser já charmoso, mas é muito novo. Nunca falou, embora tenha estado muitas vezes no grupo.

Caminhamos sempre muito, por ruelas estreitas, a noite caída até sair.

Paramos agora no pátio, mãos nos bolsos, onde uns dedos de Sol se espreguiçam entre as folhas densas da videira, entre as espirais que os ramos desenham.

1 bitaites sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Na Feira do Adiante tive uma lojinha com a Violeta. Só apareciam pessoas para vender, e eu lamentava-me em alta voz por não conseguir vender coisas. Ao que ela responde: "Tia, tens de ter paciência. Uma coisa de cada vez... não é?"

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Um momento em que estou, só.
Quando apago todas as luzes, deixo as portadas abertas para as cúpulas que se multiplicam no horizonte.
Cai em mim uma vontade indómita, do coração ao estômago, daí para as pontas dos dedos, frios. Cai-me um estado de sentir-me fado.
Caem as pálpebras e quero estar onde pudesse a música ser outra, ou esta, mas de saudade virada ao contrário. "Ouvindo-a sou quem seria / se desejar fosse ser..." [mariza]

 

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