2 bitaites domingo, 27 de julho de 2008

Estava a ouvir as ondas brandas, meigas, a beijar a areia no meu fundo. No ar, o cheiro do churrasco a convidar o apetite, a abraçar a sugestão. Era bem grande o carau! Vi-o a ser decapitado e esquartejado, no areal em frente ao restaurante Victoria, ontem, acho eu, quando me dirigia ao pôr-do-sol à Areia Branca. A bicicleta, a altas velocidades, em sintonia com a direcção do vento, depois das aulas.

A estrada que liga Díli ao Cristo Rei, sempre na linha do mar, vestida de palco de festa, em Metiaut, onde tudo estava florido, a música popular timorense, de baile, o dito cheiro, e as ondas a bater, no meu fundo.

Eu, zen, Erli Sun, já noite, numa palhota em cima do mar, onde sempre quis estar durante o meu tempo em Timor. Nunca antes tinha lá estado, sei lá, talvez pelas vicissitudes da vida. Moris hanesan ne’e (já devem estar a ver com quem estava). E o cenário compunha-se para que um qualquer fenómeno disfarçado, desconhecido, fosse tomar lugar.

Eu estava a tentar perceber, no meio disto tudo, afinal quem sou eu, quem é o outro, e porque é que eu sou esta e não outra qualquer, só hoje à noite, qual é o sentido da vida, etc. Até que passei uma linha ténue, perene, que permite entrar no mundo das memórias. Sustentam a nossa vida, dão-lhe referências.

(Tenho andado com uma tão intensa actividade cerebral que não poucas vezes pergunto se só tinha pensado, ou se tinha também dito em voz alta. E isto repete-se iterativamente, fazendo com que na própria dúvida resida a dúvida da oralidade.)

E a referência que encontrei, ao analisar aquele lugar, foi a de uma noite alentejana, da qual não sei se já falei, mas que recorrentemente invade os meus pensamentos. Apesar das invasões sucessivas, não me apetece escrever mais do que o seguinte:

Havia velas naquela noite, e a festa popular da aldeia norte alentejana, bem próxima da fronteira, acontecia no cimo de uma pequena montanha. Talvez ainda fizesse parte da Serra de São Mamede. Havia um campo de futebol, meia dúzia de gatos pingados, música para o bailarico, cadeiras de plástico à volta do campo cimentado e murado. Havia grinaldas de plástico, presas aos pilares, ou coladas aos muros. Cheirava a churrasco, havia vestidos com manga de balão. E três malais: eu, Joana e Raquel.

Já não sei onde queria chegar com isto, mas acho que era para dizer que o ambiente que encontrei naquela festa (eram os Media Awards, prémios de jornalismo) – ao observá-la do outro lado da rua, sentada na palhota em cima do mar – me fez lembrar aquela festa de outros tempos, do outro lado do mundo.De repente lembrei-me que existe uma vida a sério fora daqui, com pessoas reais e acontecimentos banais.

2 bitaites sexta-feira, 25 de julho de 2008

...ontem cantou uma música só para mim :)

0 bitaites quarta-feira, 23 de julho de 2008

sarita incendiadora de causas:

sarita (lá ao fundo) instintos maternais:

3 bitaites

No fim de semana fui até Ataúro.
Mmmmmmm que bom! espectacular, incrível, e outros adjectivos mais e tantas interjeições descritivas do estar bem.

Por mais vontade, ocasional, que tenha de partilhar, de vez em quando, alguns momentos (de ter este ou aquele ao meu lado), digo que sozinha é sempre melhor (que horror eu não disse isto).

É assim, foram todos passear, eu fiquei sozinha naquela palhota elevada 3 metros do chão por canas de bambú, sem portas nem janelas, só colchão no chão, lençóis brancos e o mosquiteiro a dançar de brisa ao som sereníssimo do mar. E para lá fui sozinha. Passei a cerca baixa, despi a túnica e entrei na água quente, olhando para baixo a ver os pés tão nítidos, uma flor de verniz vermelho desenhada no dedão, em cada arrepio de temperatura, subtil, não fosse aquela a temperatura, só pensava que bom que bom que bom que isto é.

Quando eles voltaram somos poucos e ainda bem, porque fico com a guitarrinha suave do argentino Jose Larralde e os ensinamentos de "Herencia pa un hijo Gaucho". Lindo.

Tudo à flor da pele, sinto que caminho sobre um presente eterno (escolho palavras a dedo).
Do fim de semana resultaram:

  • duas sessões de cinema/curtas na Vila para os locais
  • um workshop de animação para os jovens
  • um artigo para o jornal sobre o potencial da ilha, os empregos das senhoras em artesanato
  • e ainda... o índice da minha tese de mestrado!
O ponto alto foi mesmo quando depois de muitas horas de conversa com as senhoras (só eu e elas, entre os 30 e os 56 anos) repartidas entre sábado à tarde e domingo o dia inteiro, conversas essas que tinham como objectivo dar-me a perceber como é que a vida delas mudou desde que começaram a trabalhar nos bordados e bonecas, lhes contei, em tétum, uma lenda timorense que mostra uma explicação fantasiada para o isolamento delas, o motivo pelo qual a ilha de Ataúro e se separou da ilha de Timor. Foi lindo. Lindo lindo lindo lindo lindo lindo lindo. Queria que elas encontrassem formas de se adaptar ao facto de não terem mais do que uma vez por semana barco público que as ligue à capital. Porque Ataúro tem potencial turístico, porque precisam de comprar materiais, porque o trabalho delas tem de ser divulgado.

Ficaram todas incendiadas, tagarelas, revolucionárias. Começaram a escrever um manifesto para o Governo, que eu traduzi para português, e há-de sair no jornal daqui, bem como as minhas palavras de enquadramento.









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Procuro coisas boas no regresso à terrinha:

  • conversar com a minha Violeta
  • comer iogurtes
  • usar calças de ganga
  • ter uma noite normal com música normal e pessoas com comportamentos normais
Desculpa, para já é só.

6 bitaites quarta-feira, 16 de julho de 2008

Foi na 6ª feira passada, exactamente uma semana depois de ter acordado com as cócegas de uma barata que passeava aquele meu percurso que vai do ombro à orelha. Cheguei ao jardim do Mercado Lama, mercado antigo, estilo colonialista, senti-me conquistadora por entrar de bicicleta por ali. Depois quis prendê-la a um poste qualquer, e ao fazê-lo pisei um formigueiro de formigas vermelhas. Só soube quando elas, zangadas, atacaram em bando, invadindo o meu pezinho com mordidelas dolorosas picada-de-agulha. No dia seguinte a injecção de cortisona é que aliviou a comichão intensa do cabelo até aos pés, e a heterogeneidade da mancha vermelha em que o meu corpo se transformara.

Na altura a minha reacção foi sensata: afastei-as com safanões violentos e pensei que estava lixada (mais que lixada até… mas eu não penso palavrões, sou princesa). Nada mais havia a fazer senão esperar que o veneno atacasse. Fui sentar-me no relvado em frente ao palco, deixei-me ficar, a contemplar.

Nunca tinha conhecido um artista da nova geração timorense. O rapazinho das rastas, sentado ao meu lado oscila entre o doce paleio “ah porque tu… e eu já te conhecia antes… e tu estás sempre assim tão calminha… serena… sozinha… a olhar… e eu… e o meu coração e… quando te vi no Palácio…” (tudo assim muito arrastado, em tétum, eu só me ria, por dentro, mas devia estar a fazer cara de pouco interesse e incredibilidade) para logo a seguir levantar-se num salto e pôr-se a dançar com espasmos ao ritmo reggae dos Galaxy ao vivo. Depois pensei isto é espectacular, por dois motivos:

O cenário
Alguns malais alternativos, muitos mais timorenses, imensos miúdos sub-4, pouca densidade humana, todos preguiçosamente sentados pelo chão ou nas cadeiras de plástico, excepto um grupo ridiculamente pequeno de 6 ou 7, que dançava colado ao palco (porquê se tinham tanto espaço?) fora do ritmo e extremamente feliz. O palco grande, o pôr-do-sol atrás dele, com recortes de coqueiros no horizonte em contra luz. Muitos tons pastel. Passou-me pela cabeça que isto podia passar-se numa tarde de música clássica em qualquer jardim austríaco, vá-se lá saber porquê.

A onda
De bem sentir. O tempo parou quando entre mim e o vocalista se desenhou um ponto de fuga que intersectou um bebé de 2 anos, braços estendidos ao lado do corpinho frágil, olha para trás, para mim, arregala os olhos muito e começa a abanar a cabeça ao ritmo do baixo. Há músicas que me fazem sentir tão bem.

Já o sol se tinha posto, já os tons de rosa tinham passado ao leve cinza azulado do céu estrelado, e ele disse que queria estar sempre comigo (conheci-o menos de uma hora antes). Ao que eu respondo primeiro que isso não faz sentido, ele diz que eu estou confusa, eu repenso o meu dizer (como se explica o que é fazer sentido?) e rectifico para “a vida é assim”. Ele, como está triste, sorri, e então ficamos assim.

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ai ai... bainhira ó nia liman komesa kona ha'u...

Taka-Matan - Galaxy

(não tenho tido tempo, estou cheia de trabalho, estou muito deprimida porque o meu tempo aqui está a acabar e não pode ser. deixo para já esta música, adoro adoro adoro, e o próximo post será sobre as fugas inebriantes que os concertos deles me proporcionam)


2 bitaites quarta-feira, 9 de julho de 2008


Ao segundo dia, ventos de força enigmática levantam a poeira da cidade, seca agora que não chove há alguns dias. Um côco que se solta, sucumbindo à gravidade, trespassa o telhado de zinco do quiosque de fruta ali ao lado. Parece que alguma coisa está para acontecer, ou então os deuses zangaram-se por motivos de força maior. O vento chega a todo o lado. Um entre centenas de jeeps UN (que percorrem o país a altas velocidades), cintilante, invejável, imponente, destoando dos táxis de meter dó adaptados de potenciais carros a abater da Malásia, desvia-se da sinalética assassina que invade a estrada.

A história resume-se assim: o governo timorense decide que vai comprar 65 carros japoneses de luxo para cada um dos deputados da nação, os estudantes manifestam a sua indignação face a tal compra tendo em conta que o povo tem fome. Da primeira rodada de protestos, em Junho, em frente à Universidade Nacional, tal número é reduzido para 27, 3 para cada uma das 9 comissões parlamentares. Poucos dias depois, o governo repensa a nova decisão (poderá ser “hanoin hikas”, arrependimento) e volta a incrementar o número para o plano original. Nova vaga de protestos começa esta semana, no mesmo local, mas o que surpreende agora é o facto de isto não poder ser: lembraram-se que não é permitido por lei fazer manifestações a menos de 100 m de edifícios oficiais. A porta do Parlamento é na mesma rua, no lado oposto da porta da Universidade.

Podem comprar tamanha quantidade de carros de luxo? Então podem comprar arroz para o povo, baixar os preços.
A compra de carros faz sentido? Então, primeiro construam estradas seguras, para diminuir o número de mortes por ano em acidentes pelas ravinas abaixo.
Cada deputado deve ter um carro? Então queremos combustível mais barato, para também nós podermos reaver o preço das mikrolets, biskotas e táxis, que aumentou tanto nos últimos meses.
É o que eles pedem.

A novidade da democracia incendeia convicções de uma forma quase passional, como se de uma adolescência tardia se tratasse. A catarse acontece nas traseiras da Universidade, juntam-se ao estilo revolucionário, com meia dúzia de líderes, cada qual na sua vez no centro, elevado, braço no ar a incendiar as tais convicções. Dali saem 10, de cada vez, com fita-cola na boca. Dirigem-se para a porta principal, ficam de pé, em linha, nas escadas, em silêncio, imóveis. No terceiro palco, do outro lado da rua, um jardim zoológico policial circunscreve a área. A UNPOL (coreanos, malaios, brasileiros, indianos, australianos, neo-zelandeses, entre outros) comanda, enquanto fuma umas cigarradas, dá umas palmadas nas costas deste e daquele, traz águas para o pessoal, vira costas à Universidade. Quando a contagem decrescente dos 5 minutos chega ao fim, a Polícia Nacional, bruta, entra em acção, pegando pelo cachaço, nos estudantes, enfiando-os no carro prisão. Isto repete-se pelo menos duas vezes por dia, todos os dias. Já estarão uns 50 manifestantes na esquadra.

Entretanto, o Kuweit oferece 12 BMWs à presidência. Não quero imaginar as pedras de artifício naquelas chapas quando começarem a circular pelas ruas de Díli.
Entretanto, correm boatos de planos de assalto a casa de deputados pelos manifestantes.

Que a bolha rebente, é algo eminente. E o vento, enigmático, semeia o cenário faroeste.

 

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