1 bitaites segunda-feira, 30 de junho de 2008

Hoje, quando anoitecer, não vou deixar que fechem as cortinas só porque é hora de resguarda. Vou recolher para fora e percorrer os passeios remendados até encontrar alguém sentado na berma e aí sento-me eu também demasiado perto sem falar.

Hoje quando entrar em casa vou desligar as luzes e abrir as cortinas, para que pudesse ver de perfil as flores do aloendro, não sentindo o veneno, caso na cadeira me sentasse a olhar.

8 bitaites sexta-feira, 27 de junho de 2008

Para quem não sabe, o Google tem um tipo de pesquisa especial que serve para fazer câmbios. Quando estou entediada, lá lhe pergunto eu “1200 USD TO EURO” e ele responde-me com o valor que estou a ganhar em Euros. Dispo o tédio, visto pruridos.

Entretanto tenho encontrado outras formas de enganar o tempo, entre elas a culinária. Gosto mesmo de cozinhar para muitos, e fazer da refeição um momento solene. Acontece mais ou menos uma ou duas vezes por semana que temos um jantar requintado.

E adorava que o Google também disponibilizasse uma pesquisa especial que permitisse perguntar “300 gramas de lentilhas TO colheres”, e assim saber as medidas com os materiais que tenho.

SEMANA do ESTUFADO DE LEGUMES E LENTILHAS

Corte a cebola e pique os dentes de alho; refogue-os em metade do azeite. Acrescente a flor de anis, o gengibre e o cardamomo picado, deixando apurar. Adicione a banana, a maçã, cortadas em pedaços, e deixe cozinhar. Junte a canela e o caril, mexa e envolva o leite. Quando ferver, acrescente a água, tempere com sal e pimenta, deixando ferver durante 10 minutos.

À parte coza as lentilhas em água abundante. Corte as curgetes e a beringela em cubos, as cenouras em rodelas; junte o restante azeite e tempere com os cominhos em pó, os orégãos e o molho de soja. Leve ao forno a 180ºC, durante 20 minutos. Misture todos os ingredientes, confeccionados, sirva regado com o molho e decore com hortelã.

in Grandes Receitas de Legumes - Minilivros

8 bitaites

Aproveitem a benção da banda larga e ouçam enquanto lêem:



Maria tulipa e Pompeu. Gosto de nomes decorados de flores, é assim que se vão chamar os meus filhos (talvez ele não seja flor mas podia bem ser). Talvez por isso simpatize com a Margarida, e era com ela que estava a falar, no terraço do Motion, onde temos reaggea ao vivo às quintas feiras à noite. Depois de eles tocarem o No Woman No Cry, houve acesa discussão acerca do verdadeiro significado da balada. Reunimos as seguintes hipóteses:

• Não há mulher que não chore
• Mulher, não chores!
• Não! As mulheres não choram…
• Não tenho mulher mas não choro

A minha conclusão foi circular: tal como dizia no início da performance, não gosto da música. No entanto, essa não está no top five das piores de sempre para mim.

Há aquela do assobio, muito recente, que passa na rádio. Essa é das que menos gosto. Tocava no outro dia na praia do Caz Bar, na baía da Areia Branca. Éramos só quatro no areal feito pista de dança, sem havaianas sequer, pés enterrados na areia, com velas espalhadas pela praia, uma fogueira, cadeiras baixas de madeira, a música a tocar. Já deviam ser quase quatro da manhã, fujo até ao mar, olho para Díli, duas baías à frente, e penso que tem mais luzes do que devia ter, e quase não tem! Lado a lado, lá ao fundo, aqueles que apanham polvos, de lanterna na mão na maré baixa que se estende longos metros distanciando-se do areal. Pousada no meu ombro a entropia de constelações! Adoro não as reconhecer, embora diga, sempre que o queixo me cai com um céu daqueles, que devia ter trazido um mapa que permitisse reconhecer-lhes alguma ordem. Sei que nessa noite tocou a do assobio, e sei que será difícil esquecer-me do surrealismo da festa de quatro que se proporcionou.

Na lista das mais odiadas vêm a seguir duas veraneantes que sempre que ouço recuso-me, bato o pé e sento-me de braços cruzados. Summer Jam e Summer of 69.
We Are the Champions, iaque…

Troféu entregue à I Will Survive. Odeio odeio odeio as reacções que aquilo provoca nas pessoas, os comportamentos semi-selvátivos que se geram espontaneamente de pessoal aos abraços e pontapés com cervejas na mão, como se de um jogo de futebol se tratasse.

E foi com essa música que aconteceu a noite em que tudo parou e os batuques entraram sonantes. Estávamos então a discutir o cerne do Bob Marley… se é machista, egoísta ou simplesmente um solitário. Eu disse, pronto não gosto, mas até gosto de ouvir o No Woman No Cry tocada por estes gajos, agora se me viessem tocar o I Will Survive… Isso é que não! E pimbas. A menina indonésia desafinada salta para o palco onde a banda já estava a aquecer um som agradável e de repente… At first I was afraid… e eu NÃÃÃÃÃÃÃÃOOOOO POR FAVOR! Como é possível? Eu não quero! Eu não gosto! Não deixem! E todos os que participavam na conversa anterior só se riam. O mais cómico foi eu ter dito ao ouvido do australiano 2 minutos antes “The worst song ever is I Will Survive”, ele foi para o palco com o seu batuque, sem saber qual iam tocar e saiu essa. Esperneei, zangada. Queixei-me muito, quis muito que aquilo acabasse e, a verdade foi que passados trinta segundos, um curto-circuito acabou com a brincadeira, a electricidade foi abaixo. A cantoria parou.

Pensam que foi só isso? A cantoria parou para dar lugar a uma longa improvisação instrumental dos rastafararis em palco, aos quais se foram juntando mais e mais elementos, a fazer sons com tudo e mais alguma coisa: pauzinhos, latas de cerveja, copos, batuques, areia em garrafas. E os pés começaram a mexer-se muito e rápido e foi ESPECTACULAR. Voltámos ao bairro com a moral ao auge, ouvimos a Mariza na palhota enquanto comíamos leite creme às colherzinhas de café.

7 bitaites segunda-feira, 23 de junho de 2008

E assim, depois de uma noite solitária no bairro, voltei ao Ramelau. Não foi bem voltar, porque da outra vez fiquei pelo caminho. Ontem, data que muito me apraz em geral, pelo solstício, e que não há ano que passe sem que tente fazer algo especial, quando revi a estrada suicida, atravessada pelos mesmos cavalos selvagens, percorrida pé ante pé pelas figuras surrealistas das montanhas timorenses, e por ali encontrei o local trágico, ainda com os escombros do que restou de mim na altura, senti uma onda a abalar-me com emoções tão fortes que não me lembro de as já ter sentido alguma vez, ou outras de igual intensidade. Gostava de encontrar uma forma mais transparente de vos transmitir a impressão que ficou em mim, mas não há.

Portanto, depois segui viagem, tive uma noite incrível de luar laranja e acampamento na fogueira, alguém me fotografou acima das nuvens - fosse eu um avião -, desci a montanha, senti o meu pé, e voltei para casa, como se 13 meses tivessem existido como lapso para que a viagem continuasse mais tarde, com alívio e plenitude.



NOTA: esta foto é original, não foi tratada. Não sei por qual fenómeno da natureza, mas aparece alguém sentado na minha cabeça, a olhar para a Nossa Senhora que existe nos 2963 metros do Ramelau. Como vêm, estou acima das nuvens. IMPRESSIONANTE.

5 bitaites sexta-feira, 20 de junho de 2008

Final de semana intensa, sinto um cansaço imenso, preciso de actividade cerebral suspensa. Depois disto.

Do cinema, das curtas, retiro alguma plenitude. Por mais lírico que possa parecer, sei que pelo menos uma das 18 curtas apresentadas pode ter fascinado, e até, em certa medida, pode ter mostrado novas perspectivas de vida a, pelo menos um dos 50 assistentes diários.

Discuti com pessoas diferentes, por motivos variadíssimos, tensa, sem me deixar atravessar por incompetências. A relação com o outro aqui é só porque e se me apetece, o que pode parecer um paradoxo, tendo em conta a forma como este parágrafo começou e que vivo no bairro big brother. Portanto explico-me, o que eu faço é o que eu quero fazer, o que dou de mim está na proporção da vontade de ser mais eu, para mim e para o outro. Parece que só aqui é que a vida faz sentido, que a vida é só minha, não sei bem explicar.

[Conheci alguém que fala tal e qual eu. Até irrita, aquilo das palavras lentas, agora percebo, e um som por dentro, nas pausas, que é tipo “mmm”, parece o eco dos meus silêncios.]

Todos os 20 e tal do bairro foram jantar à Areia Branca. Resolvi tirar tempo para pensar, ficar. Lamentavelmente dizer “não vou jantar, preciso de pensar na vida” soa esotérico, e parece bem mais são (queria usar sano, mas não me deixam) dizer que “ah! hoje não, dói-me a cabeça, estou cansada”.

Ao final da tarde, quando saí das aulas, decidi fazer um desvio no meu percurso, para ver um pôr-do-sol cor-de-laranja fluorescente na marginal do Palácio. Dou por mim sentada no murinho a (tentar) desenhar a arrebatadora fragilidade das mãos da Ica Nói, filha de 3 anos da aluna Clara. Conheci-a no outro dia em Manatuto, queria que a Violeta brincasse com ela. Ela tem medo de mim, monstra branca. E quando lhe perguntei “Ha’u bele hasai foto husi ó nia liman?”, justificando depois a vontade de a fotografar com o facto de ela ter as mãos mais incríveis que alguma vez vi, ela não me respondeu, nunca, e escondeu as mãos atrás dos joelhos flectidos. Só me resta lembrar, e daí os desenhos, para tentar perpetuar. Em tétum lembrar diz-se conjugando dois verbos de uma forma que eu até acho poética. As palavras “hanoin fale” significam “pensar” e “voltar”. “Fale”/”voltar” é usado quando falamos de deslocações, muitas vezes em conjunto com “fila” – ha’u fila fale / eu volto ao mesmo sítio. Então lembrar é voltar a pensar. Na viagem do meu pensamento àquelas mãos esguias, compridas, artistas, voltei a pensar numa visão que tive, bem real, mas que permanece como uma ilusão. Eu na montanha, deitada em pedaços, com frio. Aparece uma senhora pelo meio das árvores, vestida com tais e lipas na cabeça, os lábios rubros daquela masca que as mulheres cá insistem em mascar, dizendo que torna os dentes mais fortes (eu só vejo mascadoras com os poucos dentes pretos). Eu não falo, nem ela. Eu tenho um olhar muito triste, cansado. Ela põe-se de cócoras e segura a minha mão, com as mãos dela. Parece que as sinto agora. Ficámos assim durante uma eternidade que durou até hoje, porque isto não existia em palavras. E depois, claro, o turbilhão descontrolado em que a vida se transformou a partir dali, e o estado letárgico onde me abriguei desde então. Até agora. Refazendo as contas, treze meses, três cirurgias e duas meias voltas ao mundo depois (“fila fale”), estou pronta, sem arrependimentos (“hanoin hikas”).

4 bitaites quinta-feira, 19 de junho de 2008

Conhecido como "A Hora do Mosquito", este evento, orientado por mim, que reúne variadíssimos exercícios de alongamento para empenados, toma lugar às 2ªs, 4ªs e 6ªs, antes do jantar, no jardim do bairro.

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3 bitaites quarta-feira, 18 de junho de 2008

Aqui divago sobre os animais, as estrelas, os avessos, comidas, eventos sociais, eu e mim.

Será que sabem que existe uma vida exterior em velocidade cruzeiro para além desta que despejo em algumas noites no meu belo quarto, outra vez com vista para a palhota, as flores dos aloendros venenosos, cortinas de lipas, espanta espíritos de Maubara?

Cinecurtas ao almoço

Com vista a:
(genericamente)
- desenvolver a capacidade de síntese, o sentido de abstracção e a criatividade;
(especificamente)
- dar a conhecer outras formas de contar histórias mediante o uso criativo de pontos de vistas culturalmente diversos e estratégias variadas, desde as mais convencionais às mais tecnológicas;
- promover um tipo de cinema pouco habitual na oferta existente em Timor-Leste;
(indirectamente)
- facilitar a compreensão e dinamização de disciplinas associadas à literatura, às tecnologias de informação e à informática;

dois docentes da Fundação das Universidade Portuguesas (FUP), Manuel Salvador e Sara Moreira, em exercício de funções na UNTL, no âmbito das formações promovidas pela FUP nessa instituição, contactaram vários cineclubes, designadamente o Cinanima, o Cineclube de Avanca e o Cine Angra do Heroísmo, com vista à realização de uma pequena mostra e promoção de cinema em curta-metragem, a realizar em Timor-Leste, e pensando em especial no público-alvo estudantil universitário.

Já em Dili, entraram em contacto com o Instituto Camões (ICA) com vista a concretizar a referida mostra. Na sequência, segue o convite para um primeiro ciclo a título experimental.

Da programação constarão títulos diversos gentilmente cedidos pelos Cineclubes acima referenciados. A estas entidades um especial obrigado. A selecção dos títulos é da responsabilidade dos organizadores.

Aos futuros espectadores, que uma curta por dia estimule de facto a imaginação e a ousadia! E, em nome da equipa organizadora, muito benvindos!
Isabel Gaspar, do ICA

Check it out (desculpem não tinha as sinopses todas neste PC e não coloco aqui os flyers porque estão feios...)

3 bitaites domingo, 15 de junho de 2008

Vi algo inédito na vida real quando voltávamos de Manatuto, 6ª feira, já era noite, depois dos festejos do Santo António.

Penso que todos conhecem aquelas ilustrações antigas, de livros de crianças, em que está representado um menino com um gorro à anão dos 7 anões, e um pau ao ombro, com uma trouxa de pano na ponta. Como quem se fez à estrada para encontrar a Branca de Neve, ou o Lobo Mau, ou os frutos silvestres da floresta encantada (sei lá, eu não sou muito especialista nestes assuntos de bonecada, apagaram-se da minha memória para dar espaço a zeros e uns). Procurei imagens no Google, unsuccessfully, porque queria ter a certeza de que todos sabem do que falo.

Vi esse menino, acompanhado de outros dois, a caminhar pela estrada, com o céu por cima, o mar ao lado, a trouxa às costas, na ponta do pau.

5 bitaites

No dia de Portugal disse a frase mais complicada de sempre aos meus alunos, em tétum, antes da aula começar:

"Ohin ha'u temke taka servisu tuku neen tanba ohin loron Portuhal no iha festa iha embaixador nia uma. No ha'u temke prepara."


E na foto estão os coleguinhas de casa vestidos a rigor para a festa da nata que houve na casa do embaixador.

2 bitaites

Tenho andado com o coração nas mãos. É assim, no outro dia alguém disse quando chega a meia noite vêm os arrepios (isto descontextualizado soa a poético qual eco no meu avesso de quem está a divagar num espaço qualquer imaginado entre a relva que pisa e as constelações deste lado do equador)

…entro numa cerimónia tradicional dos festejos do Santo António, arrepio-me de olhar as senhoras embrulhadas nos tais, a tocar o batuque com a sua postura impecável. E os homens, decompostos, saltam, dançam, atrás delas, catana em riste, repetindo insistentemente “tama mai” / “entra vem”, o dia inteiro, chamando as pessoas para a festa. Agacho-me, de cócoras, e os meus pés ganham raízes ali à porta.

…cantam “donde vas mariposas vuelen”, sotaque local, com estranhos penteados, pés descalços, num palco ao meu nível, em contra luz mas sei a direcção do olhar, arrepio-me de calor dos trópicos.

…vivo numa balbúrdia de país, com diferenças sociais brutais (não gosto de usar esta palavra, nem que a usem), cravadas nas cores da pele, no dinheiro no bolso, na rotina do dia-a-dia, na fauna que se junta como no jardim zoológico, arrepio-me por estar a viver uma circunstância sociológica única. Por mais doloroso que seja, não há outro país como este, recente, tropical, ferido, invadido.

…ouço o #41 do Dave arrepio-me de outros tempos, “playing time against my troubles, oh”.

…entro no mar quente, arrepio-me de frio.

…penso no futuro incerto, arrepio-me de planos.

2 bitaites

Vi uma cabra nos momentos antes de dar à luz, na berma de uma estrada em Com. Eu nem teria reparado se alguém não me tivesse chamado a atenção para as marcas de sangue que havia à volta. Ela estava tranquila nas descontracções, e escolheu um sítio que me pareceu absolutamente aleatório para o evento. Provavelmente a escolha baseou-se num mecanismo qualquer inato à sabedoria animal, para a qual não estou sensibilizada. Muitas são as vezes em que me deparo boquiaberta com a agilidade destes animais que surgem nos locais mais improváveis, acompanhados pelos filhotes de todas as cores (não todas, claro) a quem dá vontade de fazer festinhas, conseguisse eu subir as encostas mais íngremes, trepar as rochas verticais, içar-me pelas ladeiras em escarpa.

3 bitaites sexta-feira, 13 de junho de 2008

Pergunto-lhe quantos anos faz e oferece-me, de prenda, a resposta que se segue.

Que nasceu no mato, onde muitos viveram durante os 24 anos de ocupação indonésia. A mãe diz que nasceu em 85. O tio (tio de casta, não é irmão do pai nem da mãe, nem casado com alguém que seja) diz que nasceu em 82. A menina que cortou o cordão umbilical diz que já não era altura das chuvas, e que as plantações de milho na planície de Lospalos tinham fruto. Então alguém escolheu o dia 5 de Junho, anos mais tarde, não se sabe quando, na altura em que houve registo de datas de nascimento. Continuo sem saber quantos anos faz. Pergunto-me como seria viver anos e anos no mato, sem saber a quantas se está, sem ter sequer mais marcas sazonais do que a fruta da época. Nós vivemos na apatia da vida que se rege por ciclos de frio e calor, e estamos sempre à espera que o tempo passe até chegarem as férias de Verão, para depois começar tudo de novo.

Se pergunto as horas, olham para a inclinação do Sol.
Se pergunto o peso ou a altura, recebo aquela resposta que mistura sorriso com ligeira inclinação da cabeça para o ombro direito, e um estender de braços com mãos abertas, palmas para o chão. A minha vida é uma agenda que existe num modelo conceptual, no pda e em papel. Porque nos preocupamos nós com tantos números?

6 bitaites segunda-feira, 9 de junho de 2008

O melhor emprego do mundo no Porto a partir de Setembro.

2 bitaites

Há um ror de pessoas que chegam ao meu blog através de pesquisas por:

Tenho um visitante assíduo do Azerbeijão, e outro de um país "not set", que, ao não fazer parte da lista de países do Google Analytics, faz-me supor que terá de ser ainda mais recôndito que este onde estou.

Existe uma grande distância entre ser especialista e acreditar nas estatísticas. Por exemplo, posso dizer com a maior convicção, a título de curiosidade, que o sal em Timor é muito mais salgado e que vem sempre no formato fininho, entre a farinha e o açúcar em Portugal. Logo a seguir vem outro dizer com aquela altivez majestosa de quem cá é rei por dois meses há três anos consecutivos para passar umas apetecíveis férias de verão bem pagas que o sal em Timor é muito menos salgado, e vende-se em cristais enormes.

Não há verdades absolutas, só dolorosas questões existenciais alimentadas pelo lirismo inebriante de algumas quantas almas ingénuas.

O uruguaio fluente em português - embora me agrade o seu espanhol - da UN diz-me que Com é incrível e eu confirmo que parece nem ser Timor com aqueles caixotes do lixo metricamente colocados, a estrada arranjada ("a estrada" é mesmo singular naquela aldeia) e limpa, as pessoas com sorrisos verdadeiramente felizes e ocupações, empregos. Depois ele diz que só é pena
a praia ter crocodilos. Toda a gente sabe que isto é um mito maubere, uma lenda como tantas outras. Não há crocodilos aqui, todos falam deles, mas nunca na primeira pessoa de alguém que os viu. Ao que ele me responde que não acredita que Portugal exista.

8 bitaites domingo, 8 de junho de 2008

Não sou eu quem lês na vida a sério, naquela que não é virtual, perguntam-me porque tens sempre o ar mais triste.


Mesmo nos dias, que se repetem, em que acordo com canto de felicidade, existe nostalgia nas melodias. Mesmo contemplativa, deslumbrada, com vontade de me fundir com a vida, há uma certa melancolia que se prende ao meu olhar. Mesmo no reencontro há muito esperado é como se estivesse envolvida por um abatimento profundo. Na mesma linha, nas despedidas só dou palmadinhas nas costas do outro.

Que sou fleumática, dizem uns, que parece que nada me toca, atiram-me outros à cara, como se isso, por dentro, não me fosse tocar.

Resguardo a minha intenção, mesmo quando desejo muito, com um tímido sério sibilante sim.

5 bitaites quarta-feira, 4 de junho de 2008

Julgo não ter medo da morte, não ter medo do dentista, não ter medo da lepra, não ter medo dos políticos, mas tenho medo dos computadores. Tenho medo da sua falsa inocência, da sua submissão aparente, da sua eficácia tenebrosa, do seu ódio silencioso e vesgo. Já me engoliram um romance inteiro, já me transformaram capítulos em poesia experimental, já retiraram ossos aos meus parágrafos, reduzindo-os a um puré de adjectivos. Por isso escrevo à mão. Escrevo à mão para que os erros sejam meus e as personagens iguais aos da minha cabeça e não resultado da imaginação delirante e asséptica de uma disquete esquizofrénica, inventando situações desconfortáveis e aberrantes como as dos sonhos das gripes. E os computadores imagino-os rugindo numa jaula de circo, sonolentos e de unhas de fora, só possíveis de enfrentar de botas altas, alamares e chicote na mão, obedecendo a contra-gosto às ordens de quem se aproxima deles, tocando-lhes com um pau para os obrigar à complicada proeza de uma frase escorreita. E nos momentos de inconsciência em que carrego numa tecla ou em que me encontro junto de alguém que carrega numa tecla, a pele escurece-me, os ombros curvam-se-me, a camisa dá lugar a um pano do Congo, os pés descalçam-se-me de meias e sapatos, os ruídos de África inundam a sala, ergo a bengala do meu poder às copas das mangueiras em que os morcegos se penduram todo o dia de cabeça para baixo e largo a fugir, aterrado, capim fora, na direcção do rio Cambo onde os olhos dos crocodilos dançam à flor do lodo à espera da imprevidência de um cabrito.

António Lobo Antunes, Crónicas

6 bitaites segunda-feira, 2 de junho de 2008

De Dili para Bali para Jakarta para Singapura para Siem Reap no Camboja volto a Singapura e vou para Johor Bahru na Malásia e depois voo para Bali e regresso a Dili, onde o campo de refugiados em frente ao Hotel Timor foi evacuado.

Estou sentada no aeroporto de Singapura. Trago sapatilhas le coq sportif, calças indonésias, camisola chinesa, carteira timorense. No ipod toca a banda sonora do Frida. Faço contas à semana de férias e perco-me entre os reeis do Camboja, ringgits malaios, dólares de Singapura. Procuro bem a ver se as rupias indonésias me chegam para a noite em Bali, cruzo-me com dólares de Hong Kong e poucos americanos. Lá ao fundo, os euros é que me safam.

Preciso de queimar os últimos cartuchos do cartão de telefone, mas a panóplia de países é limitada. Conheço alguém na Austrália com quem não falo desde a Holanda, há... mmmm... 3 anos? Parece que também vai à Tailândia em Agosto, talvez nos encontremos por lá.

Sinto-me global como Singapura, mas claro que muito menos civilizada que essa babilónia cosmopolita. Little India que podia ser em Nova Iorque, mas com menos brancos, Chinatown no seu lugar, grandes torres espelhadas com marcas ocidentais. Cinema ao ar livre à porta do museu de graça, calor sem mosquitos, transportes eficientes, preocupações ambientais, comida barata. O que é um sítio autêntico?

Sinto compaixão pelo Camboja, depois dos anos sangrentos a ferida infectou com turistas invasores do património riquíssimo.

Sinto-me cansada como a Malásia.

Sinto.

Em Bali o taxista de taxa fixa que me leva do aeroporto para o Hotel, sugere a meio do caminho, que eu vá antes a pé porque está muito trânsito. No aeroporto conheço um deslumbrante e exótico do Tahiti, osteopata, que estudou em Londres com o meu amigo Yassine.

Parece-me que o mundo vai perdendo escala na maquete da minha vida.










 

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