4 bitaites sábado, 24 de maio de 2008



Desta paisagem pode dizer-se bucólica?

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Trovador
Abismo e condor
Vagabundo amador
Sereia canto,
avassalador.

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É um pássaro, mas é um insecto.
É um gato, mas é um cão.

3 bitaites quarta-feira, 21 de maio de 2008



Não sei se é por viver numa grande parvónia ou se foi pela liberdade que senti nos gritos de Ipiranga "Viva Timor Leste" enquanto o "fogo artifisial" subia no céu de Lua cheia, mas caíram-me lágrimas de comoção.



E depois, a grande surpresa...



O Xanana subiu ao palco dos 5 do Oriente para cantar "Ha'u hakerek surat ida" (uma música muito popular que diz algo do género "eu escrevo-te uma carta mas não mostres ao teu pai nem à tua mãe porque se eu morrer quem vai gostar de ti?").



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Ao desmistificar duas facetas de Timor que me deixavam curiosa, encontrei o desencanto e a dor.

O sorriso complacente é uma constante da falsidade. A boa maneira oriental dita que ele deve sempre lá estar. E traz calor ao não pensar no que lhe é anterior. Isto é, muitas vezes me questionei acerca do que passará pela cabeça de quem sorri, porque as caras não são só músculos, têm toda uma máquina por trás. Questionei-me e respondi-me agora, que os sorrisos são de facto só os músculos da cara habituados por quem os mantém forçados, tal como aquela típica posição de cócoras (calcanhares assentes) que a nós, ocidentais, nos impressiona só de ver, mas para eles, orientais, é confortável. Descobri da pior maneira - que é não ter uma explicação mas simplesmente supor - que aquele senhor que todos os dias me enche o coração de sorrisos abertos afinal me tem como ímpia desregrada por ter amigos timorenses, mas não faz parte da sua etiqueta com sinceridade fechar a cara. Há uma resposta típica que retrata bem a mensagem que quero passar. “Senhor, tem goiabas?”, “Tem sim mana. Tem, mas não há.” Nunca se pode dizer não nem mostrar que se acha mal, com mais do que insinuações subtis, que podem perfeitamente passar ao lado de quem não conhece os complexos esquemas que relacionam , à forma timorense, signos, significantes e significados (há tanto que me passa ao lado…).

O pudor nesta terra tropical está bem distante da sensualidade das Áfricas homólogas, o que faz com que apesar da temperatura que procura deleite, da humidade que convida à nudez, Timor no feminino se cubra dos ombros aos joelhos. É ir à praia de águas quentes, e vê-las em banhos (raros) de calções e camisa... (No entanto, ninguém me tira da ideia que o biquini, por menos tecido que tenha, seja menos provocante que o espectáculo Miss Tshirt molhada que a outra opção proporciona.) Parêntesis à parte, dolorosamente percebi toda a vergonha ao ler, no Madre Cacau, relatos de violações, abusos, desrespeitos, durante a ocupação indonésia. No tempo português, era aceite que as mulheres mantivessem o tronco nú usando só as lipas ou os tais como saias compridas. Durante a ocupação eram raptadas miúdas que eram mantidas em caixas nos campos das forças indonésias, ou traficadas para a Indonésia e acolhidas como escravas domésticas, as filhas eram devolvidas às mães em troca do abuso de outras filhas. Como se curam estas feridas? (retórica :)

3 bitaites sexta-feira, 16 de maio de 2008

Os meus olhos prenderam-se no momento dela assim que dei por aquela frase já eco no meu avesso.

Que o tempo, de tão suave, não cursava em si ao mesmo compasso do outro, que havia uma qualquer coisa lenta nos gestos, no ritmo sereno dos braços, como se a colher de mel estivesse sempre a diluir-se-lhe no céu-da-boca. Fosse só o calor. Contemplar a 30 rotações uma catarse deslocada de corpos que não deviam, que podiam não!, estar ali. Hipoteticamente, digo, não é por vontade de que não estivessem, simplesmente por encontrar em alguns desvios aleatórios de olhar uma avalanche de não serenidade, quais diásporas sem contexto.

E continua, ainda agora, a latejar na minha têmpora, a pulsar numa perna "acho que o imperfeito não participa do passado."

7 bitaites quarta-feira, 14 de maio de 2008

Não sei porque motivo aqui parece normal estarmos constantemente a informar os outros, e a ser informados, claro está, de situações actuais e passadas do funcionamento do próprio aparelho digestivo.

Como tal, não podia deixar de partilhar convosco a minha diarreia tropical. Podia usar o eufemismo, “irritação intestinal”, mas neste caso, por tão forte, seria insultuoso, embora rime. Há quem lhe chame “a mal cheirosa escória de estar vivo” (Jorge de Sena), mas a minha escória cheira a rosas porque sou uma princesa. Ando há dois dias a desintegrar-me, e quando a febre estava alta alucinei com imagens de um homem que teve um desmesurado desgosto de amor e contraiu tanto os músculos do coração que não mais o conseguiu abrir ao outro senão passados 30 anos.

Não sei, são ideias que me passam pela cabeça.

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No fim-de-semana fui a Liquiçá com a Marisa, à festa de aniversário do irmão mais novo – 17 – de um aluno dela. Fomos no autocarro “Timor Tours” do tio do aniversariante (nunca tinha visto transporte terrestre tão luxuoso em Timor Leste, já nem me lembrava que existiam autocarros assim – mas não se deixem enganar, era um minibus foleiro), estava o céu laranja, no mar à nossa frente, o Sol a pôr-se, voltamos com o céu cor-de-rosa o Sol que se levantava à nossa frente na montanha. Escrevo para reter que:

… houve discurso no altar das sobremesas, com toalha lilás e flores a enfeitar ligadas por pequenas fitas verdes,

… primeiro a mãe cortou, ao estilo casamento, a fatia de bolo verde cor-de-alface, depois cantou-se os parabéns (primeiro em inglês, depois em bahasa-indonesia), ninguém comeu o bolo, e só depois é que o jantar começou.

… a mesa do jantar tinha frango assado, noodles, arroz amarelo, arroz branco desenxabido (sim, escreve-se assim, fui ver ao dicionário, e também quer dizer insípido, desgracioso, sensaborão – no fundo basta chamar-lhe arroz timorense = água e arroz, sem sal ou estrugido), cogumelos cozinhados com bambu, flor de papaia, coração de bananeira, búfalo assado com batata frita, salada de tomate e pepino, tempé, tofu, mostarda cozida, e não me lembro de mais.

… as meninas, sentadas nas cadeiras de plástico à direita, escreveram os nomes num papel; os meninos à volta das cadeiras à esquerda, escreveram os nomes num papel; a animadora da festa – uma prima do aniversariante – leu os nomes duns e doutros (o meu, “Professora Sara”, foi o primeiro embora eu não o tenha escrito), os convocados juntaram-se na pista e começou o bailarico com o greatest hit “Lá em cima está o tiroliroliro”, versão timorense.

… um grupo fez a dança das cadeiras. A vencedora foi premiada com um pedaço do bolo verde cor-de-alface, oferecido directamente da mão do aniversariante para a boca da contemplada. A isto seguiu-se uma dança só dos dois.

… os meninos vinham da ala deles convidar as meninas para dançar com as mãos atrás das costas, estendiam ligeiramente um dos braços, faziam um aceno subtil com a cabeça e iam-se embora. As convidadas, caso aceitassem, deviam ir atrás deles.

… enquanto assistia e participava nesta cena de outro mundo, por três vezes levei a mão à cabeça e encontrei grilos nos meus caracóis.

… depois de muitas baladas, passou uma música indiana que alimentou nos imberbes (obrigada por esta palavra, Raquel) seres que ali estavam um espectáculo hilariante de se ver. Tal qual este vídeo.

… quando eu e a Marisa nos fomos deitar, começou a verdadeira festa, que não nos deixou dormir. Quando nos levantámos, às 6 da manhã, estavam todos a tomar banho de balde (isto não é surpreendente para ocidental).

… sumptuoso pequeno almoço em Díli às 7 no restaurante Tropical, com croissants, compotas, capuccino e sumo de manga-banana.

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Bartolomeu ficou uma fúria. O tipo tem tanto sentido de humor quanto um rafeiro com sarna. Não aprecia a vida. Na minha opinião passou demasiado tempo em Portugal. Eu também gosto de visitar Lisboa, vou às livrarias, ao cinema, vejo exposições de fotografia, e acho tudo isso muito bom para lavar a alma. Mas nunca fico mais de duas semanas. Três no máximo. A melancolia portuguesa corrompe o espírito, escurece-o, como o frio do outono amarelece e mata as folhas das árvores.
As Mulheres do Meu Pai, José Eduardo Agualusa

6 bitaites terça-feira, 6 de maio de 2008

Acontece por vezes em Timor que me despejam um balde de água fria, mais de perto ou mais de longe, que me congela a espinha dorsal.

Há vários escalões para os professores do pólo da FUP na Universidade Nacional de TL. Eu estou no mais baixo, por não ser professora em alguma universidade portuguesa, e recebo só as ajudas de custo de 1200 USD (bastante miserável tendo em conta e a desvalorização do dólar e o custo de vida inflacionado em Timor pela presença abrupta de internacionais cujo salário mais comum é os 2500 USD dos voluntários UN). Para quem está associado a alguma instituição de ensino superior em Portugal, e é desde assistente a professor catedrático, pode receber ajudas de custo até aos 2200 USD, mais o salário em Portugal. O salário dos professores do resto da UNTL, que funciona na língua bahasa-indonesia, é 200 USD. Este ano há dois professores timorenses a dar aulas aos cursos de Engenharia Electrotécnica e Economia e Gestão da UNTL-FUP. Ambos estudaram e trabalharam em Portugal nos últimos 11 anos, já têm a nacionalidade de Camões. Regressaram agora a Timor para leccionar através do programa da FUP no qual estou envolvida. Qual a minha surpresa quando soube que eles, apesar de não serem profes em Portugal, como eu, não recebem os mesmos 1200 USD mas sim 200 USD, “para não levantar discrepâncias entre os professores timorenses”. Acho isto um escândalo.

O bairro da cooperação onde vivo pertence à embaixada de Portugal e tem um regulamento que dita regras tão interessantes como o que fazer se as lâmpadas fundem, quem é o gestor do bairro, a quem é que este reporta, e através de que intermediários é que nos podemos dirigir a ele. O regulamento indica também que devemos desligar as luzes e fechar as torneiras quando saímos de casa e que não podemos ter visitantes externos depois da meia-noite. Em relação a estas últimas, claro que não ligamos nenhuma e é ver a água a jorrar pelo alpendre, a aparelhagem a tocar e o festival de luzes para chamar mosquitada quando saímos. Claro que há visitas, até de madrugada, quando não a noite inteira, e nunca houve problema algum com isso, salvo excepção: se a visita for timorense, os próprios seguranças timorenses do bairro vêm avisar que é meia noite e que tem de sair porque o regulamento do bairro não permite visitantes depois dessa hora. Acho isto um escândalo.

O barco que faz a travessia para Ataúro tem o bilhete amarelo, para timorense, 2 USD, e o bilhete azul, para malai 5 USD. Quem dita é o ministério dos transportes. Isto não acho um escândalo, nem que os preços dos livros na feira do livro fossem de 1 a 3 USD para timorense, e de 9 a 50 USD para malai. De facto temos mais poder de compra. Por exemplo, um engenheiro informático timorense a trabalhar na Timor Telecom (que pertence à PT) recebe 230 USD, mas um engenheiro informático da PT que venha de Portugal há-de receber os seus 4000, em EUROS.

Fico triste com tantas diferenças, não sei o que vai acontecer à economia do país quando os malais todos desaparecerem daqui (há-de acontecer mais cedo ou mais tarde), vive-se o apartheid em cada esquina, e não há nada que eu possa fazer em relação a isso. Ou há?

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4 bitaites domingo, 4 de maio de 2008


Se eu escolhesse ser flor
vestia-me de buganvília inócua,
no verde abalo da floresta,
na terra frugal que se faz casa.

Entre a minha e a deles há um muro.
Uma parede de bambu
que deixa entrever silhuetas oblíquas,
Uma vedação
de frinchas que transparecem músicas e sombras,
Uma cerca
de madeira que não é alta,
Um plano ténue
onde reside o negativo da minha diferença.

Do lado de cá observo para dentro com os seis sentidos
De lá absorvem as minhas mãos abertas, cabeça baixa
Apaixono-me por todos num gesto de sair de mim para eles.

E é nessa divisória tão frágil
na sua terra batida
que se multiplica
a minha
solidão.

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Estamos em 1966, Manuel Aguiar, um jovem alto elegante de olhos azuis cabelo ondulado, está a fazer o serviço militar para lá da planície de Lospalos, em Lore, na costa Sul do Timor português. Como colonizador, Portugal não interfere na cultura Fataluco que protege os locais na paisagem virgem, no dia-a-dia primitivo. É um luxo poder fazer a tropa na paz de Timor numa altura em que decorrem guerras sangrentas nas colónias africanas. A maior ameaça aqui é o mosquito e o crocodilo domesticado, sagrado, respeitado, com quem os locais têm longas conversas em súplica de protecção. O liurai de Lore, como Rei da comunidade, governador local, foi eleito hereditariamente por uma tradição animista intensa. Tem uma equipa de futebol de mulheres e outras tantas de filhos. Cornélio, 10 anos, chama a atenção de Manuel Aguiar, pelo seu carácter forte, pela sua agilidade nas cavalgadas. Decide fazer um filme com a câmara de 8mm encomendada de Singapura, para registar os costumes locais. Cornélio é o protagonista.

Estamos em 1995, o meu retrato é pintado por Manuel Aguiar – uma paisagem abstracta de tons pastel exóticos que bem que podia ser Timor-Leste. Contemplativa, olho não sei bem para onde, procuro o meu futuro?

Estamos em 2008, encontro-me com o artista Manuel Aguiar para almoçar em Baucau. Está cá de passagem para um projecto de formação artística de carpinteiros e de construção de igrejas modulares em arquitectura timorense. Fala-me desse miúdo em Lore, eu ligo ao meu amigo de lá, Nolasco, conheces um Cornélio que era filho do liurai de Lore em 1966? Conheço sim, é o meu tio com quem vivo em Díli.

Então venham jantar lá a casa na 2ª feira, está cá uma pessoa que lhe quer mostrar um vídeo antigo, e que encomendou uma lagosta conceptual.

 

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