4 bitaites terça-feira, 29 de abril de 2008

Ohin ha'u sosa ona vestido ida furak barak diak capaz ba moris. Kolin hira dolar tolo iha jardim los hotel timor. Ohin ha'u princesa paradiso.

Hoje comprei um vestido lindo lindo lindo de morrer. Custou 3$ no jardim em frente ao hotel timor. Hoje sou uma princesa no paraíso.




Pelo caminho que frequentemente faço de bicicleta até à praia de Cristo Rei para dar aquele mergulho de fim de tarde, vejo o céu de fogo e algodão doce, pescadores que conversam de cócoras, Ataúro ao fundo, umas vezes mais perto, outras mais envolta em nuvens.


4 bitaites segunda-feira, 28 de abril de 2008

Leio na primeira página do Madre Cacau, Timor pelo jornalista Pedro Rosa Mendes lançado na semana passada na Feira do Livro em Português de Díli (compra-me um que aqui esgotou! E outro para ti, o livro é lindo):

“O Avô mais alto rompe no céu a primeira alvorada. Vejo a luz orientar o tempo.

Cumes profundos: mistério, medo e fascínio. Sagrada montanha. Montanha justa.”

Impossível que em mim hoje não esteja pousada uma pele sensível - das que mergulharam em águas termais demasiado ácidas . Hoje, visto o tais e celebro interiormente a cerimónia do respeito pelo que aconteceu há um ano atrás. Julgo que em trezentos e sessenta e seis não houve um dia que passasse sem que me lembrasse, ora por um pé dorido, ora por evocação de um querido, ora por um plano distorcido, dessa fatalidade.”Fora ou acima da experiência quotidiana”, diz ele, ainda a propósito do Ramelau. Indeed, respondo para dentro, qual eco da montanha.

Quero muito voltar lá, e ver o sítio, não tanto o cume. Quem lá foi entretanto diz que é impressionante, tornou-se ponto de interesse nas investidas turísticas, correm boatos sobre a velocidade do jeep, a capacidade do condutor, o espírito dos viajantes. As minhas memórias só encontram emoções. Não há sensações reflectidas em imagens, cheiros, sons, dores. Só o abalo intenso que a minha posição na paisagem despertava em mim. Não ficou o frio da altitude, nem o desconforto da terra molhada, das pedras nas costas. Sons não há, só a barreira invisível que não me permitia comunicar com os timorenses que por ali flutuavam, só o agudo na minha espinha dorsal a cada berro de socorro que o outro dava, só o vazio no estômago quando alguém bem longe dali dizia que estava bem, baixinho, por não conseguir mais alto. O formigueiro no peito quente com os sussurros ao meu ouvido.

Não quero voltar já. A dor era a da morte, é tão fácil morrer. Estás a ouvir? Também podes morrer, pensa nisso na 1ª pessoa. Jamais aquela sensação de fragilidade dos corpos, de morte ao virar da esquina ao cair da estrada. O limbo em meio segundo. Fechar os olhos, quiçá não os abrir mais.

Quando decidi regressar não sabia bem a minha motivação: se romântica, se teimosa, se iludida, se natural. O poeta timorense Abé, no debate sobre o futuro de Timor, falou em “corações serenos mentes tranquilas” de uma “beleza de paz que será verde”, como as lágrimas de jó que existiriam ali pela montanha à minha volta. Eu não as lembro, mas acredito Eu quero ser timorense, quero aprender todas as histórias, a língua, quero estar em sintonia com a natureza, despertar os meus sentidos para a entender. É ela quem reina no crocodilo que se fez ilha. Já lamentei, já perdoei o acidente, já aceitei a minha ingenuidade pós-traumática. Cada qual com a sua paz.

6 bitaites quarta-feira, 23 de abril de 2008

Quando cheguei ao «eco-lodge» de Ataúro, peguei no livro de visitas para me ler de há um ano atrás. 31 de Março de 2007, “Genuíno, único, desconcertante” e quase me dava para a lamechice ao ler testemunhos meus e doutros que estavam comigo. Na altura sabia lá eu como é que o novelo se desenrolaria… É bom poder voltar e viver tudo de novo, igualmente único.

Como primos, de 12 anos…

…andámos descalços, um atrás do outro, por caminhos estreitos de terra com as espigas de milho alinhadas à direita e o areal comprido da maré vaza do lado esquerdo, a arrancar flores e ervilhas comestíveis.
…ao final da tarde, acocorados com os pés no mar levantámos pedras para conhecer as formas das mil e uma espécies - estrelas do mar, peixinhos, conchas vivas, anémonas, algas, caranguejos, búzios com patas.
…tocámos e cantámos o arménio é um trolha da areosa 327 vezes. Quando a história de vida que a música retrata já cansava, passámos ao improviso de outras vidas àquele ritmo.
…à uma da manhã percorremos a margem entre a areia e o mar, eu com uma lanterna a apontar as plantas, o outro junto à água, para caçar os caranguejos fugitivos com as tenazes apontadas ao céu entre mim e ele. Assámo-los vivos na fogueira e comemos com casca.
…até às três jogámos Bintang, levei uma abada e recebi uma grande lição de estratégia do aluno a quem dei um zero a Inteligência Artificial no ano passado.

Às seis da manhã vi o Sol nascer no mar.
Fui a única, mas não senti nem um dos 3 terramotos que houve durante dia e noite.

Às 7 seguimos a penantes em direcção a Makili pelas montanhas da «ilha». Apesar de ser do outro lado da falésia que a praia tem, o caminho pela areia deixou de existir pelos terramotos da véspera. Serpenteamos o caminho denso, as roupas completamente encharcadas em suor, ainda a cantar o arménio. O objectivo deixa de ser o destino e passa a ser a água que há-de haver.

…fizemos corridas a subir caminhos íngremes, atravessamos mais campos de milho.

E chegámos a uma aldeia de palhotas, isolada do mundo, mas que água, escassa na ilha, só a tem canalizada. Aparece um senhor de catana na mão, pergunto já a alucinar pela altitude, pela SEDE “bé ne’ebe?” / água onde?, ele mostra o caminho pelo meio da floresta de bambus gigantes, bananeiras, palmeiras, coqueiros, muito mato, até ao sítio onde as senhoras e crianças da aldeia se lavavam, num cano. A presença masculina incomodava-as, tudo era demasiado intocável, tudo poderia dar uma foto lindíssima, mas vai ficar só nas minhas memórias.

Entrámos nas casas das pessoas, peguei num bebé de mês e falei com a mãe quase sem recorrer a palavras, observada pelos 9 filhos em redor, ofereceram-nos côcos, depois de me saciar com a água ele pega na catana e saca o branco do fruto, prepara-me uma bengala a partir duma árvore qualquer, seguimos, seguimos, paramos com alegria. Passadas 4 horas já vemos a praia ao fundo, os pés dormentes latejam em sonhos com o mar a massajá-los.



Ouvimos dizer por ali que o padre italiano veio da Vila (onde estamos alojados) para Makili dizer/fazer/dar a missa e que tem um barco. Voltámos à aldeia, pedimos-lhe boleia, ele diz que sim há sempre espaço para mais um. Podia ter avisado que o barco era de quatro, e iríamos sete encaixados na canoa, pelo mar revolto das horas da tarde, dos terramotos, da Lua cheia. Maldisse de ter deixado o colete no eco-lodge, mas o mar não estava previsto na caminhada. Tive tanto medo que contei a minha vida toda, cantei aos berros, rezei preces animistas ensinadas por uma aluna depois do acidente, pensei na vida dos conquistadores portugueses, senti muito medo. Ele tirava com baldes a água que entrava.

Quando chegamos à palhota, eu calada prestes a explodir, e foi o que fiz quando entrei sozinha no meu descanso. Brincar com a vida não.

Ai, mas nem por isso deixo de estar encantadíssima.

9 bitaites sexta-feira, 18 de abril de 2008

Vou passar o fim de semana a Ataúro e comprei este belo colete para a travessia marítima.

8 bitaites quinta-feira, 17 de abril de 2008

Ai havia tanto para dizer, tantas palavras, ou algumas outras conjugadas assim como o meu cérebro as pensa, ou noutras formas, noutros modos, que têm tanto para contar… Histórias que vão do interior de um organismo que se adapta, até à relação com os outros, tão complexa. Então se forem timorenses!... É melhor ir por partes, e começar por dizer que hoje não foi um dia qualquer.

Começa com um telefonema de parabéns – é sempre engraçado poder dá-los a alguém com 8 horas de avanço. A enxaqueca era terrível, derivada da profilaxia da malária, que não tem dado pesadelos, mas sonhos bons demais. Claro que eles são a gorjeta pelo latejar encefalóide que atormenta todas as minhas 3ªs feiras (Ferrari, gostava tanto que lesses este post…)(e não, não era ele o aniversariante).

Madrugo entre suores de sonhos que nem sei se foram, ou se só estavam eminentes por outros sinais quaisquer. E a feira popular já corria lá fora, na rua do Hotel Timor, logo à frente da minha janela, nem 7 da manhã eram. O Hotel Timor é o mais caro do país e ridículo na sua prepotência. É também o local onde uma panóplia multinacionalíssima de jornalistas se reúne para decidir o que vai ser manchete por esse mundo fora, acompanhada da calça beije, do gin tónico e umas cigarradas.

Já sabia, porque vi ontem afixado na sala de professores, que hoje não haveria aulas, devido à “Formatura dos alunos para recepção ao Ex.mo Senhor Presidente da República José Ramos Horta”. Terceiro mundismo, pensei, com aquela risada irónica para dentro, e acrescentei que ao menos poderia dormir um pouco mais já que a enxaqueca estava a matar-me, bem como as precedentes noites pouco dormidas, pelos sonhos ou pelas insónias, propositadas ou involuntárias. Mas a feira popular deixou-me curiosa, vesti a camisa branca com o alfinete-libelinha, e pus-me a andar sem o pequeno almoço.

Logo a seguir, isto vai ser forte, pensei, arrependendo-me (em tétm, há’u hanoin-hikas, ou “voltando a pensar”, re-traduzindo à letra) no estômago vazio, quando vejo gente e gente e gente, com os melhores fatos, e crianças com bandeirinhas de Timor. Por mim passa um miúdo de dois anos – eles andam sozinhos pela rua – que usava uns calções grandes demais para as suas pernas raquíticas, azul turquesa forte, com pregas e com a marca vertical do ferro de passar, um colete da mesma cor, e na mesma desproporção, uma t-shirt branca por baixo. Vê-me a mim, branca, vestida nas mesmas cores, com uma expressão entre o sono, a fome e o sorriso, e corre para as pernas de alguém que estava uns metros à frente. Assim sente-se seguro da monstra-malai que não pára de o observar, mas continua a espreitar ora pela esquerda, ora pela direita das pernas do pai.

Sol abrasador e pouco passa das 8, já pingo pelas costas. Os miúdos são milhares e têm todos as bandeiras mais ou menos serpenteantes, têm todos os uniformes das escolas. Pólos de botões no decote, com o tronco de cor forte e diferente da das mangas. Estão ansiosos, contentes, olham-me como se fosse um momento só deles, estão tão contentes e inquietos na sua formatura ao longo da marginal em frente ao Palácio do Governo, que se tornam foliões em ovações sucessivas ao camião do lixo que passa na estrada, qualquer ciclista, um jeep, outro, muitos. E o presidenti, ba nee’be? Decido circular em busca de um tiga roda (três rodas) que me venda umas bolachas e um sumo para enganar a fome. Sigo com as bolachas de chocolate e a lata de sumol. Parecem-me tão erradas neste contexto, apetece-me oferecer comida aos outros, e logo a seguir sinto a pequenez da minha vontade. Se pudesse escolher alguém, a quem ofereceria a minha comida?

Contorno o quarteirão do Palácio, e lá atrás, na Universidade sou eu quem é aclamada como se fosse o Ramos Horta, mártir, “ressuscitado”, ao lado do Papa em fotografias nas t-shirts brancas de tantos. Já nem coro em Timor. Fotografo-os descaradamente, e aos alunos que se penduraram por cima daquele vão que cobre os três degraus de entrada na Universidade. A porta do Parlamento fica do outro lado, e é o destino do Presidenti que está para vir. Continuo a circular, volto à marginal, encontro a Verónica e o Mateus, e mais não sei quantos alunos pelo caminho. Pocuro um spot onde possa ficar para assistir ao espectáculo de 3 minutos em que o FBI, CIA, Grupo de Operações Especiais, SWAT Team, ONU, Embaixadores, Diplomatas, Serviços Secretos. TODOS dentro de grandes jeeps blindados, janelas espelhadas, metralhadoras, sirenes, bastões. Um aparato digno de Hollywood, seguido de uma corrida cómica do povo pelo Palácio do Governo adentro.



(Estranhei que este, desde o atentado, ao contrário do ano passado, tenha fechado a sua passagem pelos jardins. No ano passado era comum fazer essa travessia a pé, já que o Palácio está a meio caminho entre o bairro e a embaixada, e o bom peixe do Rocela. Agora por questões de segurança, labele, não pode passar. No entanto, no dia em que o Presidenti lá está, o povo todo, eu também, entra por ali em corridas descontraídas e sem controlo algum. Não pude fotografar porque estava demasiado concentrada no movimento perna,-joelho-pé-havaiana da incursão acelerada.)

Acaba-se o espectáculo – de louvar a equipa de robocops timorenses protectores do novo-mártir – e celebro com goiaba no Café Brasil. Isto tudo dá-me uma lufada de Moodle cerebral e de repente dou por mim com a disciplina de Inteligência Artificial já toda preparada na plataforma de e-learning. Almoço no timorense com a Marisa, porque desde que experimentei nunca mais consegui esquecer aquele sumo de lima com gelo granizado BRUTAL, desisto do download de 15MB do cartaz para o ciclo de cinema que tento fazer há 3 dias no bairro, e vou à Timor Telecom. Em 10 minutos a ligação dedicada por satélite à net acaba com o desespero raisparta a net em Timor que me tem atormentado e alimentado enxaquecas. Não me deixo ficar por aqui, e vou imprimir os cartazes depois da análise de mercado loja-a-loja das impressões a cores A3. Deixo os cartazes na UNTL, sigo de bike para a Areia Branca a tempo do pôr-so-sol mágico com sumo de papaia e limão (Construíram em 5 dias uma auto-estrada pela marginal, para que o Presidenti pudesse chegar a casa sem buracos, o que torna muito mais suaves estas investidas em duas rodas até à praia).

Em casa tenho uma lagosta indescritível que sugo até ao tutano com todos os dedos e dentes e martelos de pedras, durante 45 minutos non-stop. Quero lá saber dos meus ruídos na ingestão!...

E porque 5ª é noite de Motion. lá vamos nós participar nesta fauna de relações entre deslocados. Como vieram aqui parar? Que estou em aqui a fazer? Chega a hora da cinderela, recolho até à palhota, já trago a guitarra na mão, não participo na conversa, e só penso em duas coisas:

  • É assim viver em estado de sítio.
  • Ai havia tanto mais a dizer…

3 bitaites segunda-feira, 14 de abril de 2008

Altos silêncios da noite e os olhos perdidos,
Submersos na escuridão das árvores
Como na alma o rumor de um regato,
Insistente e melódico,
Serpeando entre pedras o fulgor de uma idéia,
Quase emoção;
E folhas que caem e distraem
O sentido interior
Na natureza calma e definida
Pela vivência dum corpo em cuja essência
A terra inteira vibra
E a noite de estrelas premedita. A noite! Se fosse noite. . .
Mas os meus passos soam e não param,
Mesmo parados pelo pensamento,
Pelo terror que não acaba e perverte os sentido
A esquina do acaso;
Outros mundos se somem,
Outros no ar luzes refletem sem origem.
É por eles que os meus passos não param.
E é por eles que o mistério se incendeia. Tudo é tangível, luminoso e vago
Na orla que se afasta e a ilha dobra
Em balas de precário sonho...
Tudo é possível porque à vida dura
E a noite se desfaz
Em altos silêncios puros.
Mas nada impede o renascer da imagem,
A infância perdida, reavida,
Nuns olhos vagabundos debruçados,
Junto a um regato que sem cessar murmura.


Ruy Cinatti

4 bitaites domingo, 13 de abril de 2008

Ó pá esta tenho de contar aqui, é surreal.

Eu já tinha reparado que havia uma folha A4 branca com uma dobra a meio na mesa do computador fixo da minha casa, mas nem me questionei sobre a sua utilidade... O bairro tem 6 casas, cada casa tem 6 quartos e um PC para partilha dos habitantes da casa. Aqui, eu, o G. e o G. temos portátil e não usamos o fixo, mas o sr. camisa-sem-cuecas, always in a bad mood, lá costuma usar o PC para ver se o salário da Universidade da Beira Interior já lhe caiu na conta do BES, para juntar aos 2000 dólares de "ajuda de deslocação" que a FUP lhe paga (sobre estas desigualdades falarei mais tarde, são um escândalo). Para além do homebanking, costuma frequentemente consultar a sua conta de hotmail, que como quase toda a gente sabe, tem sempre aqueles banners publicitários demasiado animados no topo da página, com palavras que mexem e animações de logotipos e cenas assim.

Não é que o louco sempre que vai ver o email pousa a folha A4 dobrada no topo do monitor do PC para tapar os banners que o deixam mal disposto??

Isto tudo ao som dos seus tiques nervosos de gemidos, suspiros, tosses, puxanços de catarro, sussurros, resmunguices. Aiiii e toda a gente sabe como eu odeio estes barulhos.

TIREM-NO DAQUI!!

6 bitaites

Sarita-torrão-de-açúcar e as 10 formiguinhas do mar:

Sarita transportando um cacho de bananas vermelhas e uma cesta de anonas para a casa das refeições (casa 1):
Sarita colocando a nova cortina sari indiano autêntico comprado por 2$ no mercado Lahane:

Sarita ensopadinha e com decote sexy depois de um passeio de bike ao final da tarde:

Sarita feliz a regressar de Liquiçá (as restantes 5 bicicletas estão por cima da mikrolet):

4 bitaites quarta-feira, 9 de abril de 2008

O dia de hoje finalmente trouxe tranquilo e sereno sorriso.
Apesar das poucas horas de sono – dar aulas às 8 é duro – decidi não continuar com a neura de ontem, que já não podia ver ninguém no meu caminho e só queria fugir para me deitar numa qualquer relva isolada.

O céu limpou-se de nuvens.
Nas aulas, os alunos têm imenso potencial e de facto percebem e aprendem rápido e falam português e riem-se das piadas e sabem continuá-las. Quando acabo aparecem dois antigos alunos do ano passado a visitar-me, que bom! Sigo depois até ao médico-jeitoso a perguntar onde posso fazer fisioterapia, ao que ele me responde com um passe para a clínica chinesa – estou curiosa…

Pelo Nolasco aguardo na palhota enquanto toco guitarra. Comprei-a na 2ª ao fim da tarde no Jacinto, supermercado para locais, por $18. A mais foleira que se pode pedir, mas vale pelo espectáculo que se montou no Jacinto: apareço eu, malai assumida, sozinha a pingar suor e com a camisa colada às costas, de bicicleta na hora do fecho, e insisto em transportar a viola na mochila. (Enquanto escrevo estou a tentar não perder o gafanhoto verde alface gigante da minha sala de vista.) Tendo em conta que a mochila do mini-portátil é três vezes menor que o dito instrumento, o encaixe seria tarefa fisicamente impossível não fossem as "manas" a criar uma autêntica escultura com cordas no meu tronco. Não foram necessárias 24 horas para que as bolhas nos dedos da mão esquerda rebentassem, compulsiva, já toco quatro músicas. Vamos almoçar a um restaurante timorense lindo de flores de plástico, toalhas de plástico, tempé, tofu, peixinho frito, arroz branco, abóbora ($1,75). Alguns olhares jocosos da comunidade – que faz esta malai com o rapaz – e Timor ainda surpreende em cada sorriso. Neste ponto do dia já me sentia perfeitamente bem.

Sigo para o aeroporto onde passamos a sala de embarque e entramos na pista de aterragem para ver haka neo-zelandês – a mudança animal aborígena intensa rugbyesca do turno de 6 meses da polícia (houvesse banda larga para carregar o vídeo para o Youtube!).

O céu pintou-se de rosa enquanto seguia pela marginal montada na Vespa da Luísa. Faço contas a quem vem e sei agora que somos fugitivos de algum tipo de desconforto. Porque será que aqui tudo faz sentido? E até quando? Desce o sumo de abacate com chocolate na Dona Fina, sobem os olhos para o céu - no regresso ao bairro, tenho um braço da Via Láctea à volta dos ombros.

4 bitaites sábado, 5 de abril de 2008

Hoje fomos, 5, pela marginal de Díli a Liquiçá, de bicleta, 35km e voltámos de Mikrolet.



4 bitaites sexta-feira, 4 de abril de 2008

A pedido de alguém por quem nutro bastante respeito e admiração, tentarei, sem prometer que consiga, encurtar os meus longos posts. E a essa pessoa só digo: ontem, numa noite de céu estrelado, conheci o régui de timor, tocado por timorenses, neste paraíso praieiro e do calor. Toma lá que não levas mais nada sobre esse assunto (havia tanto a dizer...)!

E digo também à família: mandem lá a cera depilatória!

1 bitaites quarta-feira, 2 de abril de 2008

Essa propriedade física, a inércia, comanda os meus dias, para o bem e para o mal. Não julguem que é torpor, é só uma incapacidade do meu corpo modificar o estado de contemplação ou de actividade em que se encontra: posso passar uma tarde inteira a dormir ou horas seguidas a preparar disciplinas com afinco e planos com empenho, a produzir materiais, convites, powerpoints, problemas, textos. E é a isso que eu e os cientistas chamamos inércia.

Estou cheia de vontade, nem que a vontade seja só ficar quando chove cães e gatos. Mas julgo que isso vai passar depois da saudação de hoje ao Sol.

O ciclo de “Cinema Paraíso” vai andar para a frente. Já angariei habitantes do bairro para se juntarem ao meu plano de alongamentos diário (chamei-lhe “Hora do Mosquito”, às 19h, no jardim para marrecos e empenados). Recebi de presente emprestado transporte em duas rodas para fazer investidas à Areia Branca, mercados e arredores.

E na Universidade, claro, estou cheia de ideias. Tenho aulas todos os dias das 8 às 11h (primeiro Gestão de Sistemas Computacionais, depois Inteligência Artificial) com a mesma turma de 15 do 3º ano. Vou ficar a conhecê-los bem. O Euclides é meu aluno às duas disciplinas, e esteve a fazer como trabalho de estágio em Janeiro / Fevereiro a instalação e configuração do Moodle na UNTL. Para além disso criou agora a sua empresa de produtos locais – arroz e feijão verde – e está cheio de planos para mudar Timor. É raro conhecer alunos assim.

Hoje a aula de Inteligência Artificial roçou o filosófico e deixei-os bastante indignados: então há computadores que imitam corpos de pessoas, e sensações humanas, e ideias abstractas? Até arte criam? Fico sempre um pouco frustrada quando penso que daqueles devaneios seguem para as suas tendas, num campo de deslocados, num jardim municipal qualquer.

Anteontem depois de um jantar surreal a três no Café Brasil (ficamos uma hora e tal à espera que trouxessem o caril de peixe, e só aí, já a stressar, nos lembramos que ainda não tínhamos pedido nada – também não nos perguntaram), ao regressar a casa pela rua da Universidade, cruzamo-nos com o colega do carrinho que vende bolachas, água, cervejas, cigarros, entre outros “Então, para onde vais?”, diz ele. Eu fiquei meia confusa “Para onde? Bem, para o Bairro em Colmera…” e ainda nem tinha acabado e já me estava a partir a rir. Nós dizemos “Como vais?”, eles dizem “Ba ne’ebe?”, e traduzem “Para onde vais?”. A isto tudo só se responde, bem, obrigada, diak, obrigadu barak. Nem “vou a pé”, nem “para casa”. Sim, nem um nem outro. Ele há coisas…

2 bitaites terça-feira, 1 de abril de 2008

- tiiiia! onde estás?
- estou em timor...
- em tiimúô? anda para aqui, já!

1 bitaites

(...)
Se eu pudesse
pelos tórridos sóis
cavalgar embevecido
de encontro a mim mesmo
nas serenas planícies do capim
e sentir o cheiro de animais
bebendo das nascentes
que murmurariam no ar
lendas de Timor

Se eu pudesse
pelas tardes de calma
sentir o cansaço
da natureza sensual
espreguiçando-se no seu suor
e ouvir contar as canseiras
sob os risos
das crianças nuas e descalças
de todo o Timor

Se eu pudesse
ao entardecer das ondas
caminhar pela areia
entregue a mim mesmo
no enlevo molhado da brisa
e tocar a imensidão do mar
num sopro da alma
que permita meditar o futuro
da ilha de Timor
(...)

http://timordonorteasul.blogspot.com/

 

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