1 bitaites sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

O Fernando enviou este texto há uma temporada atrás, e partilho-o agora convosco.

"Em cada 100 euros que o patrão paga pela minha força de trabalho, o Estado, e muito bem, tira-me 20 euros para o IRS e 11 euros para a Segurança Social.
O meu patrão, por cada 100 euros que paga pela minha força de trabalho, é obrigado a dar ao Estado, e muito bem, mais 23,75 euros para a Segurança Social. E por cada 100 euros de riqueza que eu produzo, o Estado, e muito bem, retira ao meu patrão outros 33 euros. Cada vez que eu, no supermercado, gasto os 100 euros que o meu patrão pagou, o Estado, e muito bem, fica com 21 euros para si.

Em resumo:

Quando ganho 100 euros, o Estado fica quase com 55.
Quando gasto 100 euros, o Estado, no mínimo, cobra 21.
Quando lucro 100 euros, o Estado enriquece 33.

Quando compro um carro, uma casa, herdo um quadro, registo os meus negócios ou peço uma certidão, o Estado, e muito bem, fica com quase metade das verbas envolvidas no caso.

Eu pago e acho muito bem, portanto exijo: um sistema de ensino que garanta cultura, civismo e futuro emprego para os meus filhos.
Serviços de saúde exemplares. Um hospital bem equipado a menos de 20 km da minha casa.
Estradas largas, sem buracos e bem sinalizadas em todo o país. Auto-estradas sem portagens. Pontes que não caiam.
Tribunais com capacidade para decidir processos em menos de um ano.
Uma máquina fiscal que cobre igualitariamente os impostos.

Eu pago, e por isso quero ter, quando chegar, a reforma garantida e jardins públicos e espaços verdes bem tratados e seguros. Polícia eficiente e equipada.
Os monumentos do meu país bem conservados e abertos ao publico, uma orquestra sinfónica. Filmes criados em Portugal. E, no mínimo, que não haja um Único caso de fome e miséria nesta terra.

Na pior das hipóteses, cada 300 euros em circulação em Portugal garantem ao Estado 100 euros de receita.

Portanto, Sr. Primeiro-ministro, governe-se com o dinheirinho que lhe dou porque eu quero e tenho direito a tudo isto.

Um português contribuinte."

4 bitaites terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

No sábado - 1 de Março - há nova toma de inaugurações em Miguel Bombarda. É sempre uma tarde bem passada. Sugiro:

  • a exposição «le livre des merveilles du monde‏» da prima Mary no Muuda (por coincidência este espaço muito giro é de uma ex-chefe minha da Seara.com)

  • o processo documental «Projecto Morro» no espaço petit cabanon da irmã Inês.
  • o CCBombarda tem criado um ambiente cheio de vida (quase ao estilo Alice, pelo menos aos olhos da minha Violeta que fica encantada com tantas cores, disfarces e sons).

Vemo-nos LÁ.

3 bitaites

Aconteceu-me há uns tempos atrás ir ver "Il Caimano" do Nani Moretti ao cinema do Campo Alegre e ser surpreendida pela projecção de uma curta chamada "História Trágica com Final Feliz", da Regina Pessoa, que agora vos deixo. Enjoy:

4 bitaites domingo, 24 de fevereiro de 2008

Fico extasiada durante uns minutos com os fenómenos de dispersão global.

Neste labirinto onde tenho vivido, cruzo-me num momento fácil com o coleccionador de beijos que em tempos procurei, ansiei, nos corredores errados. Ele tinha o que eu julgava mais valioso. Depois tirou-o do bolso e mostrou-mo, sem cerimónia e eu nem apreciei.

A Raquel acorda-me da epifania e ri a música "someone told me that you have a boyfriend that looks like a girlfriend".

Volto a mim, fica a onda magnética que sou e que balança em fases assíncronas com as de outros.

Acontece prai duas vezes por dia, desde há meses, olhar para o relógio e ver que são 11 e 11. Para além do palíndromo numérico perfeito, por acaso trata-se também do meu dia de anos.

Estou curiosa para ver como é que este fenómeno se reflectirá noutros fusos horários.

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade

2 bitaites sábado, 23 de fevereiro de 2008

Há um je ne sais quoi em algumas músicas interpretadas ao vivo por algumas pessoas, que me desconcerta. E a linguagem corporal, essencial, que revela nas expressões faciais, como toda a gente sabe, coisas bem mais dizedoras sobre o sustento do som.

Adoro bigodes, de gato.
Passámos como rainhas (já nem éramos princesas) pelos corredores carmim e populados da casa, entrámos, os melhores lugares. Mesmo à minha frente um espectáculo quente que acendeu em mim as palavras da Marta Ren "my fire is burning orange blue".

Saí apaixonadíssima a dizer muitas coisas com os braços e um sorriso que faz doer as bochechas. A Annie em dois tempos debitou uma sequência, mais que conveniente, exacta!, sobre a envolvência invasora.

E passo a citá-la:

Esqueci-me de te ouvir, quando cantavas.
De olhar bem fundo nos teus olhos e beber as tuas palavras como mel,de sentir a tua pulsação - veia com veia, sangue com sangue, pele com pele - e a voz quedar-se-me muda, as mãos quietas, ainda que trémulas.
De avançar e seguir-te por uma rua, sem mudar de direcção e sem que a rua acabe. ou, se acabar, que tu mudes de direcção e que os teus olhos parem.

Nos meus.
E que não seja preciso um toque , nem um sorriso, mas que as palavras que não dizemos se bastem.
Quando somos só nós.
*

Ela sorri e interpela-te. Ganha coragem, enche o peito do coração grande que lhe assiste, e beija a suavidade do teu respirar. Tu cruzas um pé sobre o outro e aumentas a distância. O teu bigode encavalitado sobre os lábios finos, a boca pequena, fechada a meia voz, para que ouro que te não sai pela boca seja só teu.

De perfil. Falas com ela de perfil, ainda que estejas de frente. Guardas-te, resguardas-te, mas pedes-lhe um cigarro. Ela adianta-se e dá-te lume. Dar-te-ia a mão, ainda que o não saiba. Sem que seja necessário sair daqui e ir para o mundo encantado de pele de que lhe falas com a tua boca grande. Escondida sob o farto bigode escuro.

Ontem, no dia em que o cd (claro que é original! eu não saco) do Jorge chegou a Timor, dia esse em que pela 4ª vez em pouco mais de duas semanas a data «8 de Março de 1914» de certa forma se repete, deixei transparecer o meu coração aberto.

0 bitaites sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Embora esteja em espanhol, é um dos textos mais esclarecedores que já li sobre a situação em Timor. Vejam lá >

2 bitaites

"eu quero ir eu quero ir eu quero ir eu quero ir atrás de ti...."

apareçam e vejam com os vossos ouvidos o que de bom se faz em Portugal:
JORGE CRUZ às 23h30 no contagiarte.

(para quem ainda não conhece, espreitem o post sobre ele)



2 bitaites quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

...um diálogo hilariante assinado pelo Fernando Pessoa! Leiam, vale a pena!


"(...) -O seu olhar tem qualquer cousa de música tocada a bordo de um barco, no meio misterioso de um rio com florestas na margem oposta.
- Não diga que é uma noite fria de luar. Abomino as noites de luar... Há quem costume realmente tocar música nas noites de luar...
- Isso também é possível... E é lamentável, está claro... Mas o seu olhar tem realmente o desejo de ser saudoso de qualquer cousa... Falta-lhe o sentimento que exprime... Acho na falsidade da sua expressão uma quantidade de ilusões que tenho tido...
- Creia que sinto às vezes o que digo, e até, apesar de mulher, o que digo com o olhar...
- Não está sendo cruel para consigo própria? Nós sentimos realmente o que pensamos que estamos sentindo? Esta nossa conversa, por exemplo, tem visos de realidade? Não tem. Num romance não seria admitida.
- Com muita razão... Eu não tenho a absoluta certeza de estar falando consigo, repare... Apesar de mulher, criei-me um dever de ser estampa de um livro de impressões de um desenhista doido... Tenho em mim detalhes exageradamente nítidos... Dá um pouco, bem sei, a impressão de realidade excessiva e um pouco forçada... Acho que a única cousa digna de uma mulher contemporânea é este ideal de ser estampa. Quando eu era criança criança queria ser a rainha de um naipe qualquer num baralho de cartas antigo que havia em minha casa... Achava esse mister de uma heráldica realmente compassiva... Mas quando se é criança, tem-se aspirações morais destas... Só depois, na idade em que as nossas aspirações são todas imorais é que pensamos nisso a sério...
- Eu como nunca falo a crianças creio no instinto artístico delas... Sabe, enquanto estou falando, agora mesmo, eue stou querendo penetrar o íntimo sentido dessas cousas que me estava dizendo... Perdoa-me?
- Não de todo... Nunca se deve devassar os sentimentos que os outros fingem que têm.
São sempre demasiado íntimos... Acredite que me dói realmente estar-lhe fazendo estas confidências íntimas, que, se bem que todas elas falsas, representam farrapos da minha pobre alma... No fundo, acredite, o que somos de mais doloroso é o que não somos realmente, e as nossas maiores tragédias passam-se na nossa ideia de nós.
- Isso é tão verdadeiro… Para quê dizê-lo? Feriu-me. Para que tirar à nossa conversa a sua irrealidade constante? Assim é quase uma conversa possível, passada a uma mesa de chá, entre uma mulher linda e um imaginador de sensações.
- Sim, sim… É a minha vez de pedir perdão… Mas olhe que eu estava distraída e não reparei realmente em que tinha dito uma cousa justa… Mudemos de assunto… Que tarde que é sempre! Não se torne a zangar… Olhe que esta minha frase não tem sentido absolutamente nenhum…
- Não me peça desculpas, não repare em que estamos falando… Toda a boa conversa deve ser um monólogo de dois… Devemos, no fim, não poder ter a certeza se conversámos realmente com alguém ou se imaginámos totalmente a conversa… As melhores e as mais íntimas conversas, e sobretudo as menos moralmente instintivas, são aquelas que os romancistas têm entre duas personagens das suas novelas… Como exemplo…
- Por amor de Deus! Não ia decerto citar-me um exemplo… Isso só se faz nas gramáticas; não sei se se recorda que até nunca os lemos.
- Leu alguma vez uma gramática?
- Eu nunca. Tive sempre uma versão profunda a saber como se dizem as cousas… A minha única simpatia, nas gramáticas, ia para as excepções e para os pleonasmos… Escapar às regras e dizer cousas inúteis resume bem a atitude essencialmente moderna. Não é assim que se diz?
- Absolutamente… O que tem de antipático nas gramáticas (já reparou na deliciosa impossibilidade de estarmos falando neste assunto?) – o que há de mais antipático nas gramáticas é o verbo, os verbos… São palavras que dão sentido às frases… Uma frase honesta deve sempre poder ter vários sentidos… Os verbos!... Um amigo meu que se suicidou – cada vez que tenho uma conversa um pouco longa suicido um amigo – tinha tencionado dedicar a sua vida a destruir os verbos…
- (Ele porque se suicidou?)
- Espere, ainda não sei… Ele pretendia descobrir e fixar o modo de não completar as frases sem parecer fazê-lo. Ele costumava dizer-me que procurava o micróbio da significação… Suicidou-se, é claro, porque um dia reparou na responsabilidade imensa que tomara sobre si… A importância do problema deu-lhe cabo do cérebro… Um revólver…
- Ah, não… Isso de modo algum… Não vê que não podia ser um revólver?...
Um homem desses nunca dá um tiro na cabeça… O senhor pouco se entende com os amigos que nunca teve… É um defeito grande, sabe?... A minha melhor amiga – uma (deliciosa) rapaz que eu inventei.
- Dão-se bem?
- Tanto quanto é possível… Mas essa rapariga, não imagina, (…)"

1 bitaites

Existe uma vida em mim que vai para além da vida vivida. Oferecem-me, em tempo, e recebo, em margem de manobra, um espaço cerebral tabulado “way beyond limits”. Para chegar lá basta pisar, sem que o saiba, uma qualquer linha fronteiriça e seguir.

E dou por mim já a ver-me de fora, na mesma contemplativa, como se estivesse a analisar a paisagem interior por dentro do meu sonho, com traços perfeitamente delineados do que vou estar a fazer naquele outro tempo, e com quem, e como. Até o calor na pele eu sinto e parto-me a rir em voz alta no espaço vivido, confundo os sentidos do espaço pensado, falo o diálogo imaginado.

fantasia

do Lat. phantasia < Gr. phantasia, imagem
s. f.,
imaginação;
em que há imaginação;
obra de imaginação;
devaneio, sonho, ficção.

do Lat. phantasia < Gr. phantasía, imagem
s. f.,
capricho, extravagância;
adorno, arrebique;
variação musical sobre um tema musical, ao arbítrio do artista;
paráfrase de uma ária de ópera;
quadro em que o pintor se afastou das regras estabelecidas, para seguir a sua imaginação;
vestimenta para disfarce faceto ou burlesco no Carnaval ou em outras festas.

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Não é que eu ligue muito à Lua, nunca tive daquelas contemplações poéticas pelo astro, apesar da minha certeza durante anos que ia ser astrónoma. Faço mais o estilo constelações. Gosto sempre de assistir (e divulgar) visões raras de planetas, passagens etéreas de cometas, e claro está, eclipses.

Para hoje sugiro:

00h 36m - Entrada da Lua na penumbra
01h 43m - Entrada da Lua na sombra
03h 00m - Início do eclipse total
03h 25m - Máximo do eclipse
03h 50m - Fim do eclipse total
05h 07m - Saída da Lua da sombra
06h 15m - Saída da Lua da penumbra

(mais informação aqui >>)

Como olhar tanto tempo seguido para o céu cansa, devem colar na televisão, e usar os intervalos para espreitar pela janela! É que hoje vão passar na RTP1 os dois primeiros episódios de uma série sobre Timor à 01h55 (mais informação aqui >>).

(Não é que eu pense não estar acordada para assistir a tudo isto mas... Alguém sabe como se gravam programas de televisão hoje em dia, sem VHS? )

4 bitaites terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Estou a pensar organizar um ciclo de cinema em Timor para os alunos da Universidade, que naturalmente não têm acesso a filmes. Em Timor não existe um único cinema. A organização do ciclo será um pouco ad hoc: temos projectores que a FEUP ofereceu, temos paredes brancas e um clima óptimo para fazer as projecções ao ar livre, no átrio da Universidade.

A ideia surgiu do grande vazio cultural que reconheci no ano passado aos meus alunos. Se por um lado têm vidas extremamente difíceis (grande parte deles vivem em campos de refugiados em jardins da cidade, sem electricidade nem água), por outro lado nem têm oportunidades de contacto com algum tipo de arte porque a cidade simplesmente não disponibiliza. Assim, sinto que é quase minha obrigação dar-lhes a mostrar um pouco do mundo exterior. Gostava de conseguir compilações cinematográficas que exteriorizassem optimismo, confiança, segurança. Visto que o pólo da Universidade Nacional onde trabalho funciona em cooperação com o IPAD e a Fundação das Universidades Portuguesas, seria interessante e produtivo mostrar-lhes filmes em língua portuguesa. De qualquer das formas, prefiro privilegiar o cinema europeu mas que seja fácil de assimilar, tendo em conta certas limitações que os alunos têm.

Contactei alguns cineclubes portugueses a perguntar se podiam disponibilizar alguns dvds de qualidade em jeito de cooperação com a nossa ex-colónia, que possam servir para este ciclo de cinema. Posso trazê-los de volta em Agosto, ou, posso deixá-los na Biblioteca da Universidade para futura utilização dos alunos.

Para já recebi feedback positivo do Cinanima e do Cineclube do Porto :)

De qualquer das formas, tendo em conta que não sou expert no assunto, a vossa opinião será valiosa! Sugestões?

3 bitaites segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Pode ser a pessoa mais linda, intrigante, misteriosa, interessante, mas assim que dá aquele erro de português perde para aí uns 50 pontos.

Qualquer erro é mau; todos nós os cometemos. Mas este de que falo é péssimo, dá-me náuseas, e pode dividir-se em duas categorias: as palavras inventadas (tipo "fizes-te") ou a troca imperfeita do pretérito perfeito do indicativo pelo presente do indicativo combinado com o pronome reflexo "te".

Para o primeiro caso, pouco há a fazer. Trata-se de ignorância redonda.

Para o segundo caso, sugiro que, em voz alta, acentuando a sílaba tónica, se questione: "quero dizer mos-TRAS-te ou MOS-tras-te?".

Quando tenho alguma discussão em algum mundo virtual no qual vou vivendo parte da minha vida (sms, chat, ...), dou-me como vencedora (e dou a conversa como terminada) quando sou ignobilmente acusada. Pfff...

exemplo: "Sua vaca, o que fizes-te é inaceitável e com isso mostras te bem do que és capaz." Bah...

(O exemplo dado acima é ficção literária. Qualquer semelhança com a realidade trata-se - ou tratasse??? - de pura coincidência.)

2 bitaites



Bill Withers - Use Me na voz da Fiona Apple

My friends feel it's their appointed duty
They keep trying to tell me all you want to do is use me
But my answer yeah to all that use me stuff
Is I wanna spread the news that if it feels this good getting used
Oh you just keep on using me until you use me up
Until you use me up

My brother sit me right down and he talked to me
He told me that I ought not to let you just walk on me
And I'm sure he meant well yeah but when our talk was through
I said brother if you only knew you'd wish that you were in my shoes
You just keep on using me until you use me up
Until you use me up

Oh sometimes yeah it's true you really do abuse me
You get in a crowd of high class people and then you act real rude to me
But oh baby baby baby baby when you love me I can't get enough
I and I wanna spread the news that if it feels this good getting used
Oh you just keep on using me until you use me up
Until you use me up

Talking about you using me but it all depends on what you do
It ain't too bad the way you're using me
Cause I sure am using you to do the things you do
Ah ha to do the things you do

2 bitaites domingo, 17 de fevereiro de 2008

2 bitaites sábado, 16 de fevereiro de 2008

[Gustav Klimt - Bosque de Bétulas ]

Não sei se soube agora pela primeira vez ou se só agora tomei consciência do que já conhecia antes, por senti-lo diferente, o calor da sensação rara que é ouvir do outro aquilo que queremos para nós. Pouquíssimas vezes surge fazendo nascer a empatia tão natural, o enfoque diferente de quem está à nossa frente. Reparei hoje, pode ser um livro, um artista, um curso, um estilo, um plano.

Uma noite a dar toques na bola. A ver os outros. A dançar no edifício transparente. Mas cá fora, bem perto do mar. A tornar constelações quentes. A pôr os reflexos a funcionar. A reparar que os impulsos deviam estar mais activos, e que o corpo se desabituou de reagir. Fosse por dentro! E vê-los tão vivos a lutar capoeira, mil espelhos reflectem ângulos e luzes em movimento.

_
Enquanto isto, tentava lembrar-me da música (como não está no youtube?):

Eu queria unir as pedras desavindas
escoras do meu mundo movediço
aquelas duas pedras perfeitas e lindas
das quais eu nasci forte e inteiriço

Eu queria ter barra nesse cais
para quando o mar ameaca a minha proa
E queria vencer todos os vendavais
que se erguem quando o diabo se assoa

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casúlos
Mas isso já eram sonhos a mais

Conta-me os teus truques e fintas
Será que os "Nikes" fazem voar
Diz-me o que sabes e não me mintas
ao menos em ti posso confiar

Agora diz-me agora o que aprendeste
De tanto saltar muros e fronteiras
Olha para mim e vê como cresceste
Com a força bruta das trepadeiras

Põe aqui a mão e sente o deserto
Cheio de culpas que nao sao minhas
E ainda que nada à volta bata certo
Juro ganhar o jogo sem espinhas

Tu querias perceber os pássaros
Voar como o Jardel sobre os centrais
Saber por que dão seda os casúlos
Mas isso já eram sonhos a mais

2 bitaites sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Considero o meu sentido de orientação bastante bom e faço o estilo mapa na mão.
Embora sinta um grande desconforto quando tenho de tomar decisões, sei que as opções que tenho escolhido para a vida são sempre sensatas, informadas e promissoras.
Nunca fui trenga a conduzir. Nem nos primeiros tempos de carta!

E é por tudo isso que me questiono (“i wonder” :)… Mas porquê esta tendência natural para, na estrada, em caso de dúvida, escolher SEMPRE a saída errada?
(paradoxalmente quando a tento contrariar, caio no mesmo erro)

4 bitaites quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Bomba do intermarché, self service. Chego à caixa:
- O carro acendeu a luz do óleo. Sabe onde posso tratar disto?
- Perchisa mudái wally?
- Não sei. Sei que a luz acendeu. Preciso de ver o que se passa... Há alguma garagem aqui perto?
- Ma tá cum precha?
- Sim.
- É q'se pudeche isperai uma houra...
- Não posso...
- Abrásh duas o istéchioméché.
- Como?
- Ás duas..
- O quê?
- Abrostéchioméché às duas.
Fico sentada dentro do carro a olhar para o homem com os queixos caídos, tipo "que língua é tu falas??" e ele esbraceja imenso "aqui, mêmásua fréinte o estéchiuméché".

0 bitaites segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Era quase meia-noite quando soube da notícia e o primeiro pensamento que me veio à cabeça foi “também eu lhe dava um tiro” (eu sei, mórbido, mas honestamente foi o que pensei). A mãe chamou-me “ó Sara, vês, vês a notícia no rodapé?” (o som/imagem eram sobre a semana futebolística, que como sempre dá muito que falar). Desvalorizei os resumos que corriam no fundo do ecrã, mas refugiei-me no meu quarto e rapidamente me apercebi do que se estava a passar.
O segundo pensamento que tive foi de cepticismo: o Major Reinado morreu? Desconfio.
Ele é uma mistura de Bin Laden tropical com Gauchito Gil guerrilheiro, e a imprensa internacional conseguiu fazer com que a sua figura se tornasse mítica por esse mundo fora. Incrível é a forma como os textos jornalísticos conseguem passar a imagem do foragido inalcançável que todos tentam apanhar e, lá, ele está à distância de um telefonema. O ano passado antes da minha ida, todos os dias havia notícias do Reinado, camuflado das montanhas, e fiquei desarmada quando num almoço tranquilo com o Tozé num restaurante vazio de Díli, a dona do estabelecimento com quem estávamos a falar recebe uma chamada do major, que estava mesmo ali no bairro ao lado – “Tozé, queres entrevistá-lo?”. Ontem fiquei confusa, porque estava quase certa que ele é protegido dos australianos e o desenrolar da história deixou-me sem perceber nada. Toda esta crise timorense tem tanto de obscuro…
O terceiro pensamento foi “porquê? Porquê agora que decidi voltar?”.
Caneco, estava tudo tão calmo. Já imaginava o meu regresso a um país diferente do que conheci o ano passado em período eleitoral, com menos obrigações de segurança no dia-a-dia, menor instabilidade emocional dos alunos, com passeios nocturnos na marginal, talvez menos tropas musculados a patrulhar as ruas. Esperava até mesmo quiçá ver olhares mais confiantes em vez da tristeza que invade as feições desde a infância timorense. Agora, estado de sítio decretado, horário de recolher obrigatório. Cheguei a pensar que isto foi tudo engendrado por quem não quer que eu regresse a Timor, só para chatear.
Vejo o aluno Nélio online e pergunto-lhe o que se passa. Ele não sabe bem, diz que reza para que tudo fique calmo. Diz duas palavras no meio do português arranhado que me deixam triste: krise e situazi. A situazi é um estado de espírito semelhante ao que nos assola pelo Dom Sebastião que não regressou. Indica um período conturbado que deixou marcas profundas de medo nos jovens. Funciona como desculpa para não se fazer os trabalhos de casa, para desatar a correr nos corredores da universidade em pânico porque a caixa eléctrica no vão das escadas ardeu, e mais uma série de comportamentos que quase não compreendo. Os alunos gostam de falar, o professor malai tem uma atitude imparcial, como deve ser.
E agora, que irá acontecer?
Eu acredito no meu projecto e sei que pode fazer muito pelo país, porque vai trazer conhecimento àqueles que o vão governar daqui a uns anos. Para mim, os maiores perigos de Timor são os mosquitos e as estradas. Professores envolvidos na vida política local, não vivem no bairro, ameaçam a tranquilidade dos outros. Vou para lá fazer o meu trabalho, lançar as minhas pedras pelo futuro do país que nada têm a ver com as outras, do conflito. Elas voam sim, mas por cima de mim (sou pequenina).
Se ele está mesmo morto, ter como sucessor da liderança rebelde alguém que faz golpes falhados - e se chama Gastão Salsinha - dá que pensar. Pode ser que a guerrilha disperse e desfrute da água turquesa da mais jovem nação do mundo.
Faço figas e espero que tudo acalme. Respiro fundo e espero mesmo.

0 bitaites domingo, 10 de fevereiro de 2008


Esta música transporta-me.
O destino tanto se identifica com o óbvio pub reles de couro vermelho colado ao motel na estrada dos camionistas americanos, como com o restaurante ocidental onde em jeito colonial os brancos em África se encontram para decadentemente apaparicar gins tónicos em vestes de linho (lembra-me A Costa dos Murmúrios), ou com aquele baile da aldeia alentejana perdida na Serra de São Mamede. A tónica está sempre lá, é a não-pertença às coordenadas actuais. E ela lá ao fundo, de microfone na mão, vestido solto sob os ombros, os olhos mais tristes, a voz mais doce.

Tenho um amigo que se apaixonou pela voz de alguém. Quando fala dela - quem sustenta a voz - trata-a por "A Voz". Diz que a música da voz dela o deixa arrepiado e que quer saber mais, tudo, que foi cativado pelo som. Já me aconteceu ouvir pela primeira vez a voz de alguém e ter a certeza que ali estava um porto de abrigo. Sentir-me segura agarrada ao telefone.

0 bitaites sábado, 9 de fevereiro de 2008

eu disse-lhe assim "não faças só festinhas à barriga do sócio (o cão), faz-lhe na cabeça"

e ela "ó tia saia, na cabeça não! na cabeça ele tem ciúmes!"

2 bitaites quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008




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Photo by Paulo Moreira

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Photo by Paulo Moreira

4 bitaites sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Do que falam nem é marasmo mas de egocêntrismo na entrega às ondas lentas de melodrama.

A 3ª anestesia trouxe uma dessas ondas, por quatro dias cruzando as palavras do jorge. Tenho a certeza que que quatro horas de químicos, fora deste mundo, não são pacíficas, e o corpo vai fazendo um luto, vai rezando um terço.

Preciso de falar da Alice no País das Maravilhas em três situações diferentes. Ou quatro, ou muitas mais porque ela sempre me acompanhou.

Nos quatro dias de nostalgia virei-me para o passado, a Luna disse "há alturas em que em vez de se dar um passo em frente se deve dar dois atrás". Pus-me a ler relíquias manuscritas do passado e, numa versão já mais avançada, encontrei a Alice no mundo dimensional dos cubos, escrita na B321 como fuga à construção do armazém de dados e como derrame da epifania das três dimensões naquele cubo em construção. Uma visão que apareceu de repente e em que tudo fez sentido. Irei passar isso para o blog em breve.

O Lewis Carroll foi-me apresentado no meu 13º aniversário pela Cristina, que tinha sido minha Professora no 5º ano de Educação Visual e Tecnológica. Ofereceu-me o livro Meninas, com montes de fotografias das meninas, que o matemático esotérico fotografava, entre elas a própria Alice e as suas irmãs. Depois vi uma peça em Lisboa, sobre a vida do Charles Dodgson, ortónimo do Carroll, marcante. Apresentou-me o mundo da menina que eu até aí via em VHS mais ingénua, tão encantadora.



No bloco operatório entro num mundo de feiticeiros de Oz, espelhos, e ela, claro. É um estado de estar sem estar, "é um não querer mais do que bem querer, é um solitário andar por entre a gente", e vêm oferecer sonhos em cardápio.

Quando li O Mistério de Ariana, do Gilles Deleuze escrevi algo no moleskine que o ligava à Alice. Decidi agora investigar (agora que vasculho o passado) e encontrei a delícia do non sense e da matemática, como um quente e frio, um melão e presunto, um kebab com molho de alho, um hagen dasz cream & cookies, ou o magnum picante do meu imaginário.

Estava eu nesta pesquisa e liga-me a Ju "a Alice! Vamos vê-la na terça feira à tarde no Coliseu..."

Dizem agora, pode ser diferente depois.

 

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