quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Estou outra vez dentro de um barco, ferry, velho, ferrugento.
Estou deitada num banco corrido cujo estofo plastificado sucumbiu à evidência da sua idade.
Estou a escrever uma carta de amor em tétum. Quero ser como o do Amor em Tempos de Cólera e escrever histórias assim. Aceitam-se encomendas. Estou desempregada.
O banco corrido é curto demais para estar deitada, então sorrateiramente ponho o meu pezinho no banco do senhor do lado (não deve ser muçulmano porque estamos no Ramadão, é de dia e ele está a fumar um cigarro kretek com cheiro intenso a cravinho).
Estou a trincar a tampa da caneta – há’u nia laran monu ba ó – a olhar o infinito por estar a ouvir aquela música.

O infinito do horizonte entre Bali e Lombok, um dos estreitos mais profundos e perigosos do mundo, é intersectado por duas figuras que não deviam ali estar. Muito altos, morenos, cabelo comprido com um je ne sais quoi de explorador, grandes, ombros largos. Cabelo grisalho. Sardas. Trazem um remo na mão.

O infinito do meu iPod é intersectado por um idioma que não devia ali estar. Falam francês, só podem ser do Tahiti que os franceses não são assim. Ilha da Páscoa? Lá falam francês? Bem, certamente de alguma ilha exótica do Pacífico porque destas figuras não há para os meus lados. “Excuxe me, are you from Tahiti?”.

“No, I’m not. What about you?”
“Portugal.”
“Garota portuguesaaa! Eu nássi em Isspanha. E vô aprôveitá qui você aqui está fazendo essa linda viagem comigo para partilhar consigo um sonho que tenho. Talvez você ache que é utópico, mas é um sonho que eu tenho e espero poder concretizar um dia. Que é assim: um dia eu vou conseguir juntar tooooodos os passaportes espanhóis e fazer uma grande montanha com eles. Depois vou pegar em toooodas as bandeiras, e fazer um grande monte de bandeiras amarelas e vermelhas. Ao mesmo tempo vou reunir também toooodos os passaportes portugueses e fazer outra montanha, e outra com as bandeiras de Portugal. Depois, pego num fósforo e atiro. Quando tudo for cinzas, eu, Victor Vidal, serei o Primeiro Presidente da Nova Nação de nome Ibéria.”

Assim, sem mais nem menos. Eu já não ouvia português há uns tempos. E do meio do nada, o gajo de aspecto excêntrico que interrompera o trincar da minha caneta, transformou o meu ar céptico, de quem viaja sozinha, e fez-me rir até doer os maxilares. Não me queria acreditar no que acabara de ouvir.

Disse-lhe que não me parecia bem. Então e o fado, e o hino, e a história… e a língua…
Ao que ele responde “não tem mal… faz assim, se quer ir comprar sapatos só tem de dizer Yo quero comprar uns sssssapatos. É o portunhol. Uma palavra de cada língua. Mas quando você quer dizer sapatos, tem de dizer o ss como os espanhóis. Porque isso é o que os espanhóis têm de bom.”

E continua…

“Eu estou muito deprimido. Você deve ter reparado que estou viajando num ferry com um remo na mão. A polícia não me deixou atravessar numa canoa e esse era um grande objectivo meu, fazer um filme com o meu amigo sobre esta travessia mítica. Estou cansado, mas antes de dormir, vou-te contar três histórias….”

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