sábado, 2 de agosto de 2008


O Segredo de Ataúro

Há uma lenda timorense que diz que há muito tempo atrás, a ilha de Ataúro e a ilha de Timor formavam um corpo só. Um dia, uma senhora na sua rotina diária da lavadura da roupa no rio, viu dentro de água uma cobra desmesurada e ameaçadora. A mulher apavorada corre, grita na demanda do marido, que num gesto agarra a catana e faz-se ao caminho para confirmar a presença de tal monstruosidade. No mesmo local, corta o animal em dois com o instrumento afiado: o corpo para um lado e a cabeça para o outro. Quando isto acontece, também as terras se separam: Timor fica no sítio, Ataúro afasta-se. Desde então que é preciso viajar de barco para lá chegar.

Sábado dia 19 de Julho, abandono o ruído presente em Díli para me refugiar na silenciosa sonoridade natural de Ataúro que rejuvenesce. Ali reparo como é simplesmente bonita a simplicidade da vida em Timor, embora impressione, de quando em vez, que exista tanta ausência. De uma forma abundante. Como será possível que este local idílico esteja tão indisponível, quase como se fosse um segredo bem guardado?

Mar de águas azul-turquesa, transparentes, quentes, com uma fauna invejável, nitidamente visível e variadíssima nas formas e cores. A paisagem em redor, com todos os tons de verde que a montanha pode oferecer nesta altura do ano, e um céu que nos abraça e nos convida ao paraíso.
O Nakroma atraca, a temperatura é doce, a sombra do gondoeiro imponente protege a pequena multidão que aguarda transporte para as aldeias.

Uma anguna faz o percurso até ao resort de eco turismo, que é todo feito de palhotas elevadas, na vegetação que antecede o areal da praia, camas baixas, sem portas nem janelas, com mosquiteiros que balançam tranquilamente. Um convite à contemplação, ao retiro, a tudo o que é ameno e embala.

Esta terra tem potencial, tal como Com, onde se encontra uma organização quase perfeita da pequena vila piscatória, muitas guesthouses a preços acessíveis a todos, pessoas ocupadas e, pelo menos aparentemente, contentes. Mas Com tem a vantagem de estar ligada por terra a Díli. E as praias em Ataúro são, sem dúvida, melhores.

Na caminhada com a senhora Basília pela estrada impecável, limpa, ladeada por cercas cuidadas, pintalgadas de buganvílias vistosas, ela lamenta a escassez da água nestes meses de Junho a Agosto. Que a sua horta não corresponde como devia, a ilha não é auto-suficiente, o povo precisa mesmo do tal dólar que também insiste em não crescer. O que a sustenta é o seu outro bendito trabalho. O dedilhado suave das guitarras que por lá cantam, misturado com os leves passos deste jeito tão feminino de caminhar, conseguiria pôr os céus a chorar de felicidade pela serenidade que aqui existe. Mas estamos na época seca, as lágrimas não podem cair. E assim fomos seguindo. Ela faz bonecas de pano, e veste-as de tais e bordados. Pertence ao grupo Boneca de Ataúro desde 13 de Novembro de 2006, juntamente com outras oito mulheres e um homem, coordenados pela artista plástica Piera Zürcher, suíça, que altruisticamente tem dedicado todo o seu tempo ao projecto e à comunidade. A ideia nasceu de uma proposta do Padre Luís, italiano, que ansiava por emprego na ilha. No fundo trata-se de lutar contra a naturalização do inóspito, do desregrado.

As actividades têm vindo a multiplicar-se com o aparecimento de outros grupos de trabalhos artesanais, e se bem que grande parte da comunidade de Díli conhece pelo menos as estátuas elegantes de madeira fumada, a multiplicidade de biojóias feitas com sementes locais e as ditas bonecas, do outro lado do mar existe uma grande dificuldade em encontrar os materiais, devido ao transporte insuficiente. O Nakroma viaja só ao Sábado para Ataúro e regressa no mesmo dia, muitas vezes menos de três horas depois de chegar ao destino. Para quem precisa de ir a Díli comprar materiais e mantimentos, ou tentar vender os seus produtos, tem forçosamente de procurar alternativas de privados, se não quiser passar uma semana na ilha de Timor, já que tem de aguardar pela próxima viagem do Nakroma, só no Sábado seguinte. Para quem vem da ilha de Timor com o intuito de explorar, este período de tempo é irrisório tendo em conta a dificuldade em chegar à Vila de Maumeta. Dá para atracar, comer alguma coisa por ali, em Beloi, e regressar.

Surpreendentemente, mesmo assim muita gente quer lá ir, e regularmente os bilhetes esgotam. Para poder passar lá um fim-de-semana é preciso fazer um esforço enorme na procura de transporte alternativo que permita regressar Domingo ou Segunda-feira. O esforço também é grande no pagamento desse transporte alternativo, visto que há privados que pedem até 600 dólares americanos pelo aluguer de um barco seguro, mas cuja lotação é de 15 pessoas.
Ou seja, a necessidade de alternativas financiadas pelo Governo existe e o mercado é real e abundante.

E sei que foram elas, as mulheres, mas quase podiam ter sido também as buganvílias de Ataúro, na sua dança com a brisa, ao som sereníssimo do mar turquesa, que me sussurraram ao ouvido este pedido. E assim, passo a mensagem.

“Com estas palavras, o grupo de mulheres de Ataúro pede ajuda.
Aqui, desenvolvemos muitas actividades que resultam em produtos únicos e serviços de sucesso em Timor: Biojóias, Boneca de Ataúro, bordados, cestos, estátuas e refeições.
Queremos e precisamos de:

  1. Comprar materiais para usar no nosso trabalho;
  2. Mostrar aos visitantes a beleza da nossa terra e o seu potencial turístico;
  3. Vender aquilo que produzimos para podermos garantir dinheiro para comida nos meses de pouca água.
Queremos e precisamos, mas não temos transporte regular e suficiente.
Assim, nós pedimos que ouçam as nossas palavras de isolamento, porque Timor é um só, e também temos direito a melhorar as nossas vidas.”
in Jornal Nacional Semanário, 02-08-08

4 bitaites:

Anónimo disse...

Quero uma boneca de Ataúro!!!

Beijos
Bárbara (Quase aniversariante ;)

mãenuela disse...

parabens!
relativamente ao apelo das senhoras de atauro, gostava de ajudar, mas não sei como. já vi o site das bonecas de atauro, muito giro.porque não fazerem vendas directas? e porque não todos pormos um link nos blogs e paginas pessoais para essa pagina? quando pudermos falar pessoalmente pode ser que outras ideias surjam. ate breve

Annie disse...

és o meu orgulho! :D

R Padua disse...

A primeira de muitas de aquem e alem mar. Parabens Sarinha :) Depois falamos das senhoras de atauro. Bjo*

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