quarta-feira, 9 de julho de 2008


Ao segundo dia, ventos de força enigmática levantam a poeira da cidade, seca agora que não chove há alguns dias. Um côco que se solta, sucumbindo à gravidade, trespassa o telhado de zinco do quiosque de fruta ali ao lado. Parece que alguma coisa está para acontecer, ou então os deuses zangaram-se por motivos de força maior. O vento chega a todo o lado. Um entre centenas de jeeps UN (que percorrem o país a altas velocidades), cintilante, invejável, imponente, destoando dos táxis de meter dó adaptados de potenciais carros a abater da Malásia, desvia-se da sinalética assassina que invade a estrada.

A história resume-se assim: o governo timorense decide que vai comprar 65 carros japoneses de luxo para cada um dos deputados da nação, os estudantes manifestam a sua indignação face a tal compra tendo em conta que o povo tem fome. Da primeira rodada de protestos, em Junho, em frente à Universidade Nacional, tal número é reduzido para 27, 3 para cada uma das 9 comissões parlamentares. Poucos dias depois, o governo repensa a nova decisão (poderá ser “hanoin hikas”, arrependimento) e volta a incrementar o número para o plano original. Nova vaga de protestos começa esta semana, no mesmo local, mas o que surpreende agora é o facto de isto não poder ser: lembraram-se que não é permitido por lei fazer manifestações a menos de 100 m de edifícios oficiais. A porta do Parlamento é na mesma rua, no lado oposto da porta da Universidade.

Podem comprar tamanha quantidade de carros de luxo? Então podem comprar arroz para o povo, baixar os preços.
A compra de carros faz sentido? Então, primeiro construam estradas seguras, para diminuir o número de mortes por ano em acidentes pelas ravinas abaixo.
Cada deputado deve ter um carro? Então queremos combustível mais barato, para também nós podermos reaver o preço das mikrolets, biskotas e táxis, que aumentou tanto nos últimos meses.
É o que eles pedem.

A novidade da democracia incendeia convicções de uma forma quase passional, como se de uma adolescência tardia se tratasse. A catarse acontece nas traseiras da Universidade, juntam-se ao estilo revolucionário, com meia dúzia de líderes, cada qual na sua vez no centro, elevado, braço no ar a incendiar as tais convicções. Dali saem 10, de cada vez, com fita-cola na boca. Dirigem-se para a porta principal, ficam de pé, em linha, nas escadas, em silêncio, imóveis. No terceiro palco, do outro lado da rua, um jardim zoológico policial circunscreve a área. A UNPOL (coreanos, malaios, brasileiros, indianos, australianos, neo-zelandeses, entre outros) comanda, enquanto fuma umas cigarradas, dá umas palmadas nas costas deste e daquele, traz águas para o pessoal, vira costas à Universidade. Quando a contagem decrescente dos 5 minutos chega ao fim, a Polícia Nacional, bruta, entra em acção, pegando pelo cachaço, nos estudantes, enfiando-os no carro prisão. Isto repete-se pelo menos duas vezes por dia, todos os dias. Já estarão uns 50 manifestantes na esquadra.

Entretanto, o Kuweit oferece 12 BMWs à presidência. Não quero imaginar as pedras de artifício naquelas chapas quando começarem a circular pelas ruas de Díli.
Entretanto, correm boatos de planos de assalto a casa de deputados pelos manifestantes.

Que a bolha rebente, é algo eminente. E o vento, enigmático, semeia o cenário faroeste.

2 bitaites:

mãenuela disse...

Não sei que te diga.
É marcante vivermos uma época de mudança, assistirmos ao crescimento de uma democracia, partilharmos a euforia de quem está a lutar pelo que acha justo.
Mas a minha experiência nesse campo foi na "revolução dos cravos", isto é, revolução à portuga, pachos quentes, palavras moles , umas escaramuças, muitos espectadores, poucos a dar o corpo ao manifesto.
Aí a coisa tem sido diferente, o pessoal já demonstrou que quando sente a injustiça , está para o que der e vier!
Por isso, Sarinha, resguarda-te tanto quanto conseguires.
Fico preocupada.

Joo Magoo disse...

Não tem jeito...realmente estas democracias deixam muito a desejar quando na vez de defenderem os interesses de um povo seguem a onda mundial da satisfação ou susbtituição das necessidades básicas por bens materiais...
Assim, onde é que isto vai parar? Quando é que se dará finalmente a mudança profunda e desejada na consciência social das pessoas? Penso que podemos começar por manifestar essa mudança em nós próprios, na maneira como nos relacionamos com o mundo em cada pequenino gesto. assim: se eu mudar e tu mudares e ele mudar e eles mudarem...não fazemos a revolução mas somos já uma grande mudança.

Força aí pros estudantes timorenses... Timor Lorosae...

Beijos garndes para ti princesa, muitas saudades

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