quarta-feira, 16 de julho de 2008

Foi na 6ª feira passada, exactamente uma semana depois de ter acordado com as cócegas de uma barata que passeava aquele meu percurso que vai do ombro à orelha. Cheguei ao jardim do Mercado Lama, mercado antigo, estilo colonialista, senti-me conquistadora por entrar de bicicleta por ali. Depois quis prendê-la a um poste qualquer, e ao fazê-lo pisei um formigueiro de formigas vermelhas. Só soube quando elas, zangadas, atacaram em bando, invadindo o meu pezinho com mordidelas dolorosas picada-de-agulha. No dia seguinte a injecção de cortisona é que aliviou a comichão intensa do cabelo até aos pés, e a heterogeneidade da mancha vermelha em que o meu corpo se transformara.

Na altura a minha reacção foi sensata: afastei-as com safanões violentos e pensei que estava lixada (mais que lixada até… mas eu não penso palavrões, sou princesa). Nada mais havia a fazer senão esperar que o veneno atacasse. Fui sentar-me no relvado em frente ao palco, deixei-me ficar, a contemplar.

Nunca tinha conhecido um artista da nova geração timorense. O rapazinho das rastas, sentado ao meu lado oscila entre o doce paleio “ah porque tu… e eu já te conhecia antes… e tu estás sempre assim tão calminha… serena… sozinha… a olhar… e eu… e o meu coração e… quando te vi no Palácio…” (tudo assim muito arrastado, em tétum, eu só me ria, por dentro, mas devia estar a fazer cara de pouco interesse e incredibilidade) para logo a seguir levantar-se num salto e pôr-se a dançar com espasmos ao ritmo reggae dos Galaxy ao vivo. Depois pensei isto é espectacular, por dois motivos:

O cenário
Alguns malais alternativos, muitos mais timorenses, imensos miúdos sub-4, pouca densidade humana, todos preguiçosamente sentados pelo chão ou nas cadeiras de plástico, excepto um grupo ridiculamente pequeno de 6 ou 7, que dançava colado ao palco (porquê se tinham tanto espaço?) fora do ritmo e extremamente feliz. O palco grande, o pôr-do-sol atrás dele, com recortes de coqueiros no horizonte em contra luz. Muitos tons pastel. Passou-me pela cabeça que isto podia passar-se numa tarde de música clássica em qualquer jardim austríaco, vá-se lá saber porquê.

A onda
De bem sentir. O tempo parou quando entre mim e o vocalista se desenhou um ponto de fuga que intersectou um bebé de 2 anos, braços estendidos ao lado do corpinho frágil, olha para trás, para mim, arregala os olhos muito e começa a abanar a cabeça ao ritmo do baixo. Há músicas que me fazem sentir tão bem.

Já o sol se tinha posto, já os tons de rosa tinham passado ao leve cinza azulado do céu estrelado, e ele disse que queria estar sempre comigo (conheci-o menos de uma hora antes). Ao que eu respondo primeiro que isso não faz sentido, ele diz que eu estou confusa, eu repenso o meu dizer (como se explica o que é fazer sentido?) e rectifico para “a vida é assim”. Ele, como está triste, sorri, e então ficamos assim.

6 bitaites:

SinjinSmith disse...

a barata era enorme?

sarita disse...

enorme não. gigantesca! e amarela fluorescente :)

Annie disse...

"Era eu a convencer-te de que gostas de mim,
Tu a convenceres-te de que não é bem assim.
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro,
Tu a argumentares os teus inevitáveis.

Eras tu a dançares em pleno dia,
E eu encostado como quem não vê.
Eras tu a falar p'ra esconder a saudade,
E eu a esconder-me do que não se dizia."

Casca, Toranja


inevitavelmente, tinha q vir isto. Espontaneamente. E o que vem a seguir, tu perceberás. Isto adequa-se? :)

Annie disse...

"Era eu a convencer-te de que gostas de mim,
Tu a convenceres-te de que não é bem assim.
Era eu a mostrar-te o meu lado mais puro,
Tu a argumentares os teus inevitáveis.

Eras tu a dançares em pleno dia,
E eu encostado como quem não vê.
Eras tu a falar p'ra esconder a saudade,
E eu a esconder-me do que não se dizia."

Quebramos os Dois, Toranja


inevitavelmente, tinha q vir isto. Espontaneamente. E o que vem a seguir, tu perceberás. Isto adequa-se? :)

neca disse...

Tu dizes barata, eu digo pequeno-almoço na cama. hummm

mãenuela disse...

Saroca, que andas por aí a fazer?quebrar corações?
E a música que tal?( afinal foi ao que foste, não? ouvir música!)
Sais de casa, montas na bicicleta,conquistas o mercado, enches-te de moscas ( ou formigas), sentas-te no chão, metes conversa com um autoctone, pensas que estás na Austria, mas afinal como era a música ?

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